terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

1968: O ano que não terminou – Zuenir Ventura

Editora: Planeta
ISBN: 978-85-7665-361-5
Opinião★★★★☆
Páginas: 286

“Num dia de agosto, o Jornal do Brasil estampou na primeira página a foto de uma cena então rara e chocante: uma quadrilha de assaltantes de táxi formada por garotos de doze a dezessete anos.
Garrincha, o mais novo, aparecia de tarja nos olhos e um cigarro de maconha na boca. O Rio era uma cidade cujas ocorrências policiais nos fazem morrer de inveja hoje: quatro assaltos por dia, três carros roubados, sete acidentes de tráfego. Inusitada, a foto do bando de Garrincha inspirou uma crônica a Carlinhos, que, lida 20 anos depois, parece um remoto prefácio ao nosso apocalipse urbano:
Todos os dados indicam que fracassamos. Não temos futuro algum para oferecer às nossas crianças. Os garotos ricos – em minoria, é verdade, mas a minoria que vale, aquela que faz barulho – querem outra coisa, outra sociedade, outro regime. Os garotos pobres precisam apenas de uma pistola e de um cigarro de maconha.
O mais impressionante é que, rebelde, anárquico, contraditório, Carlinhos era um “alienado”. Ele próprio, nessa crônica, confessa que não chega nem a ser “contra o atual governo federal”. O seu grito de alerta era tanto mais significativo quanto não está comprometido por nenhuma motivação ideológica ou oposicionista. É como profeta que ele fala dos ainda iniciantes jovens delinquentes:
Só pensaremos neles daqui a 20 anos, daqui a 50 anos, quando eles forem numerosos como ratos e agressivos como ratazanas bloqueadas pelo perigo.
José Carlos Oliveira morreu em 1986, deixando, entre outros, um romance, Terror e êxtase, de 1978, que é a história de uma garotinha rica que se apaixona por seu sequestrador, 1001, um bandido preto e desdentado.
Pouco tempo depois, como se sabe, esses personagens deixaram o livro para frequentar as nossas ruas e cadeias. Como previra Carlinhos, os vários governos da ditadura fizeram o possível para marginalizar as duas gerações, empurrando uma para a clandestinidade e ajudando a outra a permanecer na delinquência.
A diferença é que, embora sofrida e marcada, a chamada geração de 68 se salvou, quando nada como exemplo de entrega e como lição para outras gerações.
Na realidade, como diz Cesinha, relembrando o tempo em que tinha 14 anos, “nossa vida como um todo estava disponível para aquele projeto”. Segundo ele, a “exigência integradora” que procurou articular sonho e vida perdeu-se, seja na música, seja na política. Ao contrário do rock dos Rolling Stones, de Jimmy Hendrix ou de Janis
Jopplin, ele observa com razão que o rock atual não vive mais a sua música, assim como a esquerda não vive mais o seu projeto.
Ninguém melhor do que Cesinha para fazer essa crítica. Como se viu no capítulo anterior, ele foi preso em 1971. E na prisão passaria mais de cinco anos, dos quais três e meio numa solitária, com direito a apenas uma visita semanal do pai, da mãe e do irmão Leo – dez minutos para cada um. Como atividade, só lhe permitiam trabalhos manuais. Um dia, na altura do terceiro ano de isolamento, Cesinha confeccionou uma capa de livro em couro preto, com o desenho de um pássaro amarelo solto no infinito.
Sua mãe, Iramaia, uma precursora das “locas de la Plaza de Maio”, temendo que a solidão o estivesse enlouquecendo, levou o trabalho para o psicanalista Hélio Pellegrino examinar.
Pouco antes de morrer, Pellegrino ainda se surpreendia com a saúde mental de Cesinha: “"Apesar dos sofrimentos, das violências, do isolamento, ele estava mentalmente mais são do que nós. Que cabeça!”.
A saga de César Queirós Benjamin iria continuar. Em fevereiro de 76, o Supremo Tribunal Federal, por unanimidade, ordenou a sua libertação. Mas só em agosto, depois de uma memorável campanha liderada pelo Comitê de Anistia, OAB, ABI, o advogado de Cesinha recebeu um telefonema do Procurador-Geral da República, convidando-o a ir a Brasília para tomar conhecimento de que o presidente Ernesto Geisel decidira “não dar um mártir para a oposição”. Isso significava que, diante das informações de que agentes do CENIMAR ameaçavam sequestrar o preso, se ele fosse solto, a Polícia Federal armaria uma operação, por ordem presidencial, para retirá-lo e depositá-lo dentro de um avião.
Assim, sem pisar o solo do aeroporto, César Queirós Benjamin foi levado para a Suécia.
Por isto, quando ele diz o que diz, ninguém ousa acusar a frase de retórica:
“Nós estávamos dispostos a morrer e morremos”.”


“Conciliando Marx e Freud, (o escritor francês marxista Marcuse) fornecia ambiciosos objetivos políticos ao movimento estudantil, já que o papel de vanguarda da revolução – ele dizia – se transferira da classe operária, engajada no processo produtivo, para as minorias raciais, para os marginalizados pela sociedade industrial e, principalmente, para os estudantes. Ele ensinava que, em lugar da exploração bruta, o capitalismo passava a impor “novas formas de controle social, mais efetivas e agradáveis”. Diante desse quadro, o proletariado seduzido pela sociedade de consumo, passava a não pensar mais em revolução, só em casa de veraneio.”


Revolucionários quase todos os estudantes, eles só divergiam em relação à natureza da Revolução – se socialista, se de libertação nacional, se democrática.
Essa geração, como lembra Vladimir, tinha tirado de 64 uma lição: “Não se pode confiar na legalidade burguesa. Perdemos em 64 porque os trabalhadores não reagiram.”
Raciocinando assim, eles achavam que as transformações sociais só viriam, de fato, pela luta armada.
         É fácil condenar hoje o voluntarismo daqueles jovens que acreditavam mais na vontade do que na razão. Mas como não ser voluntarista sendo contemporâneo de Fidel Castro, Che Guevara, Mao e Ho Chi Minh? Realmente, poucas vezes a História reunia tantos argumentos em favor das famosas “condições subjetivas”, em detrimento das “objetivas”.
A derrota de 64 desencadeara um processo de desencanto em relação à organização e ao debate político. Não havia mais tempo a perder com discussões. A prática ensinaria o caminho, como se podia ver nos textos de Mao, no exemplo de Ho Chi Minh e, principalmente, nos ensinamentos teóricos de Guevara e Debray.
Eles eram a melhor prova do poder deflagrador dos focos guerrilheiros. “O dever do revolucionário é fazer a revolução”, “Para fazer a revolução não é preciso pedir licença a ninguém”, ensinavam. Até os muros de Paris sabiam: “Uma revolução não se vota; faz-se.” O mais jovem revolucionário de então, Cesinha, acha que havia um dado novo na esquerda da época: “O que importava para nós era fazer a revolução, não discutir sobre ela ou sobre as possibilidades de fazê-la. O desafio era fazê-la”.”


“Segundo Cesinha, havia uma certeza que dava sentido a tudo:
O que se sentia, se dizia, o que se achava é que era possível fazer a revolução. Essa certeza dava sentido a tudo. Fora dessa ideia radical não tinha sentido jogar a sua vida. Ninguém joga a vida para virar deputado.”


“Apesar dos riscos que ofereciam, as passeatas são lembradas com doce nostalgia, talvez porque, quando a polícia deixava, elas correspondiam ao que havia de mais generoso naquela geração: a capacidade quase religiosa de comunhão, o impulso irrefreável para a doação. Se houve na história um movimento em que seus componentes não souberam o que era egoísmo, anulando-se como indivíduos para se encontrar como massa, esse movimento foi o da espetacular, pública e gregária geração de 68.”


“O Rio de Janeiro já foi uma cidade capaz de parar numa sexta-feira à tarde para enterrar um estudante morto pela PM.
Eram de fato outros tempos aqueles em que a revolta contra uma violência policial colocava milhares de pessoas nas ruas.
Agora, “como a morte aqui é tanta” – poderia dizer João Cabral de Melo Neto, sem pensar apenas no Nordeste. Em 68, a morte de alguém, mesmo a de um jovem desconhecido, podia levar o país a uma crise e o povo à indignação, como levou naquela sexta-feira, 29, em que 50 mil pessoas acompanharam o corpo de Édson Luís Lima Souto ao cemitério São João Batista.
Na então Assembleia Legislativa, velava-se ainda o corpo de Edson Luís, que no começo da noite anterior fora baleado no peito por um soldado da PM num choque estudantil do restaurante Calabouço. Durante a noite e a madrugada, estudantes, intelectuais e artistas lotaram o saguão onde se realizava o velório. Discursos indignados exigiam justiça e os oradores exibiam a camisa ensanguentada do morto. (...)
Duas horas antes do enterro, a Cinelândia já estava totalmente ocupada. As faixas, cartazes e slogans eram exibidos ou gritados: “Bala mata a fome?”, “Os velhos no poder, os jovens no caixão”. Uma palavra de ordem se destacava pelo irresistível apelo: “Mataram um estudante. E se fosse um filho seu?”
Às 16 horas, o padre Vicente Ádamo encomendou o corpo: “Depois desses acontecimentos”, ele disse, “não há mais possibilidade de diálogo entre jovens e adultos. Será preciso uma nova fórmula para resolver esse estado de coisas.” (...)
Sem horário de verão, às 6 horas da tarde já era noite, o que impediu que as testemunhas vissem que o tiro saía do revólver do aspirante da PM Aloísio Raposo para atingir mortalmente o coração do estudante Édson Luís. Quando chegaram ao local, o corpo já estava sendo conduzido.
Longe de ser um líder, Édson Luís era, como muitos de seus colegas, um daqueles jovens que vinham do interior tentar estudar no Rio, sobrevivendo graças à alimentação barata do Calabouço. Para estudar, Édson Luís era obrigado a recorrer a pequenos expedientes, inclusive na limpeza do restaurante. Ele não tinha nenhum dos componentes míticos para sonhar em ser o que acabou sendo: um mártir. (...)
A repercussão de certos acontecimentos políticos nem sempre é proporcional à importância dos atores neles envolvidos. O episódio do Calabouço, que desencadeou uma série de manifestações de protestos que iriam culminar com a lendária Passeata dos 100 Mil, três meses depois, ficou na História como um marco.
Pode-se dizer que tudo começou ali – se é que se pode determinar o começo ou o fim de algum processo histórico. De qualquer maneira, foi o primeiro incidente que sensibilizou a opinião pública para a luta estudantil. Como cinicamente lembrava a direita, “era o cadáver que faltava”.”


