segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Manual de pintura e caligrafia – por José Saramago

Editora: Companhia das Letras
ISBN: 978-85-7164-278-2
Opinião★★★☆☆
Páginas: 280
     “Nada mais retórico neste lugar e nesta circunstância, e eu detesto a retórica, embora dela faça profissão, pois todo o retrato é retórico: “Retórica (um dos significados): Tudo aquilo de que nos servimos no discurso para produzir bom efeito no público, para persuadir os ouvintes.” Melhor está o “conhecimento”, pois desejá-lo, lutar por ele, sempre infunde algum respeito, mesmo sabendo-se quão facilmente se escorrega dessa sinceridade para um pedantismo insuportável: não têm conto as vezes que o conhecimento se entrincheira nos mais sólidos bastiões da ignorância e do desprezo do conhecimento: tudo está em usar a palavra sem reparar nela ou reparando demasiado, para que o simples entrelaçar dos sons que a repetem tome o lugar, o espaço (num simples oco explosivo da atmosfera onde a palavra se aloja e se mistura), do que deveria ser, se realmente compreendido e praticado, um trabalho que todo o mais excluiria.”





      “Que quero eu? Primeiramente, não ser derrotado. Depois, se possível, vencer.”





      “Tentei destruir este homem quando o pintava, e descobri que não sei destruir. Escrever, não é outra tentativa de destruição, mas antes a tentativa de reconstruir tudo pelo lado de dentro.”





      “Quem sabe se a cegueira não seria preferível à visão agudíssima do falcão instalada em órbitas humanas? Para os olhos da águia, como é a pele de Julieta? Que foi que viu Édipo quando com as suas próprias unhas se cegou?”





      “(A empresa) SPQR tem ainda uma daquelas portas giratórias que são para mim a versão burguesa do pano de rocha que era a entrada da caverna dos quarenta ladrões. Não tem nome de sésamo (gergelim, planta) e representa a suprema contradição em porta: esta, simultaneamente, sempre aberta e sempre fechada. É a glote do gigante, engolindo e expulsando, ingerindo e vomitando. Há temor quando se entra, alívio quando se sai. E há uma repentina angústia quando no meio do movimento já não estamos fora e ainda não estamos dentro: viajamos no interior de um cilindro como se atravessássemos uma parede de ar e esse ar fosse pastoso como a lama num poço ou rígido e comprimido como a base de um obelisco. Houve certamente sufocações na minha infância, figuras monstruosas ou apenas negras (brancas, diria um negro) sentadas no meu coração, para que este tambor rebrilhante invoque terrores tão primitivos. Sair, neste caso, é realmente surdir, emergir, ou irromper do elemento denso para o ar transparente e respirável.”





      “Devo interrogar-me sobre o significado desta forma de complacência que é falar de Adelina, quando de Adelina se não trata. Talvez, porém, não deva ser conveniente fazer o inventário das forças e das debilidades de alguém, para lutar contra esse ou para simples registo estatístico, sem fazer prévio balanço das nossas próprias, e nessa ponderação será impossível ignorar aqueles que, no fim de contas, pesam em nós como grãos de chumbo arrastados no rodopio de um cilindro, na realidade movido por outra força, mas em cujo movimento os mesmos grãos actuam sem que o cilindro o sinta e sem que a força efectiva o suspeite. A pobre Adelina, como eu me divirto a chamar-lhe de mim para mim, é muito menos “pobre” do que disse: deita-se comigo, consente e exige que eu entre nela (esta virtuosa transposição resulta em obscenidade total, pois, literalmente, entrar eu nela significa que todo me reduzi a uma dimensão milimétrica, a qual me permitiria digressar [preferia que se pudesse dizer digredir] no interior dela, ou, pelo contrário, que esse mesmo interior ganhou tamanho de catedral, basílica de S. Pedro, igreja de Notre-Dame, gruta dourada e verde de Aracena, por onde passeio [penetro] em meu natural tamanho, patinhando nos humores, nas secreções, repousando na turgidez das mucosas, e avançando sempre até ao segredo do universo, ao laboratório dos ovários, ao estentor das trompas [mudas] de Falópio, respirando os cheiros primordiais da terra ali resguardados e em todos os sexos de mulher, agora já sem obscenidade, porque o sexo não é obsceno, isto é uma coisa que sei hoje) e por causa desse entrar nela, e ela estar, sem verdadeiramente o querer a minha vontade, na vida geral em que eu tenho parte e ela parte, e ambos num rebordo comum, numa cimalha estreitíssima de Chartres, não posso dizer “pobre Adelina” nem esquecê-la. No interior dela derramo de cada vez milhões de espermatozóides de antemão condenados à morte, envolvidos num fluido gomoso que sai de mim arfando, e mesmo não a amando eu nem ela a mim, nenhum de nós escapa ao brevíssimo momento em que os corpos lassos e satisfeitos repousam, o meu quase sempre sobre o dela, o dela às vezes sobre o meu e também sobre o outro o um de nós que suporta o peso do outro. No fim do acto sexual (também chamado acto do amor), o corpo de baixo pesa sobre o de cima, e quem isto não descobriu nunca, não tem corpo nem sexo nem consciência de si. Duas vezes se exerce então a força da gravidade, não para se anular, mas para ser total o esmagamento. Porque a levitação dos corpos não é possível quando o sexo do homem ainda está profundamente ancorado no sexo da mulher, derramando ou tendo derramado a branca secreção dos testículos e banhando-se entre as paredes rubras ou róseas, e ardentes, ao mesmo tempo que a remotíssima tristeza do coito cobre de véus o cérebro e esboroa um a um os membros abandonados.

