A conversão de São Paulo

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domingo, 31 de julho de 2011

As crônicas de Nárnia: A viagem do Peregrino da Alvorada

Editora: Martins Fontes
ISBN: 978-85-7827-069-8
Opinião: ***
Páginas: 118

     “Tratava Edmundo e Lúcia por majestades, porque estes, como Pedro e Susana, haviam sido, muito tempo atrás, reis e rainhas em Nárnia. O tempo em Nárnia não corre como em nosso mundo. Mesmo que passemos cem anos em Nárnia, voltamos ao nosso mundo exatamente no mesmo dia e na mesma hora em que partimos. Mas, se quisermos voltar a Nárnia depois de termos passado uma semana aqui, podem já ter se passado mil anos em Nárnia, ou um dia só, ou até não ter passado tempo algum. Só quando se chega lá é que se sabe quanto tempo se passou. Assim, quando os Pevensie haviam estado em Nárnia pela última vez, na segunda visita, era para os habitantes de Nárnia como se o rei Artur tivesse voltado à Grã-Bretanha, como se diz que há de voltar. E eu digo que o quanto antes melhor!”


     “– Quer vir também? – indagou Caspian a Eustáquio, que tinha subido ao convés com a mão enfaixada.
     – Qualquer coisa é melhor que a droga deste navio!
     – Droga? Que quer dizer com isso? – perguntou Drinian.
     – Num país civilizado, como aquele de onde vim, os navios são tão grandes que, quando se entra neles, nem se chega a perceber que andou no mar.
     – Nesse caso podiam ficar sempre em terra.”

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Um homem por inteiro – Tom Wolfe

Editora: Rocco
ISBN: 85-325-1002-7
Opinião: ***
Páginas: 664

     “Aqui em Atlanta tem um velho ditado que também diz: “O dinheiro fala e a babaquice se cala”.”