A sexta-feira sangrenta
Em meados de junho, o governo estava seriamente preocupado com a possibilidade de se repetir no Brasil o maio francês. Embora o movimento lá estivesse em descenso – De Gaulle já havia conseguido em Baden-Baden o apoio do direitista Massu – as autoridades brasileiras continuavam achando que havia um plano comunista de exportação das agitações estudantis. A matriz seria achienlit da França.
No dia 12, Costa e Silva, patético, prometia: “Enquanto eu estiver aqui, não permitirei que o Rio se transforme em uma nova Paris”. Por ocasião da greve de Osasco, o ministro do Trabalho Jarbas Passarinho também advertia: “O Tietê não é o Sena”. Alguns estudantes estimulavam essa paranoia. Luís Raul Machado dizia, durante a ocupação do CRUSP em São Paulo: “Os generais podem estar tranquilos que não se repetirá aqui o que houve na França. Vai ser muito pior”.
Durante os dias 19, 20 e 21 – quarta, quinta e sexta-feira – a promessa de Costa e Silva quase foi quebrada. Na sexta-feira, principalmente, conhecida como “a sexta-feira Sangrenta”, o Rio não ficou nada a dever à Paris das barricadas – e não por mimetismo, como temiam as autoridades militares. A motivação estava aqui mesmo.
Ao contrário do movimento francês, não se lutava no Brasil contra abstrações como a “sociedade de opulência” ou a “unidimensionalidade da sociedade burguesa”, mas contra uma ditadura de carne, osso e muita disposição para reagir. As barricadas de maio de Paris talvez não tenham causado tantos feridos quanto a “sexta-feira sangrenta” do Rio, para citar apenas um dia de uma semana que ainda teve uma quinta e uma quarta quase tão violentas.
Nesse dia, quando o povo – não só os estudantes – resolveu atacar a polícia, o centro da cidade assistiu a uma sequência de batalhas campais como nunca tinha visto antes e como não veria nos 20 anos seguintes. Nos seis governos militares pós-64, incluindo a Junta, foi o que mais se pareceu com uma insurreição popular.
Durante quase dez horas, o povo lutou contra a polícia nas ruas, com paus e pedras, e do alto dos edifícios, jogando garrafas, cinzeiros, cadeiras, vasos de flores e até uma máquina de escrever.
O balanço de alguns hospitais – nem todos divulgaram os totais – registrou: 23 pessoas baleadas, 4 mortas, inclusive o soldado da PM Nélson de Barros, atingido por um tijolo jogado de um edifício, 35 soldados feridos a pau e pedra, seis intoxicados e 15 espancados pela polícia.
No DOPS, à noite, amontoavam-se cerca de mil presos.
“O povo tomou partido”, escreveu José Carlos Oliveira, enquanto assistia aos acontecimentos de um lugar privilegiado, o 3° andar do JB, então na Avenida Rio Branco. “Baderna por baderna, violência por violência, a dos garotos é mais simpática”, observou o cronista.
O relato dos jornais no dia seguinte tinha a dramaticidade de uma cobertura de guerra. O Correio da Manhã cronometrou a batalha em todas as suas frentes. Alguns trechos do relato dão a ideia do clima:
13h 15min – Soldados da PM, armados de fuzil, não hesitam: dispersam a tiros os manifestantes nas proximidades do edifício Avenida Central. Populares e estudantes correm em várias direções. E uma jovem, baleada, permanece estendida na calçada em frente à Ótica Lux. Nas ruas laterais começa o pânico. Agentes do DOPS atiram mais
De 20 bombas de gás lacrimogêneo em populares. Dentro de uma lanchonete, duas senhoras grávidas desmaiam, após serem destratadas por dois agentes que pareciam estar sob efeito de estimulantes. Uma menina de dez anos perde-se da mãe, chora e recebe uma bofetada, de um agente.
13h30min – Na Avenida Rio Branco, os estudantes começam a erguer barricadas: a primeira, apenas com pedras; a segunda, com material de construção de obras próximas. Vai começar a batalha campal. Entre estudantes e populares, estão reunidos neste ponto cerca de 2 mil pessoas, que resistirão a carga policial durante quase duas horas. A cavalaria da PM vem da Cinelândia pela Rio Branco; dois batalhões de choque vão com ela encontrar-se na confluência de Assembleia e Rio Branco. Os policiais continuam sob o ataque dos populares postados à janela. Agora caem também vasos de flores e tampas de latrina. A polícia consegue passar a primeira barricada e abre fogo contra a segunda – tiros de fuzil e de pistola 45. Agentes do DOPS juntam-se à repressão. Enfurecidos com a adesão popular aos estudantes, os policiais passam a atirar também para cima, em direção aos edifícios.
14h30min – Já sem comando, a polícia passa aos ataques suicidas contra populares e estudantes. Em grupos de cinco, investem e entram em luta. Alguns manifestantes são presos. O jovem Jorge Afonso Alves tem a perna quebrada a chutes e cacetadas. Outro, de 17 anos, também com a perna quebrada, é socorrido no banco Andrade Arnaud. Um detetive de cor preta, gordo, camisa azul, atira uma bomba sobre as pessoas que estão na entrada do edifício. Aproveita a confusão, saca a pistola 45 e atira contra a multidão. Um senhor de 40 anos aproximadamente tomba com uma bala nas costas e outra na perna. Enquanto isso, a Biblioteca Nacional é invadida por policiais que atiram bombas sobre rapazes e moças. Seu diretor, Adonias Filho, sai à rua para protestar e é destratado por um elemento do DOPS.
As batalhas prosseguiram com essa intensidade até as 20 horas, com barricadas espalhadas pela avenida Rio Branco e pelas ruas México e Graça Aranha. Só não houve mais soldados feridos porque, diante da chuva de objetos jogados do alto, um superior de bom senso permitiu que eles se abrigassem debaixo das marquises.
A “sexta-feira sangrenta” desenrolou-se em duas etapas. Na primeira, que começou de manhã com concentrações estudantis em três pontos do Centro da cidade, ocorreram os distúrbios de sempre. Vladimir (Palmeira, presidente da UME e maior liderança estudantil da época) chegou à Praça Tiradentes com seu grupo às 8 horas da manhã. Pela primeira vez se marcava uma concentração naquele local pouco indicado, porque amplo e aberto. “Não sei se foi por excesso de segurança nossa”, ele explica, “ou porque eu tinha decidido que não dava para fazer mais nada escondido”.
O fato é que, às 8h30min, quando Vladimir subiu num poste para falar para uma plateia de umas 30 pessoas, as lojas, que mal acabavam de abrir, fecharam logo suas portas, inclusive a banca de jornais. Depois de apanhar umas pedras numa construção, líder e liderados marcharam na direção do MEC, via Esplanada do Castello, onde iriam encontrar Franklin Martins e seu grupo, que se haviam concentrado no pátio do Ministério. Preocupado com a demora do companheiro, Franklin deixara o posto, e assim, por acaso, acabaram se encontrando no meio do caminho – ele, Vladimir e Elinor Brito. No dia seguinte os jornais publicaram uma foto de dois jovens não identificados se abraçando. “Sou eu e o Franklin nos abraçando em pleno ar, como na comemoração de um gol”, relembra Vladimir. Cada um achava que o outro estava preso. Para eles, a “sexta-feira sangrenta” ia começar e acabar logo: algumas pedras jogadas nos vidros de frente da embaixada dos Estados Unidos, um discurso de Vladimir trepado num poste, as coisas de sempre. De repente, uma camioneta do DOPS aparece jogando bombas de gás lacrimogêneo. Os estudantes correm e são apanhados pelo fogo cruzado na esquina das ruas México e Santa Luzia: de um lado, agentes do DOPS e da Polícia Federal: do outro, dois soldados da PM de guarda na embaixada. Estabelece-se o pânico.
Os fugitivos tentam refugiar-se nos prédios, mas duas viaturas do DOPS surgem jogando mais bombas. Um helicóptero sobrevoa o local. Sirenes anunciam que estão chegando reforços. É um pandemônio. Policiais gritam: “Vamos atirar para matar!”. Em seguida, três moças caem feridas: Márcia Jurkiewe, com um tiro no tornozelo, é medicada no local; Jeni de Barros Lopes, com um tiro na coxa direita, é removida para um hospital; e Maria Ângela Ribeiro, ferida na fronte, é levada com vida para o QG da PM, onde morre em seguida.
É hora do almoço, e a reação popular vai começar. Alguém joga pedaços de gelo de um edifício, tentando acertar a polícia. Foi como um sinal. Uma chuva de objetos passa a cair em lugar do gelo.
Perto dali, em frente ao Teatro Municipal, Vladimir ainda discursava quando ouviu um tiroteio. Tentou dizer: “calma, companheiros”. Não tinha percebido que eram tiros de fuzil. “Quando vi, eu estava sozinho, porque a segurança não funcionou naquele dia, nada funcionou”. Vladimir saltou do poste com a velocidade que é possível a alguém meio gordo e asmático: “Peguei a rua México, sozinho, correndo, a polícia atrás dando tiro, aquela confusão”. Foi quando apareceu um português desconhecido, que podia ser até um policial, e o levou até seu carro, estacionado na Presidente Vargas. Para fugir daquele tiroteio, o presidente da UME era capaz de aceitar carona até de camburão.
A participação dos principais líderes terminou por aí. Às 4 horas da tarde, Vladimir já estava no Leblon, no restaurante Diagonal, que a liderança estudantil gostava de frequentar, esperando Franklin e Muniz. Na antevéspera, quarta-feira, as batalhas contra as várias tropas da PM tinham sido conduzidas por eles. O ministro da Educação, Tarso Dutra, ficara de recebê-los de manhã. Quando chegaram, encontraram o pátio do MEC cercado. “Recuem”, ordenou o presidente da UME, “mas voltem logo com paus e pedras”. Foi uma batalha campal que durou toda a manhã.
Por isso, já sentado no Diagonal, Vladimir ficou muito surpreso quando alguém informou que continuava a agitação no Centro da cidade – sem eles. Embora um pequeno grupo permanecesse guerreando na avenida – o pessoal do Calabouço, liderado por Brito, e a turma da Universidade Rural, que chegara atrasada –, o comando da batalha tinha mudado de mãos: a praça era do povo.
Nessa tarde, a infantaria da PM teve medo de entrar na Avenida Rio Branco. Os poucos que se aventuraram, esconderam-se logo sob as marquises. A única força a entrar foi a cavalaria, mas os cavalarianos não esconderam o medo. “Eu tinha que entrar”, relembraria o comandante das tropas, o major Rebouças, “e como é que eu entrei? Entrei motivando a tropa. Mandei o clarim tocar “carga”. Em seguida, o pelotão disparou a galope, a 450 metros por minuto”.
Para Rebouças, esse foi o momento mais difícil de um ano cheio de dificuldades para a PM. Aos 14 anos, ele tinha assistido ali à chegada dos pracinhas da FEB, cobertos por papel picado jogado do alto dos edifícios. “Era assim, não se via o outro lado. Só que agora, em vez de papel, o que caía era pedra, tijolo, cinzeiros, tudo”.
As tropas passaram, limpando a avenida, mas, na hora de dispersar, o comandante teve a clarividência de ordenar “dispersão em forrageadores”, o que, traduzido em linguagem paisana pelo próprio autor da ordem, significava: cada um por si.
Se a cavalaria não entrasse, seria convocada a Divisão Blindada.
“Você calcula tanques dentro da avenida dando tiro?” tremia com a hipótese Rebouças.
Num semestre marcado pela rotina diária de choques violentos, o que teria ocorrido de extraordinário para que a população se revoltasse com tanto ódio? Na mesma crônica em que narrou os acontecimentos, Carlinhos Oliveira explicava:
Os cariocas amanheceram hoje com as mãos trêmulas; no café da manhã, os jornais lhes serviram fotografias hediondas. Moças e rapazes deitados de bruços, com a cara enterrada na grama: moças forçadas a andar de quatro diante de insolentes soldados da PM; dezenas de estudantes encostados a um muro e com as mãos segurando a nuca, ou na mesma atitude, mas deitados de bruços.
Ele se referia aos episódios ocorridos na véspera, quinta-feira, no campo do Botafogo, para onde foram tangidos pela PM cerca de 400 estudantes, depois de uma assembleia na Faculdade de Economia. O que ocorreu ali no gramado do time que iria conquistar, naquele ano, o seu único campeonato nos últimos 20 anos, chocou a cidade, uma cidade que, desde a morte e as missas de sétimo dia de Édson Luís, achava que já tinha assistido a tudo em matéria de violência.
Mais do que pela agressão física, as fotos “hediondas” indignavam como símbolos do ultraje. A descrição de soldados urinando sobre corpos indefesos ou passeando o cassetete entre as pernas das moças, junto às imagens de jovens de mãos na cabeça, ajoelhados ou deitados de bruços com o rosto na grama, eram uma alegoria da profanação.
Quando se pergunta a Vladimir Palmeira qual o acontecimento mais importante de que ele participou em 68, a resposta, de certa maneira, surpreende. Não é a morte de Édson Luís – embora o enterro fosse, como ele disse, o espetáculo “mais impressionante” –, não é a Passeata dos 100 Mil, nem o Congresso de Ibiúna, mas a assembleia no Teatro de Arena da Faculdade de Economia, na Praia Vermelha, que deu origem a toda essa degradante repressão do campo do Botafogo.
“Nessa manifestação”, explica Vladimir, “nós quebramos o laço dominante entre o professor que manda e o alunado que aprende”. A assembleia, para ele, significou a quebra do autoritarismo e o rompimento do domínio absoluto que os professores detinham na universidade até os anos 60. Na verdade, significou mais. Foi a subversão total da hierarquia dentro da universidade. “Era uma velharia com postos vitalícios”, constata Vladimir. “Ela não estava adaptada talvez nem ao século, quanto mais à década. Queríamos quebrar a dominação dos catedráticos e arejar a universidade”.
Da mesma opinião é Franklin Martins, para quem a manifestação foi importante para dentro e para fora da universidade: “Pra dentro, por mérito nosso, pra fora, por culpa da polícia. Ela desmistificou o último bastião que detinha dentro da universidade, os professores, muito conservadores”.
Naquela tarde, os estudantes iriam inverter os papéis, rebaixando os professores à condição de alunos.
A assembleia geral tinha sido convocada pela UNE e pela UME para as 10h30m da manhã de quinta-feira, mas às 9 horas, quando chegaram as primeiras representações de várias faculdades, portando faixas de “Abaixo a ditadura”, alguns choques da PM já estavam postados nos arredores da Praia Vermelha. Às 11h30m a liderança desistiu de realizar a reunião no campus e convocou os estudantes para o Teatro de Arena. Nesse momento, chegava outro caminhão da PM despejando mais soldados. Era visível que um cerco policial se armava em torno do conjunto onde se localizava também a reitoria.
Eram 12h15m quando Vladimir anunciou ter recebido a informação de que o esquema policial estava aumentando e que havia ordem de prender as lideranças na saída. “Desta vez ninguém vai preso”, prometeu o orador sob aplausos. “Nós é que vamos exigir a libertação de nossos colegas presos”.
Vários oradores falaram a seguir, inclusive Luís Travassos, até que Vladimir propôs que os estudantes subissem ao andar da reitoria, onde estava reunido o Conselho Universitário. A proposta foi logo aceita. As portas arrombadas, cerca de 1500 estudantes atropelaram-se pelos corredores e salões da reitoria. Não foi fácil fazer os conselheiros descerem. Enquanto as negociações se desenrolavam, os estudantes criaram um sistema de vigilância que previa inclusive o acompanhamento dos mestres nas suas eventuais idas aos banheiros, o que não impediu que o mais visado deles fugisse, o professor Hélio Gomes, da Faculdade de Direito, “um fascista”, como diziam os rapazes. Outros que também fugiram – Gérson Cunha Bueno, da Escola de Belas-Artes, Martins Alvarez, da Odontologia, Iolanda Ferreira e Dionídia Sodré, da Escola Nacional de Música, e Alfredo Amaral Osório e Oscar Oliveira, sub-reitores – não sofreram agressão física, mas foram demoradamente punidos com vaias.
A descida da escadaria foi penosa. Clementino Fraga Filho, reitor em exercício, e seus colegas de Conselho desceram aqueles dois andares virtualmente prisioneiros.
Vladimir se lembra da cena como se ela tivesse acabado de acontecer:
Descendo por aquela espécie de corredor polonês, eles sentem que não podiam continuar como antes. O passivo virou ativo. Os meros depositários dos conhecimentos – ou da ignorância – deles, estão agora cobrando, exigindo. Era uma ruptura na cabeça do professor.
Os estudantes brasileiros tinham mais petulância do que os seus colegas franceses. Em maio de 68, na porta do Hôtel du Levant, na rua de La Harpe, no Quartier Latin, o professor Fernando Henrique Cardoso costumava fazer o relato dos acontecimentos estudantis em Nanterre, onde lecionava. O que mais o impressionava, e à sua seleta platéia – Leon Hirszman, José Celso Martinez Corrêa, Ítala Nandi, Liana Aureliano –, era o respeito que o estudante francês ainda mantinha pelo professor no trato diário. Enquanto virava Paris pelo avesso, Cohn-Bendit, por exemplo, se perfilava diante dos seus mestres e dizia: “Oui, Monsieur le professeur”.
Sentados como alunos em cadeiras escolares de braços, formando um semicírculo na arena, os professores pareciam examinandos diante de uma interminável banca examinadora. Espremidos em fileiras que começavam no chão e subiam até o último degrau da arquibancada, os estudantes faziam um cerco intransponível.
O primeiro a falar foi o reitor, ressaltando que estudantes e professores tinham objetivos comuns – “apenas seguiam caminhos diferentes”. Os professores, segundo ele, de “forma silenciosa”, batalhavam também por mais verbas para a universidade e eram contra transformação em fundação.
O momento mais aplaudido foi quando o corajoso reitor respondeu à pergunta se era contra a repressão: “Vocês querem que eu diga que sou aqui ou que vá dizer lá fora para os policiais?” rebateu, arrancando risos e demorados aplausos.
Clementino iria demonstrar um grande desassombro não só diante dos estudantes, como, mais tarde, ao enfrentar a polícia. “Além de tudo ele era hábil”, depõe Vladimir. “Opôs-se a algumas teses nossas e dizia, quando era o caso ‘isso aqui, não’. Foi obrigado a conversar com a gente mas manteve um comportamento correto. Os outros professores só se levantavam para dizer: ‘concordo com os estudantes em gênero, número e grau’.
Às 15h30min, chegou a notícia de que tinham sido presos dois funcionários da UFRJ, além de vários estudantes, e de que chegava mais um carroção do DOPS. O reitor decidiu então sair para pedir a retirada do dispositivo policial.
Enquanto isso, a assembleia continuava ouvindo os professores, que em geral ressaltavam o caráter comum das reivindicações de mestres e alunos. O professor Hélio Luz, o diretor do Instituto de Nutrição, chegou a perguntar: “Como podemos ser contra vocês, se aí ao lado muitos de nós temos nossos filhos e filhas?”
Às 16h30m, voltava o incansável Clementino Fraga Filho informando que tivera entendimentos com o chefe do policiamento, obtendo a garantia de que os estudantes não seriam molestados, “desde que saiam em ordem, em pequenos grupos, sem fazer passeata ou qualquer manifestação”.
Mesmo assim, o reitor não ficou satisfeito com a resposta e disse que iria pedir diretamente ao governador Negrão de Lima para “retirar o policiamento”.
Às 18h30min, Clementino voltava finalmente com uma definitiva informação: dentro de 10 minutos as tropas seriam retiradas:
“O governador atendeu à solicitação de que saísse tanto o esquema ostensivo, como o de policiais à paisana”, informou o reitor, debaixo de uma aclamação.
Eles saíram e foram massacrados – da maneira como os jornais mostraram no dia seguinte. Todos tinham sido traídos, inclusive, ao que tudo indica, o próprio governador. O secretário de Segurança teria preferido obedecer ao comando do I Exército.
Se fosse possível precisar o momento exato em que o governo Costa e Silva perdeu definitivamente a batalha pela conquista da opinião pública, esse momento estaria situado entre os dias 19, 20 e 21 de junho – quarta, quinta e sexta-feira. Mais por insensatez própria do que por estratégia do adversário, as autoridades estaduais e federais, em três dias, atraíram para si o ódio da classe média, e aceleraram o que na época se chamava de “ascenso do ME”.
A morte de Édson Luís já tinha provocado uma grande comoção, a repressão na porta da Candelária chocara e indignara, mas o que de fato levou a população a tomar partido, a se revoltar, a entrar fisicamente na guerra, foi a “sexta-feira sangrenta”.
Graças a ela, a cidade estava quase pronta para a Passeata dos 100 Mil.”