     Sabemos ambos, Adelina e eu, que um dia qualquer acabaremos esta relação: só a inércia a faz durar ainda. Não sou, evidentemente, o primeiro homem da sua vida: teve vários, alguns que eu conheço e lhe falam como amigos, porque não a amaram nem ela os amou, tal como eu lhe falarei quando sofrermos ambos o pequeno desgosto de nos separarmos. E talvez ela venha a minha casa quando outra Adelina aqui estiver para se deitar comigo mais tarde, e talvez ela saia com outro homem com quem vá deitar-se, e estaremos depois longe um do outro, fazendo os gestos que ambos conhecemos sobre o corpo doutros, nem sequer lembrados disso, mas tão absortos no novo sexo ou então distraídos dele que nenhuma memória comum ocorre, e ocorrendo seria puro pensamento, facto doutra vida ou mesmo de pessoa diferente. Por isso estou tão seguro desta minha simples verdade: o eu deste instante preciso é fundamentalmente diferente do que era um segundo antes, algumas vezes o contrário, mas sem dúvida, sempre, outro. Por isso é tão verdade para mim ser o passado morto (seria insuficiente dizer apenas: está morto). As mulheres que tive até hoje estão mortas, e tanto mais mortas quanto mais as amei. A nenhuma delas porém amei o suficiente para que eu próprio alguma coisa morresse na morte delas.”





      “Não há portanto Deus. São muitos os modos de o saber, e o meu me basta. Quando a imagem antropomórfica da divindade se perdeu, perdeu-se tudo. Nenhuma tentativa depois feita para justificar a imaterialidade, pôde realimentar ou ressuscitar as crenças. Bons deuses eram os gregos que se deitavam nas camas suadas dos mortais e com eles fornicavam, bom era Moloch que provava a sua existência alimentando-se substancialmente, à vista de toda a gente, de carne humana, bom era Jesus filho de José que andava de burro e tinha medo de morrer – mas, acabadas estas histórias, que eram histórias de gente com a sua gente, Deus passou a não ter lugar nem tempo e não pôde conseguir mais do que Defoe escrevendo e tornando a escrever a vida de Robinson. Um Deus que não esteja majestosamente sentado nas nuvens, um Deus que não tenhamos a esperança de conhecer em pessoa una e trina, é um Robinson inventado, criador segundo de uma religião de medo que precisava de um Sexta-Feira para ser igreja.”





      “Tantas palavras escritas desde o princípio, tantos traços, tantos sinais, tantas pinturas, tanta necessidade de explicar e entender, e ao mesmo tempo tanta dificuldade porque ainda não acabámos de explicar e ainda não conseguimos entender. Em Milão, algumas paredes falavam, diziam palavras para mim insólitas, proibidas no meu país de desgosto e medo: “luta contínua”, “poder operário”. Em Milão, a polícia entrou na universidade, feriu, prendeu, e a imprensa reaccionária deu palmas e felicitou as autoridades. Afirmo que os homens não são irmãos, ou melhor: os homens não podem ser irmãos todos. Rockefeller, Melo, Krupp, Schneider, Champalimaud, Brito, Vinhas, Agnelli, Dupont de Nemours não são meus irmãos nem os polícias que os servem são meus irmãos. Polícias e financeiros é que são irmãos uns dos outros, embora não filhos do mesmo pai e da mesma mãe. Em Milão, os irmãos desta irmandade, bastardos pobres e bastardos ricos, foram felicitados pela bastardia dos jornais. O mundo está velho e dorido.

     Terei nascido então? Não creio. Já o saberia antes, não estaria hoje, tantos anos passados, a interrogar-me, repetindo Adriano, sobre a data e o local do meu nascimento.