     “– Roger – disse ele – você deve saber o que é “dinheiro de campanha”. Às vezes é chamado de “caixinha de campanha”.
     – De forma geral – disse Roger. – Já ouvi a expressão. Por quê?
     – Bom – disse Wes Jordan – você diria que isso significa o quê, de forma geral?
     – Pelo que eu sei, isso se refere ao dinheiro que você tem que gastar na campanha eleitoral e até no dia das eleições para incentivar o pessoal que apóia você nos bairros mais pobres... não sei bem... mandando carros de som para lá, pagando as pessoas que ficam nas esquinas perto das seções eleitorais distribuindo santinhos, e arranjando gente para levar as pessoas de van até as seções, coisas assim. Por quê?
     Wes sorriu, com um ar de superioridade um pouco excessivo, na estimativa de Roger. – Isso foi o que eu sempre achei também, Roger. Mas logo depois que eu anunciei minha candidatura a prefeito, o Archie Blount... se lembra do Archie? O deputado do Quinto Distrito?... o Archie me aparece, e diz: “Wes, essa é a primeira vez que você vai concorrer numa coisa tão grande, uma eleição municipal. No primeiro mês de campanha, o seu conhecimento de como a política realmente funciona vai aumentar 100 por cento. No segundo mês, vai aumentar 200 por cento, e no terceiro mês vai aumentar 400 por cento... e mesmo assim você ainda vai estar no jardim-de-infância.” Eu agradeci a ele, provavelmente de maneira condescendente... eu gostava dele, mas não o achava muito inteligente... e continuei meus preparativos para concorrer baseados no próprio mérito do meu programa, que me favorecia, calculava eu.
     – Na manhã seguinte já tive minha primeira surpresa. Em cima da minha escrivaninha havia uma pilha de cartas deste tamanho. Junto com cada carta, um cheque em favor da minha campanha. A carta propriamente dita é um contrato entre mim e a organização que a mandou. Uma, eu me lembro, era de uma organização de “direitos dos gays”. Eu só precisava assinar embaixo daquela carta dizendo que iria falar a favor de casamentos entre pessoas do mesmo sexo, de direitos de herança entre casais do mesmo sexo, de educação sexual gay a partir do primeiro grau, de sanções criminais contra a intolerância antigay, nem consigo me lembrar de tudo, e aí eu podia ficar com o cheque, que era de 20 mil dólares. Recusei aquilo, por questões de mérito, e mandei minha secretária devolver o troço. Em primeiro lugar, uma besteirada total, e em segundo, os meus eleitores da base, nossos irmãos e irmãs, não queriam nem saber de facilitar a vida para os homossexuais, fossem negros ou brancos. E quando esses grupos de direitos para os gays, que são todos de garotos brancos, claro, começam a tentar comparar a “luta” deles... é sempre “luta”... com a do nosso povo (negro)... quer dizer, ficam comparando um monte de rapazes brancos aos beijos e abraços uns com os outros com um povo se erguendo da escravidão... você começa a soltar fogo pelas ventas. De modo que calculei que tinha tomado a decisão certa. Devolvi a carta e o cheque com um bilhete cortês, agradecendo e recusando, e achei que a coisa ia ficar por isso mesmo. Aí, quatro dias depois, vejo uma manchete de primeira página num semanário chamado The Five Pointer. Sou denunciado como um oportunista homofóbo que não apoia nem os mais fundamentais direitos dos gays. Você pode dizer “Bom, mas e daí?” A tiragem do The Five Pointer é de 15 mil exemplares no máximo. É o que se chama de um jornal alternativo. Mas ele é muito popular entre os homossexuais brancos... e assim eu acabo de perder o voto gay, sem nem chegar a abrir a boca sobre o assunto.
     – Cada carta daquela pilha propunha o mesmo acordo. “Se comprometa com a nossa luta e você pode ficar com o dinheiro.” Depois de uns dois meses, você já esta começando a ficar no sufoco por dinheiro. Esta começando a precisar dele do jeito que precisa de ar e comida. Essas campanhas devoram dinheiro, e a essa altura os comerciantes já estão espertos demais para venderem qualquer coisa a você a crédito. Você começa a pensar de novo em todos aqueles cheques que você recusou de forma tão altaneira. Você começa a imaginar se não poderia rever suas posições e encontrar espaço debaixo do seu guarda-chuva para algumas daquelas organizações de interesses especiais... que não são tão ruins assim... e seus cheques de 20 mil dólares... porque você já aprendeu uma lição elementar, que é: ninguém... ninguém... vence uma eleição municipal majoritária estritamente com base no próprio mérito do seu programa.”


      “Que diabos acontecera com todos aqueles filhos dos ricos da geração de Wally, aqueles garotos bem-criados que iam para os internatos particulares? Aquelas malditas escolas estavam produzindo um novo tipo de rebento da elite: um garoto totalmente entediado do mundo à idade de dezesseis, cínico, fleumático e apático na presença de adultos, embora perfeitamente respeitoso e terrivelmente educado, um garoto sem talento para esportes, com aversão a caçar, pescar, montar cavalos ou lidar com animais de qualquer forma, um garoto com vergonha de seus privilégios, desesperado para escondê-los, ávido para usar bonés de beisebol ao contrário, calças esculhambadas e outros trapos de gueto, com horror de ser invejado, um garoto que encarava o mundo sem nenhum sinal visível da alegria de viver e sem... culhões...”


(refletindo sobre sua jovem segunda esposa) 
      “Cristo... quem era aquela mulher? Como diabos ela entrara ali? Essas perguntas o deixaram espantado. Depois percebeu que elas vinham se formando na sua mente já há uns trinta meses, pelo menos, e ele só estava casado com ela há trinta e seis. Mas elas nunca haviam surgido na sua cabeça em palavras tão claras. Quem era ela? O que ela estava fazendo ali? E o mais terrível era que, depois que finalmente fizera as perguntas, ele sabia as respostas. Sexo e vaidade; era só isso; e talvez vaidade mais do que sexo. Martha, (sua ex-esposa,) envelhecera, era só isso... (...)
     A vingança é minha, disse o Senhor, e irei cobrar. Ninguém avisava você disso, avisava!? Todos os peritos, todas as pessoas que escreviam livros e artigos quando falavam de casamento, estavam sempre falando do primeiro casamento, do casamento original. Mas àquela altura, calculou ele, já devia haver milhares de homens feito ele, empresários ricos que nos últimos dez ou quinze anos haviam se divorciado das esposas antigas e arranjado esposas novas, garotas uma geração inteira mais jovens. E o que os peritos tinham a dizer sobre aqueles piteuzinhos irresistíveis? Nada! E se um homem passar por tudo aquilo, a separação, o divórcio, aquela agonia toda, aquela luta, aquela despesa infernal, aquela... aquela... aquela culpa... e um dia, ou uma noite, ele acordar e se perguntar, Quem esta aqui na cama comigo, Diacho? Por que ela esta aqui? De onde ela veio? O que ela quer? Por que ela não vai embora. Isso eles não dizem a você.”


