A conversão de São Paulo

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segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Vidas secas - Graciliano Ramos

Editora: Record
ISBN: 85-01-06734-2
Opinião: ***
Páginas: 178


     “[Fabiano] Vivia longe dos homens, só se dava bem com animais. Os seus pés duros quebravam espinhos e não sentiam a quentura da terra. Montado, confundia-se com o cavalo, grudava-se a ele. E falava uma linguagem cantada, monossilábica e gutural, que o companheiro entendia. A pé, não se aguentava bem. Pendia para um lado, para o outro lado, cambaio, torto e feio. Às vezes utilizava nas relações com as pessoas a mesma língua com que se dirigia aos brutos - exclamações, onomatopéias. Na verdade falava pouco. Admirava as palavras compridas e difíceis da gente da cidade, tentava reproduzir algumas, em vão, mas sabia que elas eram inúteis e talvez perigosas.”


      “Seu Tomás da bolandeira falava bem, estragava os olhos em cima de jornais e livros, mas não sabia mandar: pedia. Esquisitice um homem remediado ser cortês. Até o povo censurava aquelas maneiras. Mas todos obedeciam a ele. Ah! Quem disse que não obedeciam?
     Os outros brancos eram diferentes. O patrão atual, por exemplo, berrava sem precisão. Quase nunca vinha à fazenda, só botava os pés nela para achar tudo ruim. O gado aumentava, o serviço ia bem, mas o proprietário descompunha o vaqueiro. Natural. Descompunha porque podia descompor, o Fabiano ouvia as descomposturas com o chapéu de couro debaixo do braço, desculpava-se e prometia emendar-se. Mentalmente jurava não emendar nada, porque estava tudo em ordem, e o amo só queria mostrar autoridade, gritar que era dono. Quem tinha dúvida?”


      “[A cachorra] Baleia detestava expansões violentas: estirou as pernas, fechou os olhos e bocejou. Para ela os pontapés eram fatos desagradáveis e desnecessários. Só tinha um meio de evitá-los, a fuga. Mas às vezes apanhavam-na de surpresa, uma extremidade de alpercata batia-lhe no traseiro – saía latindo, ia esconder-se no mato, com desejo de morder canelas. Incapaz de realizar o desejo, aquietava-se.”


      “Comparando-se aos tipos da cidade, Fabiano reconhecia-se inferior. Por isso desconfiava que os outros mangavam dele. Fazia-se carrancudo e evitava conversas. Só lhe falavam com o fim de tirar-lhe qualquer coisa. Os negociantes furtavam na medida, no preço e na conta. O patrão realizava com pena e tinta cálculos incompreensíveis. Da última vez que se tinham encontrado houvera uma confusão de números, e Fabiano, com os miolos ardendo, deixara indignado o escritório do branco, certo de que fora enganado. Todos lhe davam prejuízo. Os caixeiros, os comerciantes e o proprietário tiravam-lhe o couro, e os que não tinham negócio com ele riam vendo-o passar nas ruas, tropeçando. Por isso Fabiano se desviava daqueles viventes. Sabia que a roupa nova cortada e cosida por Sinhá Terta, o colarinho, a gravata, as botinas e o chapéu de baeta o tornavam ridículo, mas não queria pensar nisto.
      Preguiçosos, ladrões, faladores, mofinos.
     Estava convencido de que todos os habitantes da cidade eram ruins. Mordeu os beiços. Não poderia dizer semelhante coisa. Por falta menor aguentara facão e dormira na cadeia.”

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

O Livreiro de Cabul – Åsne Seierstad

Editora: Record
ISBN: 978-85-01-07287-0
Opinião: ***
Páginas: 322


     “Uma manhã, enquanto tomava uma xícara de chá fumegante na livraria, ele percebeu que Cabul voltava à vida. Enquanto fazia planos de como realizar seu sonho, pensou numa citação do seu poeta favorito Firdausi. ‘Para se ter êxito, algumas vezes é preciso ser lobo, outras vezes cordeiro’. Estava na hora de ser lobo, Sultan pensou.”


