A conversão de São Paulo

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quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Cartas do Front: relatos emocionantes da vida na guerra – Andrew Carrol (org.)

Editora: Zahar
ISBN: 978-85-378-0030-0
Tradução: Sérgio Lopes
Opinião★★★★☆
Páginas: 440

“Poucas horas antes de deixar Sarajevo, perguntei a Amir qual fora, para ele, o momento mais sombrio da guerra. Houve muitos, respondeu, mas o pior ocorreu durante o primeiro inverno do cerco à cidade. Sem eletricidade ou óleo combustível, os moradores morriam de frio em suas casas. Certa noite, o pai de Amir saiu para apanhar lenha, que começava a faltar em toda a cidade. (Até o final da guerra, praticamente todas as árvores de Sarajevo seriam cortadas. Alguns indivíduos, desesperados, apelaram para o artifício de desencavar túmulos e despedaçar caixões, simplesmente pela madeira.) Um soldado sérvio ou, mais provavelmente, um franco-atirador, avistou o pai de Amir e o baleou pelas costas. Os vizinhos conseguiram arrastá-lo para um carro e seguiram para um hospital. Antes do cerco, esse trajeto levaria somente alguns minutos. Por causa das barricadas que bloqueavam o caminho mais rápido até o hospital, no entanto, e devido ao perigo de transitar por certas localidades, viram-se obrigados a percorrer vagarosamente as ruas de Sarajevo. Apinhado de pacientes gravemente feridos, até mesmo o hospital estava às escuras. O pai de Amir sangrou até a morte, antes que um médico pudesse ao menos examinar seu ferimento.
Depois de ouvir essa, e com todas as outras histórias de atrocidades ainda frescas na memória, deixei escapar: “Meu Deus, você deve odiar os sérvios.”
“Não!”, respondeu Amir com firmeza. “Não e não. Já houve ódio demais. Estou cheio de tudo isso. Minha namorada é sérvia. Muitos sérvios em Sarajevo e em toda a Bósnia sofreram também. Muitas pessoas na Sérvia não sabiam o que estava acontecendo, pois Milosevic mentia para elas. Uma hora isso precisa acabar. Já houve o bastante. Tem que acabar.” Quando lhe perguntei como podia ter tamanha compaixão, ele respondeu: “Somente quem passou por isso pode realmente entender como é ruim.” Esse sentimento seria um dos temas recorrentes em minha viagem.
 A primeira vez que o assunto me chamou a atenção foi durante minha visita a Volgogrado, apenas uma semana antes. Durante a Segunda Guerra Mundial, quando ainda se chamava Stalingrado, a cidade foi o cenário daquela que é considerada uma das mais sangrentas batalhas de todos os tempos. Dezenas de milhares de civis foram mortos nas primeiras 36 horas de bombardeio alemão, que se iniciou em 23 de agosto de 1942. Doenças proliferavam à medida que os corpos apodreciam nas ruas e os cachorros se alimentavam dos cadáveres. As tropas de ambos os lados coagiam meninos e meninas a servirem como batedores e mensageiros, com a função precípua de entregar mensagens e encher os cantis dos soldados no rio Volga e ambos os lados executavam as crianças suspeitas de ajuda ao inimigo. “A questão filosófica de saber se a violência é, em algum momento, justificável, já me atormentou”, escreveu de Stalingrado, em 29 de agosto, o tenente russo Joseph Maranov à sua amada Lola. “Agora”, continuou ele, “meu sonho, meu objetivo é destruir, sufocar e despedaçar o inimigo.” Aproximadamente meio milhão de russos e meio milhão de soldados alemães e do eixo morreram em cinco meses de selvageria. “Você não pode compreender o ódio”, me disse um russo depois de perceber que eu estava lendo um livro sobre Stalingrado. “Em seu país, vocês vivenciaram os ataques de 11 de Setembro. Quantos morreram? Isso aqui era o 11 de Setembro todos os dias por quase 200 dias”.
Um guia local me levou para ver a sólida estátua da Mãe Rússia, que se encontra majestosamente no topo da mais alta montanha de Volgogrado e homenageia a resistência dos soldados e civis que defenderam a cidade. É 30 metros mais alta que a Estátua da Liberdade. A mão direita empunha uma espada, erguida em desafio, e a esquerda estende-se na direção de onde vieram as tropas do eixo. A centenas de metros dali, um memorial guarda uma chama que jamais se apaga, em homenagem àqueles que pereceram. Quando meu guia e eu entramos, ouvi uma música tranquila, mas um pouco melancólica.
 “Qual é o compositor russo?”, perguntei.
 Meu guia respondeu: “Na verdade é Schumann.”
      Fiquei perplexo: Escolheram um compositor alemão para o Memorial de Stalingrado? Por que não optaram por um russo?”. O Guia explicou que, quando construíram o monumento, na década de 1960, decidiram mandar uma mensagem de reconciliação aos alemães que vêm prestar seus respeitos aos mortos. 
Memorial aos heróis Mortos na Batalha de Stalingrado
Os três soldados russos, sentados na base da estátua, são menores que os dedos do pé esquerdo da Mãe Rússia

         “Os veteranos que ofereceram cartas tão reveladoras esperavam que elas pudessem ter um valor catártico para homens e mulheres que servem hoje nas Forças Armadas. Ninguém pode entender verdadeiramente a vida militar – as constantes pressões, a separação dos entes queridos, tanto a excitação quanto o terror de seguir para o combate, o choque devastador de perder um companheiro – como aqueles que já passaram por isso. Os mais antigos veteranos simpatizam profundamente com a atual geração de soldados e querem que saibam que há algum conforto em perceber que outros também suportaram as mesmas dificuldades.”