      “E depois Charlie percebeu que havia quebrado uma de suas próprias regras cardeais, que era: ao lidar com subordinados e mulheres, nunca justifique, nunca explique, nunca recue.”


      “Para um homem de sessenta anos, como Charlie Croker, um dos mais sinistros lembretes da aproximação da Parca é quando os seus médicos, as pessoas que vêm cuidando do seu corpo há décadas, começam a se aposentar... ou a morrer... ou as duas coisas.”


     “– Você ficou nervoso, papai?
     Charlie não conseguiu perceber se Wally estava realmente curioso ou simplesmente falando por falar. E naquele momento chegou a perceber que nunca chegara a conhecer o filho suficientemente bem para saber a diferença; e que jamais chegaria a conhecer, mas tudo bem; a gente faz o melhor que pode, só isso; e tanto faz.”


      “A vida é feita de crueldade e intimidação.”


     “– Ah, é. Bom... tá legal... o que o Epicteto tem a dizer da falência?... ou um filósofo não pode pensar numa coisa tão prosaica assim?
     – Para o Epicteto isso não é prosaico demais, Sr. Croker. Num certo trecho ele diz “Vós ficais nervosos e sem conseguir dormir à noite com medo de ficar sem dinheiro. Dizeis ‘Como vou arranjar o suficiente, até para comer?’, No entanto, estais com medo mesmo não de morrer de fome, mas da perspectiva de não ter uma cozinheira, alguém para servir a mesa do jantar, alguém para cuidar das vossas roupas, dos vossos sapatos e da roupa suja, e fazer as camas e limpar a casa. Em outras palavras, vós estais com medo de não poder mais levar a vida de um inválido”. (...) Ele diz “para onde esse medo de perder vossas posses mundanas vos leva? Para a morte. Quando Ulisses naufragou com seu navio e foi dar à praia sem ter nada, isso não arrefeceu o seu ânimo. Enfrentou a enrascada na qual se enfrentava feito um leão criado na montanha, confiando na sua força. Não ficou dependendo sua reputação, dinheiro ou posição, mas da sua própria força. O que nos torna livres é o que esta dentro de nós”. (...)
     – Aonde é que ele quer chegar na realidade? Esse tal de Epicteto?
     – Bom... eu não sou uma autoridade no assunto, Sr. Croker, mas o que ele esta dizendo, me parece, é que a única posse real que temos são o nosso caráter e “projeto de vida”, como ele diz. Zeus deu a cada pessoa uma centelha da própria divindade, e ninguém pode tirar isso de nós, nem mesmo Zeus, e dessa centelha vem o nosso caráter. Todo o resto é temporário e sem valor a longo prazo, inclusive o nosso corpo. Sabe do que ele chama as nossas posses? “Ninharias”. Sabe do que ele chama o corpo humano? “Um vaso de barro com um quarto de sangue”. Se compreendermos isso, não vamos nos lamentar, nem nos queixar, ou culpar os outros pelos nossos problemas, não vamos sair por aí bajulando ninguém. Acho que é isso que ele esta dizendo, Sr. Croker.
     Charlie disse: – Ele falou sobre bajular as pessoas? (...)
     – Sim, senhor – disse o rapaz – foi o que ele disse. “O bajulador se degrada e engana o objeto de suas lisonjas”. “Os cães mostram afeição um pelo outro”, diz ele, “mas se jogares um pedaço de carne entre eles, verás quanta amizade sobra ali.” (...) Epicteto diz que quando você se vende, se rebaixa ao nível de um animal, feito uma doninha ou uma raposa. Por alguma razão ele considerava a raposa o animal mais baixo de todos.
     – Ele chega a dizer “se vender”?
     – Praticamente – disse o rapaz. – Xô ver... – Folheou o livro. – Aqui esta, no livro I, Capítulo 2. Ele diz “Acautela-te de uma coisa, ó homem. Vê bem qual é o preço pelo qual vendes tua vontade. Se nada mais fizerdes, não vende tua vontade barato”.
     O velho disse: – Como ocê sabe se tá se vendeno barato demais ou não?
     – Se você esta se vendendo, já é barato demais – disse Conrad – ou pelo menos é assim que eu interpreto o que ele está dizendo, Sr. Croker, já que o verdadeiro estoico não aceita o meio-termo. Vender-se e aceitar meios-termos não fazem parte do seu caráter.”


