A conversão de São Paulo

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quarta-feira, 17 de agosto de 2011

O totem do lobo - Jiang Rong

Editora: Sextante
ISBN: 978-85-99296-32-5
Opinião★★★☆☆
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Páginas: 506
     “Quando o pelo dos lobos brilha, eles estão com fome.”


      “A paciência é a chave de uma boa caçada.”


     “– Todos dizem que as peles de lobo são a forração mais quente que existe. As pessoas daqui, caçadores e pastores, matam muitos lobos, mas nunca vi uma pele na casa de um pastor. Por quê? As únicas que vi foram um capacho na casa do Dorji e um par de culotes que o pai dele usa em cima das calças de pele de ovelha, com o pelo virado para fora.
     – Dorji é um mongol do noroeste – disse o velho. – Eles são lavradores que possuem algumas cabeças de gado e ovelhas, mas convivem com os chineses há tanto tempo que começaram a adotar os costumes dos han. As pessoas que vêm de fora se esqueceram dos mongóis e de sua própria origem. Quando morre alguém em sua família, elas o colocam num caixão e o enterram, em vez de dá-los aos lobos como alimento. Então é claro que não veem nada de errado em usar peles de lobo como culotes. Aqui nas estepes as peles de lobo são mais grossas e mais densas, de modo que não há nada melhor para acabar com o frio. Duas peles de ovelha juntas não o manterão tão aquecido quanto uma única pele de lobo. Mas nós não as usamos como roupa de cama. Temos muito respeito por esses animais. Um mongol que não os respeita não é um mongol de verdade. Preferimos morrer congelados a dormir sobre uma pele de lobo, porque isso insulta os deuses mongóis e faz com que nossas almas não sigam para o Tengri. Por que você acha que o Tengri concede suas graças aos lobos?
     – O senhor não disse que os lobos são os espíritos protetores das estepes? – Chen Zen perguntou.
     – Certo – concordou o velho, com os olhos espremidos pelo sorriso largo. – É exatamente isso. Tengri é o pai, estepe é a mãe, e os lobos só matam os animais que a prejudicam. Como o Tengri poderia não favorecê-los?”


     “– Quando você vive como nômade nas estepes por um período prolongado, não faz diferença a que grupo étnico pertença, já que, mais cedo ou mais tarde, começa a adorar os lobos e a tratá-los como mentores. Foi o que aconteceu com os hunos, os wusuns, os turcos, os mongóis e outros povos. Pelo menos é o que dizem os livros. Mas os chineses são uma exceção. Eu garanto que eles poderiam viver aqui por gerações sem adorar o totem do lobo.
     – Talvez sim, talvez não – disse Chen, puxando as rédeas do cavalo. – Veja eu, por exemplo. Os lobos me conquistaram em pouco mais de dois anos.
     – Mas a grande maioria dos chineses é composta por lavradores – objetou Yang. Os han têm uma mentalidade camponesa impossível de modificar, e, se mudassem para cá, eu ficaria surpreso se não tirassem a pele de todos os lobos das estepes. Somos uma raça de agricultores, o medo e o ódio pelos lobos está no nosso sangue. Como poderíamos venerar um lobo como totem? Nós cultuamos o Rei Dragão, o único que olha por nossa linhagem agrária, nosso totem do dragão, aquele a que rendemos homenagens, aquele a que nos submetemos humildemente. Como se poderia esperar que essas pessoas aprendessem com os lobos, os protegessem, adorassem e, ainda assim, os matassem, como fazem os mongóis? Só o totem de um povo é realmente capaz de despertar seu espírito e seu caráter étnicos, seja ele um dragão ou um lobo. As diferenças entre o povo agrário e os nômades são simplesmente grandes demais. Antigamente, quando estávamos imersos no vasto oceano chinês dos han, não tínhamos ideias dessas diferenças, mas, vindo para cá, as fraquezas inerentes a nossos antecedentes se tornaram óbvias. Sim, meu pai é um professor de renome, mas o avô dele e a avó da minha mãe eram camponeses.”


      “De acordo com a prática secular do Olonbulag, quando morre um pastor as pessoas o despem e enrolam seu corpo num feltro, embora, às vezes, deixem o cadáver vestido e abram mão do feltro. Depois colocam o corpo numa carroça, em cima de uma tábua comprida, atravessada e firmada sobre os eixos. Nas horas que antecedem o amanhecer, os dois homens mais velhos da família conduzem a carroça até o local do funeral celeste, onde chicoteiam os cavalos para que eles partam a galope. Inevitavelmente, o corpo cai da carroça, e esse é o ponto de partida para o retorno de sua alma ao Tengri. Os dois parentes desmontam e, quando o corpo está despido, desenrolam o feltro e estendem o morto no chão, de costas, virado para o céu, exatamente como veio ao mundo, nu e inocente. Nesse momento, o morto pertence aos lobos e aos deuses. Se sua alma entrará ou não no Tengri vai depender das virtudes que ele teve em vida ou da falta delas. Em geral toma-se conhecimento disso em três dias. Se, depois desse prazo, não resta nada além dos ossos do cadáver, é porque sua alma entrou no Tengri. Mas se o morto permanecer mais ou menos intacto a família entra em pânico. Entretanto, há muitos lobos no Olonbulag e Chen nunca ouviu falar de uma única pessoa cuja alma não houvesse entrado no Tengri.
     Ele já conhecia os funerais celestes tibetanos, mas só ao chegar às estepes descobrira que essa também era uma prática mongol, com os lobos substituindo as águias como agentes fúnebres.”


     “– Quando falta a um homem ou a uma raça o espírito de preferir a morte à rendição, a disposição de morrer junto com o inimigo, o resultado inevitável é a escravidão. Qualquer um que tome como modelo o espírito suicida dos lobos se tornará um herói e será enaltecido com canções e lágrimas. Aprender a lição errada leva ao fascismo dos samurais, e quem não prefere a morte à rendição sempre sucumbirá a eles – disse Bilgee.”


     “(...) – No fim não é exagero dizer que os lobos estão por trás da natureza selvagem e feroz dos garanhões mongóis. (...) Esses animais são os déspotas das estepes. Temem que uma alcatéia ataque suas fêmeas e suas crias, mas, fora isso, não têm medo de mais nada, nem de lobos nem de seres humanos, com certeza. É comum falarmos sobre trabalhar como um boi ou um cavalo, mas isso não tem nada a ver com os garanhões. Não há muita diferença entre uma tropa de cavalos mongóis e uma tropa selvagem, a não ser, é claro, pelos capões. Passei muito tempo com os cavalos, mas ainda não consigo imaginar o que a população primitiva fez para domesticá-los. Como essa gente descobriu que poderia montar um cavalo se o castrasse?
     Chen e Yang se entreolharam e apenas balançaram a cabeça. Satisfeito com essa reação, Zhang continuou:
     – Passei muito tempo pensando nisso e acho que os primeiros habitantes das estepes encontraram meios de capturar garanhões selvagens feridos por lobos. Depois de tratá-los até que se recuperassem, não conseguiram montá-los, mesmo quando tinham um sucesso modesto com cavalos ainda pequenos. Assim, continuaram tentando, com diversos cavalos feridos, geração após geração, até que um dia pegaram um cavalo cujos testículos tinham sido arrancados a dentadas, talvez um potro de dois anos, e conseguiram montá-lo quando ele atingiu a maturidade... e isso os levou à conclusão óbvia. Seja como for que tenha acontecido, foi algo complexo e deve ter levado muito tempo. E muitos habitantes primitivos das estepes devem ter morrido tentando. Esse é um dos maiores avanços da história humana, muito mais significativo que o papel, a impressão, a bússola e a pólvora, as quatro grandes invenções da China. Sem os cavalos, a vida na antiguidade seria inimaginável, muito pior do que vivermos sem automóveis, trens e tanques na sociedade moderna. E é por isso que as contribuições dos antigos nômades para a humanidade são incalculáveis.”


     “– O espírito de luta é mais importante que o espírito pacífico de trabalho. A maior obra de engenharia do mundo, em termos de produção da mão-de-obra, a nossa Grande Muralha, não resistiu aos guerreiros montados de uma das menores raças do mundo. Se você sabe trabalhar mas não é capaz de lutar, quem é você? É como um capão: trabalha para as pessoas, ouve desaforos delas e lhes serve de transporte. E, ao se deparar com um lobo, enfia o rabo entre as pernas e foge. Agora, compare isso com um daqueles garanhões que usam os dentes e os cascos como armas.”


      “Nas lutas entre cães e lobos, o ventre dos adversários é um alvo muito importante. Quando um consegue atingir a barriga do outro, aquele que foi ferido está condenado. É por isso que nem os cães nem os lobos expõem a barriga a ninguém, animal ou humano, em quem não tenham absoluta confiança.”


     “– Agora entendo como a cavalaria de Gêngis Khan conseguia se deslocar tão depressa. Os lobos obrigavam os cavalos a correr noite após noite, e eles ganhavam velocidade e energia para percorrer longas distâncias. É comum eu assistir à sua luta incessante e trágica pela sobrevivência contra esses predadores. Os lobos atacam à noite, de forma implacável, e nunca desistem, não dando aos cavalos a chance de descansar. Quando ficam para trás, os cavalos velhos, doentes, lentos e pequenos, assim como os potros e as éguas prenhes, são cercados e devorados vivos. Você nunca viu a triste cena de cavalos correndo para salvar a vida. Eles não param, soltando espuma pela boca e banhados de suor. Alguns usam toda sua força para escapar e morrem assim que param e se deitam. Literalmente morrem de cansaço. Os mais velozes às vezes conseguem algum intervalo para devorar um pouco de capim. Ficam tão famintos que são capazes de comer qualquer coisa, até juncos secos, e têm tanta sede que bebem de tudo, inclusive água salobra, mesmo misturada com urina de bois e ovelhas. Os cavalos mongóis vêm em primeiro lugar em matéria de força, energia, digestão, sistema imunológico e capacidade de resistir ao calor e ao frio. Mas só os tropeiros sabem que todas essas qualidades foram desenvolvidas à força, pela velocidade e pelas presas dos lobos.
(...)
     – Lembro-me de você ter dito que todas as tribos das estepes que travaram batalhas aqui, desde os quanrongs, os hunos, os tungus e os turcos até os mongóis de hoje, compreendiam os segredos e o valor dos lobos. Isso faz cada vez mais sentido para mim. Os lobos deram aos mongóis a natureza feroz dos combatentes, a sabedoria da guerra sofisticada e os melhores cavalos de batalha. Essas três vantagens militares tornaram possíveis suas impressionantes conquistas.”
  

      “Segundo Bilgee, em tempos antigos os cães-da-pradaria eram usados como alvos vivos para crianças mongóis treinarem arco-e-flecha. Escolhidos por sua velocidade e pela visão aguçada, eram bons alvos para as crianças da Mongólia, que eram instruídas a não voltar para casa enquanto não acertassem o número de animais que seus pais determinavam. O parque de diversões dessas crianças eram as estepes, e essa era sua brincadeira favorita. Era comum elas ficarem tão entretidas que se esqueciam de ir para casa comer. Já mais velhas, trocavam seus pequenos arcos por outros maiores e exercitavam o tiro a cavalo. Jebe, o general de Gêngis Khan que conquistou a Rússia, era um arqueiro famoso e tinha aprendido a disparar assim. Era capaz de acertar um cão-da-pradaria na cabeça, montado num cavalo a galope, a uma distância de 100 metros. Bilgee dizia que a habilidade dos mongóis como cavaleiros e arqueiros havia protegido as estepes e contribuído para que eles dominassem o mundo. Acertar o alvo menor, mais esperto e mais difícil, era sua maneira de se aperfeiçoar no arco-e-flecha.”

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Mapas do Acaso: 45 variações sobre um mesmo tema – Humberto Gessinger