“O que mais me impressionou nas cartas foi a força das descrições. Na verdade, muito mais que tudo que já lera. “Deparei-me com um dos nossos rapazes – irreconhecível graças a decomposição”, escreveu o capelão canadense Willian Mayse à sua esposa durante a Primeira Guerra Mundial.
Ele jazia exatamente como caíra – a cabeça desaparecera –, mas todos os equipamentos estavam afivelados, seu rifle e capacete jaziam ao lado. Como recordação, cortei-lhe a fivela do cinto, e enterramos o que restara dele. Procurei algo que o pudesse identificar, mas foi em vão. Pobre rapaz, em algum lar distante no Canadá alguém esta chorando a perda do marido, filho ou namorado. O mais triste de tudo é que jamais saberão como morreu, ou onde foi enterrado, e, até mesmo agora, podem se apegar à esperança de que ainda esteja vivo...
Muitos dos que contribuíram com cartas expressaram sua frustração com o fato de a cultura popular frequentemente romantizar a guerra. Como demonstrado pelas próprias cartas, essa reclamação não é nova. “Afirmas que gostaria de estar aqui”, escreveu o major Oscar Mitchell a sua amiga Sylvia Helene Hairston, em 15 de abril de 1944. Mitchell estava servindo no cenário China-Burna-Índia da Segunda Guerra Mundial, e apressou-se em desencorajar Sylvia e qualquer um que desejasse idealizar a vida nas linhas de frente:
Embora a maioria das pessoas acredite saber o que é a guerra, será que sabe mesmo? – estando tão distante das frentes de batalha, será possível saber?
Só se sabe o que é a guerra quando se veem os aviões em formação no começo da manhã, voando em direção aos alvos... e se vê esta mesma formação voltando à noite. Mas o número já não é mais o mesmo! Doze partiram, nove voltaram. Fica-se ali, parado, olhando para o alto, observando-se afastarem-se, na direção do horizonte, e então desaparecer. O que de fato aconteceu? Aqueles que mergulharam em chamas... terão morrido como nos filmes? Creio que não. Não com um sorriso nos lábios e um brilho alegre nos olhos, mas talvez com a terrível e dolorosa consciência de que tudo chegava ao fim! É preciso ver a leva de feridos voltando da frente de batalha... acima de tudo, ver a luz se apagar nos olhos desses homens. Jovens tremendo devido à exaustão nervosa e chorando como bebês. São, ou foram, homens fortes, que não tiveram ou que jamais terão a chance de viver uma vida normal... As pessoas podem acreditar que sabem como é a guerra. Esse conhecimento é ilusório. Tenho um corpo despedaçado pela guerra, tomado de pavor até o fundo da alma. Quando estava nos EUA, a guerra era distante, irreal. Eu lia, via as fotos, mas agora eu sei.
Muitos daqueles que forneceram cartas descrevendo a dura realidade da guerra enfatizaram que não se consideram pacifistas. Acreditam que haja crueldade e brutalidade no mundo – tirania, genocídio, escravidão – e, se esses terríveis males não puderem ser derrotados por meios pacíficos, que seja usada a violência para destruí-los. Os veteranos de guerra que encontrei são, particularmente, patriotas arrebatados e orgulhosos de seu serviço militar, e suas cartas falam com grande convicção sobre a coragem dos companheiros mortos e a importância de honrar as liberdades pelas quais deram a vida.
O que abominam é a glorificação da guerra por si só. Acreditam que maquiar ou ocultar sua fealdade somente banaliza o sacrifício feito por homens e mulheres em serviço. Eles desejam que as pessoas compreendam o preço que ela cobra, não só de quem combate, mas também de seus familiares – e, em especial, daqueles que receberão um telefonema ou uma visita, informando-lhes da morte de seu ente querido. Os ferimentos que lhes são impostos são tão traumáticos e dolorosos quanto aqueles suportados nos campos de batalha, e permanecerão para o resto de suas vidas. Os choques emocionais decorrentes da guerra reverberam muito além da assinatura dos tratados de paz.
E enquanto muitos veteranos de guerra reconhecem o fascínio de partir para o combate e lembram perfeitamente o intoxicante arrebatamento que advém de se estar sob o fogo inimigo, também reconhecem que a euforia raramente se conserva. Marcado por exaustão, fome e infindáveis horas de marcha e espera, este prazer desaparece por completo ao ver um amigo baleado ou despedaçado e, mais tarde, despachado para casa em um caixão envolto em uma bandeira. Também os civis, em geral, compartilham um sentimento inicial de excitação quando do anúncio da guerra, e há uma inegável eletricidade e tensão no ar no começo de qualquer conflito. Novamente, os veteranos sabem que esse fervor desaparece com facilidade. Além disso, a suspeita de que o apoio em casa começa a esmorecer causa um efeito incapacitante sobre o moral da tropa.
O que enfatizam, acima de tudo, é que uma declaração de guerra é a mais importante decisão que pode ser tomada por uma sociedade – e, quando o fizer, deve estar preparada para as consequências. O que a guerra exige daqueles que servem nas Forças Armadas, bem como o sofrimento que inflige aos que não se alistam, é frequentemente muito pior do que possa imaginar quem não a vivenciou na própria carne.”



“Tua pátria precisa de ti. Teus quatro irmãos morreram para defendê-la. Se não vieres, não mais o considero meu filho. Não admitirei covardes na família.”
Uma mãe francesa de St. Pierre, escrevendo ao filho em novembro de 1914.


“Para ex-prisioneiros de guerra que estão prestes a se reencontrar com suas esposas ou noivas, saber que suas amadas permaneceram fieis a eles, às vezes por anos a fio, apenas aumentava o sentimento de felicidade. Era justamente a perspectiva desses reencontros que dava a muitos prisioneiros a força necessária para suportar a provação física e mental, à qual muitas vezes parecia impossível sobreviver. Homer James Colman, um soldado norte-americano de Salt Lake City, Utah, servindo no 57º Regimento de Infantaria, passou quase três anos como prisioneiro de guerra depois que as tropas norte-americanas entregaram as Filipinas aos japoneses em maio de 1942. Depois de cinco meses de combate brutal, Colman e 10 mil outros prisioneiros aliados foram obrigados a participar da infame Marcha da Morte de Bataan, uma caminhada de 100 quilômetros sob o calor tropical, sem comida, água ou remédios, o que se provou fatal para muitos soldados já doentes e famintos. Antes de embarcar para o Pacífico, em maio de 1941, Colman ficara noivo de Mary Parkman, uma jovem de Columbus, Geórgia. Eles só voltaram a se ver na primavera de 1945. A salvo e de volta aos EUA, Colman, que convalescia no Hospital Militar Walter Reed em Bethesda, Maryland (ele perdera quase metade de seu peso enquanto estivera prisioneiro), enviou à sua noiva a seguinte carta reafirmando a ela seu amor e sua devoção:
Minha querida Mary,
Levarei mais ou menos um dia para terminar esta carta que te escrevo. Provavelmente, será a última carta que escreverei a Mary Parkman. Embora ela jamais deixe de ser minha namorada, a próxima vez que eu escrever, a destinatária será Mary Colman, minha mulher. Adeus, Mary Parkman. Foste a mais fiel e adorável namorada, que, ao longo de tanto tempo, esperou sozinha, por horas, semanas e anos de incerteza por um soldado que a deixou com lágrimas nos olhos. Foste uma das milhares de bravas mulheres que fizeram o mesmo nestes últimos quatro terríveis anos e que, a menos que a população mundial mude sua natureza da noite para o dia, continuarão vendo seus homens partirem para lutar uns contra os outros.
Mas eu tive sorte e tinha tuas preces para me trazer de volta para casa.
Eu poderia passar o resto de minha vida a dizer-te o quanto significavas para mim, durante aquelas longas noites de espera, e, no entanto, jamais seria capaz de descrever esse quadro com exatidão; as noites e os dias em que tu eras minha única razão para viver e por quem voltar, e o preciso momento em que percebi, em São Francisco, que poderia voltar a falar contigo de verdade. Então veio a percepção que eu a veria em breve, não em um ou dois anos, mas em poucas e curtas semanas, quando te teria em meus braços e te beijaria, e sentiria o perfume de teus cabelos, e tudo o que és estaria ali. Esses sentimentos que antes foram meus sonhos mais agradáveis agora são realidade.
E meu coração esta repleto de gratidão, não por ter regressado, mas por ter, ao voltar, te encontrado à minha espera. Só isso compensa milhares de vezes tudo o que por ventura te ofereci.
Pois todo o meu coração e todo o meu amor são teus, foram e continuarão a ser enquanto nós dois vivermos. Deus me dê a força e o poder para te fazer feliz.
E seu eu for capaz de te trazer a paz e a felicidade que quero que tenhas, então também serei feliz, pois não mais seremos apenas Mary Parkman e Jim Colman – duas pessoas distintas. Pois tu serás eu, e eu serei tu, e haverá apenas um onde antes haviam dois.
Então, nesta última carta à minha noiva, como estará em toda e qualquer carta à minha esposa, veja e encontre todo o amor que há aqui para ti. E talvez possas ver em alguma parte a vida a dois que será a tua e a minha e a de nossos filhos. Uma vida que será cheia de ternura, compreensão e amor, e desse particular pedaço de felicidade pelo qual nós dois lutamos tanto tempo para possuir.
Boa noite, querida.
Para sempre, teu
Jim
Uma semana depois os dois se casaram na capela do hospital Walter Reed.