      “Epicteto diz: “Ninguém pode progredir virado para ambos os lados”.”

sábado, 9 de julho de 2011

Palestina: na Faixa de Gaza* – Joe Sacco

Editora: Conrad
ISBN: 978-85-7616-431-9
Opinião: ***
Páginas: 158

     "Alguns dos buracos mais negros do mundo estão a céu aberto, para qualquer um ver... Por exemplo, você pode visitar um campo de refugiados palestinos na Faixa de Gaza... (...) a entrada é grátis."*


*: Romance gráfico.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Viagens com o presidente: dois repórteres no encalço de Lula do Planalto ao exterior – Leonencio Nossa e Eduardo Scolese

Editora: Record
ISBN: 85-01-07630-9
Opinião: ***
Páginas: 282

     “Segundo ministros, Lula reclama do espaço “pouco acolhedor” (do Palácio do Planalto). Cristovam Buarque, da Educação, diz que o lugar é frio, propício ao “presidente que pensava ser europeu”, numa ironia a Fernando Henrique. Um ano depois, Buarque, em visita à Europa, seria demitido por telefone pelo presidente petista.
     Para Lula, o Planalto é mesmo frio. Logo depois da posse, ele diz que não quer viver “trancado” ali. O presidente quer um governo itinerante, com o “pé na estrada”, nas ruas. Ao ser questionado naqueles dias se tinha medo de ser agredido por algum maluco nos contatos com o povo, ele responde:
     – Só tenho medo de ficar sozinho.”
Com uma sucuri, em visita a oficiais do Exército, em Tabatinga (Amazonas)
19/01/2005 - Foto: Ricardo Stuckert (Presidência da República)

     “A presença tão próxima dos militares (da segurança presidencial) causou preocupações especialmente à primeira-dama. Dona Marisa, que durante a ditadura viu o marido ser preso pelos militares, ficou preocupada se os filhos iriam aceitar a nova situação, com menos liberdade e mais vigilância. Ela estava em Brasília, nos primeiros dias de governo, quando foi informada de que um grupo de militares iria subir ao apartamento da família, em São Bernardo do Campo, para conversar com os filhos sobre o trabalho de segurança.
     – Não, não subam. Deixa eu chegar aí primeiro. Eu quero participar da conversa – disse, por telefone.
     Os seguranças não subiram. Os filhos do presidente, segundo amigos, levaram tempo para se soltar e deixar de lado marcas “visíveis” do período da ditadura militar. Ainda no primeiro ano de governo, um segurança morreria baleado ao evitar que um assaltante se aproximasse de um dos filhos do presidente, em São Paulo. Na relação com os seguranças ou assessores, os filhos de Lula sempre demonstraram ser astutos e discretos, com receio de causar problemas à imagem do pai.”
Visita ao Conjunto Habitacional do "Casarão Cordeiro", em Recife (Pernambuco)
19/09/2004 - Foto: Ricardo Stuckert (Presidência da República)