     Mas sem dúvida poderia ter sido naquele dos anos da guerra de Espanha (1936-1939) em que um polícia de Lisboa me apanhou com uns papéis na mão, pobres e mal impressos rectângulos de papel, ainda com a tinta húmida, em que se protestava contra o envio de trigo para as tropas franquistas e se atacava o fascismo, tanto o de fora como o de dentro. Assinava esses papéis uma Frente Popular Portuguesa (influência onomástica da França, por certo, digo eu), que nem sonhava o que fosse. Era uma festa popular, nas Amoreiras, e eu fora lá, não sei porquê, tão pouco dado sou e era a folguedos, e para mais sozinho, a um passo já da melancolia que depois não remediei. Estavam os papéis num montinho, em cima de um muro baixo, e hoje sou capaz de imaginar o sobressalto de coração de quem os lá pusera, assim tão acamados, para que se servisse quem passasse e quisesse saber de crimes. Eu era pequeno demais. Agarrei nos papéis todos e cheguei-me a uma luz para ler melhor. Havia música, um tró-ló-ló de filarmónica, um estrado com gente que dançava, umas luminárias, umas barracas de tiro, alguma coisa mais que não recordo. Mas recordo muito bem (ódio velho não cansa, disse o Rebelo da Silva) a mão que me agarrou bruscamente um braço (com a violência caíram todos os papelinhos ao chão) e a voz do polícia. Apenas não consigo lembrar-me da cara dele. Sei que já não era novo, passaram anos bastantes para que ele justamente morresse, e apenas me pergunto se depois pensou no que fizera, se à hora da morte não sofreu um pouco mais por isso (se há justiça e se crimes maiores não tinha). Baixou-se para apanhar um papel, que leu, mandou-me que apanhasse todos os outros e lhos entregasse, enquanto continuava a segurar-me o braço com força escusada, porque eu nem solto seria capaz de fugir. Fiquei a conhecer uma forma de medo que até aí não sabia que existisse: o medo da vítima escolhida, condenada sem julgamento, o medo do réu que foi nascido para o ser. Estou a tentar definir hoje esse medo de então, propenso a exagerar para me aproximar do inexprimível. “Vamos para a esquadra”, disse o guarda. Jurei que não tinha feito nada de mal, supliquei que me deixasse ir embora, que apenas achara os papéis e que os lera para ver de que se tratava e nada mais. O homem quis saber se alguém me entregara os papéis para distribuir (“Andavas a distribuir, diz lá, malandro”) e eu repeti, chorando, a minha verdadeira mas não verídica história. Para o polícia, a minha verdade era a mentira. As pessoas que se tinham primeiro aproximado, afastaram-se logo que perceberam tratar-se de políticas: não se limitavam a olhar de largo, pelo contrário, mostraram-se desinteressadas, hoje sei que medrosas e felizes pelo perigo a que tinham escapado. E agora me ponho a pensar se ainda lá estaria quem deixara os papéis sobre o muro baixo, se me estaria olhando de longe com simpatia, e também com esperança de que não me fizessem muito mal. Fui levado para a esquadra, a muitos quarteirões de distância, metodicamente sacudido e ameaçado, pelas ruas naquele tempo e àquela hora silenciosas. Coisa tão sem importância, tão sem crime – porquê este tremor de raiva que mal domino?

     Fui interrogado pelo chefe, eu de pé, ele sentado. Depois fecharam-me num quarto por mais de duas horas. Aí já não chorei. Fiquei todo o tempo quieto numa cadeira, quase às escuras, enquanto lá fora os guardas conversavam e o chefe telefonava sei agora para onde, duas vezes ou três, sempre perguntando se queriam que eu fosse “para baixo ou quê”. Enfim soltaram-me, dizendo que eu tinha muita sorte, que “lá em baixo” eram de opinião que não valia a pena. Mas ficavam-me com o nome e a morada. Cheguei a casa muito tarde para os simples hábitos que eram os meus e fui repreendido e interrogado por causa da demora. Calei-me. O mais certo foi terem meus pais pensado que eu me decidira nessa noite a perder a virgindade. Era verdade, mas não como eles julgaram, a única que eles podiam julgar.”





      “O filme Morte em Veneza decorre na única Veneza real: a do silêncio e da sombra, da negra franja que a água dos canais desenha no rente das fachadas, do cheiro insidiosamente pútrido de uma humidade que nenhum sol levanta. De quantas cidades conheço, Veneza é a única que manifestamente morre, que o sabe, e, fatalista, não se importa muito.”