“Os pais são aqueles a quem mais frequentemente os soldados confidenciam a vívida violência da guerra ou a severidade de sua própria situação, e, em geral, o fazem com a seguinte recomendação: “Não conte a mamãe.” Em momentos em que temem demonstrar fraqueza a seus pais, no entanto, ou em que retornam a um estado quase infantil de vulnerabilidade, ou em momentos de grande estresse emocional, geralmente quando estão em perigo, os combatentes despejam seus sentimentos no papel e apelam para suas mães em busca de carinho e consolo. (Sabe-se que os soldados gravemente feridos nos campos de batalha gritam por suas mães nos momentos de lucidez. É um som que muitos veteranos relembram como uma das mais torturantes memórias auditivas da guerra.) Durante a Segunda Guerra Mundial, o soldado italiano Fiorigi A. Contro empreendeu uma fuga durante a esmagadora derrota dos exércitos alemão e italiano em El Alamein, no Egito, imposta pelo VIII Exército do general britânico Bernard Montgomery. Das quase 70 mil baixas de ambos os lados, nessa que foi a principal batalha de 1942, mais de 50 mil eram alemães e italianos, e Contro chegou muito perto de ser um deles. Longe do perigo, escreveu a seguinte carta à sua mãe, descrevendo a aterradora retirada.
À minha mãe,
A senhora não sabe quantas dificuldades encontrei em minha vida; não lhe contarei aquelas de que não sabe, para não deixá-la ainda mais triste, mas uma memória entre tantas permanece mais forte.
Era uma sombria noite de abril, domingo de Ramos. Depois de um susto rápido e inesperado causado por um grupo de caças inimigos que se aproximava, tentamos decolar de um aeroporto improvisado. Conseguimos, mas, dez minutos depois, todo um esquadrão de Junkers surgiu voando em formação pouco acima da superfície da água, para que não fossem detectados pelo radar. Fomos atacados de frente pelos aviões, que eram mais ágeis e bem armados do que nós, e num instante ficamos completamente estupefatos, e começamos a cair, um a um, irremediavelmente no golfo.
Senti balas arranharem minhas costas quatro vezes. Nosso avião foi atingido várias vezes: no motor, neste momento em chamas, no nariz e na cauda.
Um soldado na minha frente transformou-se em meu escudo e ficou banhado em sangue. O piloto que dera a ordem para saltar do avião tinha os intestinos à mostra.
O avião, com seus 18 homens mortos ou feridos a bordo, pegava fogo e perdia altitude, e a única escolha que tínhamos era pular sem paraquedas, apenas com um colete salva-vidas.
Fui o primeiro a chegar à porta e, enquanto hesitava a respeito do que fazer, senti um forte empurrão em minhas costas, que me lançou no ar. Caí na água nas proximidades do cabo Bon.
Estava aterrorizado pelo enorme perigo que enfrentava e ainda sob o fogo das metralhadoras. Lutei desesperadamente para alcançar a praia, que não parecia distante.
Quando consegui cuspir toda a água que havia engolido e recuperar o fôlego, chamei dois nomes: “Deus!” e “Mamãe!”. Nunca havia passado por tal situação.
Mas, então, eu estava exausto e não tinha mais forças. Naquele momento, outro avião foi abatido e despencou com o nariz pra baixo. Ouvi um assobio ensurdecedor perto de mim... Fechei os olhos e pensei que iria morrer. Entreguei-me ao que quer que fosse que Deus houvesse reservado para mim.
Mas ainda não era minha hora, e aquela carcaça em chamas caiu tão perto de mim que uma onda gigantesca me empurrou para a terra, como se eu fosse um pedaço de cortiça. Busquei abrigo em uma espécie de caverna, e ali permaneci, quase morto e exausto, ouvindo o terrível som da infindável metralhadora dos aviões.
A guarda costeira me encontrou em péssimas condições físicas. Mais tarde, recuperei-me e acordei com os olhos cheios de lágrimas, como se acordasse de um pesadelo. Descrevi minha longa odisseia à curiosa plateia a meu redor, que ficou impressionada com o que acontecera.
Mas, na verdade, eu queria ficar em paz para que pudesse passar novamente em minha cabeça o filme da memória, no qual a senhora, minha querida e boa mãe, era a personagem principal.
A senhora lembra que, quando eu era pequeno, havia um grande tanque atrás de nossa casa de campo, que usávamos para dar água ao rebanho da vizinhança? Eu ainda usava fraldas, era um belo dia de primavera, e fui ao tanque para pegar umas pequenas flores amarelas. Aproximei-me e me estiquei todo... perdi o equilíbrio e caí na água. Gritei e a senhora veio correndo, minha mãe zelosa e gentil, e carregou-me para dentro de casa e me enxugou perto da lareira. Mudou minha roupinha e prometi que permaneceria por perto.
Mas minhas palavras e minhas promessas foram inúteis porque assim que a senhora virou as costas corri para o tanque e caí outra vez. E novamente a senhora veio correndo, e, gentilmente explicou-me por que eu precisava ter mais cuidado e me repreendeu um pouco, então pediu-me que tomasse conta das galinhas. Uma delas correu para o tanque e vi aquelas lindas flores que havia achado tão encantadoras; então, agarrado a um galho, estiquei minha mão, mas o galho partiu-se, e caí de novo na água.
Outra vez a senhora me recolheu com muita paciência, e decidiu levar-me para a cama onde caí no sono, sonhando com aquelas flores.
Quando acordei, minha caminha estava coberta de flores amarelas; quem as pegara para mim? “Papai”, a senhora disse.
A vida dá realmente muitas voltas.
Quando acordei na terra desconhecida depois de cair no mar, não tive o doce conforto de flores, havia apenas a triste realidade.
Quando eu era um garotinho, não tive medo, e enquanto eu hesitava na porta da fuselagem, quando somente um empurrão de um companheiro me deu coragem para confrontar o perigo, eu não poderia contar com sua ajuda porque a senhora não estava fisicamente aqui para me tranquilizar. Mas sei que foi a sua mão que me salvou daquele desastre. Suas preces diárias e sua presença confiante e sagrada estão sempre comigo, erguendo-me onde quer que eu esteja. Nossas almas se comunicam! A força do zelo materno se expande muito, muito além de tudo.
Então essa memória, que jamais esquecerei, é para a senhora. À senhora dedico toda minha afeição e amor, todo o meu cuidado, acima de todas as coisas.
Fiorigi A. Contro
Em Capua, próximo a Nápoles, 7 de maio de 1943.