     “O comportamento do presidente de exigir sempre objetividade, sem dar muita importância à política, causa estranheza em profissionais graduados das Forças Armadas e do Itamaraty.
     No gabinete, no terceiro ano de governo, um embaixador apresentou a Lula três páginas com informações que poderiam ser usadas num discurso que o presidente faria a um chefe de Estado da Ásia.
     – Presidente, se Vossa Excelência quiser, posso adensar mais dados aqui.
     Lula fixou o olhar no diplomata e disparou:
     – Pô, você acha que eu sou babaca de ler tudo isso? Resumo isso em três ou quatro coisas e chegando lá eu improviso o resto.”
Em Feira de Santana (Bahia), brinca com bola fabricada por crianças
12/09/2003 - Foto: Ricardo Stuckert (Presidência da República)

     “Nas viagens, ao ver um antigo militante na plateia, Lula faz questão de convidá-lo a se aproximar. Isso causa confusão. Jornalistas e seguranças também têm de acompanhá-lo. Assessores o aconselham a evitar esse tipo de contato. E a resposta do presidente é sempre a mesma:
     – Porra, essa gente se fodeu pra fazer a minha campanha e agora não posso dar um abraço neles?”
Banho de mar em Luis Correia (Piauí)
22/02/2006 - Foto: Ricardo Stuckert (Presidência da República)

     “Lula teve dificuldades de chegar a Agra, cidade onde esta o Taj Mahal. É que a neblina atrasou em mais de uma hora a decolagem do avião presidencial em Nova Déli.
     – Chegar até aqui e não conhecer o Taj Mahal é o mesmo que não vir à Índia – argumentou.
     Diante do monumento, ele brincou com os fotógrafos:
     – Vocês já viram alguma coisa mais bonita?
     A resposta foi negativa.
     – Não é lá atrás, não. Sou eu, gente.”
Em Moscou (Rússia), passeio na Praça Vermelha.
Ao fundo, a catedral de São Basílio
18/10/2005 - Foto: Ricardo Stuckert (Presidência da República)

     “Tanto Fernando Henrique quanto Lula são admirados de forma intensa pelos seguranças, que apontam pontos positivos nos comportamentos dos dois presidentes. Os seguranças lembram que o tucano segurava a raiva e nunca explodia com os bajuladores, preferindo resolver os problemas com classe e ironia fina. Ele pensava e calculava gestos e atitudes. Usava a emoção de forma inteligente. Homens de visões estratégicas caem fácil no gosto dos militares. Lula, dizem, merece elogios por deixar claro que não tolera puxa-sacos e não é dessas pessoas com chances de morrer de infarte por engolir sapos.
     Lula não mede as palavras e fala o que quer. Move a peça de xadrez sem o medo de xeque-mate, contam. Embora não seja cordial como o antecessor, o presidente é visto com simpatia pelos seguranças por ter, segundo palavras dos próprios, a disposição de trabalho e o jeito durão de um militar.”
Em Davos (Suíça), para a reunião do Fórum Econômico Mundial
28/01/2005 - Foto: Ricardo Stuckert (Presidência da República)

     “Fora dos holofotes, porém, Lula nunca escondeu o incômodo ao ver um de seus assessores com fome. Num jantar com o secretário-geral da ONU, Kofi Annan, na cidade suíça de Lausanne, em maio do primeiro ano de mandato, ele percebeu que o intérprete Sérgio Ferreira estava faminto e cansado. Sentado enquanto ouvia um discurso, o presidente pegou um prato com pães e aproveitou enquanto as câmeras apontavam em outra direção para cortar os pães em pedacinhos, passar manteiga e, discretamente, entregar o prato ao intérprete, que desde cedo traduzia conversas e declarações.
     Lula, dizem amigos, não esta preocupado se a pessoa esta cansada. O que o aflige é ver os outros passando fome.”
Em Pequim, o presidente Lula e o presidente da China Hu Jintao, em revista a militares
24/05/2004 - Foto: Ricardo Stuckert (Presidência da República)

