A conversão de São Paulo

A conversão de São Paulo
A conversão de São Paulo

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

O encontro marcado - Fernando Sabino

Editora: Record
ISBN: 85-01-91200-X
Opinião: ****
Páginas: 304

     “Floripes era a ama. Dava banho em Eduardo, vestia-lhe o uniforme do Grupo. Um dia Eduardo gritou-lhe de dentro da banheira:
     – Floripes! Tem um osso no meu pipiu!
     Desse dia em diante a preta decidiu que ele já podia tomar banho sozinho. Quase sete anos.
     – Não quero. Quero você.”


      “NA NATUREZA nada se perde, nada se cria, tudo se transforma.
     – Um corpo mergulhado num líquido recebe um impulso de baixo para cima igual ao peso do volume do líquido deslocado.
     – Não é fluido, não?
     – Não: é líquido. Líquido e fluido é a mesma coisa.
     – Olha o bobo. Líquido e fluido a mesma coisa?
     Discutiam:
     – Manteiga é sólido, líquido ou gasoso?
     – Então me diga quem foi Laplace.
     – Laplace foi o da banheira.
     – Da banheira foi Arquimedes, seu.
     – E o da maçã?
     – Da maçã foi Newton.
     – Então quem foi Laplace? Diga você.
     – Foi o da gota de azeite.
     Hemisférios de Magdeburgo, dois cavalos puxando não conseguiam separar. Conjuga o verbo pelocupar no condicional. Ilhas do Japão: Sakalina, Yeso, Nipon, Sikok, Kiusiu, Fujika e Mozaka. Fujika Mozaka era a japonesinha da turma B, jogava vôlei, não era ilha do Japão. Anos mais tarde seria assassinada pelo marido em Lafaiete: Mauro e Eduardo, já homens, veriam o retrato no jornal, se lembrariam. Agora ainda são meninos, estão voltando do Ginásio.
      Mauro, nós somos sábios pra burro. Se Platão ressuscitasse, sabia muito menos coisas que a gente, havia de ficar besta.
     – Ele não sabia que a terra é redonda, uai.
     Provas da redondeza da terra: um navio se afastando pelo mar, o mastro sumia por último. Tomemos por exemplo uma laranja. O Golfo de Biscaia onde fica? La maison du voisin est vaste et commode. Sujeito, predicado e complemento, H2O. Leônidas nas Termópilas, melhor! combateremos à sombra. Que é anacoluto? É a soma do quadrado dos catetos. Qui quae quod, o sertanejo é antes de tudo um forte. Mauro, heróico, trepado no muro do pátio:
     – “Aí vem o general Valdez bloquear a cidade de Leide! Aí vem a guerra mais desumana, mais carniceira e mais daninha de que há memória nos séculos dos séculos!”.”


      “Mas Hugo acabava confessando, deprimido:
     – Também não vejo solução: nos lugares mais puros, numa casa de família, na igreja, tenho os pensamentos mais safados. Ainda ontem, na missa, me surpreendi olhando as pernas de um menino. Numa casa de mulheres me sinto puro, tocado pela Graça. E passo a catequizar as putas, falando de Deus, na salvação eterna.”


      “Mauro tinha mania de inventar provérbios:
     – Quem de si faz alarde, cedo o rabo lhe arde.”


      “Casando ou deixando de casar, a gente se arrepende sempre.”