“Sem dúvida, deves ter pensado que me esqueci completamente de ti. Se tais pensamentos ocuparam tua cabeça, espero que me perdoes, pois estive muito mal. Ainda agora tenho tremores nas mãos. Empreendi fugas maravilhosas. Fui ferido na perna por estilhaços de bombas, mas eram apenas feridas na carne. Algumas vezes, o impacto me arrancava o capacete e logo eu apalpava a cabeça em busca de sangue, porém o mais próximo disso que cheguei foi quando uma bala atingiu meu rosto e cobriu de sangue a túnica, e outra bala arrancou-me todo o cabelo da sobrancelha deixando apenas um pequeno arranhão. Como é estranho ver sangue, nosso próprio sangue, quando você esta bem no meio de tudo isso. É claro que me envolvi em algumas dificuldades e agradeço a Deus por estar vivo para contá-las. Por vezes, foi simplesmente aterrador. Que estranho modo de vida este de estar entre bombas e balas, noites e dias sem dormir. Eu costumava passar mal diante da funesta visão de corpos caídos ao redor, com uma cabeça a rolar sem corpo, pernas e braços por toda parte, muitas vezes tomei nossos próprios mortos como escudo. Quando os turcos tentavam me acertar, a bala se chocava com o corpo à minha frente: Oh, Gill, isto é o inferno na Terra. Talvez o inferno possa ser ainda pior, mas, na verdade, não acredito que o seja.
Frederick C. Trenne, um soldado neozelandês, escreveu em 12 de janeiro de 1916 a seu amigo G. Harry Gillespie sobre o combate em Galípoli.


“Balas, bombas e baionetas foram responsáveis pela maior parte das fatalidades da Primeira Guerra Mundial, mas as armas tecnologicamente “avançadas” eram particularmente temidas por um vasto contingente de tropas que jamais vira ou escutara falar de tais engenhocas antes. “Essa guerra é terrível”, escreveu o soldado gurca Shed Karn Das à Índia, sua terra natal. “Não há lugar onde um homem possa estar em segurança na terra nem debaixo da terra, no ar nem no mar. É isso a verdadeira guerra? ... Por tudo isso, seria possível julgar que Deus esta descontente com os povos do mundo”.”



Após uma visita à frente ocidental, o artista britânico Paul Nash promete à sua esposa que representará em suas telas a “amarga verdade” da guerra.
A ofensiva de Passchendaele, comandada por sir Douglas Haig, foi um demorado banho de sangue em meio a um grande lamaçal, no qual combateram soldados exaustos que, ao final, pouco conquistaram. As forças aliadas tomaram vários quilômetros de território estrategicamente insignificante ao custo de 310 mil baixas. (Para os alemães, a conta fechou em torno de 260 mil.) Embora não tenha participado dos combates, Paul Nash, um artista de 28 anos, esteve em Passchendaele; Nash se alistara em 1914, mas retornara à Inglaterra devido à um acidente não relacionado aos combates. Tornou-se então, um artista oficial da guerra e, após se recuperar e fazer inúmeros apelos para voltar à ação sem demora, foi enviado a frente ocidental. “Meu amor”, começa Nash na carta endereçada à esposa, após sua chegada a Ypres. “Nesta tarde, subirei as linhas até um dos QGs da brigada, de onde, por uma ou duas noites, poderei ver coisas maravilhosas.” Nash, que esperava ansiosamente assistir a uma batalha com toda a sua fúria dramática, defrontou-se, porém, com um espetáculo inimaginável de desespero e aniquilação. Funcionários do Governo encorajaram Nash e outros companheiros a criar uma arte motivadora e patriótica. Devastado pela visão quase apocalíptica que tivera, no entanto, Nash enfatizou que sua obra seria um testemunho da barbárie da guerra, independentemente do que os burocratas desejavam ou solicitavam. Escreveu ele à esposa:
Retornei na noite passada de uma visita ao QG da brigada no alto das linhas e, não importa quanto viva, jamais esquecerei essa experiência. Assisti ao mais aterrorizante pesadelo que parece ter saído da imaginação de Dante ou Poe, inexprimível, completamente indescritível. Os 15 desenhos que fiz talvez lhe deem uma vaga ideia dos horrores, mas é preciso estar presente para compreender sua terrível natureza e o que os homens na França têm de enfrentar.
Todos temos uma vaga ideia dos horrores de uma batalha e podemos evocar, com a ajuda de alguns dos mais inspirados correspondentes de guerra e nos retratos do Daily Mirror, a visão de um campo de batalha, no entanto nenhum desenho pode expressar o que acontece neste país – o cenário ordinário de batalhas que se desenrolam por dias e noites, mês após mês. Somente o mal e o demônio encarnado podem ser os cicerones desta guerra; não se percebe nenhum vislumbre da mão de Deus. O poente e o nascente são blasfemos, escarnecem do homem; apenas a chuva negra vinda das nuvens sufocantes e intumescidas, através da amarga escuridão da noite, é uma atmosfera condizente com um país igual a este. A chuva continua; a lama fétida torna-se mais diabolicamente amarela, as crateras de bombas repletas de água branca e esverdeada, as estradas e os atalhos estão cobertos por uma camada de lama, as negras árvores agonizantes transpiram e as bombas jamais deixam de cair.
Elas voam e despedaçam à nossa frente, arrancando os troncos apodrecidos das árvores,  despedaçando as sinalizações das estradas, abatendo cavalos e mulas; aniquilando, mutilando, enlouquecendo; mergulham na cova que é esta terra; um grande túmulo, e fazem o cômputo dos infelizes que morreram. Oh, é inominável, ímpio, desesperador. Não sou mais um artista interessado e curioso, sou um mensageiro que dará voz a homens que lutam contra aqueles que desejam perpetuar a guerra. Frágil e inarticulada será minha mensagem, mas representará uma amarga verdade, que talvez faça arder suas almas abomináveis.
Nenhuma carta até agora chegou, espero que eles as enviem. Sê gentil com teu amor e não o repreenda por escrever tão pouco, para ninguém mais ele escreveu até o momento. Em um ou dois dias, ele terá mais a dizer e não será tão sombrio. Desejo ouvir tudo a respeito da minha querida. Conte-me se mandou ao John minhas lembranças.
Por enquanto, adieu, minha querida.
Com um longo beijo, daqueles que só nós sabemos dar, de teu mais apaixonado e entusiasta amor.
Paul”


