A conversão de São Paulo

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domingo, 23 de junho de 2013

Clockers: no mundo dos pequenos traficantes – Richard Price

Editora: Rocco
ISBN: 85-325-0596-1
Tradutor: Haroldo Netto
Opinião: ****
Páginas: 586


     “A garota de carinha de bebê começou a falar com O Verbo, dizendo qualquer coisa que Strike não era capaz de ouvir mas sabia que era destinada a seduzi-lo, porque O Verbo começou a dançar e a sorrir como um idiota. A garota estava tentando descolar a coca de graça e O Verbo teria cedido em um minuto se Strike não estivesse ali. Sempre tinha que estar ali, sempre. Pensou em dizer a Futon para ir até lá e dizer à garota que ia contar à sua mãe, mas decidiu que não era Jesus Cristo para querer salvar os outros. A garota quer se drogar, este é um país livre. Desde que tenha dez dólares.”


      “Não se pode confiar em ninguém: todo mundo era sério numa hora, trapaceiro no minuto seguinte, sempre falando sobre serem irmãos, sobre não deixar que fossem atacados pelas costas, mas quando chegava a hora da verdade, Strike preferia os inimigos aos amigos. Pelo menos os inimigos a gente sabe o que estão a fim de fazer.”


      “A cada dois blocos um avião qualquer da JFK acenava, reconhecendo Strike, ou gritava seu nome, ou alguma garota viciada dos conjuntos ficava toda alegrinha em vê-lo, se metia por entre os carros e tentava engambelá-lo para conseguir o pó antes que o sinal abrisse. A despeito de sua cautela, havia uma parte nele que adorava a carga de emoção que gerava nos outros: o olhar brilhante dos viciados, a saudação dos viciados, os “clockers” do pedaço. Um dia aquilo seria o seu fim, aquele reconhecimento, aquele poder, mas, a não ser pelo cabo-de-guerra que disputara a vida inteira com a mãe, aquilo era a coisa mais próxima do amor que já experimentara.”


      “Strike suspirou enojado; todo mundo estava mais do que sujo naquele jogo. Os tiras sacaneavam uns aos outros, os traficantes idem, os tiras enganavam os traficantes e vice-versa, os tiras aceitavam suborno e os traficantes deduravam uns aos outros. Ninguém sabia ao certo de que lado os demais estavam; ninguém sabia realmente a quantidade de dinheiro, muita ou pouca, que qualquer outro estava ganhando. Tudo fumaça. Tudo eram telefones públicos no meio da noite. Estar naquele negócio era como caminhar de olhos vendados por um campo minado. Era difícil saber o que fazer ou o que não fazer, mas, para sobreviver, Strike seguia três regras inquebrantáveis: não confiar em ninguém, não ser ganancioso e nunca usar o produto.”


      “Enquanto você não for um pai, não será nada a não ser um filho.”


      “Às vezes, Strike ficava mal-humorado pensando que talvez Crystal gostasse dele mais pelo que não era do que pelo que era: não era viciado em drogas, não estava a fim de bater nela, não tirava o seu dinheiro e não ia lhe transmitir o vírus. Perguntava-se às vezes se a razão por que ela saía com ele não seria o fato de ele preencher um vazio sem causar-lhe dor.”


      “Era estranho andar com um revólver por aí logo depois de ter falado em realmente atirar em alguém. A pequena pistola .25 sempre lhe parecera irreal, alguma coisa entre um brinquedo e um símbolo, mas naquele instante, ao passar por toda aquela gente, a arma dava a impressão de estar respirando encostada na sua barriga, os dentes crescendo. Strike viu-se imaginando pela primeira vez, desde que deixara a casa de Rodney, se teria mesmo dentro de si ou a frieza ou o calor de apontar uma arma para a cabeça de alguém e puxar o gatilho.”


      “Rocco (que junto com outro policial, Mazilli, conversava com o ator Sean Touhey) virou-se para ele e sorriu. – E então, Sean, qual é a história do filme, você sabe, o enredo?
      Hum? Estamos trabalhando nele.
    – Então o que é que vocês têm, algo tipo um conceito? – Conceito: Rocco sentiu-se como se estivesse às voltas com uma garota com quem saía pela primeira vez, tentando conversar para melhorar o clima.
     Touhey não se deu ao trabalho de responder. Virou-se para Mazilli.
    – Vou lhe dar um conceito, você me dá uma resposta, OK?
     Mazilli deu de ombros e acendeu um cigarro.
     – Reabilitação? – disse Touhey.
    – O que é isso? O jogo da palavra? – Mazilli jogou o fósforo em cima da toalha. Você quer saber em que acredito? Eu acredito em punição, eu acredito em medo e eu acredito em vingança.
     Os lábios movendo-se silenciosamente, Touhey inclinou a cabeça e olhou para Mazilli como se quisesse memorizá-lo.
     Rocco suspirou, anunciando-se para si mesmo, minha vez.
    – Sim, bem. Você diz reabilitação. Você sabe, nós somos humanos, quer dizer, a maioria de nós, e ninguém começa durão. Vim trabalhar há vinte anos. Queria ser tira. Para quê, para espancar as minorias? Não, eu queria ajudar as pessoas. Alguém grita: “Polícia”, sou eu. Saio correndo: branco, preto, amarelo, seja o que for.
     Rocco arriscou uma olhada em Mazilli e espantou-se ao ver que ele não estava rolando os olhos para cima.
    – Ok? Mas reabilitação... – Rocco fez uma pausa, ganhando fôlego para a História.
    – É como quando eu usava uniforme. Na minha primeira semana eu tinha um parceiro, Sapo Phelan. Maz, você se lembra do Sapo?
     Mazilli encolheu os ombros.
    – Sapo Phelan começou a trabalhar quando Truman era Presidente. Eu tinha vinte e um, vinte e dois anos, e recebemos um chamado. Conjunto habitacional Lafayette, há um garoto gritando dentro de um apartamento, a porta esta trancada. O elevador esta quebrado, de modo que o Sapo me manda subir sozinho, ele não esta a fim de subir seis andares com as suas pernas, de qualquer modo esta de porre. Vou até lá em cima, o pessoal do conjunto tinha acabado de pipocar a fechadura. Entramos, lá esta um garoto de três anos algemado a um radiador superquente, não tem mais ninguém em casa. A algema é de metal, certo? O metal conduz o calor? Não sei há quanto tempo estava preso daquele jeito, mas o fato é que tinha um anel de carne assada em torno do pulso, OK?
     Touhey parecia vidrado.
    – Chamamos a ambulância, cortamos a algema, eles levam o garoto para o hospital. O pessoal do conjunto se manda, mas eu fico ali ao lado do radiador. Sentado ali no peitoril da janela. Fico sentado ali quarenta minutos, e finalmente chega a mãe. Seriam mais quarenta minutos em que a criança teria ficado cozinhando se a gente não entra, OK? Ela entra, posso ver nos seus olhos que esta chapada de heroína, certo? Ela entra, nada de criança. Olha para mim. Eu olho para ela. O momento passa, e de repente ela se arranca, caço a filha da puta descendo seis lances de escada. Ela consegue chegar no saguão, bate de frente com Pelan, ele a agarra mas ali estou eu, bancando o anjo vingador, a cento e vinte por hora. O Sapo se atira na minha direção. Bum, vou bater nas caixas de correspondência. Minha cara é tipo: “Que merda é essa?”. Ele a leva para fora, a entrega para o outro carro de polícia, eles a levam. Ele volta, me pega. Estamos sentados no carro, ele diz para mim: “Rocco, essa mulher que você ia quebrar a cabeça, vinte anos atrás, quando era uma garotinha, prendi o pai dela por ter espancado o seu irmão menor até a morte. O cara era realmente um merda. Agora que ela é uma mulher adulta, ela é realmente uma merda. O garoto que você salvou hoje, se viver bastante, se chegar a ser um homem adulto, vai ser um outro merda.” “Rocco”, o Sapo me diz “é o ciclo da merda e você não pode fazer nada a respeito. De modo que a solução é ir com calma e fazer o seu trabalho.”
     Touhey, pasmo com a história de Rocco, sacudiu a cabeça.
    – Uau... uau.
    – Você tem o mesmo tipo de experiência vezes sem conta neste trabalho. De modo que quando você diz reabilitação, Sean, o que descobre no correr de todos esses anos é que é preciso toda sua força só para manter o estado de coisas.
    – O ciclo da merda – anunciou Mazilli, mas Rocco não conseguiu interpretar o seu tom de voz.
     Rocco não tinha a menor ideia do que acontecera com o garoto e estava na dúvida se devia inventar algo quando Mazilli entrou na conversa:
    – Hoje ele é prefeito de Dempsy e na semana passada instituiu corte nos salários de todos os detetives da cidade.”


      “Rocco saltou do Chevy e espreguiçou-se. O ar tresandava a matéria em combustão. A fumaça oleosa, as carcaças de metal calcinadas, os montes de cinzas de antigas fogueiras de pneus e o jeito de andar de zumbis daqueles catadores de lixo, tudo aquilo fazia com que se sentisse como se estivesse visitando um importante campo de batalha três dias depois de os soldados terem enterrado seus mortos e debandado.
     Ele não sabia muita coisa mais sobre a vida alheia, mas sabia com certeza que aquela gente estava situada no elo mais baixo da cadeia de drogados, fracos demais para reagirem com violência ou reflexos rápidos e doentes demais para sobreviver à prisão. A maioria tinha o vírus, embora Rocco imaginasse que nem um só tivesse se submetido a exame. Ninguém queria saber da doença com certeza, mas todos andavam por ali como se já estivessem mortos, como se nada mais restasse para temer, como se aquela novidade em seus ossos finalmente os tivesse libertado, permitindo que abraçassem sem desculpas ou fingimentos a única coisa que já lhes havia confortado, muito embora fosse a mesma que os matara: as drogas intravenosas.”


      “Strike não teria posto uma tranca se não desconfiasse da amiga de Herman, uma oriental de cinquenta anos que fazia a limpeza e preparava as refeições do velho. Tudo o que Strike sabia sobre orientais é que trabalhavam duro e não riam, mas imaginava que fossem ambiciosos e traiçoeiros como todo mundo.”


      “Já ouviu dizer que quando Deus detesta um cara lhe concede o seu mais profundo desejo?”


      “O apartamento parecia silencioso. Strike examinou os pés da cama, estraçalhados, e lembrou do Doberman que comprara seis meses atrás para guardar a casa. Nunca se dera ao trabalho de treiná-lo e o cão roera toda a mobília do quarto, reduzindo todos os postes de bambu e laterais a gigantescos palitos esfrangalhados. O cachorro, como a maioria das coisas, parecia ser melhor do que era realmente.”


      “A distância mais curta entre dois pontos é a verdade.”


      “Quando o pau levanta a cabeça não pensa mais.”

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