      “O divórcio nunca foi uma alternativa para Sharifa. Quando uma mulher pede o divórcio, ela praticamente perde todos os seus direitos. Os filhos seguem o marido e ele pode até impedi-la de vê-los. A mulher se torna uma vergonha para a família, é muitas vezes expulsa, e todos os seus bens cabem ao marido.”


      “No Afeganistão, mulher apaixonada é tabu. É proibido pelos conceitos de honra rigorosos do clã e pelos mulás. Os jovens não têm o direito de se encontrar para amar, não têm o direito de escolher. Amor tem pouco a ver com casamento, ao contrário, pode ser um grave crime, castigado com a morte. Pessoas indisciplinadas são mortas a sangue-frio. Caso apenas um dos dois tenha de ser castigado com a morte, invariavelmente é a mulher.
     Mulheres jovens são, antes de mais nada, um objeto de troca e venda. Um casamento é um contrato entre famílias ou dentro de uma família. A vantagem que o casamento pode ter para o clã é o que determina tudo – sentimentos raramente são levados em consideração. Durante séculos, as mulheres afegãs têm suportado a injustiça cometida contra elas. Mas em canções e poemas as próprias mulheres dão seu testemunho. São canções para ninguém ouvir, e até o eco permanece nas montanhas ou no deserto.
     Elas protestam “se suicidando ou cantando”, escreveu o poeta afegão Sayed Bahoudin Majrouh num livro de poemas das próprias mulheres pashtun. Ele reuniu os poemas com a ajuda da cunhada. Majrouh foi assassinado por fundamentalistas em Peshawar, em 1988.
     Os poemas ou rimas são passados oralmente de umas para as outras próximo ao poço, no caminho para o campo ou ao lado do forno de pão. Falam de amores proibidos, do ser amado como outro homem, nunca o marido, e do ódio ao marido, frequentemente muito mais velho do que elas. Mas expressam também o orgulho de ser mulher e a coragem demonstrada por elas. Os poemas são chamados de landay, que significa curto.
     Consistem de poucas linhas, curtas e ritmadas, "como um grito ou uma facada", escreve Majrouh.

Pessoas cruéis veem um velhinho
a caminho da minha cama
E ainda me perguntam por que choro e arranco os cabelos.

Meu Deus! De novo me mandastes a noite escura E de novo tremo da cabeça aos pés por ter que subir na cama que odeio.

     Mas as mulheres nos poemas também são rebeldes, arriscando a vida por amor, numa sociedade onde a paixão é proibida e o castigo é impiedoso.

Dá-me tua mão, meu amor, vamos nos esconder no campo
Para amar ou sucumbir às facadas.

Mergulho nas águas, mas a correnteza não quer me levar. Meu marido tem sorte, meu corpo sempre volta à beira do rio.
Amanhã de manhã estarei morta por tua causa. Não diga que não me amou.

     A maioria dos "gritos" é de desapontamento, por uma vida não vivida. Uma mulher pede a Deus para na próxima vida ser uma pedra em vez de mulher. Nenhum desses poemas fala de esperança, ao contrário — reina a desesperança de não se ter vivido o suficiente, de não se ter aproveitado a beleza, a juventude, os prazeres do amor.

Eu era bela como uma rosa.
Debaixo de ti fiquei amarela como uma laranja.

Eu não conhecia o sofrimento.
Por isso cresci reta, como um pinheiro.

     Os poemas também estão cheios de ternura. Com uma sinceridade brutal, a mulher glorifica seu corpo, o amor carnal e o fruto proibido – como querendo chocar os homens, provocar sua virilidade.

Põe tua boca sobre a minha,
Mas deixa minha língua livre para poder falar de amor.

Pegue-me primeiro nos teus braços, me segure!
Depois te amarre às minhas coxas de veludo.