      “Mas ele se sentia fora de seu mundo, esquecido de tudo, pacificado, feliz. O regresso, o apartamento alugado, a mobília comprada, a vida em comum afinal feita realidade. Tudo acontecia numa sequência rápida, sem trégua, mal ele tinha tempo de acomodar-se a uma transformação em sua vida, e logo vinha outra, ainda maior. Que viria agora? – ele se interrogava, sem saber o que fazer de si, pela primeira vez sozinho, quando ela enfim, alegando cansaço, recolhera-se mais cedo. Sentia vagamente que se tornara instrumento de desígnios outros, poderosos, desconhecidos – já não era dono de si mesmo. Você não soube escolher – lhe dissera Toledo: foi escolhido. Escolhido por quem? Para quê? Desígnios de Deus? Lembrava-se do diretor do ginásio, séculos atrás: você acredita em Deus? já nem sabia em que acreditava, não tinha tempo para pensar. Você vive muito depressa – o pai tinha razão, era isso, depressa demais. Essa ganância de viver. Gostaria de ser um homem sereno, comedido, um escritor como Machado de Assis. Era preciso ir devagar – saber envelhecer. O fruto que apanhava ainda verde, deixava apodrecer na mão. Casado. A vida o afastava de sua origem, de seus amigos. Já nem sempre estaria presente na lembrança deles, o tempo o empurrava com força demais e isso era terrível. Mal podia sentir o gosto das novas experiências, já não eram novas, ficavam logo para trás, o passado, ele que não tinha presente, não tinha nada, não fizera nada – por que não podia parar um pouco, descansar, não dar mais um passo? Queria adquirir seus hábitos também, certa maneira de ser, ele que era moço. Sozinho. Muito precoce, aprendeu a ler sozinho, fazia o que queria, bastava arranhar o rosto. Antonieta sua mulher, dia e noite, enfim conquistada: nada mais a fazer? Sozinho, o tempo passando, ignorava tudo que ficara para trás: Mauro fizera um poema e ele não sabia, Hugo lhe mandara um telegrama, apenas um telegrama lhe mandara Hugo. Assim, eles iam mudando: nada de intimidades. Uma suave cortesia. Uma distinta amizade. Amabilidades de parte a parte. E falsidade, hipocrisia, conveniência. Pois não, também acho, com prazer. Com quem puxar angústia agora? Nascemos para morrer – nada pior do que não ter nascido. A vida tem dessas contradições, dizia o pai. Onde as verdades eternas? O tempo levava tudo, ele não tinha onde se ancorar. Oh, o Toledo era um tratado de psicologia. Tudo isso é natural, diria ele, natural, viver é assim mesmo. O tempo acontece, o que tinha de ser já foi, agora a nostalgia de já ter sido em experiência, etcetera, etcetera. Conheceria novas pessoas, pensaria outras coisas, ouviria em silêncio prudente e compassivo opiniões alheias que um dia já foram suas. E esta certo! Não se pode fazer das dúvidas de outrora o pão nosso de cada dia: não posso responsabilizar ninguém pelo destino a que me dei. Sozinho: sozinho no mundo com uma mulher. O que significa isso? Significa que terei de amá-la, zelar por ela, sustentá-la, cumprir os chamados deveres de estado. Pois então o que é que estou fazendo aqui, sozinho? Não sou um homem? um marido, não sou? Há uma fresta em minha alma por onde a substância do que sou esta sempre se escapando mas não vejo onde nem por quê. Depressa, não há tempo a perder. Também tenho o meu preço mas ninguém conseguirá me comprar, todo o dinheiro do mundo não basta, hei de escapar como água entre os dedos da Coisa que me aprisionar entre os dedos – hei de fluir como um rio, dia e noite, nem que tenha de dormir de pé porque esta é a cama estreita que conduz ao reino dos céus. Não adianta pensar, a mão de Deus é pesada mas me protege a cabeça, tudo que faço nasce feito, sozinho, não adianta chorar, meu Deus, nem tenho motivos para isso, muito pelo contrário, é preciso reagir, a literatura não adianta, e os livros na estante e o cinzeiro cheio de cinza e a luz da cozinha acesa, poderia fazer um café, Antonieta dormindo e o botão do pijama, meu Deus, livrai-me do pijama, quero ser reto, quero ser puro, quero servir, pois vai trabalhar, moço, deixa de vaidade, tu és muito pretensioso, uma missão a cumprir, ora vejam, perdulário que tu és, a vida é breve, não incomoda os que trabalham, os trabalhos do homem são penosos, estou casado, estou cansado, estou abatido, em verdade estou destroçado, andei depressa demais, agora chega, basta, para, pronto! acabou. Assim. Fique quieto. Que nenhum som te denuncie. Calma. Não olhe. Não mexa. Não queira. Não estou dormindo, estou vigilante, hay que vigilar las tinieblas, capisca? ai, Minas Gerais, já ter saído de lá, tuas sombras, teus noturnos, teus bêbados pelas ruas, Eduardo Marciano, minha mágoa, minha pena, minha pluma, merecias morrer afogado, o barco te leva para longe, a praia esta perdida, mas voltarás nem que tenhas de andar sobre as águas...
     De tudo, ficaram três coisas: a certeza de que ele estava sempre começando, a certeza de que era preciso continuar e a certeza de que seria interrompido antes de terminar. Fazer da interrupção um caminho novo. Fazer da queda um passo de dança, do medo uma escada, do sono uma ponte, da procura um encontro.”