“Se cada época tem o seu som, o de 68 vai ser encontrado nas ruas, em meio aos ruídos de bombas, cascos de cavalos, sirenes.”


“– O senhor se lembra daquela foto do Vladimir na Passeata dos 100 Mil publicada pela revista O Cruzeiro, cercado de seguranças? – diverte-se agora o general no seu apartamento na Tijuca. – Pois bem, pelo menos três deles eram sargentos nossos.
O general lamenta não ter, para mostrar, um pôster que durante muito tempo ornamentou o departamento por ele dirigido na época.
– Se o senhor quiser, traz aqui uma revista que eu mostro. Agora não tem mais perigo porque os três já estão mortos.
Não é por falta de orgulho que esse general se mantém no anonimato, e sim por recato e segurança. Na época ele era um poderoso coronel que ajudou a implantar um dos órgãos de informação das Forças Armadas. Suas convicções ideológicas hoje provocam riso pela extravagância da radicalidade – e porque estão em recesso. Ele é um general da reserva.
– Dizem que eu sou de direita, mas isso é uma injustiça. Nunca fui e não sou de direita. O seu rosto, habitualmente sisudo, começa a esboçar um sorriso que promete mais do que sua boca acaba de dizer. Uma demorada tragada protela o desfecho. Ele já deve ter testado antes o efeito desse suspense. Finalmente diz:
– Eu sou de extrema-direita.
O número é de fato irresistível. Num país onde é raríssimo alguém se confessar de direita, dizer-se orgulhosamente de extrema-direita não deixa de ser um feito inédito. A gargalhada que se ouve agora vai na certa anunciar outra atração:
– Eu estou à direita de Hitler, eu estou à direita de Gengis Khan.
Em fevereiro de 1988 essas declarações, como não têm consequências práticas, produzem hilaridade. Mas em fins da década de 60, começos de 70, a cabeça que defende essas ideias ajudava a pensar a estratégia da repressão.”


“A ocupação militar, causara um forte trauma na população da capital federal, especialmente entre os parlamentares. Protegidos por 200 soldados da PM, 100 agentes do DOPS haviam invadido o campus universitário para prender o estudante Honestino Guimarães, presidente da Federação dos Estudantes universitários de Brasília, e mais quatro colegas que estavam com prisão preventiva decretada. Foi uma operação de guerra utilizando metralhadoras, mosquetões, pistolas, cassetetes e vários tipos de bombas.
Ao ser arrastado pela polícia, Honestino pediu socorro, dizendo que estavam quebrando seu braço. O major José Leopoldino Silva, do Serviço Secreto da XI Região Militar não se comoveu: “Hoje é nosso dia!” gritou. Os colegas de Honestino reagiram com paus e pedras e se refugiaram no Instituto Central de Ciências. Eram cerca de 500 Estudantes resistindo ao cerco e à invasão dos soldados. A batalha durou 20 minutos. No final, o aluno Valdemar Alves da Silva Filho estava caído, ferido com um tiro na testa com risco de perder um olho. Após se renderem, os estudantes foram levados para a quadra de basquete.
Nessa altura, vários parlamentares já chegavam ao campus, ou para prestar solidariedade aos estudantes, ou à procura de filhos. Um dos primeiros a chegar foi o deputado Santili Sobrinho, acompanhado do filho, em busca da filha. Foi logo cercado por soldados e, enquanto se identificava, o cassetete descia sobre a cabeça do filho. Abraçou-se então ao rapaz para protegê-lo e passou a apanhar também. “Eu sou deputado”, apelou, e foi pior. “É por isso mesmo”, gritaram as dez vozes que brandiam os cassetetes. O deputado Davi Lerer teve um cano de metralhadora encostado no umbigo. “Senti o frio do aço”, revelou depois. Os seus colegas Mário Covas, Martins Rodrigues, Amaral Peixoto, entre outros, passaram por situações parecidas. Covas estava traumatizado: “Dessa vez ninguém me contou, eu vi tudo. Foi horrível”. Mais sintomática, porém, foi a reação do deputado Clóvis Stenzel, da Arena, conhecido por suas posições radicais. Estarrecido com o que estava assistindo, disse: “Eu, que sou identificado como homem da linha-dura, acho tudo isso uma barbaridade”.
Eram compreensíveis o clima de indignação e a violência dos discursos no Congresso nos dias que se seguiram àquelas cenas de guerra. Por isso, ao chegar a sua vez, Márcio Moreira Alves, o Marcito, se perguntava: “Que é que eu vou dizer?” Já caminhava em direção à tribuna quando lhe veio como inspiração a lembrança da peça Lisístrata. O discurso começou advertindo que estava próximo o 7 de Setembro e as “cúpulas militares”, certamente, iriam pedir aos colégios que desfilassem “junto aos algozes dos estudantes”. O orador chamava a atenção dos pais de que “a presença de seus filhos nesse desfile é um auxílio aos carrascos que os espancam e os metralham nas ruas”. E perguntava: “Até quando o Exército vai ser o valhacouto de torturadores?”. (...)
Por mais desastrado que tenha sido o pronunciamento de Marcito, costuma-se insistir, à direita e à esquerda, na injustiça de considerá-lo a causa da edição do AI-5 – e não apenas um pretexto. Nos últimos vinte anos, armazenaram-se dezenas de indícios comprovando que naquela altura do ano as forças radicais, cada vez mais fortes dentro do governo, não mais abririam mão das medidas de exceção. A própria invasão da UnB fazia parte desse plano de empurrar o país a um impasse cuja solução levasse ao endurecimento. Às sete horas da noite da quarta-feira, 28, véspera da invasão, o presidente Costa e Silva terminava o expediente acompanhado do seu chefe da Casa Civil, Rondon Pacheco, do chefe do SNI, general Garrastazu Médici. A outra pessoa presente, o secretário de Imprensa Heráclio Sales, descreve a cena: “Ele estava com o rosto sombrio e o sobrecenho caído, sintoma inconfundível de preocupação”. Antes de se retirar, Costa e Silva resolveu mandar chamar o chefe do Gabinete Militar:
– Portella, diga a essa gente que, contra a universidade, nada. Eu quero ir para casa tranquilo.
– Pois fique tranquilo, presidente, que eu tomo conta disso – respondeu Portella, enquanto pegava o telefone para transmitir a recomendação presidencial àquela “gente”, que eles sabiam de quem se tratava.
Só então Costa e Silva se dirigiu para o Alvorada.
Na manhã seguinte, ele seria surpreendido com a invasão e o espancamento de parlamentares, violências que, sem dúvida, estavam previstas na operação.
“Não é a primeira vez que isso acontece”, disse em editorial o Jornal do Brasil. “Tudo indica que os auxiliares diretos do presidente da República se desvelam para que ele seja o último a saber das ”.
“Nessa altura”, acredita Heráclio, “a situação já fugia do controle dele”.
No dia 30, uma sexta-feira, a “Coluna do Castello” informava:
Partiu do Ministro da Justiça, professor Gama e Silva, a ordem para a Polícia Federal invadir a UnB e retirar de lá estudantes que estavam com prisão preventiva decretada. Não se sabe se a operação correu ao gosto do professor, mas pode-se antecipar que os resultados políticos da agressão armada cobrem os notórios objetivos do ministro que mais pleiteia do presidente medidas de exceção. A ordem, executada com requinte, elimina as veleidades do governo de criar no país um clima de otimismo e repõe no ambiente aquela ansiedade pânica, que é a matéria-prima dos radicais.
O ministro Gama e Silva apressou-se em desmentir Castelinho, que manteve taxativamente o que havia escrito, resguardando no entanto a fonte – aliás, das melhores. Agora, o colunista pode revelar: Jarbas Passarinho. Ao ministro do Trabalho, aborrecido e preocupado com aquela violência, o boquirroto Gaminha havia confessado que ele mesmo ordenara a invasão. (...)
No dia seguinte ao discurso, Marcito comprou os principais jornais do país. Só em um, a Folha de S. Paulo, num canto de página, encontrou um pequeno registro do seu feito.
Em suas memórias desses tempos, o general Jayme Portella escreveu que o que mais irritara os militares fora o destaque dado pelos jornais: “O discurso daquele deputado havia sido publicado em toda a imprensa, servindo de manchetes”. Era uma completa inverdade.
A ausência de noticiário, porém, não impediu que os quartéis recebessem dezenas de cópias do texto e que, em seguida, o Gabinete Militar passasse a ser inundado por uma suspeita correspondência exigindo revanche.
“Foi como uma chuva sobre o Palácio”, conta Heráclio. “Uma chuva torrencial de telegramas de todas as guarnições militares, exigindo punição para o autor do discurso. Era, evidentemente, uma coisa organizada”.
Era setembro, a nossa primavera ia começar. Para a política, uma primavera às avessas.”