     “Enquanto assessores e ministros insistem no tom professoral em discursos e audiências, Lula se comporta, nos momentos mais privados, com a mesma descontração dos tempos de sindicato. Numa audiência do gabinete concedida a amigos do ABC, em maio do primeiro ano de governo, ele brincou com os visitantes. Lembrou de histórias e se divertiu. Manuel Anísio Gomes, sindicalista que articulou a visita dos metalúrgicos que queriam anistia por terem sido demitidos nos anos da repressão, contou depois aos jornalistas detalhes do encontro:
     – Foi ótimo, muito bom. Ele estava tão descontraído que beliscou a bunda do pessoal.
     Numa audiência com a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, na época em que o governo começa a discutir a transposição de parte das águas do rio São Francisco, o presidente ouve atentamente a opinião contrária dela às obras e os argumentos favoráveis dos técnicos da área. Após ouvi-los, Lula consola a ministra:
     – Marina, essa coisa de meio ambiente é igual a um exame de próstata, não dá pra ficar virgem a vida toda. Uma hora eles vão ter que enfiar o dedo no cu da gente. Então, companheira, se é pra enfiar, é melhor que enfiem logo.”
Desfile em carro aberto pelas ruas de Seul (Coréia do Sul), com o presidente Roh Moo-Hyun
25/05/2005 - Foto: Ricardo Stuckert (Presidência da República)

     “– Senhoras e senhores, atenção. Daqui a pouco nós estaremos chegando. O problema é que ninguém sabe aonde exatamente.” (Lula, do serviço de alto-falantes da cabine de comando do avião presidencial, em janeiro de 2004, no céu da Europa, brincando pelo fato de talvez não poderem pousar no país desejado – Suíça – devido às condições climáticas e terem três países como alternativa).
Visita a obras do Canal do Sertão, em Paulo Afonso (Bahia)
20/11/2003 - Foto: Ricardo Stuckert (Presidência da República)

     “No final do primeiro mandato de governo, Lula usaria as reportagens de sua visita ao Museu do Cairo, no Egito, para se afastar ainda mais da imprensa e organizar visitas fechadas a palácios e museus. O presidente ficou irritado ao ler que seus comentários e os de sua mulher sobre tumbas e peças antigas do museu haviam ganhado destaque dos jornais brasileiros.
     Naquele dia, o primeiro comentário do presidente ocorre quando é informado de que a tumba do faraó Tutancâmon foi a única entre as dos imperadores egípcios a resistir aos saques.
     – Veja desde quando vem o crime organizado.
     A seguir, com os ouvidos ligadíssimos dos repórteres por perto, é a vez de a primeira-dama soltar a sua apreciação, ao ouvir do guia que os egípcios seguiam setenta mandamentos, e não apenas dez.
     – Imagine, setenta. É muito pecado.
     A sessão de análises do casal presidencial prossegue quando o presidente ouve a explicação sobre a múmia de Ramsés II, que teve cerca de duzentos filhos e sessenta mulheres e morreu com 92 anos de idade.
     – Sentia tanta dor de cabeça que não tinha tempo para se preocupar com doencinhas – declara o presidente, para a seguir ouvir Marisa falar sobre o cabelo da múmia.
     – O cabelo dele esta branquinho, olha lá.
     Na manhã do dia seguinte, ao ler parte das reportagens, o presidente fica enfurecido. Não entende o motivo de todas as suas falas virarem notícia, especialmente as brincadeiras ingênuas, feitas com frequência por qualquer turista em museu. E pior: vê aquilo como uma forma de a imprensa ironizá-lo.”
Instalações da Veracel Celulose, em Eunápolis (Bahia)
21/01/2005 - Foto: Ricardo Stuckert (Presidência da República)

     “O governo petista, vale ressaltar, representa um período de liberdade para os jornalistas. Ao contrário dos tempos tucanos, por exemplo, repórteres não têm o temor de, mais cedo ou mais tarde, terem suas cabeças pedidas pelo governo à direção dos veículos de comunicação. Essa liberdade momentânea se explica por conta da relação do governo Lula com repórteres, editores, colunistas, diretores e patrões da mídia. Todos são tratados da mesma forma, sem que um ou outro jornalista ou veículo tenha direito a privilégios descarados de informações. Todos são nivelados por baixo.
     O presidente evita entrevistas formais e contatos diretos com pessoas influentes do jornalismo. Não telefona para pressionar ou fazer política com os chefes. Os repórteres nas ruas estão mais livres, o que aumenta o enfrentamento com assessores e seguranças da presidência em eventos oficiais.
     Vale quase tudo para conseguir uma ou duas frases em conversas quebra-queixo com um presidente protegido por grades e cercado por militares. Lula responde a três ou quatro perguntas e vira as costas a repórteres, fotógrafos e cinegrafistas. Quando quer reclamar da imprensa, pelo menos é transparente. Usa o microfone em eventos pelo Brasil afora, sem citar nomes de profissionais ou empresas. Nada de conversas discretas.”
Em uma fazenda de Toritama (Pernambuco), após um pouso preventivo do helicóptero presidencial para fugir de uma tempestade
11/02/2005 - Foto: Ricardo Stuckert (Presidência da República)

