A conversão de São Paulo

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sábado, 26 de novembro de 2011

Revelações por minuto – Marcelo Leite de Moraes

Editora: Companhia Editora Nacional
ISBN: 978-85-04-01161-6
Opinião: ★★★☆☆
Páginas: 448


     “Paulo Ricardo sempre foi chamado pelos dois nomes, mesmo no meio familiar. Certa vez, seu Waldeck foi chamado ao colégio porque a professora estava desconfiada de que o menino estivesse ficando surdo. Após terem conversado, o pai e a professora foram ao encontro do menino no pátio da escola e ela o chamou: “Paulo, Paulo!”. Nada, o menino não atendia. Seu Waldeck perguntou: “É por isso que a senhora acha que ele está surdo?”. Tendo a resposta positiva, seu Waldeck se voltou para o filho, que estava de costas, e chamou: “Paulo Ricardo!”. O menino imediatamente atendeu. Então o pai explicou que ele não atendia pelo nome de Paulo, e sim de Paulo Ricardo.”


     “Na cidade de Pelotas, Rio Grande do Sul, o RPM foi se apresentar na Fenadoce, uma feira de doces da região. O show não foi dos mais tranquilos. Foi um dia de muita chuva na cidade, a banda chegou atrasada e foi direto passar o som. Ao chegar ao estádio, além da chuva, tiveram a surpresa de que o equipamento de som não era dos melhores. “Acho que faltava um amplificador de baixo e mais algumas coisas”, lembra Luiz Schiavon. Paulo Ricardo reclamou da qualidade do som e disse que não iria fazer o show. Mesmo com os pedidos até certo ponto educados do dono da feira, uma especie de sinhozinho gaúcho, Paulo Ricardo estava irredutível. Porém, com a insistência do vocalista do RPM em não fazer o show, o dono da festa foi um pouco mais enfático: “Vai tocar aqui mesmo, chê! Vai tocar ou então vai morrer!”, disse o contratante, colocando uma arma na mesa, recorda Aguiberto. “Tinha chovido muito. Faltavam uns equipamentos, mas tivemos de fazer o show. O cara botou um revólver na mesa e aí ficou fácil. Fomos tocar”, lembra Luiz.”


     “Em O Globo de 29 de setembro de 1986, a reportagem assinada por Isa Pessoa comentava que alguém havia perguntado a uma menina de doze anos que estava na plateia se ela sabia o que queria dizer um trecho da música “London, London”, cantada por um coro de 40 mil pessoas, em inglês: “while my eyes go looking for flyng saucers in the Sky”. A resposta foi direta: “Não, mas eu sinto!”.”


     “Na chegada a Lima para a aguardada turnê, o RPM foi conduzido numa van do aeroporto ao hotel. Na capital peruana havia toque de recolher devido a ameaças do Sendero Luminoso. O carro andava muito pouco e parava, passando por vários comandos e barreiras de policiais. Os membros do grupo já estavam fartos de tantas paradas. Na quarta parada em menos de trinta minutos, o guarda perguntou mais uma vez ao motorista de onde eles eram e onde estava o salvo-conduto. Não aguentando mais, Paulo Ricardo, que estava praticamente no porta-malas da van, disse ao guarda: “Ó, meu amigo, porra, não está lendo o que está escrito aí: Brasil, samba, Pelé, rumba, banana, caralho...”. Mesmo todos estando apreensivos e com medo de tantos guardas armados até os dentes com metralhadoras, não tiveram como não rir do rompante do vocalista do RPM, visivelmente embriagado. “Isso mostra o espírito anárquico do Paulo. Ele é muito engraçado. Quando quer, não tem pra ninguém”, recorda Deluqui. Mas nem todos acharam graça. Os soldados não gostaram da resposta do Paulo Ricardo e imediatamente apontaram suas armas para ele. “O Paulo fez essa gracinha, e o soldado engatilhou a arma na cara do Paulo. Depois foi engraçado, mas na hora foi feio”, lembra Luiz.”


     “O motivo da (primeira) separação do RPM nunca foi plenamente explicado. Divergências musicais, problemas de divisão de ganhos, mais espaço para os quatro em todas as composições, o crescente consumo de drogas e álcool, além do desgaste da convivência durante mais de quinze meses em turnê podem ter sido o estopim da crise. Mas nada preponderante ou gravíssimo: “Não houve um motivo real, verdadeiro, para a separação. A loucura deles foi tão grande que se separaram por bobagens. Ciúmes um do outro, dinheiro, drogas, exposição do líder vocal e outras coisinhas”, resume Marcos Maynard, que sempre esteve próximo da banda. “No meio de tudo isso, o Deluqui resolveu querer mais espaço e cantar. Ele já tinha o seu espaço no palco, mas houve esse problema que contribuiu para a separação.”


     “Graças ao sucesso e à arrogância demonstrada por todos os integrantes do RPM, a banda rapidamente formou uma legião de desafetos. “Cada um de nós apresentou um comportamento esquisito depois do sucesso”, reconhece Deluqui.
     Mesmo com integrantes de outras bandas contemporâneas do RPM, que dividiam o mesmo camarim em programas de TV, como o do Chacrinha, Raul Gil e Bolinha, começaram a surgir alguns problemas, e os RPM passaram a ser vistos com outros olhos. Algumas frases publicadas pela imprensa na época ajudaram a apimentar esse caldo:

Vai ter banda lá fora influenciada pelas brasileiras. Vai ser uma longa história
(Paulo Ricardo, Bizz, maio de 1986);

Quem quiser saber mais sobre nós, a biografia está embaixo da agulha da vitrola
(Luiz Schiavon, Som Três, outubro de 1985);