Minha boca é tua, devora-a, não tenhas medo!
Não é feita de açúcar, que se dissolve e
desaparece.

Minha boca, eu te dou com prazer. Por que
me atiças? – Já estou molhada.

Vou te fazer em cinzas.
Se eu, por um só momento, olhar na tua direção.”

     
O paraíso negado

     Quando o Talibã assumiu o poder em Cabul em setembro de 1996, 16 decretos foram transmitidos pela Rádio Sharia. Uma nova era estava começando.

1. É proibido às mulheres andar descobertas.
É proibido aos motoristas aceitar mulheres que não estejam usando burca. Se o fizerem, o motorista será preso. Se mulheres assim forem vistas na rua, suas casas serão encontradas e seus maridos punidos. Se as mulheres vestirem roupas insinuantes ou atraentes, desacompanhadas de parentes próximos do sexo masculino, o motorista não poderá levá-las no carro.

2. Proibição contra a música.
Fitas cassetes e música são proibidas em lojas, hotéis, veículos e riquixás. Caso sejam encontradas fitas de música numa loja, seu proprietário será preso e a loja fechada. Se uma fita for encontrada num veículo, este será apreendido e o motorista será preso.

3. É proibido barbear-se.
Aquele que se barbear ou cortar a barba será preso até que a barba tenha crescido até o comprimento de um punho.

4. Oração obrigatória.
As orações devem ser observadas em horários fixos em todos os distritos. A duração exata da oração será anunciada pelo Ministério da Promoção da Virtude e Prevenção do Vício, Todo transporte fica estritamente proibido nos 15 minutos antes da oração. É obrigatório ir à mesquita durante o horário da oração. Se jovens forem vistos em lojas, serão imediatamente presos.

5. É proibido criar pombos e promover rinhas de aves.
Este passatempo deve ser reprimido. Pombos usados em jogos e rinhas serão mortos.

6. Erradicação das drogas e de seus usuários.
Usuários de drogas serão presos e o vendedor e seu estabelecimento investigados. O estabelecimento será fechado e ambos os criminosos, proprietário e usuário, serão presos e punidos.

7. É proibido soltar pipas.
Soltar pipas tem consequências nefastas, assim como o fomento a jogos de azar, mortes entre crianças e ausência do aluno nas escolas. Lojas que vendem pipas serão fechadas.

8. É proibido reproduzir imagens.
Fotos e retratos em veículos, lojas, casas, hotéis e outros lugares serão retirados. Os proprietários destes estabelecimentos devem destruir todas as imagens existentes. Veículos com imagens de seres vivos serão detidos.

9. Estão rigorosamente proibidos os jogos de azar.
Os estabelecimentos serão fechados e os jogadores ficarão detidos por um mês.

10. É proibido usar cortes de cabelo no estilo americano ou inglês.
Homens com cabelos compridos serão presos e levados para o Ministério da Promoção da Virtude e Prevenção do Vício para cortarem o cabelo. O criminoso pagará o barbeiro.

11. São proibidos empréstimos a juros, taxas de câmbio e de transações.
Estes três tipos de transação financeira estão proibidos no Islã. Caso as regras sejam quebradas, o criminoso ficará preso por um período indeterminado.

12. É proibido lavar roupa à margem dos rios.
Mulheres que desobedecerem a esta lei serão retiradas de maneira respeitosa do local e levadas para suas casas, onde seus maridos serão duramente punidos.

13. Música e dança são proibidos em festas de casamento.
Caso esta proibição seja desobedecida, o chefe da família será preso e punido.

Allahu akbar – Deus é grande.


      “Mulheres de burca são como cavalos com antolhos, só podem ver numa direção. Nas laterais, a rede do véu se fecha, impedindo olhares de soslaio. É preciso virar a cabeça inteira. Outro truque dos inventores da burca: um homem deve saber quem ou o quê sua mulher persegue com os olhos.”