“No primeiro dia do mês, o deputado Maurílio Ferreira Lima, do MDB de Pernambuco, denunciava na Câmara um plano de policiais da Aeronáutica para desvirtuar as funções do Para-Sar, uma unidade de paraquedistas especializada em socorro e salvamento, principalmente na selva. O plano previa a sua utilização no sequestro de 40 líderes políticos, que seriam “lançados de avião a 40 quilômetros da costa, no oceano”, entre outras operações.
Na mesma edição em que o discurso do deputado era publicado, noticiava-se a exoneração do major-brigadeiro Itamar Rocha do cargo de diretor-geral de Rotas Aéreas do Ministério da Aeronáutica. A exoneração, seguida de uma prisão domiciliar por dois dias, era consequência do que ficou sendo conhecido como “Caso Para-Sar”. (...)
Começava a ser desvendado naquele inicio de mês um dos mais sinistros planos terroristas da nossa história contemporânea. Se tivesse tido sucesso, a operação provocaria não só a execução de personalidades políticas, mas também a morte de cerca de 100 mil habitantes do Rio, já que previa a explosão de um gasômetro no início da avenida Brasil, às 18 horas, isto é, na hora do rush, e a destruição da represa de Ribeirão das Lajes. A responsabilidade pelos atentados seria atribuída aos comunistas.
Para quem – como os radicais de direita – buscava um pretexto para dar início à caça às bruxas, nada mais diabolicamente perfeito.
Um militar, sem motivação ideológica ou partido político, impediu a sua execução: o capitão paraquedista Sérgio Ribeiro Miranda de Carvalho, que, 20 anos depois, ainda sofre as consequências de seu ato heroico.
A resistência do capitão Sérgio levou um dia o lendário brigadeiro Eduardo Gomes, um dos “18 do Forte”, a escrever:
Foi a admirável ação de um simples capitão, verdadeiramente inspirado por Deus, que evitou outros rumos para a história do Brasil.
Que “admirável ação” seria essa, capaz de mudar os rumos de nossa história? O clímax desse script de horror, que o diretor Costa-Gavras quis filmar, pode ser situado numa reunião realizada as 13 horas do dia 14 de junho, no 11º andar do prédio do então Ministério da Aeronáutica, na avenida Churchill, centro do Rio. Eram mais de 40 as pessoas ali reunidas guardadas por uma dezena de soldados armados de metralhadoras – para ouvir a exposição do brigadeiro João Paulo Burnier, que respondia pela chefia de Gabinete do ministro da Aeronáutica.
Tenso, andando de um lado para o outro, esmurrando a própria mão, o orador passou a informar quais seriam as novas tarefas do Para-Sar:
1. No caso de uma guerra, ante a necessidade e resgatar um companheiro ou prisioneiro, a exemplo do que faz o Para-sar dos Estados Unidos no Vietnã, o Para-sar poderia matar para cumprir sua missão;
2. No caso de uma guerra civil, contrarrevolucionários compatriotas, estes teriam que ser eliminados pelos homens do Para-Sar:
3. No caso de paz, mas em agitações de rua, o para-sar também deveria desempenhar a mesma missão.
A Terceira hipótese vinha acompanhada com observações como estas:
Para cumprir missões de morte na guerra, é preciso matar na paz.
Matar com sangue frio, sem que a mão trema, como aconteceu com os companheiros do exército, os paraquedistas.
Figuras políticas como Carlos Lacerda, esse canalha, que alguns pensam que é meu amigo, já deveriam estar mortas, senão fosse a mão dos paraquedistas ter tremido, eles se perderam em considerações se a ordem era certa ou errada; ordens dessa natureza não comportam perguntas nem dúvidas, cumprem-se e não se fazem comentários posteriores;
Elementos indesejáveis serão lançados de navio, ou avião, a 40 quilômetros da costa.
Ao final da explanação, o brigadeiro dirigiu-se a alguns oficiais:
– Concorda comigo, major?
– Sim, senhor – respondeu o comandante da esquadrilha, major Gil Lessa de Carvalho.
– E o senhor, capitão Guaranys?
– Sim, senhor – disse o capitão Roberto Camara Lima Ipiranga dos Guaranys.
A mesma pergunta, seguida das mesmas respostas, foi feita ainda ao capitão Loris Areias Cordovil ( Bororó) e ao tenente João Batista Magalhães.
A essa altura, o capitão Sérgio já estava irritado, revela agora, “porque as perguntas tinham sido feitas justamente aos quatro pilantras que estavam na trama”.
– E o senhor, capitão Sérgio?
Burnier gritou essa pergunta com o rosto quase colado ao do interlocutor, de tal maneira que este teve a sensação de estar sendo cuspido, o que aumentou a sua irritação:
– Com as duas primeiras hipóteses, concordo. Mas não concordo com a terceira, que considero imoral, inadmissível a um militar de carreira. Enquanto eu estiver vivo isso não acontecerá neste país.
Olhos nos olhos, as armas a alguns centímetros das mãos, entre os dois só havia lugar para a espuma que saía junto com os gritos.
– Não se estenda em considerações – berrou o brigadeiro. – Cale a boca!
– Não me calo e o ministro será sabedor desses fatos – revidou no mesmo tom o capitão.
Os gritos provocaram uma perigosa movimentação na sala. De repente, os jovens portadores de metralhadoras se viram praticamente cercados pelos sargentos e cabos do Para-Sar. A tensão se espalhava. “Nós dois estávamos armados”, relembra Sérgio, “e ele deveria ter dado voz de prisão. Se desse, eu não acataria e tudo poderia ocorrer ali. Mas ele, que depois passaria à história como um emérito torturador, assassino, de vermelhão ficou lívido. Baixou a cabeça e se retirou da sala, acompanhado dos quatro pilantras”. (...)
Tempos depois, o capitão recebia uma mensagem de rádio, cifrada do Brigadeiro Burnier convocando-o para uma reunião. No dia 12 de junho Sérgio era recebido no gabinete do ministro da aeronáutica por Burnier e pelo Brigadeiro Hipólito da costa, recém-chegado da zona do canal do Panamá. (...)
– O senhor tem quatro medalhas por bravura, não tem? – perguntou Burnier.
Aos 37 anos, com seis mil horas de voo e 900 saltos em missão, Sérgio já tinha de fato recebido quatro “medalhas de sangue em tempos de paz”. O seu trabalho nas selvas, salvando índios e pacificando tribos, transformara-o numa legenda dentro do Para-Sar, que ajudou a fundar e tinha atraído a admiração de indianistas como os irmãos Vilas-Boas, o médico Noel Nutels e o antropólogo Darcy Ribeiro. Amigo de caciques como Raoni, Kremure, Kretire, Megaron e Krumari, entre outros, o “Nambiguá caraíba” (Homem branco amigo), como era conhecido pelos índios, chegara a evitar uma guerra entre os txucarramães e os jurunas e kaiabis, pulando de pára-quedas no meio dos guerreiros.
Sérgio limitou-se a responder “sim” ao seu superior.
– Pois a quinta – anunciou com orgulho Burnier –, quem vai colocar no seu peito sou eu.
As razões para essa prometida condecoração iriam deixar o capitão estarrecido. Ele chegou a achar que estava participando de uma sessão de humor negro. Não era possível ser verdade.
– Capitão, se o gasômetro da avenida Brasil explodir às seis horas da tarde, quantas pessoas morrem?
Sérgio quis ainda acreditar que a pergunta se referia à hipótese de um acidente.
– Nessa hora de movimento, umas 100 mil pessoas.
O comentário seguinte ainda não esclarecia tudo:
– É, vale a pena para livrar o Brasil do comunismo.
De repente, como num pesadelo, o horror ia ganhando forma. Aquilo era um plano, não havia mais dúvida, e previa várias missões, uma das quais seria o sequestro de 40 personalidades, a serem lançadas ao mar. E cinco já estavam até escaladas: Carlos Lacerda, Jânio Quadros, Juscelino Kubitschek, Dom Hélder Câmara e o general Olímpio Mourão Filho. As outras seriam anunciadas de cinco em cinco.
A primeira parte do plano programaria “pequenos incidentes”, já que a escalada terrorista deveria ser gradativa: cargas na porta da Sears, do Citybank, da Embaixada Americana, com pequeno número de mortes.
“Num dia X, que ele definiria, o clímax do processo: as explosões do gasômetro e de Ribeirão das Lages no mesmo instante, controladas por controle remoto”.
As cargas de efeito retardado, seriam colocadas pelo capitão Sergio, que ficaria de stand by no Campo dos Afonsos. “Quando aparecesse o clarão da direita, o do gasômetro, nós decolaríamos de helicópteros e aportaríamos no local da tragédia para dar socorro aos milhares de feridos e mortos”.
Como o ato seria atribuído aos comunistas, o capitão Sérgio, comandando a equipe de socorro e resgate surgiria naturalmente como herói – um herói capaz de receber sua quinta medalha. (...)
Punido logo com uma transferência para o Recife, julgado e absolvido pelo Superior Tribunal Militar, reformado pela Junta Militar em setembro de 69, o capitão Sérgio poderia ter sido anistiado, mas recusou a anistia.
“Anistia-se a quem cometeu alguma falta”, costuma dizer. “Eu não posso ser anistiado pelo crime que evitei”. (...)
Perseguido e discriminado, Sérgio teve que viver durante anos, da solidariedade moral e material de alguns amigos. Em 1970, necessitando de um tratamento da coluna, foi aconselhado a não se internar em hospital militar. Um médico da Aeronáutica avisou Eduardo Gomes: “A vida do Sérgio, se ele entrar em um hospital militar de qualquer das três armas, não vale 10 centavos”.
Graças ao jornalista Darwin Brandão, com o auxilio do médico Sérgio Carneiro, o oficial acabou sendo tratado clandestinamente no Hospital Miguel Couto. Um outro amigo, ex-capitão da Marinha e empresário, ajudou-o com 3 mil dólares. (...)
No começo de 88, ao prestar um depoimento para este livro, o ex-ministro da Aeronáutica Márcio de Souza Mello não deu a menor importância ao episódio: “O senhor conhece esse rapaz? Ele, sim, é que tinha esse plano”. Mesmo quando se alega o testemunho de 37 cabos e sargentos do próprio Para-Sar, o brigadeiro tem um argumento definitivo para quem está acostumado a hierarquizar o mundo, as coisas e até o valor das palavras de acordo com as patentes: “É a palavra de cabos e sargentos contra a palavra de oficiais”.
Num momento em que a insanidade ameaçou se transformar em norma, esse estranho no ninho pareceu de fato um louco. Mas foi graças ao seu não que hoje se conta essa história como se ela não tivesse passado de um pesadelo, desses que desaparecem com o amanhecer.
Ao recusar sua quinta medalha, escolhendo uma guerra perdida, o capitão Sérgio virou um personagem de Camus – um herói solitário, um herói ético, um homem revoltado pela própria consciência, só por ela.”


“O hoje coronel Aguiar ainda se lembra da expressão do presidente. “As olheiras profundas indicavam que ele não tinha dormido aquela noite”. Assim, quando o general Médici chegou para transmitir o seu relato da situação, Costa e Silva já tinha lido os jornais e ouvido o noticiário radiofônico – todos devidamente censurados. Faltava apenas ouvir o que o general Médici guardara para o final da sua exposição:
– O senhor não caiu durante a noite porque é o senhor. Outro no seu lugar teria caído.
Bondade do futuro ditador. Na verdade, Costa e Silva não caiu porque durante a noite, de maneira velada ou explícita, vazou a única informação que poderia aplacar a voracidade dos radicais (que exigiam a radicalização da ditadura): o presidente estava decidido a capitular.”


“Pela movimentação da véspera, podia-se esperar uma sexta-feira, 13, cheia de desassossego. Mas nem a superstição podia adivinhar que aquele dia iria durar mais de uma década. Costa e Silva, segundo seus exegetas, acreditava que o AI-5 acabaria em oito ou nove meses. Costa e Silva acabou antes.
Naquele dia 13, o marechal seria protagonista de um espetáculo em que 22 dos 23 figurantes pareciam dirigidos pela estética de José Celso Martinez Corrêa, que era capaz de dar a uma tragédia a forma de farsa, misturando chanchada, teatro de revista, circo e Chacrinha. Em apenas um ato, os atores que comandavam o país representaram todas as alegorias que o Tropicalismo havia posto na moda: o Cinismo, a Hipocrisia, o Servilismo, a Pusilanimidade, a Lisonja, a Subserviência. Mas isso foi mais tarde.
Às 9h30min da manhã, como estava programado, o presidente compareceu à Escola Naval para presidir as solenidades de formatura de cadetes e a entrega da Ordem do Mérito Naval. Acompanhado dos seus oficiais de gabinete, Costa e Silva foi recebido pelo ministro Augusto Rademaker, pelo comandante da Escola e por outros oficiais.
Antes da cerimônia de declaração dos novos guardas marinha, haveria a entrega das condecorações no pátio externo da Escola Naval.
Enquanto a comitiva presidencial passava por entre as 111 personalidades a serem agraciadas – militares, senadores, deputados, embaixadores – o discreto secretário de imprensa, a alguns metros de distância ia observando a reação dos diversos militares presentes – do exército, da Aeronáutica e da Marinha. Heráclio viu, por exemplo, quando um coronel do Exército encontrou-se com o general César Montagna e perguntou:
– Olá chefe. Como que está o senhor?
– Como é que posso estar rapaz? Estou com meu clube, quero o AI-5.
Como membro da comitiva, o major D’Aguiar pôde perceber o mal-estar do ambiente:
O lugar estava engalanado, muito bonito, mas nós fomos mal-recebidos; as fisionomias estavam fechadas, carrancudas, não havia aquela espontaneidade, alegria de outras solenidades. O presidente foi recebido quase friamente. Estava todo mundo desconfiado de todo mundo.
Talvez por isso, o general Portella tenha tido que repetir tantas vezes o que dissera a noite toda, sem trair o segredo, mas como uma senha: “Não sei qual é a decisão, mas é pra valer”.
Da solenidade na Escola Naval, o presidente foi direto para a reunião com seu alto comando, às onze horas no Laranjeiras, onde pediu a cada um dos presentes que desse a sua opinião sobre a medida que iria adotar. Ao chegar atrasado, o ministro da justiça provocou os dois únicos momentos de riso daquele encontro de tenebrosas intenções: o primeiro, quando o presidente resolveu gozar o atraso de Gama e Silva; o segundo, quando esse fez a sua exposição, começando por ler um manifesto à nação, para em seguida propor um ato adicional tão radical que o próprio Lira Tavares interrompeu-o, arrancando risos gerais:
– Assim, não, Gama; assim você desarruma a casa toda.
Gama e Silva propunha o recesso do Supremo Tribunal Federal e um fechamento definitivo do Congresso, das Assembleias e das câmaras de vereadores. Não era aquilo que o presidente queria. Gaminha não se abalou: tirou rapidamente da pasta o rascunho de outro texto menos drástico.
A reunião não ofereceu surpresas. Costa e Silva levara anotações das medidas a serem tomadas e, no final, pediu ao ministro da justiça e ao deputado Rondon Pacheco que transformasse o esboço no que viria a ser o Ato Institucional nº 5. Mas antes, por sugestão de Rondon, mandou chamar os ministros do Planejamento e da Fazenda para saber se a medida provocaria repercussões negativas na política econômico-financeira do governo. Jayme Portella, o emissário da convocação, relata: “Os ministros Hélio Beltrão e Delfím Neto declararam que nada a afetava, podendo ser o ato editado tranquilamente”.
Logo depois da reunião preliminar, às 13 horas, o presidente autorizou que as decisões ali tomadas fossem comunicadas, em “caráter sigiloso”, aos escalões subordinados.
Alguns ex-assessores do presidente Costa e Silva alimentam até hoje a ilusão de que, se o ato proposto tivesse encontrado uma razoável oposição, alguma fórmula menos radical teria sido encontrada.
“Estou convencido”, diz D’Aguiar, “que se houvesse uma divisão grande – Pedro Aleixo, por exemplo, e mais oito ou nove de um lado – o presidente procuraria outra solução que não o AI-5”.
Como é uma hipótese, vale a pena introduzir outra: se, antes mesmo da oficialização, os principais escalões das Forças Armadas iam tomar conhecimento da decisão, que exigiam impacientemente há pelo menos 24 horas, seria possível admitir outro desfecho para a reunião das 17 horas?
Por uma razão ou por outra, Costa e Silva resolveu realizá-la com toda a liturgia de uma reunião histórica, decisiva, embora na prática ela só tivesse valor simbólico, já que o Conselho de Segurança Nacional, sem poder deliberativo, iria apenas sancionar uma decisão já tomada.
O presidente apresentava naquela tarde a disposição de quem se preparara para não perder nada do espetáculo que ia dirigir; nem a excitação em que se encontrava ele queria diminuir. Quando, às 16 horas, o seu médico, Dr. Élcio Simões, tirou-lhe a pressão e, assustado quis medicá-lo imediatamente,– segundo D’Aguiar, ela atingira 20 por 13, Costa e Silva retrucou:
– Não, hoje preciso dela bem alta.
Com a pressão mantida, o presidente Costa e Silva abriu uma hora depois, a 43ª sessão do Conselho de Segurança Nacional, no salão de despachos no segundo andar do palácio das Laranjeiras.
Quando era conduzido do seu gabinete pelo general Portella, o presidente encontrou o seu vice, a quem fez o carinho de segurá-lo pelo braço e levá-lo a um canto para uma conversa a dois. Segundo várias testemunhas, inclusive familiares, um tinha pelo outro muito apreço e respeito. “Dificilmente” – escreveria mais tarde José Carlos Brandi Aleixo num livro sobre o pai, “se encontrará na história republicana, um relacionamento tão correto e cordial entre um presidente e um vice como no caso de Costa e Silva e Pedro Aleixo”. Aleixo era tido como um conselheiro que pesava nas decisões do presidente, embora naquele dia isso não fosse ocorrer.
Observadores da cena, como Portella e D’Aguiar, calculam que os dois tenham conversado ali na porta do salão uma meia hora. Para quem estava ansioso em começar a reunião, olhando o relógio a cada instante e chamando a atenção do chefe do gabinete militar para o horário, o tempo gasto na conversa dava a medida da importância do interlocutor.
Aleixo que não participara da reunião das onze horas – vindo de Belo Horizonte, ele chegou depois, acompanhado do ministro Passarinho – expunha a sua desaprovação à medida a ser adotada. O vice procurava convencer o presidente de que o Estado de Sítio era o instrumento constitucional indicado para resolver a crise. A conversa foi interrompida quando os membros do conselho já estavam entrando no salão para ocupar seus lugares, em frente aos quais havia uma pasta com algumas folhas de papel datilografadas.
Na cabeceira, dois gravadores iriam funcionar como incômodos instrumentos da História.
Em volta da mesa e do presidente estavam sentados, os ministros e chefes do Estado Maior, isto é, as 24 autoridades mais poderosas do país. Costa e Silva abriu a reunião anunciando que o momento era crítico e por isso teria que tomar “uma decisão optativa”: ou a revolução continuava ou se desagregava.
Ele acreditava que todos ali, além do povo, eram testemunhas do seu empenho em promover a união da área política e da área militar.
Demonstrando ressentimento pelo que classificava de falta de apoio político, o presidente não se conformava com a recusa do Congresso. As “considerações” que o seu governo dispensara aos políticos já lhe tinham criado inclusive problemas na área militar e revolucionária.
O presidente declarava não ter apego ao cargo e desejava chegar rapidamente ao fim do governo para passá-lo a quem pudesse promover a “harmonia entre a área política e a área militar, porque sem ela o Brasil irá à desagregação”.
Em seguida, comunicou que se retiraria por uns 15 minutos para que os conselheiros pudessem ler mais à vontade o documento que estava nas pastas, o AI-5.
Vinte minutos depois, Costa e Silva voltava ao salão, conduzido pelo general Portella, e dava a palavra a Pedro Aleixo, “a maior autoridade deste conselho”.
O tom sereno do discurso do vice-presidente, a segurança da argumentação e a coragem de enfrentar uma plateia contrária, iriam impressionar até quem dele discordava, como o então major D'Agiar, que ainda se comove com a lembrança: “Ele parecia tocado pelo Divino Espírito Santo: fez uma corajosa, emocionante, brilhantíssima exposição”.
O orador começou sustentando que o caso Márcio Alves deveria ser encaminhado mais na área política do que propriamente na área jurídica, porque não seria legítimo esperar da Câmara um processo contra um dos seus membros por palavras proferidas durante os discursos, em debates ou em votos e pareceres. Ele não considerava “aconselhável”, do ponto de vista jurídico, a representação ao Supremo Tribunal Federal. Como o ato praticado implicaria o máximo, segundo Aleixo, crime de injúria, difamação e calúnia, as possíveis sanções ao deputado não poderiam ter o alcance da perda de mandato. O vice-presidente reconhecia o impacto do discurso nas Forças Armadas e admitia ser aquele “um dos momentos mais graves e mais difíceis para a vida nacional”.