Editora: Belas Letras
ISBN: 978-85-60174-78-2
Opinião: ★★★☆☆
Páginas: 144

     “Na ilusão de que seria um eterno provisório, comprei a armação de óculos que me pareceu mais bacana, sem pensar em como ficaria no meu rosto. Não me dei conta de que, daquele momento em diante, aquilo também seria meu rosto. Só depois, descobri que rola uma ciência aí, se não me engano, aconselham armações com formato contrário ao do rosto. Rosto comprido, óculos estreitos. Algo assim... nem sempre o modelo que se quer é o modelo que se deve.
     Essa é uma briga para a vida inteira: querer o que se pode, poder o que se quer. O único esporte para o qual eu levava algum jeito, quando criança, era o vôlei. Mas eu não gostava. Fui mais feliz sendo um goleiro mediano e um tenista sofrível do que sendo um bom jogador de vôlei.
     Frequentemente, aplico esse raciocínio aos instrumentos que toco. Quais quero e quais eu devo? Me tranquilizo lembrando que a arte não tem objetivos lineares como o esporte. Não se trata de ganhar ou perder, ser mais rápido ou mais forte.
     A utilização de óculos desde cedo pode ser sublimada em uma canção, como muito bem fizeram os Paralamas do Sucesso. Mais difícil é glamourizar os óculos que chegam, e chegam para todos, aos quarenta anos. Resta o consolo de Martin Fierro: “O diabo sabe mais por ser velho do que por ser diabo”. Essa citação do poema de José Hernandez também deve valer mais por velha e surrada do que por sábia.”


      “Em dezembro de 1985, ainda mais estudantes de arquitetura do que músicos, os Engenheiros do Hawaii tocaram em Passo Fundo. Cidade distante uns 300 quilômetros de Porto Alegre, nunca tínhamos ido tão longe. Tempos anteriores à internet. Longe era longe. (...)
     Meu equipamento era uma guitarra Gianini e um pedal de efeito. Amplificador, eu dava um jeito de arranjar. Não tínhamos disco, ainda. Viajávamos com uma fita da música Segurança para a eventualidade de alguma rádio local se aventurar a tocar. Não tocávamos covers, éramos autorais até os ossos. Um pouco por virtude e um pouco por defeito. Quando tentava tocar alguma música de outro cara, eu acabava compondo uma nova antes de aprender.”


      “Depois do show, enquanto batíamos papo na rua (bons tempos em que dava pra fazer isso) vi chegar um Fiat 147, carro que parecia incrivelmente pequeno na época. Havia uma vaga do tamanho exato para estacionar. Ao contrário do que se costuma fazer, o motorista entrou com a parte dianteira do carro na vaga. Desligou o motor, saiu, agarrou o pára-choque traseiro, de costas, ergueu e acabou de estacionar o carro no braço! Esfregou as mãos, e, com o canto do olho, conferiu se todos tinham visto a façanha. Desde então, para mim, estacionar o carro do jeito normal passou a ser tão enfadonho!”


      “Não cheguei a conhecer meus avós paternos, Rodolfo e Rosália. Morreram antes do meu nascimento. Nos feriados de finados, sempre visitávamos o pequeno cemitério onde eles estão enterrados, numa cidade do interior gaúcho. Lembro do portãozinho, coisa de meio metro, que rangia muito e excitava minha imaginação de criança. Para que serviria um portão de cemitério? Para evitar que alguém entrasse ou que algo saísse?”


      “Quando eu tinha uns 10 anos, um caso esquisito dominava as manchetes: o sequestro da herdeira de um milionário império jornalístico americano. Se chamava Patrícia Hearst. Foi sequestrada pelo Exército Simbionês de Libertação, um grupo terrorista de orientação marxista. Estranho, né? Ela acabou se juntando ao grupo e participando de um assalto a banco. Diziam que havia sofrido lavagem cerebral.
     Talvez viesse daí o fascínio que o caso exercia: “lavagem cerebral”. Duas palavras que ficaram estranhas uma ao lado da outra. Depois começaram a falar em “Síndrome de Estocolmo”, um estado psicológico no qual a vítima se identifica emocionalmente com o agressor.
     Acho que desenvolvi uma síndrome dessas ao contrário. Um estado psicológico em que o vencedor se identifica emocionalmente com o derrotado. Costumo virar simpatizante dos times que perdem para o Grêmio em jogos emblemáticos. Até coleciono suas camisas. Estão na lista Hamburgo, Peñarol e Náutico. Chamo essas camisas de “escalpos”. Carinhosamente.”


      “Nessa época, eu aproveitava as viagens para aumentar minha coleção de camisetas de clubes. As “oficiais”, em muitos lugares, eram quase impossíveis de conseguir. Em Recife, ganhei camisas do Náutico, Sport e Santa Cruz. Agradeci ao cara que me deu de presente, e ele disse: “Não me custa, sou dirigente.” “De qual time?”, perguntei. “Dos três!”.”