Harold “Pompey” Elliott, comandante do 7° Batalhão australiano, descreve a sangrenta Batalha de Lone Pine, durante a campanha de Galípoli, na Primeira Guerra Mundial.
(em nenhum outro conflito a guerra de trincheiras foi tão essencial quanto na Primeira Guerra Mundial).
“(...) Esses ataques parciais, porém, bastaram para nos impedir de acudir de modo adequado os feridos e de remover os mortos. O tempo estava quente e as moscas, pestilentas. Quando alguém lhe falar da glória da guerra, imagine-se em uma estreita linha de trincheiras, cobertas por duas ou as vezes três camadas de corpos (e pense também em seus melhores amigos, pois, pela longa convivência, é justamente o que esses rapazes são) mutilados e despedaçados pelas bombas, de uma forma indescritível, inchados e escurecidos pela decomposição e cobertos de vermes. Viva em meio a tudo isso por dias, a despeito de aproveitar todas as noites para trabalhar com máscaras de gás no esforço de removê-los. Isso é a guerra e essa é a glória – não importa o que digam os romancistas.” (...)
Um mês depois de escrever essa carta a um amigo, Pompey Elliot foi promovido a general-brigadeiro, e, depois da guerra, foi eleito para o Parlamento australiano. No entanto, Elliott passou a ser atormentado por aquilo que mais tarde seria conhecido como “transtorno de estresse pós-traumático” e, em 1931, ele se suicidou.”


Numa carta a família, o tenente Davydovych Zemchenchov ataca os “carrascos alemães” responsáveis pela morte de seus entes queridos.
Ao alegar (falsamente) que a invasão da União Soviética, a conhecida operação Barbarossa, era um ataque preventivo, Hitler vaticinou em um discurso para seus generais que a operação Barbarossa seria uma “batalha de aniquilação”. As tropas alemãs estavam convencidas de que seria, no mínimo, uma retumbante devastação. A guerra contra a Rússia durará apenas quatro semanas!”, disse um oficial a seus comandados. Cientes do poderio soviético para protelar ou repelir invasores, os alemães reuniram forças terrestres e aéreas de inédita magnitude. O primeiro dos 4 milhões de soldados dirigiu-se à União Soviética em 22 de junho de 1941, encontrando Joseph Stálin e seus generais completamente desprevenidos. “O dia de hoje foi motivo de orgulho para todos nós”, escreveu triunfantemente a sua esposa, em 25 de junho, o comandante alemão de tanques de guerra Karl Fuchs, que integrava a 7ª Divisão Panzer, da frente oriental. “Os russos se evadem por toda parte e nós os seguimos. Todos acreditamos numa breve vitória!” Logo depois, Fuchs expressou o desprezo que ele e seus soldados sentiam pelo povo russo como um todo, um preconceito alimentado por anos de propaganda nazista. “Mostraremos a esses vagabundos bolcheviques quem é que manda por aqui”, vociferou em 28 de junho.
Eles lutam como mercenários, não como soldados, não importa que sejam homens, mulheres ou crianças nas linhas de frente. Eles não são melhores que um bando de canalhas. Todos nos regozijamos com a entrada da Espanha e da Hungria ao nosso lado contra os bolcheviques, os arquiinimigos do mundo. Sim, a Europa permanece sob a liderança de nosso amado Führer Adolf Hitler, que a reformará para um futuro melhor.
Fuchs não conheceria esse futuro; durante um inverno que ele próprio admitiu que os envolvia em um “frio impregnante, nada comparável ao que tenhamos vivenciado em casa”, foi morto em combate. As tropas soviéticas que ele e seus camaradas menosprezaram revelaram-se infatigáveis, tomadas, diante da violação de seu país, por um ódio justificado. (Cerca de 20 a 27 milhões de soviéticos morreram durante a guerra.) A carta que se segue, escrita pelo tenente Davydovych Zemchenkov, oferece um vislumbre do estado de espírito de um jovem soldado disposto a sacrificar-se por sua pátria. Zemchenkov tinha, então, 19 ou 20 anos e também perderia sua vida na guerra.
Olá, mãe, Marusya, Nastya, Valya, Zoya e Ninochka!
Como um raio de sol, envio-vos uma calorosa saudação deste front, onde enfrentamos os inimigos alemães. Desejo-lhes uma boa saúde por muitos anos, bom ânimo e força para suportar todas as dificuldades com que se defrontarem. Doce Mama, recebi uma carta de Zhenya hoje. Que horror! A imagem é aterrorizante. A morte, empunhando uma suástica nazista, abriu suas asas sobre nossa família. Separou nossos entes e deixou em ruínas nosso ninho, no qual trabalhamos por tantos anos. A morte é vermelha, tingida pelo sangue daqueles que bem queremos, e destruiu tudo o que criamos e valorizamos. Depois disso, será possível sentir um mínimo de piedade por eles? Não! Somente uma bala que penetre o negro coração alemão, somente uma imunda torrente de sangue, somente sua impiedade e completa aniquilação podem acalmar minha alma e abrandar minha dor.
Aqueles malditos inimigos balearam meu amado irmão, enviaram meu pai para uma cova prematura, queimaram minha casa e alquebraram a saúde de minha mãe. Palavras me faltam. A dor é demasiada. Choro e as lágrimas não me envergonham. Meus amigos as veem e se compadecem. Mas não me desespero nem perco minha força. Muito pelo contrário: o ódio e o desejo de vingança ardem em meu coração. Juro lançar a vingança sobre o inimigo pelo resto de minha vida. Continuarei matando alemães para vingar a morte de meu irmão. Tomamos nossas armas mais perto de nós e as utilizamos com mais precisão. Os malditos inimigos já sentiram nossos golpes. Já provaram bastante do nosso chumbo e de nosso aço. Já matamos alguns milhares desses malditos alemães e mataremos outro tanto. Mostraremos nossa habilidade lutando e vencendo sangrentas batalhas contra o inimigo. O governo e o povo soviético demonstraram seu apreço por nossos atos. Recebemos uma grande honra – o título de membros da guarda real. O inimigo conhece a nós e a nossa força.
Querida mãe e queridas irmãs, vós sois tudo o que me resta. Desejo que mantenham, especialmente mama, o entusiasmo. Não percam a força que vocês têm e cuidem da saúde. Compreendo como é difícil suportar essa dor, essa grande mágoa, mas não há outra solução. Temos de suportá-la. Assim é a vida, mama. Sua dor, nossa dor, não é a única. Vi piores ao longo de minhas viagens. Nas minas de Shakthi, encontramos 4.500 pessoas mortas pelos carrascos alemães. Havia bebês e crianças, mulheres e velhos. Os monstros não apenas os mataram; impuseram-lhes o abuso e, em seguida, jogaram-nos em um buraco e atiraram. Em uma das prisões de Rostov, os alemães atiraram em 3.500 pessoas. Onde quer que os monstros fascistas vão, deixam atrás de si um rio de sangue e soviéticos inocentes mortos.
Mama, seja forte e acredite em meu retorno. Quando voltar, viveremos felizes outra vez.  Reconstruiremos o que tiver sido destruído. Com o tempo tudo se arranjará. Mama, envio uma carta a RK e ao comitê executivo regional com um pedido para que a senhora e as meninas possam ficar com Zhenya. Fique com ela e descanse no verão. Eu a ajudarei. Envio-lhe mil rublos hoje e, em poucos dias, enviarei mais. Nastya, Valya, Zoya, ajudem Mama. Não se preocupem comigo. Estou são e salvo. Abato os alemães sem perdão. A hora da vitória total esta próxima. Esmagaremos o inimigo e voltaremos para casa vitoriosos.
Mama, dê lembranças minhas e meus melhores desejos a todos os trabalhadores da fazenda comunal. Diga-lhes para não perder o entusiasmo.”