     “Ao longo dos anos 1980 e 1990, como líder petista, Lula construiu uma aliança forte e muito próxima com entidades sindicais e movimentos sociais. Com a estrutura do partido nas mãos, atuava como uma espécie de representante de honra dessas entidades em marchas e manifestações pelo país. Por isso, mesmo depois de chegar à presidência da República, não escondia de ninguém a satisfação que tinha de participar de eventos ao lado desses antigos “companheiros” políticos.
     Para resumir, ouvia muitos elogios e poucas críticas. Nesses eventos, os raros e sempre sutis ataques ao governo eram estrategicamente endereçados à equipe econômica, como se a figura do presidente fosse alheia à condução de tal modelo.
     No comando dos atos, sempre a Central Única dos Trabalhadores (CUT), a União Nacional dos Estudantes (UNE) e o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). O último, aliás, na encruzilhada entre defender um projeto político que ajudou a eleger e enxergar suas famílias acampadas à beira da estrada à espera de um lote de terra.”
Entrega de residências em Lauro de Freitas (Bahia)
21/03/2006 - Foto: Ricardo Stuckert (Presidência da República)
Pausa para foto durante a visita às obras da Universidade Federal do Vale do São Francisco, em Petrolina (Pernambuco)
21/02/2006 - Foto: Ricardo Stuckert (Presidência da República)

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Lobisomens – Sabine Baring-Gould

Editora: Leitura
ISBN: 978-85-7358-964-1
Opinião: ***
Páginas: 176
     “O que é licantropia? A transformação de um homem ou uma mulher em lobo, tanto por meios mágicos – para que a pessoa possa satisfazer o apetite por carne humana – ou por castigo imposto pelos deuses em punição a uma grande ofensa.
     Essa é a definição popular. Na verdade, a licantropia consiste em uma forma de loucura, como aquela encontrada na maioria dos hospícios.”


      “Toda a superestrutura da fábula e do romance relativo à transformação em animais selvagens reside simplesmente sobre esta base de verdade: que entre as nações escandinavas existiu uma forma de loucura ou possessão, sob a influência da qual homens agiram como se fossem transformados em brutos selvagens, uivando, espumando pela boca, sedentos de sangue e matança, prontos para cometer qualquer ato de atrocidade, e tão irresponsáveis por suas ações quanto lobos e ursos, com cujas peles eles geralmente se vestiam. (...)
     Pode-se aceitar como axioma que nenhuma superstição de aceitação geral esta destituída de uma base verdadeira; e, se nós descobrirmos o mito de um lobisomem sendo disseminado amplamente, não apenas por toda a Europa, mas por todo o mundo, devemos ter certeza de que há um núcleo sólido factual, rodeado por superstição popular que se cristalizou; e que o fato é a existência de uma espécie de loucura, uma crise na qual as pessoas afetadas acreditam ser um animal selvagem e agem como ele.”


      “Na dissertação de Muller (1736), cuja fonte foi Cluverius e Danhaverus, (Acad. Homilet. p. ii.), tivemos conhecimento de que um certo Albertus Pericofcius em Moscou tinha o hábito de tiranizar e fustigar seus súditos das formas mais inescrupulosas. Uma noite, quando ele estava fora de casa, todo seu rebanho de gado, adquirido por meio de extorsão, pereceu. Quando voltou para casa foi informado a respeito da perda, e o perverso homem desferiu as mais horríveis blasfêmias, exclamando: “Permita que aquele que matou coma; e se Deus conceder, que ele também possa me devorar.”
     Assim que ele falou, gotas de sangue caíram no chão, e o nobre se transformou em um cão selvagem, correu até seu gado morto, destroçou e dilacerou as carcaças e começou a devorá-las; e não parou até que chegasse o seu fim (ac forsan hodie que pascitur). Sua esposa, então próxima à sua reclusão, morreu de medo. Dessas circunstâncias não há apenas relatos, mas também testemunhas. (Non ab auritis tantum, sed et ocidatis accepi, quod narro).”