      “Mas para a grande massa pouco mudou. Nas famílias, a tradição é tudo: são os homens que decidem. Apenas uma minoria das mulheres de Cabul largou a burca, e a maioria nem sabe que suas ancestrais, mulheres afegãs do século passado, desconheciam esse traje. Foi durante o regime do rei Habibullah, entre 1901 e 1919, que a burca foi introduzida.
     Ele impôs às duzentas mulheres do seu harém o uso da burca, para que não tentassem outros homens com seus belos rostos quando estavam fora dos portões do castelo. O véu que cobria tudo era de seda com bordados elaborados, e as princesas de Habibullah tinham até burcas bordadas com fios de ouro. Assim, virou um traje para a classe alta, para protegê-las dos olhares do povo. Nos anos 1950, o uso da burca já estava difundido no país inteiro, principalmente entre os ricos.”


      “Os dois filhos seguintes morreram ainda pequenos. Um quarto das crianças do Afeganistão morre antes de completar cinco anos. O país tem o maior índice de mortalidade infantil do mundo. Crianças morrem de sarampo, caxumba, resfriado, mas principalmente de diarréia. Muitos pais acreditam que não se deve dar nada às crianças com diarréia, porque será posto para fora de qualquer maneira. Acreditam que é possível “secar” a doença. Um desconhecimento que tem custado a vida de milhares de crianças. Bibi Gul não lembra mais do que os dois filhos morreram. "Eles apenas morreram", ela diz.
     Veio então Sultan, o amado e respeitado Sultan. Quando Bibi Gul finalmente teve um filho homem que vingou, sua posição na família do marido melhorou muito. O valor de uma noiva esta no hímen, o valor de uma esposa esta em quantos filhos homens ela põe no mundo.”


      “Os líderes guerreiros em combate também ganharam lugar no palanque, Atta Muhammad e o general Abdul Rashid Dostum. O tadjique Atta Muhammad é quem governa a cidade, o uzbeque Dostum é quem pensa que devia estar governando. Os dois inimigos ferrenhos estão lado a lado ouvindo os discursos. Atta Muhammad de barba no estilo talibã. Dostum, corpulento como um boxeador precocemente aposentado. Eles se aliaram a contragosto durante a última ofensiva contra o Talibã. Agora há novamente uma barreira hostil entre eles. Dostum é o mais mal-afamado membro do novo governo e foi incorporado unicamente para que não caísse na tentação de sabotá-lo. O homem que agora pisca contra o sol, com as mãos pacificamente cruzadas diante do corpo volumoso, é um dos afegãos a respeito de quem correm histórias das mais cruéis. Como punição por uma ofensa podia amarrar seus soldados a um tanque de guerra e pô-lo em movimento, até os corpos virarem trapos sangrentos. Numa ocasião, milhares de soldados talibãs foram levados ao deserto e colocados em contêineres, que foram trancados e abandonados. Quando foram abertos dias depois, os prisioneiros estavam mortos e carbonizados pelo calor ardente. Dostum também é conhecido como um mestre na traição, já serviu a diversos líderes e traiu a todos. Lutou ao lado dos russos quando estes atacaram, dizia-se ateu e um grande bebedor de vodca. Hoje mostra-se reverente a Alá e prega o pacifismo.”

sábado, 9 de outubro de 2010

Saramago – Biografia – João Marques Lopes

Editora: Leya
ISBN: 978-85-62936-29-6
Opinião: **
Páginas: 248


     “Contudo [a mudança para Lisboa] seria rapidamente manchada por uma tragédia irremediável. No quarto volume dos Cadernos de Lanzarote, de 1996, José Saramago se referiria várias vezes ao infausto evento: no fim do ano, mais especificamente em 22 de dezembro de 1924, seu irmão e primogênito da família morreria de broncopneumonia. Contava apenas quatro anos. O escritor veria nessa tragédia a causa de certa secura que a mãe lhe dispensaria durante a infância, chegando mesmo a ponto de renegar os beijos que lhe pedia e de compará-lo desfavoravelmente com o irmão falecido em tenra idade.” 