      “Um relógio parado acerta a hora pelo menos duas vezes ao dia. Assim como a roupa no fundo do armário voltará à moda, num mundo sem passado, onde, passados quinze minutos, tudo é vintage. Assim como a gente pode parecer inteligente, esperto e bem informado ficando calado.”


      “Amadurecer é um pouco isso, deixar de ser esperto.”


      “Quem fala, e só fala, de música gostar de pensar Lady Gaga com as mesmas ferramentas que serviam para pensar Janis Joplin. Como se LP e download fossem, apenas, formas diferentes de fazer a mesma coisa. Como se fosse possível separar forma e conteúdo.
     Para falar dos novos tempos, sempre ressuscitam a “aldeia global”, de Marshall McLuhan ou a “relatividade” de Albert Einstein. Será que eles sabiam mais sobre nosso tempo do que meu sobrinho que joga videogame?
     Os tempos são outros
     Os erros, os mesmos


      “Esses livros da minha infância eram, fisicamente, feios. Apesar de uma ou outra capa com desenho legal (Mês de Cães Danados, do Moacyr Scliar, por exemplo, era até tatuável). Lembro de ter comprado uma coleção em que, irritantemente, não havia dois livros do mesmo tamanho. Muitas folhas eu tive de separar com uma faca. Bordas ásperas, cola e costuras que se desfaziam na primeira leitura.
     Esses livros da minha infância são, fisicamente, lindos. Meu Lobo da Estepe se mantém uno por uma sucessão de camadas de fita durex. Só o passar dos anos ensina que até o durex é transitório. Quando a gente aplica a fita, ela parece segura e permanente. Nada disso. Com o tempo, ela também dança. Meu Lobo da Estepe pode ser visto como se vê um tronco de árvore cortado, cada anel significando um ano. Uma fatia da Terra onde se conta o tempo geológico.
     Minha assinatura nos livros também testemunha passagem de tempo e busca de identidade. Começa como imitação da assinatura do meu pai, passa a ser imitação de letra de arquiteto e chega ao que é agora, que não sei bem o que é, que deve ser o que sou. Isso falta aos livros de biblioteca: na primeira folha, assinatura de quem os leu.
     Hoje, livrarias e livros estão tão bonitos! Parecem viver um momento especial, ocupando um pouco do espaço dos discos, que Deus os tenha. Talvez os livros sejam os próximos a fazer a travessia. E talvez o mundo virtual seja ecologicamente correto. Para mim e para minha geração, discos e livros eram testemunhas físicas de nosso crescimento. Cada palmo conquistado nas prateleiras da casa correspondia a um mundo interior mais rico. Difícil de medir em bytes.”


      “Livros comprados, livros de biblioteca e livros emprestados são coisas completamente diferentes. Cada uma com seus atrativos. Os emprestados são mais estranhos. Sempre trazem um pouco de catequese. Os olhos de quem emprestou vêm junto. A leitura carrega a perspectiva de um futuro diálogo: “E aí, o que achou?”. Sem falar no pecado mortal que seria não devolvê-los. Tirando todo esse peso, há sempre o bom astral da atitude generosa.”


Nota mental para uma próxima vida:
     Falar mais devagar, digitar com mais atenção,
     reler antes de postar,
     escrever de forma legível, pensar antes de falar,
     falar mais devagar...


      “Tudo bem se a digitação transformar Pra Ser Sincero em Prazer Sincero. Só não pode transformar Simples de Coração em Simples Decoração. É bom ficar ligado para que lesma lerda não vire mesma merda. Uma digitação afoita pode transformar uma coisa fofa numa coisa foda. (...)
     Quanto à minha letra, não tenho esperança de torná-la legível nem em uma próxima vida. Quando comecei a gravar recados para mim mesmo, senti que estava cometendo eutanásia, dando a extrema-unção à minha caligrafia. Ah, como eu queria de volta as horas que perdi tentando ler o que havia escrito em pedaços de papel mal rasgados na noite anterior...”


Nota mental para uma próxima vida:
     Cineminha, ao menos uma vez por semana.
     Chocolate, só uma vez por semana.


      “Sem uma equipe na qual diluir a natural decadência, todo atleta individual, se for honesto, acaba sua carreira por baixo. Com olho roxo, se for boxeador. Se for tenista, perdendo para alguém pior, mas com pernas mais jovens. Na sinuca, mastigando um cigarro que mãos trêmulas levaram à boca. No xadrez, sofrendo uma estafa que o fará ver as peças se moverem sozinhas. Se não vivêssemos numa sociedade infantilmente escrava da vitória, apreciaríamos essas derrotas como representações do ciclo natural da vida.”