“Apenas uma nota. Estou prestes “a galgar o parapeito”, e as chances de um oficial subalterno voltar vivo para casa são praticamente nulas. Mas, caso consiga, pode soltar uma daquelas gargalhadas estridentes. Caso contrário, esta a fará saber que bati as botas. Então, anime-se, minha velha, e não permita que os jornais a usem como matéria para uma edição de domingo. A senhora conhece o tipo: aquela em que a mãezinha de “rostinho delicado, cabelo grisalho, com a última carta do filho junto ao peito, choraminga ‘ele era um bom menino’, enquanto furtivamente enxuga as lágrimas dos olhos luzidios com um pano de prato etc. etc.” Seu filho é um soldado e um soldado danado de bom, é o que ele diria se pudesse. E, se for abatido, estará fazendo seu maldito trabalho. Então, é isso.
O soldado canadense Hart Leechm escrevendo à sua mãe durante a Primeira Guerra Mundial. Leech foi morto pouco depois.


“Todo homem encorpado que saiba empunhar uma arma é agora um caçador de paraquedistas. Na verdade, não creio que esses sujeitos corpulentos com arma na mão serão os únicos a atacar os paraquedistas, caso ousem saltar aqui, pois os camponeses os estão esperando com foices e porretes. Eu mesmo, sabendo quão perigoso pode ser um paraquedista, só posso achá-los engraçados. A visão de um alemão caindo do céu, disfarçado de padre, ou até mesmo bispo, com a metralhadora debaixo de um braço e a bicicleta do outro, é duro de levar a sério. Um programa de rádio descreveu como os paraquedistas estarão vestidos, e, a despeito do fato de o país estar assustadoramente determinado a exterminar esse bando, todos caíram na gargalhada. Um dos consolos da guerra parece ser o fato de que com o acúmulo de um horror atrás do outro, chega-se a um ponto em que quase tudo faz o pessoal rir.
Noel Streatfeild, escrevendo, em 13 de junho de 1940, a respeito da possível invasão da Inglaterra pelos alemães.


“A ausência dos maridos de milhões de lares durante a Primeira Guerra Mundial deixou as esposas o enorme fardo de arcar sozinhas com a administração da casa, o que frequentemente incluía a criação dos filhos e, em áreas mais afastadas, plantação e a criação de animais. Mas havia outras necessidades, mais íntimas, que exigiam igualmente a presença dos maridos. Em geral, nas cartas pessoais trocadas entre casais, essas questões eram abordadas com eufemismos ou subentendidos, a fim de reforçar quanto um e outro desejavam “estar de volta aos seus braços” ou quanto ansiosamente aguardavam para, assim que se reencontrassem, “compensar o tempo perdido”. E, por fim, havia aqueles que não podiam tolerar mais e não se importavam mais com a opinião dos outros. Uma mulher alemã, cujo nome (bem como o de seu marido) foi omitido a fim e preservar sua privacidade, enviou o seguinte apelo ao oficial-comandante de seu companheiro.
Treuen, 2 de janeiro de 1917
Caro líder da companhia,
Eu, abaixo assinada, tenho um pedido a lhe fazer. Embora meu marido esteja em campo há apenas quatro meses, gostaria de solicitar que lhe fosse concedida uma licença, por causa de nossa relação sexual. Gostaria de ter meu marido uma única vez para satisfazer meus desejos naturais. Não posso mais viver desse modo. Não posso suportar.
É claro que me é impossível buscar outras formas de satisfação, pois tenho, em primeiro lugar e acima de tudo, às crianças e, em segundo lugar, por não desejar trair meu marido. Portanto gostaria de lhe pedir muito encarecidamente que atenda a minha solicitação. Depois, poderei me controlar até que sejamos vitoriosos.
Com toda a deferência,
Sra. S.
E o oficial responde...
O oficial que recebeu a carta, Kurt Zehmisch, não foi insensível ao empenho da mulher, e a respondeu em 8 de janeiro.
“Honrada Frau S.
Com esta carta, confirmo o recebimento de sua cordial carta de 2 de janeiro de 1917. Certamente simpatizo com a senhora e compreendo que deseja ver seu amado marido de volta, e farei tudo o que estiver ao meu alcance para atender ao seu pedido. Porém, a senhora deve compreender que, no momento, tenho muitos homens em minha companhia que estão longe de seus lares há praticamente um ano. Para ser justo com esses homens, peço que seja paciente por mais uma ou duas semanas. Então poderei adicionar seu marido à nossa lista de homens que sairão de licença.
Cordiais saudações,
K. Zehmisch”