Nesta oportunidade, pois, o que me parece aconselhável seria, antes do exame, de um ato institucional, a adoção de uma medida de ordem constitucional que viesse a permitir um melhor exame do caso em todas as suas consequências. A medida seria a suspensão da constituição por intermédio do recurso do estado de sitio, acrescento senhor presidente, que da leitura que fiz do ato Institucional cheguei a sincera conclusão de que o que menos se faz nele, é resguardar a Constituição (...) Da constituição, que é, antes de tudo, um instrumento de uma garantia dos direitos da pessoa humana e da garantia dos direitos políticos, não sobra, nos artigos posteriores, absolutamente nada que possa ser realmente parecido com uma caracterização do regime democrático (...) Pelo Ato Institucional, o que me parece, adotado este caminho, é que estaremos com uma aparente ressalva da existência de vestígios dos poderes constitucionais decorrentes da Constituição de 24-1-67, e instituindo o processo equivalente a uma própria ditadura.
Enfim, a palavra que dava nome real aos verdadeiros objetivos daquela solene encenação: ditadura. Aleixo admitia que pudesse haver necessidade de adotá-la, mas nesse caso, do ponto de vista jurídico, não havia dúvida: “O Ato Institucional elimina a própria Constituição”. Ele não entendia nenhum ato institucional que não significasse “uma nova revolução”, que não era, para ele, como “a de 31 de março de 1964”.
“Um dos estudiosos do período, o jornalista Elio Gaspari – quem talvez mais se tenha debruçado sobre os documentos dessa época – acha que Pedro Aleixo cometeu o monumental equívoco de fixar-se numa argumentação jurídica aceitando a possibilidade da ditadura, desde que, ela não se pretendesse constitucional”. Gaspari baseia-se, principalmente, no trecho em que o vice-presidente afirma: “Caso se torne necessário se fazer essa Revolução, é uma matéria que pode ser debatida e acredito até que se possa demonstrar que essa necessidade existe”. Segundo o jornalista, que está escrevendo um livro sobre os governos militares, a linha de argumentação de Aleixo desabou à medida em que ele estava numa mesa de senhores interessados em proclamar uma ditadura, e não em discutir a legalidade do ato”.
Mesmo assim, há indícios evidentes de que o discurso de Pedro Aleixo desagradou a maioria dos presentes, não só pela impaciência com que alguns o ouviram– a ponto de obrigar o presidente, a certa altura, a pedir silêncio – como pelos votos que se seguiram, todos os 22 a favor da edição do AI-5.
Quanto à reação do presidente, há um mistério. Observadores da reunião, como Heráclio Sales e Hernani D’Aguiar, um, assessor de Imprensa, e outro, de Relações Públicas, o primeiro contra o AI-5 e o segundo a favor, mas tendo em comum a mesma vontade de isenção., afirmam que Costa e Silva ficou tão impressionado com a fala de Aleixo que pediu ao sargento que cuidava dos gravadores que voltasse a fita. O pretexto era dar oportunidade aos que, sentados do outro lado da mesa, não perdessem nada do que fora dito. Na verdade, conforme aquelas testemunhas, Costa e Silva teria usado um hábil estratagema para, quem sabe, abalar algumas das convicções presentes e até reverter opiniões.
“Ele tinha esperança de que o Conselho de Segurança Nacional votasse contra”, garante Heráclio que reconstituiu o episódio:
Ficou aquele silêncio constrangedor e a voz de Pedro Aleixo massacrando novamente aquele colegiado todo favorável ao AI-5. Os argumentos jurídicos, políticos, éticos, morais e de conveniência apresentados com aquela lucidez, aquela articulação verbal, um negócio extraordinário.
O depoimento do assessor de Relações Públicas é semelhante.
Ouvida a mesa, determinou o presidente que se repetisse a gravação de toda a exposição de Pedro Aleixo. Talvez movido pelo seu subconsciente, recomendou que todos meditassem sobre as palavras do “ilustre brasileiro Pedro Aleixo”. No mais profundo e respeitoso silêncio, a gravação foi escutada por inteiro. Depois disso o presidente perguntou a cada um dos presentes se mantinham o voto anterior, ou se modificava em face da argumentação repetida.
D’Aguiar não entende porque o seu amigo Jayme Portella não registrou a cena – logo ele, um arguto repórter moderno, nunca desprezou detalhes de hora, clima, gestos, inclusive pequenos flagrantes do presidente fazendo palavras cruzadas em momentos críticos –, enfim tudo aquilo que faz do seu livro, ainda que mal escrito, imprescindível documento para a reconstituição da época.
O único registro oficial da 43ª reunião do Conselho de Segurança Nacional, porém, não se refere ao incidente. Nem a gravação feita por dois gravadores, nem a consequente ata da histórica sessão, arquivadas sigilosamente na Secretaria-Geral do CSN, fornecem sequer vestígios da cena. Sensível, a fita era, porque em uma hora de gravação captou inclusive ruídos de sirene vindos do exterior.
Também a cópia do discurso do vice-presidente, que o general Golbery do Couto e Silva ofereceu à família Aleixo, não contém qualquer registro do gesto de Costa e Silva.
Toda essa controvérsia, no entanto – se a cena de fato ocorreu, se o trecho foi apagado –, tudo isso poderia ser facilmente esclarecido, assim como o verdadeiro desempenho dos personagens. Talvez por efeito do tempo, o que eles disseram na histórica sessão do CSN tem sido oferecido à opinião pública em versões que, ou foram maquiladas pela imaginação, ou sofreram reparações cosméticas operadas pela vergonha retrospectiva de cada um. Neste ano de 88, quando a edição do AI-5 completa duas décadas e a Constituinte extinguiu o CSN, criando o Conselho de Defesa Nacional, alguns dos signatários – como Passarinho, Beltrão, Delfim, por exemplo – prestariam um grande serviço a suas biografias e à História tentando liberar o acesso à fita e à ata, se é que não têm nada a temer.
De mais a mais, a não ser por um suspeito sigilo, não existe razão para manter secreto o registro de uma reunião que foi ostensivamente gravada para a posteridade e da qual participaram duas dúzias de personalidades, além da assistência de uma dezena de observadores: assessores, ajudantes-de-ordens e oficiais de gabinete.
A rigor, o único que deveria temer pela divulgação da fita seria José Celso Martinez Corrêa, porque ela permite descobrir que na verdade a mais autêntica encenação tropicalista do ano não saiu de sua cabeça.
Mas de qualquer maneira, com ou sem reprise, o memorável discurso de Pedro Aleixo não mudou a opinião de qualquer dos outros 22 conselheiros.
Para votar a proposta presidencial, estavam ali dez oficiais-generais (Augusto Haman Rademaker Grunewald, ministro da Marinha; Aurélio de Lira Tavares, ministro do Exército; Márcio de Souza Mello, ministro da Aeronáutica; Afonso Albuquerque Lima, ministro do Interior; Emílio Garrastazu Médici, chefe do SNI; almirante Adalberto de Barros Nunes, chefe do Estado-Maior da Armada; general Adalberto Pereira dos Santos, chefe do Estado-Maior do Exército; general Orlando Geisel, chefe do Estado-Maior das Forças Armadas; tenente-brigadeiro Carlos Alberto Huet Sampaio, chefe do Estado-Maior da Aeronáutica; e general Jayme Portella, chefe da Casa Militar, três oficiais da Reserva (Mário David Andreazza, ministro dos Transportes; Jarbas G. Passarinho, ministro do Trabalho e Previdência Social; e José Costa Cavalcanti, ministro das Minas e Energias) e dez civis (Pedro Aleixo, vice-presidente da República; José de Magalhães Pinto, ministro das Relações Exteriores; Antônio Delfim Netto, ministro da Fazenda; Ivo Arzua Pereira, ministro da Agricultura; Leonel Miranda, ministro da Saúde; Tarso Dutra, ministro da educação, Hélio Beltrão, ministro do Planejamento; Carlos F. de Simas, ministro das Comunicações; Rondon Pacheco, chefe da Casa Civil; e Luís Antônio Gama e Silva, ministro da Justiça).
Entre eles, seis eram parlamentares: Aleixo, Passarinho, Magalhães, Tarso, Rondon e Costa Cavalcanti.
No papel de memorando em que fazia questão de anotar os votos, o presidente Costa e Silva pôde colocar sim em todos os nomes, com exceção de Pedro Aleixo, à frente do qual escreveu “estado de sítio”, sublinhado várias vezes.
Os 22 eleitores do sim não apresentaram objeções nas suas justificativas de voto. Ressalte-se, ao contrário, o cuidado deles em não deixar dúvidas quanto à disposição de se colocarem intransigentemente a favor. Se Costa e Silva estava de fato esperando resistências, ele não chegou a encontrar nem hesitações. Uns, por inato desapego à dignidade, outros abrindo mão de suas histórias pessoais e muitos, por não tê-las, renunciando à oportunidade de começar a construí-las, aqueles 22 atores preferiam desempenhar o papel que o medo e a covardia lhes impunham. Era, como se disse, uma peça tropicalista: não havia lugar para a ética.
Os tropicalistas achavam que o absurdo brasileiro só poderia ser devolvido artisticamente pelo choque de elementos dramáticos antagônicos – o moderno e o arcaico, o rural e o urbano, a tecnologia e o artesanato, Ipanema e Iracema, banda e Carmem Miranda – encenados sob a forma de paródia. O resultado, hipertrofiado, revelava a realidade como o realismo era incapaz de fazê-lo. O problema é que às vezes a realidade permanecia mais absurda do que sua paródia, deixando o surreal aquém do real. Naquele palco, por exemplo, José Celso teria pouco a acrescentar. Os personagens reais eram suas próprias caricaturas, e o choque entre o que se propunha e as razões pelas quais se dizia aceitar o proposto era um jogo de cinismo que nenhuma transposição dramática conseguiria superar. Além disso, uma retórica de elipses e eufemismos produzia subversões semânticas capazes de colocar a palavra democracia que estava sendo expulsa daquela mesa e do país em quase todos os discursos, enquanto a ditadura, que se instaurava, era tratada como uma ausente distante. Houve até quem usasse o artifício de condená-la no passado para melhor aderir à do presente. Outros, considerando-a inevitável, aproveitaram para seguir o cínico conselho de reação ao estupro: experimentaram um forçado prazer.
Melhor do que ler a sinopse, porém, é assistir a peça. Era, como nenhum dos atores desconhecia, uma farsa. Eles estavam reunidos para celebrar um ritual, uma espécie de missa negra. Podia-se fingir ali qualquer reação, menos ingenuidade. Todos sabiam que aquele ato significava o início de uma ditadura explícita e declarada cujos efeitos eram óbvios.
Como anunciava o texto que todos foram obrigados a ler, ia-se fechar o Congresso por tempo indeterminado, interrompiam-se as garantias constitucionais de vitaliciedade, inamovibilidade e estabilidade, podia-se cassar, demitir, transferir, reformar funcionários civis e militares a vontade e suspendia-se o habeas corpus, o que – com o reforço da posterior Lei de Segurança Nacional – permitia manter qualquer preso acusado de delito político em regime de incomunicabilidade por dez dias – cinco a mais do que o Alvará de 1705, usado para extorquir as confissões dos Inconfidentes.
Para encenar esse rito de celebração, que inaugurava o reino do Arbítrio e da Tortura, o elenco se apresentava completo.”