      “Os esportistas e pescadores seguem um instinto natural de destruição quando atiram em um pássaro ou outro animal, ou fisgam um peixe: a pretensão de que a presa seja caçada para colocá-la à mesa não pode ser feita com justiça, pois o esportista se preocupa pouco com o jogo que ganhou, desde que tenha a presa em mãos. O motivo para a feroz perseguição de um pássaro ou animal certamente é outro: o desejo ardente de se extinguir a vida que existe em sua alma. Por que uma criança impulsivamente bate em uma borboleta assim que ela passa voando? Ela não se importa com o inseto ao esmagá-lo com os pés, a menos que esteja agonizando, o que ela observa com grande interesse. A criança bate na criatura voando porque a borboleta tem vida, e ela tem um instinto que a impele a destruir a vida assim que a encontra.
     Pais e enfermeiras sabem bem que as crianças por natureza são cruéis, e que a humanidade tem de ser adquirida pela educação. Uma criança exulta com maldade os sofrimentos de um animal ferido até que sua mãe lhe peça: “deixe-o em paz, tenha compaixão”. Uma criança inocente nem pensaria em pôr fim à agonia da criatura abruptamente, como se saboreasse um bombom inteiro antes de engoli-lo. A crueldade inerente pode ser obscurecida por impressões posteriores ou pode ser mantida sob repressão moral; a pessoa que é inerentemente um “Nero”, não consegue reconhecer a sua própria natureza, até que algum dia, por acidente, o ímpeto se torne dominante e arrebate tudo diante de si. Um relaxamento da posição moral, um choque do intelecto controlador ou uma condição anormal do corpo são suficientes para permitir que o ímpeto se afirme.”


      “Vi uma jovem realizada, de considerável refinamento e de um temperamento extremamente nervoso, enfiar moscas com a agulha em um pedaço de linha e assistir com complacência o bater de asas agonizante. A crueldade pode permanecer latente até que, por algum acidente, ela apareça: então, irromperá em uma chama devastadora. O ímpeto do amor e do ódio é semelhante ao que ocorre com a sede por sangue; nós não fazemos ideia da intensidade com que eles podem surgir até que as circunstâncias ocorram. Amor ou ódio serão dominantes em um peito que esteve sereno até agora, pois quando a fagulha surge repentinamente, a paixão se acende, e a serenidade de um peito quieto é destruída para sempre. Uma palavra, um olhar, um toque são suficientes para atear fogo ao paiol da paixão no coração e desolar para sempre uma existência. É o mesmo que acontece com a sede por sangue. Ela pode espreitar nas profundezas do coração de alguém muito querido para nós. Pode queimar no seio daquele que é muito importante, e nós podemos ser perfeitamente inconscientes da sua existência. Talvez as circunstâncias não propiciem seu surgimento; talvez o princípio moral possa tê-la abatido com grilhões que jamais conseguirá arrebentar.”


      “A mitologia popular na maioria das culturas considera a alma oprimida pelo corpo, e sua libertação é uma libertação do “fardo” da carne. Se a alma é capaz de agir ou expressar-se completamente sem um corpo, assim como o fogo existe sem o aparato da caldeira a vapor ou da maquinaria, é uma questão que ainda não foi aceita pela mente popular. Somente a religião cristã dá o mesmo valor ao corpo e à alma, e dando uma esperança de enobrecimento e ressurreição nunca sonhado em qualquer outro sistema mitológico.
     Mas o credo popular, em vez do testemunho mais enfático das Escrituras, é de que a alma esta sujeita há tanto tempo, que se uniu ao corpo, uma crença inteiramente de acordo com o Budismo.”