“Enquanto as cartas da primeira e da Segunda Guerra Mundial não passavam sem as ocasionais explosões de humor amargo, as cartas do Vietnã apresentavam um tom consistentemente mais sarcástico. Na primeira mensagem que enviou para casa do campo de treinamento de recrutas da Marinha, uma experiência reconhecidamente torturante – tanto psicológica quanto fisicamente –, John Richard Ruggles expressou como estava animado com sua nova vida e como seus superiores lhe tratavam com uma gentileza impressionante diariamente.
Temos exatos 38 segundos para escrever esta carta. Este é um lugar realmente aconchegante e tranquilo. Estamos adorando. Todos da equipe, tanto os oficiais quanto os sargentos, são muito pacientes para explicar as coisas que são confusas. Preciso ir.
Gary Turnure, que quase na mesma época estava no treinamento básico do Exército norte-americano, tentou ser ainda mais positivo. “Olá, pessoal”, escreveu ele para sua família em Nova Jersey. “Finalmente compreendi que o Exército me fará muito bem. Ele irá me preparar para uma variedade de ocupações prósperas no Futuro. Na vida civil, há sempre necessidade de bons obuseiros, canhoneiros ou faxineiros e polidores, engraxates, membros de bandas militares, e estarei bastante capacitado para permanecer em filas, o que me será útil quando tiver que esperar para receber o seguro-desemprego”. Em outra carta, enviada quando estava no Vietnã, ele incluiu a seguinte passagem:
A oração do soldado
O Exército é meu Pastor, não devo pensar. Ele permite que me entregue a tarefas essenciais. Ele me conduz cegamente, destrói minha iniciativa, me conduz pelo caminho dos parasitas em nome de minha pátria. Na verdade, embora caminhe pelo vale da indolência, não temerei a censura, pois o Exército esta a meu lado, faz-me acreditar em grandes falsidades. Minha ineficiência se expande, permanecerei eternamente no paraíso dos tolos.
Os dez mandamentos do Exército:
  1. Não pensarás.
  2. Não colocarás as mãos nos bolsos.
  3. Conhecerás a linha hierárquica e todos os elos que faltam.
  4. Não rirás dos segundos-tenentes.
  5. Não usarás palavras que os oficiais não compreendam.
  6. Nada farás nada com sensatez ou bom senso.
  7. Temerás aqueles que ocupam postos acima de ti e desdenharás daqueles que te são subalternos.
  8. Não rirás nem farás gestos obscenos diante de cartazes de recrutamento.
  9. Não falarás sem praguejar.
  10. Acreditarás por 30 anos em benefícios inexistentes.
Outro soldado, cujo nome será mantido em sigilo para preservar sua privacidade, lamentava a um amigo: “Não há muito mais a dizer, cara, exceto que estou doente como um cão. Na semana passada, minha garganta estava sangrando. Sabe o que fizeram para me curar? Nada, absolutamente nada. Sim, senhor, há alguns homens brilhantes em serviço, em especial esses sujeitos com as divisas.”