      “‘Levantado do chão fala de trabalhadores. Aprendamos um pouco, isso e o resto, o próprio orgulho também, com aqueles que do chão se levantaram e a ele não tornam, porque do chão só devemos querer o alimento e aceitar a sepultura, nunca a resignação’.” 



      “No plano das ideias, a nova situação foi traduzida por um obscuro funcionário da administração Bush (pai) como “fim da história”, e da mídia estadunidense transitaria para o globo como a perpetuação conjunta da democracia burguesa e da economia liberal ante o enterro definitivo da alternativa comunista. Na verdade, e de maneira sofisticada, alguma filosofia já vinha cunhando desde o fim dos anos 1970 a inviabilidade de uma contracivilização oposta ao capitalismo sob a forma da teoria da “pós-modernidade”. Jean-François Lyotard e outros argumentavam: a dinâmica racionalista globalizante e emancipadora das Luzes e da Revolução Francesa de 1789 estava morta; as narrativas universais da educação em Humboldt, do espírito absoluto em Hegel ou do proletariado em Marx rumo a uma racionalização paradigmática e progressista não tinham mais sentido; a razão global especializara-se e perdera de vista o todo em uma sociedade de consumo, legítima e democrática, razão por que vivia agora de fragmentos, de multiplicidades e instabilidades bem distantes da verdade global, única e emancipadora, provinda em essência das Luzes setecentistas. Como conjunto, a ciência, a ética e a estética já não eram governadas necessariamente por essa Razão que a própria burguesia invocara para cavar a cova do feudalismo e que os marxistas subverteram a serviço do proletariado como único sujeito histórico que levava a sério a necessidade de difundir os valores formais da Igualdade, da Justiça e da Fraternidade para a realidade concreta das relações sociais. 

     Para centenas de milhões de homens e mulheres de várias gerações, esse entendimento da Razão, fosse na versão setecentista das Luzes, fosse nas versões idealistas do século XIX ou na marxista, fora válido. Mesmo no liberalismo havia quem o reclamasse. O keynesianismo dera-lhe um mínimo de cobertura. O “socialismo” havia sido o nome da utopia em atualização. Saramago e as gerações portuguesas atuantes até a primeira metade dos anos 1980 acreditam diversificadamente em tal racionalidade. Agora era dada como falida, indefinida, partida em cacos e incapaz de se afinar com a própria realidade, até mesmo nas ciências exatas. Parecia mais um contrassenso do que qualquer outra coisa. 
     Ora, será provavelmente na conjunção de todos esses fatores que se encontram as causas determinantes das alegorias distópicas saramaguianas que vão de Ensaio sobre a cegueira a Ensaio sobre a lucidez.” 


      “A ideia de Ensaio sobre a cegueira ocorrera subitamente a Saramago quando almoçava no restaurante lisboeta Varina de Madragoa e não teria sido nenhum efeito direto do problema com o deslocamento da retina, mas sim uma das iluminações que lhe aparecem sob a forma de título e vão amadurecendo pouco a pouco em resultado da sua maneira de entender o mundo, em algum lugar entre o racionalismo crítico das Luzes e o materialismo histórico. Estava-se então em setembro de 1991 e seria necessário esperar por agosto de 1995 para que o livro fosse dado como terminado. Os quatro anos de espera parecem ter decorrido não tanto de alguns outros trabalhos em que esteve envolvido (In Nomine Dei e vários dos volumes dos Cadernos de Lanzarote), da mudança de casa para as Ilhas Canárias, das andanças pelo exterior ou de uma nova cirurgia nos olhos, mas mais da própria dureza da matéria ficcional. Ao Expresso, por exemplo, referiria que: ‘O tempo da escrita, sobretudo nos últimos tempos, foi de sofrimento, de momentos em que me sentia incapaz de aguentar aquilo que estava a escrever. [...] A certa altura, cheguei a dizer: não sei se consigo sobreviver a este livro. Foi como se tivesse dentro de mim uma coisa feia, horrível, e tivesse que sacá-la. Mas não saiu, esta no livro e esta dentro de mim’.” 