Queremos fugir da habitual preguiça brasileira e tocar seja lá onde for
(Paulo Ricardo, Veja, 06/08/1986);

Só porque sou alto, bonito e gostoso não quer dizer que o sucesso me subiu à cabeça
(Paulo Ricardo, Folha de São Paulo, 15/08/1986);

Não existem grupos nacionais. O que há são estilos diferentes
(Luiz Schiavon, Bizz, setembro de 1985);

Fomos favorecidos por um momento, uma onda de rock, e soubemos utilizar esse momento melhor que a maioria das pessoas. Nosso sucesso talvez seja proporcional à nossa ambição
(Paulo Ricardo, Jornal do Brasil, 20/07/1986);

Há um ano iriam rir da nossa cara. A gente tem que ocupar espaço. Tenho um pouco de bode deste pessoal que se julga o melhor e não vai à luta
(Luiz Schiavon, Bizz, setembro de 1985);

Faço música, não sou ator de filme pornô nem alvo fácil de comentários superficiais
(Paulo Ricardo, Veja, 06/08/1986);

Estamos famosos, cada um já teve a sua divulgação pessoal necessária
(Luiz Schiavon, IstoÉ, 30/03/1988);

O Roger, do Ultraje, é um explícito debochado. Já o Renato Russo, da Legião Urbana, é um explícito sério. Eu sou um implícito lírico
(Paulo Ricardo, Bizz, setembro de 1985).”


Bizz (final de 1987) – Bem, vocês voltaram. Mas eu sei, existem trabalhos que foram desenvolvidos paralelamente que estavam até quase prontos [como foi o caso de Deluqui e P.A.]. Como vocês resolveram isso?
Paulo – Ficamos (na época da separação) cada um fazendo um trabalho e, quando nos encontrávamos, a gente perguntava: “E aí? Está tocando com o baixista. E vocês? Estão tocando com que guitarrista?”... “Beltrano, Ciclano? Blergh! Ircgh! [em falsete]”. Todos uma bosta! No fim, porra, fizemos essa banda porque era a banda que depois de vinte e tantos anos de neguinho se procurando, achou os caras e a banda deu certo. E dá saudade... é como aquela coisa: estou solteiro, vou comer todo mundo... Aí vai uma, duas e na terceira você já sente falta daquela coisinha que ela fazia, começa a achar todas elas burras, começa a dar uma puta angústia...”


     “Uma das razões para o desgaste natural do relacionamento entre os integrantes do RPM foi a falta de conhecimento mútuo e maior convivência entre os músicos. Não eram amigos de infância, eram pessoas que se conheceram aos vinte e poucos anos de idade e montaram uma banda de rock. Gravaram um disco, fizeram um grande sucesso, ganharam muito dinheiro, foram para a estrada fazer shows e foram se conhecendo durante esse processo. Não houve tempo de convivência para que se conhecessem e soubessem aceitar as limitações, fraquezas e particularidades de cada um. Fizeram as coisas que tinham de fazer, bem feito e rápido. Não precisaram de ninguém nem tiveram quem indicasse o caminho correto, simplesmente seguiram a onda que lhes era apresentada. “O RPM foi um estouro tão rápido que mexeu com a cabeça de todos eles. Se tivessem um tempo maior antes do estouro, poderiam ter criado raízes mais sólidas e o envolvimento com o sucesso seria diferente”, acredita Luiz Carlos Maluly.”


     “O assédio das mulheres aos músicos do RPM sempre foi muito grande. (...) Uma história, permitida, merece destaque. Na festa após a apresentação na praça da Apoteose, no Rio de Janeiro, que aconteceu no Golden Room do Hotel Copacabana Palace, uma famosa atriz de novelas procurou P.A. e começou a conversar sobre vários assuntos. A conversa não rendeu, mas a atriz anotou o número do quarto onde o baterista estava hospedado. Lá pelas quatro e meia da manhã, todo o RPM estava em seus respectivos quartos com suas esposas – na época apenas P.A. estava solteiro. De repente, o telefone toca e o batera atende. A voz do outro lado da linha pergunta se ele sabia quem era. A resposta foi negativa. “Já tinha tomado muita bebida, fora as outras coisas que sempre acompanhavam essas festas e não sabia quem era”, recorda P.A. Ela disse que estava em frente ao apartamento dele no Copacabana Palace e pediu que ele fosse até a varanda, pois assim poderia vê-lo. P.A. foi e a moça começou a acenar da sacada de seu prédio, localizado na diagonal do famoso hotel carioca. A atriz convidou P.A. para ir até o seu apartamento para que continuassem a festa e conversassem mais, etc. O baterista aceitou e foi se encontrar com aquela moça lindíssima em sua casa a poucos metros do hotel onde estava hospedado.
     Chegando ao apartamento da atriz, ele foi surpreendido, pois o marido dela estava dormindo lá. P.A. foi tranquilizado pela própria atriz, que disse não haver nenhum problema. Começaram a beber e a consumir certa quantidade de drogas. Porém, somando-se ao consumo anterior, no qual os dois já haviam abusado deliberadamente, não conseguiram fazer muita coisa juntos a não ser conversar. Até tentaram ter algum tipo de relação sexual, mas não foi possível. Os efeitos do álcool e dos entorpecentes sobre o organismo dos dois eram tão intensos que foi impossível consumar algum ato. “Não conseguimos, estávamos os dois muito doidos. Uma pena. Me arrependo até hoje.”, lamenta-se P.A. O marido da atriz acordou, tomou café com os dois seminus, se arrumou e foi trabalhar, sem o menor constrangimento. P.A. saiu do apartamento da jovem atriz depois de uma e meia da tarde.”

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