O missionário norte-americano James H. McCallum escreve à família, de Nanquim, a respeito do cruel tratamento dispensado aos civis chineses pelos soldados invasores japoneses.
Esta é uma história terrível para contar; não sei por onde começar ou terminar. Jamais ouvi ou li a respeito de tantas brutalidades. Estupro, estupro, estupro. Nossas estimativas são de, no mínimo, mil casos por noite e muitos por dia. Em caso de resistência ou qualquer coisa que se assemelhe a desaprovação, há golpes de baionetas ou tiros.
Jornais, fotografias, cartas e outros materiais do período, tanto particulares quanto oficiais, atestam a enormidade da tragédia, e muitos dos mais detalhados relatos de primeira mão encontram-se em cartas dos mais de 20 missionários ocidentais que ficaram na cidade apesar do urgente apelo de suas embaixadas para uma desocupação imediata. (Todos os missionários sobreviveram. Wilhelmina “Minnie” Vautrin, no entanto, tirou a própria vida um ano depois que deixou Nanquim para retornar aos EUA. Muitos acreditam que seu suicídio foi causado pelo trauma de ter testemunhado o massacre.) Os missionários arriscavam as próprias vidas ao se colocarem literalmente entre os soldados japoneses bêbados e beligerantes e os trêmulos cidadãos chineses. Eles ajudaram igualmente a criar uma zona de segurança dentro da cidade, que oferecia alguma proteção aos moradores que não tinham condições de escapar. James McCallum, um missionário norte-americano de 44 anos que trabalhava em Nanquim, enviou a seguinte carta à família, que vivia em Kuling, na China.
Tenho estado tão ocupado todos os dias e cinco noites por semana que não tenho tido muito tempo de escrever. Um estrangeiro tem de estar a postos 24 horas aqui no hospital, a fim de lidar com os visitantes japoneses. Esta nevando e o frio é cortante; sofremos por causa dos milhares que têm abrigos miseráveis e que se encontram encurralados em cômodos extremamente apertados. Nosso hospital esta lotado e os casos menos graves lotam o dormitório da universidade. Alguns não podem receber alta, pois não têm para onde ir. Nasceram de 15 a 20 bebês na última semana; seis no Natal. É fácil encontrar a senhorita Hynds; ela está sempre na enfermaria paparicando aquele monte de bebês.
Lembrei-me de todos no dia de natal e espero que tenham tido momentos agradáveis.
Presumimos que estejam todos em Kuling. Os rumores que chegam até nos afirmam que Kuling pode ser desocupada. Estamos completamente isolados do resto do mundo. Ninguém consegue chegar a Nanquim e parece difícil sair daqui. Pensamos em mandar alguém de nosso grupo para levar as terríveis notícias sobre as coisas que aconteceram e ainda acontecem aqui. mas sabemos que essa pessoa não poderia retornar.
Estou morando com Mills, Fitch, Smythe, Sone, Wilson, Bates e Riggs aqui na casa de Buck. Todos estamos trabalhando dobrado. Raramente nos sentamos para fazer nossas refeições juntos sem que alguém apareça a cada cinco minutos para pedir ajuda. A comida é engolida numa só bocada e saímos às pressas a fim de impedir que um caminhão seja roubado ou, mais frequentemente, para proteger as mulheres dos ataques dos soldados. Raramente nos sentamos todos para comer ao mesmo tempo. Não ousamos sair de casa sozinhos depois de anoitecer, mas andamos em grupos de dois ou três.
A cada um ou dois dias, saio para uma inspeção na propriedade de nossa missão. A casa de todo estrangeiro está sempre sob observação; intocada até a chegada do Exército japonês, mas depois disso, nada esta intocado. Todas as fechaduras foram quebradas; os cofres, roubados. A busca por dinheiro e objetos de valor levou-os às chaminés e ao interior dos pianos.
Nossos discos estão todos quebrados; a louça esta em pedaços no chão ao lado de tudo o mais que foi descartado depois de cada saque. O tampo do piano foi removido e todas as teclas marteladas com algo pesado. Como nossa casa esta fora da zona de segurança, isso não é tão surpreendente, mas casas dentro desse espaço tiveram igual destino. Dois de nossos prédios na escola para rapazes foram incendiados, um dos quais ficou completamente arruinado. Nanquim tem uma aparência funesta. No momento em que o Exército japonês entrou na cidade poucos danos foram causados às construções. Desde então, as lojas foram despidas de seus produtos e a maior parte incendiada. Taiping, Chung Hwa e praticamente todas as principais avenidas de comércio estão em ruínas. No sul da cidade, grande parte da área por trás da rua principal também foi incendiada. Vemos novos incêndios todos os dias e nos perguntamos quando acabará tamanha destruição.
No entanto, ainda pior é o que tem acontecido com as pessoas. Elas têm sido aterrorizadas, o que não é de espantar. Muitos nada mais têm agora, além da roupa do corpo. Indefesos e desarmados, têm estado à mercê dos soldados, que têm permissão para vagar a vontade sempre que desejarem. Não há qualquer disciplina e muitos vivem bêbados. De dia, entram em nossos centros na zona de segurança, em busca de alguma mulher desejável, então retornam à noite para apanhá-las. Caso elas se escondam, os responsáveis pelo local são atacados a golpes de baioneta. Meninas de 11 e 12 anos e mulheres de 50 não têm escapado. A resistência é fatal. Os piores casos vêm para o hospital. Uma mulher com seis meses de gravidez, que resistiu, veio até nós com 16 facadas na face e no corpo, uma perfurando o abdômen. Perdeu o bebê, mas sua vida foi salva. Homens que se renderam a misericórdia dos japoneses quando lhes prometeram que suas vidas seriam poupadas – um pequeno número deles retornou à zona de segurança em um estado deplorável. Um deles declarou que foram usados para praticar o uso da baioneta e seu corpo certamente comprovava isso. Outro grupo foi levado até próximo a Ku-Ling Sz; sabe-se lá como, um conseguiu voltar, viveu tempo suficiente para contar o destino do grupo. Afirmou que despejaram gasolina sobre suas cabeças e, em seguida, atearam fogo. Este homem não exibia nenhum outro ferimento, mas estava tão queimado ao redor do pescoço e da cabeça que dificilmente se acreditava que era um ser humano. No mesmo dia, outro homem, cujo corpo fora parcialmente queimado, chegou ao hospital. Também fora baleado. No geral, parece que uma porção deles foi metralhada, seus corpos empilhados, e então, queimados. Não pudemos obter detalhes, mas ele conseguiu engatinhar e chegar ao hospital para pedir ajuda. Ambos morreram. E assim pude relatar essas histórias tão terríveis que provavelmente vão deixar vocês aí sem apetite por dias. É absolutamente inacreditável, mas milhares vêm sendo exterminados a sangue-frio – quantos é difícil determinar –, alguns acreditam que a marca se aproximaria de 10 mil. (...)
No entanto, ainda pior é o que tem acontecido com as pessoas. Elas têm sido aterrorizadas, o que não é de espantar. Muitos nada mais têm agora, além da roupa do corpo. Indefesos e desarmados, têm estado à mercê dos soldados, que têm permissão para vagar a vontade sempre que desejarem. Não há qualquer disciplina e muitos vivem bêbados. De dia, entram em nossos centros na zona de segurança, em busca de alguma mulher desejável, então retornam à noite para apanhá-las. Caso elas se escondam, os responsáveis pelo local são atacados a golpes de baioneta. Meninas de 11 e 12 anos e mulheres de 50 não têm escapado. A resistência é fatal. Os piores casos vêm para o hospital. Uma mulher com seis meses de gravidez, que resistiu, veio até nós com 16 facadas na face e no corpo, uma perfurando o abdômen. Perdeu o bebê, mas sua vida foi salva. Homens que se renderam a misericórdia dos japoneses quando lhes prometeram que suas vidas seriam poupadas – um pequeno número deles retornou à zona de segurança em um estado deplorável. Um deles declarou que foram usados para praticar o uso da baioneta e seu corpo certamente comprovava isso. Outro grupo foi levado até próximo a Ku-Ling Sz; sabe-se lá como, um conseguiu voltar, viveu tempo suficiente para contar o destino do grupo. Afirmou que despejaram gasolina sobre suas cabeças e, em seguida, atearam fogo. Este homem não exibia nenhum outro ferimento, mas estava tão queimado ao redor do pescoço e da cabeça que dificilmente se acreditava que era um ser humano. No mesmo dia, outro homem, cujo corpo fora parcialmente queimado, chegou ao hospital. Também fora baleado. No geral, parece que uma porção deles foi metralhada, seus corpos empilhados, e então, queimados. Não pudemos obter detalhes, mas ele conseguiu engatinhar e chegar ao hospital para pedir ajuda. Ambos morreram. E assim pude relatar essas histórias tão terríveis que provavelmente vão deixar vocês aí sem apetite por dias. É absolutamente inacreditável, mas milhares vêm sendo exterminados a sangue-frio – quantos é difícil determinar –, alguns acreditam que a marca se aproximaria de 10 mil. (...)
          Ainda hoje, muitos políticos japoneses ultranacionalistas e seus seguidores negam, com veemência, que atrocidades e assassinatos indiscriminados tenham ocorrido em Nanquim e insistem que os números foram exagerados pela China e pelos EUA, aliados na Segunda Guerra Mundial, a fim de justificar o emprego de armas atômicas contra o Japão em 1945. Os chineses – e muitos historiadores, norte-americanos e de outras nacionalidades – documentaram a partir de suas fontes que cerca de 200 a 300 mil indivíduos inocentes devam ter sido assassinados e dezenas de milhares de mulheres estupradas. Este tema permanece sendo uma fonte de tensão entre China e Japão até os dias de hoje.


2 comentários:

Doney disse...

É de se frisar o péssimo tratamento que a editora deu a obra, que contém múltiplos erros de português, erros na separação das partes em itálico, etc.
O livro é muito bom, mas a Zahar ficou devendo na parte que lhe cabia.

Kathlyn Sullivan disse...

Fato, Super concordo com oque Tu disse.