      “Por que este fim de ciclo e esta abertura para a esperança (em seus livros)? A bem da verdade, não haverá respostas definitivas. Pelas entrevistas e artigos de José Saramago, e por especulação própria, talvez se possa afirmar o seguinte: o materialismo dialético e histórico é uma grelha de interpretação e intervenção na realidade que transporta consigo a negação da estabilidade, a transformação do mesmo no outro e a sedimentação de pequenas quantidades erosivas em agregados aparentemente sólidos rumo a uma mudança qualitativa; o triunfo planetário do neoliberalismo à custa da falência do “socialismo real” e do keynesianismo pode assim ser lido como movimento transitório e contraditório aberto a uma outra ordem – não é nenhum “fim da história”; em 2004, a ofensiva neoliberal já tinha perdido muito do seu fulgor do início da década de 1990, pois o movimento antiglobalização havia ganho parte significativa da opinião pública internacional nos próprios centros imperialistas, e o neoliberalismo tinha devastado de tal modo países latino-americano como a Argentina, a Bolívia ou a Venezuela que acabou por ficar desacreditado por completo em meio a revoltas populares conducentes à derrocada de governos democraticamente eleitos ou de mudanças eleitorais rumo à centro-esquerda ou a populismos esquerdistas; na sua voracidade beligerante, a administração Bush (filho) enfrentou pela primeira vez uma campanha pacifista que ganhou a cidadania mundial contra a sua retórica belicista, e na Espanha o escritor foi parte ativa desse movimento que congraçou por duas vezes vários milhões de pessoas nas ruas e chegou a alcançar uma porcentagem de mais de 80% das pessoas em oposição ao apoio de Aznar à segunda guerra no Iraque. Enfim, a geopolítica internacional não estava mudada, mas a nuvem cinzenta asfixiante dos anos 1990 comportava agora pequenas luzes de esperança. Provavelmente, elas estariam mais ou menos (in)conscientemente relacionadas ao uivo coletivo de Ensaio sobre a lucidez.” 



      “A Bíblia é um manual de maus costumes, um catálogo de crueldade e do pior da natureza humana.” 



      “De um artigo de Eduardo Galeano: ‘Nunca foi menos democrática a economia mundial, nunca o mundo foi mais escandalosamente injusto. Em 1960, 20% da humanidade, a parte que mais bens possuía, era trinta vezes mais rica que os 20% mais necessitados. Em 1990, a diferença entre a prosperidade e o desamparo tinha subido para o dobro, e era de sessenta vezes. [...] E nos extremos dos extremos [...] 100 multimilionários dispõem atualmente da mesma riqueza que 1.500 milhões de pessoas’. [Cadernos de Lanzarote, 11 de julho de 1996] 

     Alguns números para a história do nosso maravilhoso século XX: 1.300 milhões de pessoas vivem abaixo do nível de pobreza absoluta; um terço delas subsiste com menos de 150 escudos diários; 750 milhões de pessoas estão desnutridas; mais de metade da população da Ásia vive na miséria; uma de cada duas pessoas ao sul do Saara esta condenada à penúria; 15 milhões de crianças com menos de cinco anos morrem anualmente por doenças que poderiam evitar-se; dos 2.800 milhões de pessoas que constituem a mão-de-obra no mundo, 700 milhões estão subempregados e 120 milhões procuram trabalho em vão; há 1.000 milhões de analfabetos, dois terços dos quais são mulheres adultas; nas zonas rurais há 550 milhões de mulheres pobres, o que significa mais de 50% da população camponesa mundial... Hoje é o Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza. Que a todos faça bom proveito. [Cadernos de Lanzarote, 23 de outubro de 1996].”