“A palavra ditadura só foi usada, depois de Aleixo, por três conselheiros: Magalhães Pinto, Passarinho e Hélio Beltrão. O primeiro admitia, citando o vice-presidente, que realmente aquele ato estava instituindo uma ditadura, mas “se ela é necessária, devemos tomar as responsabilidades de fazê-la”.
Passarinho não tinha dúvida de que era “uma ordem ditatorial” o que se estava instalando ali. “Repugna enveredar pelo caminho da ditadura”, confessava, para ressalvar: “É esta que está diante de nós”. Se era inevitável, propunha, então o ministro do Trabalho: “Às favas, senhor presidente, todos os escrúpulos de consciência”.”


“Sobre Pedro Aleixo, Costa e Silva disse: “Peço a Deus que não me venha convencer amanhã de que ele é que estava certo, porque ele admitiu mesmo a hipótese do Ato final, porque entendo, como entende o Conselho na sua sabedoria de maioria, de quase unanimidade, que nesta escalada o degrau proposto se torna evidentemente desnecessário”.
O presidente terminou a sua exposição com um desabafo: “Eu confesso que é com verdadeira violência aos meus princípios e ideias que adoto uma atitude como esta. Adoto-as convencido de que elas são do interesse do país, do interesse nacional, que demos um basta à contrarrevolução”.”


“Às 22h30min, o ministro da Justiça e o locutor Alberto Cury, liam, em cadeia de TV, os seis considerandos e os 12 artigos que compunham o Ato Institucional nº 5, e mais o Ato Complementar n° 38, que decretava o recesso do Congresso. Foi uma leitura monótona e ameaçadora como uma sentença de morte: “O presidente da República poderá decretar...” repetiu incansavelmente o locutor.
A exemplo daquelas orações, todas regidas por um único sujeito, 90 milhões de brasileiros, a partir daquele momento, iriam ser comandados também por uma única vontade.”


“Em dez anos de vigência, o AI-5 já tivera tempo de punir 1607 cidadãos, dos quais 321 cassados: seis senadores, 110 deputados federais e 161 estaduais, 22 prefeitos, 22 vereadores – mais de seis milhões de votos anulados. Além da cassação, todos os senadores e 100 deputados federais tiveram seus direitos políticos suspensos por 10 anos. Entre as punições a funcionários públicos, estavam o afastamento de três ministros do Supremo Tribunal Federal – Hermes Lima, Evandro Lins e Silva e Vítor Nunes Leal – e de professores universitários como Caio Prado Júnior – condenado a quatro anos e meio de prisão por uma entrevista a um jornal estudantil – Florestan Fernandes, Fernando Henrique Cardoso, Mário Schemberg, Vilanova Artigas, Hélio Lourenço de Oliveira e uma dezena de pesquisadores do Instituto Oswaldo Cruz, entre outros, muitos outros.
Paralelamente a essa caçada aos criadores, o AI-5 desenvolveu um implacável expurgo nas obras criadas. Em dez anos, cerca de 500 filmes, 450 peças de teatro, 200 livros, dezenas de programas de rádio, 100 revistas, mais de 500 letras de música e uma dúzia de capítulos e sinopses de telenovela foram censurados. Só Plínio Marcos teve 18 peças vetadas. O índex reunia um elenco variado, que ia de Chico Buarque, um dos artistas mais censurados e perseguidos da época, a Dercy Gonçalves e Clóvis Bornay. A violência, que o marechal Costa e Silva confessou ter sentido ao editar o AI-5, ia deixar de ser uma figura de retórica. A partir do dia 13 de dezembro de 1968, ela se abateria de fato sobre a alma e a carne de toda uma geração.”


“O que se pretendia fazer com o ex-presidente Juscelino Kubitschek, o escritor Carlos Heitor Cony pôde sentir nessa mesma noite ao ser preso no Leme. Conduzido para o Batalhão de Guardas, em São Cristóvão, ele assustou-se com a tropa embarcada num camburão. Cony contaria mais tarde:
– Um oficial muito moço, levando-me para a cela, onde já estava o jornalista Joel Silveira, explicou-me: “Esse pessoal aí de fora vai ter hoje muito trabalho”.
– Que tipo de trabalho? – indagou o prisioneiro. - Vamos fuzilar o Juscelino e o Lacerda.
Não se sabe por que essa vontade não foi cumprida, mas em compensação Juscelino sofreu muito nesses dias em que esteve preso. Em janeiro, uma junta de quatro médicos – Drs. Aloysio Salles, Oswaldo Pinheiro Campos, Décio de Souza e Ruy Goyanna – assinou um laudo sobre o paciente: “Para seu adequado tratamento, julgamos absolutamente inconveniente a situação de reclusão em que se encontra”.
Fundamentando essa conclusão, os médicos forneciam o diagnóstico do doente:
a) arteriosclerose coronariana; b) hipertensão arterial; c) diabete; d) gota; e) infecção urinária recidivante pós-operatória; f) rotura traumática do tendão de Aquiles esquerdo (em período de imobilização, após tratamento cirúrgico); g) síndrome de depressão psíquica.
Aos 66 anos e mesmo nesse estado, o criador de Brasília não perdia o humor, o que fez dele o mais doce e amoroso presidente que o Brasil já teve. Logo depois de deixar a prisão, ele se encontrou com Vitório Cabral, que se surpreendeu com o gesso na perna do amigo. Rindo, JK explicou:
– Pois é, aqueles merdas me obrigavam a ficar horas e horas em pé respondendo a perguntas idiotas.
O atual secretário de Planejamento do Estado do Rio comove-se com a lembrança:
– Juscelino dizia isso sem ódio, quase brincando, com uma grandeza impressionante. Ele sabia que tudo aquilo ia sair na urina da História.
De fato, todos os majores, coronéis e generais que maltrataram Juscelino Kubitschek naqueles tempos seguintes saíram, ao contrário dele, na urina da História.”