      “No deserto, só o nada é tudo. Aqui, separamos, distinguimos, arrumamos em gavetas, em depósitos, em armazéns. Biografamos tudo. Às vezes, contamos certo, mas o acerto é muito maior quando inventamos. A invenção não pode ser confrontada com a realidade, logo, tem mais probabilidades de ser exacta. A realidade é o intraduzível porque é plástica, dinâmica. E dialéctica, também. Sei disto um pouco, porque o aprendi em tempos, porque tenho pintado, porque estou a escrever. Agora mesmo o mundo transforma-se lá fora. Nenhuma imagem o pode fixar: o instante não existe. A onda que vinha rolando já se quebrou, a folha deixou de ser asa e não tardará a estalar, resseca, debaixo dos pés. E há o ventre inchado que rapidamente desce, a pele esticada que se reabsorve, enquanto uma criança arqueja e grita. Não é tempo de deserto. Não é já tempo. Não é ainda tempo.”





      “Não longe dali, na igreja de Santa Maria della Vita, está um dos mais dramáticos grupos escultóricos de barro cozido que alguma vez pude ver. É a Lamentação sobre Cristo morto de Nicolò dell”Arca, modelado depois de 1485. Estas mulheres que se precipitam para o corpo estendido, uivam de uma dor muito humana sobre um cadáver que não é Deus: ali ninguém espera que a carne ressuscite.”








(clicando nas figuras elas ficam em seu tamanho original)


      “Morte e destruição. Algum tempo mais tarde, contado por anos, saberei do grito do franquista Millan Astray. E mais tarde ainda, enfim, aprenderei, e saberei quase de cor, as palavras de Unamuno: “Há circunstâncias em que calar-se é mentir”. Acabo de ouvir um grito mórbido e destituído de sentido: Viva a morte! Este paradoxo bárbaro repugna-me. O general Millan Astray é um aleijado. Não há descortesia nisto. Cervantes também o era. Infelizmente, há hoje em Espanha demasiados aleijados. Sofro ao pensar que o general Millan Astray poderia fixar as bases duma psicologia de massa. Um aleijado que não tenha a grandeza espiritual de Cervantes, procura habitualmente encontrar consolo nas mutilações que pode fazer sofrer aos outros.” E tarde por diante na vida terei corado de vergonha, quando pela primeira vez li a oração nacionalista espanhola do tempo: “Creio em Franco, homem todo-poderoso; criador de uma Espanha grande e da disciplina de um exército bem organizado; coroado dos mais gloriosos louros; libertador da Espanha que agonizava e cinzelador da Espanha que nasce à sombra da mais rigorosa justiça social. Creio na Propriedade e na grandeza da Espanha na qual se prosseguirá a rota tradicional, que todos nós, Espanhóis, seguiremos; no perdão para os arrependidos de coração; na ressurreição dos antigos corpos de ofícios organizados em Corporações; e na Tranquilidade duradoura. Ámen.”


      “Porém, deste modo de vida que foi o meu de pintar caras, olhos, bocas, cabelos ou calvas, narizes, queixos, orelhas, ombros às vezes nus, fatos de cerimônias diversas, algumas fardas, e de vez em quando chegando às mãos, com ou sem anéis – deste modo de viver me ficou, ou não cheguei a perder, a fascinação obstinada do rosto humano, da pele e da sua fragilidade, da leve ou profunda ruga, do brilho do suor sobre a têmpora, ou, na mesma têmpora, o subterrâneo rio azul duma veia. Não só a beleza, tão rara, mas a fealdade também, que é o mais comum de nós, porque nós, humanos, não somos belos, não o somos em geral, mas aceitamos a fealdade com uma dignidade particular que talvez venha do interior, do espírito. Vamos cinzelando a nossa cara por dentro, porém, a brevidade das vidas nunca dá para acabar a obra: por isso os feios ficam feios, às vezes mais ainda, quando desistiram do trabalho minucioso dessa escultura interna, outras vezes doutra maneira, quando erraram a tentativa. Quero acreditar que se a espécie humana vivesse o dobro ou o triplo destes míseros setenta anos que a biologia aguenta (e setenta anos é grande vontade minha de os viver e não verdadeira média), os homens e as mulheres atingiriam o fim da vida em estado de pura beleza, diversa pela multiplicação das feições, das cores, das raças, mas una e inultrapassável. Hoje, os seres humanos começam (quando começam) pela beleza e acumulam fealdade todos os anos, todas as estações, todos os dias e noites, todos os segundos o pouco que cada segundo dá, mas certo uma vida longa (imagino) igualaria, no último dia de cada um, Helena de Troia e Sócrates. Helena não seria mais bela do que Sócrates: limitar-se-ia a esperar por ele e juntos sairiam da vida, belos.”

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