      “Num estúdio, em Los Angeles, li uma placa que poderia ser traduzida assim: “Relaxe, senão, conseguiremos alguém para relaxar no seu lugar”. Quer deixar alguém tenso? Diga para ele relaxar (Quer contar uma piada para Deus: Faça um plano). É a sina de quem depende do sutil equilíbrio entre inspiração e transpiração. Grace under pressure. A sina de quem ouve vozes. Vozes que nem sempre soam quando são esperadas. Uma interessante família espiritual vive disso. Ainda que a arte não tenha objetivos lineares como o esporte, em inglês, com a mesma palavra (play), se joga tênis e se toca guitarra.”


      “Não chegam a me perguntar, mas acho que algumas pessoas, de tanto ficar olhando a capa de algum disco antigo, gostariam de saber se sou meu pai. Com sorte e com o passar do tempo, chegará o dia em que teremos, todos, a cara dos nossos avós.
     A não ser que façamos como os políticos estão fazendo. Chegam ao fim da campanha mais jovens do que começaram. Todos com os mesmos dentes brancos e os mesmos sorrisos e ideias botoxados.
     Uma pena. As definições de esquerda e direita que parecem não valer mais na economia e na política, poderiam encontrar refúgio em questões éticas e estéticas. Contra a extinção do cabelo grisalho! Contra o medo das rugas, que nada mais é do que medo da vida! Contra o medo. Não era assim? Pela generosidade, esquerdas...”


Nota mental para uma próxima vida:
     Aprender com a natureza.
     Meus cães, por exemplo: eles só comem e dormem.
     (e não têm animais de estimação)


      “Mudança, como se tudo coubesse num caminhão. (...) Ali, logo ali, depois da curva, meu time, o Grêmio, vai trocar de estádio. (...)
     Do estádio que conheci com meu pai, estou me despedindo, aos poucos, com minha filha. Esse espaço mágico e único vai se transformar em mais um pedaço da cidade, igual a outros. Certamente, teremos um estádio bacana, a Arena. Talvez tenhamos que carregar algum nome de patrocinador, Arena Alguma Coisa. São os tempos, vamos que vamos. Mas é estranho. Certas coisas deveriam durar, senão para sempre, pelo menos mais do que a gente.”


Nota mental para uma próxima vida:
     Tenha talento, trabalhe como um condenado, sue sangue, e você conseguirá tudo sem esforço.


      “A aposta que faço é no talento, no trabalho, no senso de missão e na possibilidade de fracasso. Talvez, até, na necessidade do fracasso. Nestes tempos tão casuais, ninguém quer se comprometer com uma missão. Muito menos inventar, construir sua própria missão. Fica um acordo tácito no ar, de que nada vale muito à pena. Falta de ambição virou um salvo conduto. É filminho pra lá, musiquinha pra cá, livrinho pra lá, piadinha pra todo lado. Acorrentados ao que temos para o momento, transcendência virou palavrão. Já que a vida é uma só, que seja só uma bobagem. Já que a queda é inevitável, que seja da menor altura possível. Uma boa desculpa para rastejar.”

Sweet Tulipa
ele queria todas as noites a mesma estrela
ela queria todas as estrelas a mesma noite
ela tinha o andar apressado de quem não pode parar
ele tinha o olhar parado de quem não pode acreditar
ele olhava a porta que se abria
ela abria os olhos mas não (ha)via nada
ninguém quis dançar conforme a música do ballet do rancor

ele sem sair de casa, sem sair do quarto, sem sair da cama
ela mudando de roupa, mudando o canal, em outro planeta
ela, que não acreditava em Deus, disse: Deus te proteja
ele, que nunca teve medo, pensou duas vezes
e o rio segue seu curso…
sem ouvir o que se diz, o que se discursa
e se renova, sem revolta, sem recusa, é o seu único recurso.


      “Viola caipira é o instrumento que a gente passa metade do tempo afinando e metade do tempo tocando desafinada.
     A vida é um pouco assim, a gente pode passar metade do tempo fazendo planos e a outra metade tendo que improvisar.”