      “Seu erro fundamental é lembrar em vez de recordar. Há uma diferença entre lembrar e recordar; recordar é reviver, lembrar é apenas saber. O que é recordado fica, o que é lembrado é também esquecido.”


      “Não sei quem, acho que foi Guardini – aquele livro que eu estava lendo, sabe? – que disse: “o homem que quer justiça tem de colocar-se em nível superior ao da simples justiça”. Pois bem: isso serve para tudo.”


      “Começar o ano? Lembranças indistintas afloravam em confusão na sua cabeça, uma festa na casa de Vítor se misturando àquela em que estava agora, uma igreja iluminada, a primeira missa do ano, há quantos séculos? Oh, como ele então era inocente! Deus rejeita os inocentes: não servem para nada. É preciso se perder primeiro, para depois se salvar. Antes, resistir bastante, para que a queda seja completa. Escarrapachar-se no chão, quebrar a cabeça. Pôs-se a rir: este era o privilégio do homem. Um direito, o direito de escolher.”


      “Frei Domingos a princípio não entendeu bem:
     – Se ela lhe pediu que não voltasse lá e você mesmo acha que não deve voltar...
     – Não é isso – insistia ele: – É que eu senti desejo por ela e não podia, não tinha esse direito.
     – Por causa de o seu falecido marido ser seu amigo?
     – Não sei. Por causa dele, talvez. Por causa dela, das crianças.
     O monge o olhou, inquiridor:
     – Olha, Eduardo, vou lhe perguntar uma coisa...
     – Não me pergunte se acredito em Deus que é uma pergunta meio irritante.
     – E no demônio, você acredita?
     – O demônio eu sei que existe.
     Frei Domingos riu, depois continuou:
     – Mas não era isso que eu ia perguntar. E pergunto porque é preciso para que eu possa entender: se você... vivendo sozinho... bem, como é que tem se arranjado nesse setor.
     – Não vai querer que me confesse, vai? – brincou ele.
     – Seria bom – respondeu o padre, sério.
     – De vez em quando levo alguma mulher lá em casa, mas nem sempre, em geral depois tenho nojo.
     – Eu calculava.
     – Um dia levei uma moça que mora perto de minha casa. Quando ela era mais nova vivia me provocando, eu resistia por causa de minha mulher. Mas agora me disse que foi enganada pelo namorado – a história de sempre. Com ela não tive nojo. Foi uma espécie de triunfo...
     – Triunfo do demônio – acrescentou o padre.
     – Mas isso não chega a constituir problema para mim. Para dizer a verdade, eu não me importaria de ser casto, se fosse possível.
     O monge tornou a sorrir, e ficou silencioso.
     – Tudo isso não tem nada a ver com o que senti por Maria Elisa. Foi diferente. Eu tive desejo mesmo, de todo o coração. Não sentiria nojo depois. Senti nojo antes, nojo de mim mesmo, tive uma espécie de remorso antecipado pelo que poderia vir a acontecer. Não é possível, Frei Domingos, é sórdido demais. Se eu continuar assim, eu estou perdido.
     O monge tocou-lhe o ombro, se despedindo:
     – Pelo contrário – falou com firmeza: – Se você continuar assim, você esta salvo.”

Nenhum comentário: