A conversão de São Paulo

A conversão de São Paulo
A conversão de São Paulo

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Pedro Páramo – Juan Rulfo

Editora: BestBolso
ISBN: 978-85-7799-116-7
Opinião: ****
Páginas: 140 
     “– Faz calor aqui – eu disse.
     – Pois é, mas isso não é nada – respondeu o outro. – Fique tranquilo. Quando chegarmos a Comala, o senhor vai ver o que é calor forte. Aquilo fica em cima das brasas da terra, bem na boca do inferno. Digo eu que muitos dos que morrem por lá, quando chegam ao inferno voltam para buscar um cobertor.”


     “Só eu entendo como o céu esta longe de nós.”


     “– Esta cidade está cheia de ecos. Parece até que estão trancados no oco das paredes ou debaixo das pedras. Quando você caminha, sente que vão pisando seus passos. Ouve rangidos. Risos. Umas risadas já muito velhas, como cansadas de rir. E vozes já desgastadas pelo uso. Você ouve tudo isso. Acho que vai chegar o dia em que esses sons se apagarão.”


     “– Ainda falta uma coisa. A visão de Deus. A luz suave de seu céu infinito. O gozo dos querubins e o canto dos serafins. A alegria dos olhos de Deus, a última e fugaz visão dos condenados à pena eterna. E não apenas isso, mas tudo conjugado com uma dor terrena. O tutano dos nossos ossos convertidos em lume e as veias do nosso sangue em fogo, fazendo-nos contorcer de uma dor incrível; que não míngua nunca; atiçado sempre pela ira do senhor.”

Cisnes selvagens: três filhas da China – Jung Chang

Editora: Companhia das Letras
ISBN: 978-85-359-0862-6
Opinião: **
Páginas: 648
      “Era política comunista não executar qualquer um que depusesse as armas, e tratar bem os prisioneiros. Isso ajudava a conquistar os soldados comuns, a maioria dos quais vinha de famílias camponesas. Os comunistas não tinham campos de prisioneiros. Mantinham apenas oficiais de média e alta patentes, e dispersavam o resto imediatamente. Organizavam assembleias de “desabafo” entre os soldados, nas quais eles eram encorajados a falar de suas duras vidas como camponeses sem terra. A revolução, diziam os comunistas, era apenas para dar terras a eles. Ofereciam aos soldados uma (sic) opção: ou iam para casa, caso em que recebiam a passagem, ou podiam ficar com os comunistas e ajudar a varrer o Kuomintang, para que ninguém voltasse a tomar suas terras. A maioria permanecia por vontade própria e juntava-se ao exército comunista. Alguns, naturalmente, não podiam chegar às suas casas com uma guerra em andamento. Mao aprendera com a guerra chinesa antiga que a maneira mais eficaz de conquistar o povo era conquistar seus corações e mentes. A política em relação aos prisioneiros revelou-se um enorme sucesso. Particularmente depois de Jinzhou, um número cada vez maior de soldados do Kuomintang simplesmente se deixava capturar. Mais de 1,75 milhão de soldados do Kuomintang renderam-se e passaram-se para os comunistas durante a guerra civil. No último ano, as baixas em combate representaram menos de vinte por cento de todos os soldados que Kuomintang perdeu.
     Um dos altos comandantes que foram presos tinha consigo a sua filha, em adiantado estado de gravidez. Ele perguntou ao oficial comandante comunista se podia ficar com ela em Junzhou. O oficial comunista disse que não era conveniente um pai ajudar a filha a ter um bebê, e que ia enviar uma “camarada” para ajudá-la. O oficial do Kuomintang achou que ele só dizia aquilo para fazê-lo seguir. Mais tarde, soube que a filha fora muito bem tratada, e a “camarada” na verdade era a esposa do oficial comunista. A política em relação aos prisioneiros era uma complicada combinação de cálculo político e consideração humanitária, e esse foi um dos fatores cruciais na vitória dos comunistas. Seu objetivo não era apenas esmagar o exército adversário, mas, se possível, provocar sua desintegração. O Kuomintang foi derrotado tanto pela desmoralização quanto pelo poder de fogo.”


      “Apesar dessas tragédias pessoais, ou talvez em parte por causa do férreo controle, a China estava mais estável em 1956 do que em qualquer época nesse século. Ocupação estrangeira, guerra civil, morte devido à fome generalizada, bandidos, inflação – tudo parecia coisa do passado. A estabilidade, sonho dos chineses, sustentava sua a fé de pessoas como minha mãe em seus sofrimentos.”


      “Mao teve de tramar muito para preservar seu poder. Nisso, era um mestre supremo. Sua leitura favorita, que ele recomendava a outros líderes do Partido, era uma coleção clássica de trinta volumes sobre intrigas da corte chinesa. Na verdade, podia-se entender melhor o governo de Mao em termos de uma corte medieval, na qual ele exercia um poder mágico sobre seus cortesãos e súditos. Era também um mestre em “dividir para governar”, e em manipular a tendência dos homens a lançarem outros aos lobos.”


      “Mao, o imperador, enquadrava-se num dos padrões da história chinesa: o líder de um levante camponês nacional que varre uma dinastia e se torna um sábio novo imperador, exercendo autoridade absoluta. E, num certo sentido, podia-se dizer que ele fizera jus a seu status de deus-imperador. Foi o responsável pelo fim da guerra civil e pela paz e estabilidade, coisas pelas quais os chineses tanto ansiaram – tanto que diziam: “É melhor ser um cão na paz que um ser humano na guerra”. Foi sob Mao que a China se tornou uma potência a ser levada em conta no mundo, e muitos chineses deixaram de sentir-se envergonhados e humilhados por ser chineses, o que significava muitíssimo para eles. Na verdade, Mao levou a China de volta aos tempos do Reino do Meio, e, com a ajuda dos Estados Unidos, ao isolamento do mundo. Ele possibilitou aos chineses voltar a sentir-se grandes e superiores, cegando-os para o mundo externo. Apesar disso, o orgulho nacional era tão importante para os chineses que grande parte da população era genuinamente agradecida a Mao, e não achava ofensivo o seu culto da personalidade, certamente não a princípio. A quase total falta de acesso às informações e a sistemática desinformação significaram que a maioria dos chineses não tinha como discriminar entre os sucessos e os fracassos de Mao, ou de identificar o papel relativo dele e de outros líderes nas conquistas comunistas.
     O medo jamais esteve ausente na escala do culto a Mao. Muitas pessoas haviam sido reduzidas a um estado em que não se atreviam sequer a pensar, para que suas ideias não se externassem involuntariamente. Mesmo que alimentassem ideias heterodoxas, poucos falavam delas aos filhos, pois eles podiam deixar escapar alguma coisa para outras crianças, o que traria a tragédia tanto para si mesmas quanto para os pais. Nos anos da campanha de Lei Feng, martelou-se nas crianças que nossa primeira e única lealdade devia ser para com Mao. Uma música popular dizia: “Papai está perto, mamãe está perto, mas ninguém está tão perto quanto o presidente Mao”. Éramos condicionados para pensar que qualquer um, incluindo nossos pais, que não fosse totalmente pró-Mao, era nosso inimigo. Muitos pais encorajavam os filhos a tornarem-se adultos conformistas, pois isso seria mais seguro para o futuro deles.”

sábado, 24 de julho de 2010

Tópicos especiais em física das calamidades – Marisha Pessl

Editora: Nova Fronteira
ISBN: 978-85-209-2070-1
Opinião: ***
Páginas: 576
     “Papai era um homem que, talvez devido à sua história de privações, jamais hesitava em executar os verbos botar e tomar. Ele estava sempre botando pra quebrar, a mão na massa, o pé na estrada, lenha na fogueira, alguém em seu devido lugar, ordem no galinheiro, os pingos nos is, alguém pra correr. Também estava sempre tomando a dianteira, tendência, o boi pelo chifre, de volta o que era seu, as dores de alguém. E quando se tratava de observar as coisas, o Papai era uma espécie de Microscópio Composto, daqueles que viam a vida por meio de uma lente ocular ajustável, esperando que todas as coisas estivessem bem focadas. Não tinha nenhuma tolerância com o Embaraçado, o Fosco, o Nebuloso e o Sujo.”


     “– O maior feito americano não foi a bomba atômica, nem o fundamentalismo, nem os spas de emagrecimento, nem o Elvis, nem mesmo a observação bastante astuta de que os homens preferem as loiras, e sim o grande salto de qualidade que imprimimos ao sorvete.”


      “Era um desses silêncios adultos. O silêncio dos casais que voltam para casa depois de um jantar, evitando falar do marido de alguém que ficou bêbado demais ou de como, secretamente, não queriam ir para casa um com o outro e sim com alguma pessoa nova, alguém cujas pintas não conhecessem.”


      “Se Papai estivesse presente, sem dúvida teria comentado que a maior parte dos adultos presentes estava “perigosamente perto de abdicar de sua dignidade” e que aquilo era triste e perturbador, porque “todos estavam buscando algo que nunca reconheceriam, mesmo que o encontrassem”. O Papai era notoriamente severo ao comentar o comportamento alheio. Ainda assim, ao observar uma Mulher Maravilha de quarenta e poucos anos que tombou de costas na ordenada pilha de revistas Viagem de Hannah, eu me perguntei se a própria ideia de Crescer não seria uma farsa, um ônibus que esperamos tão ansiosos que nem sequer notamos sua chegada.”


      “No entanto, não podemos deixar de notar que a violência, apesar de oficialmente abominada nas culturas Ocidental e Oriental (apenas oficialmente, pois nenhuma cultura, moderna ou antiga, jamais hesitou em utilizá-la para satisfazer seus próprios interesses), é inevitável nos momentos de mudança.”


      “E quando falava de uma Entidade Superior, usava palavras como gratificante, restauradora e transformadora. Era algo que nos “conduzia pelos momentos difíceis”, que “qualquer pessoa jovem poderia alcançar com um pouco de trabalho duro, confiança e tenacidade.”
     Deus era uma viagem a Cancun.”


      “Eva Brewster estava ao lado dela, e me lançou um sorriso reconfortante, mas depois o escondeu quase imediatamente, como se me emprestasse o seu lenço mas não quisesse vê-lo sujo.” 

O cavalo e seu menino (As Crônicas de Nárnia) – C. S. Lewis

Editora: Martins Fontes
ISBN: 978-85-7827-069-8
Opinião: ****
Páginas: 107

     “Quem tenta enganar o sábio, já esta tirando a camisa para receber chicotadas.”


      “Espada não entra em escudo, mas contra o olho da sabedoria não há defesa.


      “Quando perdi de vista a mansão de meu pai e cheguei a um bosque relvado, sem moradia de homem, apeei e retirei a adaga. Abri as minhas vestes onde julgava ser o caminho mais certo ao coração e implorei a todos os deuses que me conduzissem para junto de meu irmão, tão logo me fosse. Fechei os olhos, cerrei os dentes, preparando-me para enterrar a adaga no peito. Antes que o fizesse, esta égua falou, com a mesma voz das filhas dos homens. Falou e disse: ‘Minha ama, não se destrua, pois, se viver, ainda poderá alcançar o favor do destino; mas os mortos são iguais a todos os mortos’.”


      “Há também aquele outro ditado: ‘Venha morar comigo pra saber quem eu sou’.”


     “– Compreenda, filho meu, que nenhuma das palavras que proferir poderá levar-me a uma guerra aberta com Nárnia.
     – Não fosse o senhor o meu pai, ó sempiterno Tisroc – disse o príncipe rangendo os dentes –, diria que são palavras de um covarde.
     – E não fosse você meu filho, ó fogoso Rabadash, sua vida agora seria curta e demorado o seu fim.”


      “Uma desvantagem das aventuras é esta: quando chegamos aos lugares mais belos, estamos em geral tão aflitos e apressados que não somos capazes de apreciá-los.”


      “O coração de Shasta quase parou ao ouvir essas palavras, pois já não lhe restavam reservas de força. Por dentro rebelava-se contra o que lhe parecia a crueldade da missão. Ainda não aprendera que a recompensa de uma boa ação é geralmente ter de fazer uma outra boa ação, mais difícil e melhor.”


     “– Tive sorte.
     – Minha filha: já vivi cento e nove invernos e jamais encontrei uma coisa chamada sorte. Há algo misterioso no que esta acontecendo, mas, esteja certa, se precisarmos saber o que é, saberemos.”


      “Não ouse não ousar.”


      “Só insulte um homem mais forte do que você.”

terça-feira, 20 de julho de 2010

Por quem os sinos dobram – Ernest Hemingway

Editora: Bertand Brasil 
ISBN: 9788528609325 
Opinião: **** 
Páginas: 624
     “Nenhum homem é uma Ilha, um ser inteiro em si mesmo; todo homem é uma partícula do Continente, uma parte da terra. Se um Pequeno Torrão carregado pelo Mar deixa menor a Europa, como se todo um Promontório fosse, ou a Herdade de um amigo seu, ou até mesmo a sua própria, também a morte de um único homem me diminui, porque Eu pertenço à Humanidade. Portanto, nunca procures saber por quem os sinos dobram. Eles dobram por ti.”
John Donne (1572-1631), poeta e padre anglicano – Meditação XVII, de cujo excerto acima Ernest Hemingway retirou o título da presente obra: Por quem os sinos dobram.



     “– E não significa nada para ti ser caçada como um animal depois que isso acontecer, esse negócio do qual não teremos nenhum lucro? Não se importa se morrer nisso?
     – Não! E não tente me assustar, seu covarde.
     – Covarde? – disse o marido com amargura. – Chama um homem de covarde porque tem senso tático. Porque pode prever o resultado de uma idiotice. Não é covardia saber o que é uma estupidez.
     – Nem é idiotice saber o que é covardia – interferiu Anselmo, sem conseguir furtar-se à frase de efeito.”


     “– É verdade que ela não tem doença. Podia até ter. Não sei como não pegou. Talvez Deus ainda exista, embora O tenhamos abolido.”


     “– Escute – disse a mulher. – Eu não sou covarde, mas vejo as coisas muito claras pela manhã, e acho que tem muita gente viva que conhecemos que não verá outro domingo.
     – Que dia é hoje?
     – Domingo.
     – Que va – disse Robert Jordan. – O outro domingo esta muito longe. Se virmos a quarta-feira, já estaremos muito bem. Mas não gosto de ouvi-la falando assim.
     – Todos precisam ter alguém para conversar – disse a mulher. – Antes, tínhamos a religião e outras coisas sem sentido. Agora, cada um precisa ter com quem falar abertamente. Pois quanto mais bravura alguém tiver, mais solitário vai ficando.”


      “O fanatismo é uma coisa singular. Ser fanático requer absoluta certeza de que você esta correto, e nada estimula a certeza e a correção como a castidade. A castidade é a inimiga da heresia.”


     “– Não – disse Pablo. – Não é verdade. Se todos tivessem matado os fascistas como eu matei, não estaríamos nesta guerra. Mas não deixaria acontecer como aconteceu.
     – Por que você diz isto? – perguntou Primitivo. – Esta mudando a sua política?
     – Não. Mas aquilo foi uma barbaridade – disse Pablo. – Naquele tempo eu era muito bárbaro.
     – E hoje você é um bêbado – disse Pilar.
     – Sou – disse Pablo. – Com a sua permissão.
     – Gostava mais de você quando era bárbaro – disse a mulher. – De todos os homens, o bêbado é o mais idiota. O ladrão, quando não esta roubando, é igual a qualquer outro. O chantagista não opera em casa. O assassino, quando esta em casa, pode lavar as mãos. Mas o bêbado fede e vomita na sua própria cama, e dissolve seus órgãos no álcool.
     – Você é uma mulher, você não entende – disse Pablo, tranquilamente. – Estou bêbado de vinho e seria feliz, se não fosse por causa daquelas pessoas que matei. Todas elas me enchem de remorso – balançou a cabeça, lobregamente.”


      “Em ambos os lugares se tinha a sensação de estar fazendo parte de uma cruzada. Esta era a única palavra para descrevê-la, mas fora tão usada e desgastada de tal forma que perdera o seu verdadeiro significado.


      “Dava para sentir, a despeito dos entraves burocráticos, da ineficiência e conflitos do partido, alguma coisa parecida com aquilo que esperava sentir na primeira comunhão e não conseguiu alcançar. Era um sentimento de consagração para o dever com respeito a todos os oprimidos do mundo, tão difícil e embaraçoso de se explicar quanto as experiências religiosas, e mesmo assim era autêntico, como a sensação que se tinha ao ouvir Bach, ou ficar na Catedral de Chartres, ou na Catedral de Lyon, e ver a luz passar pelas grandes janelas, ou ver Mantegna, e Greco e Brueghel no Prado. É algo que transmite a você um sentimento de pertencimento a uma coisa em que você acredita integralmente, na qual vislumbra uma fraternidade absoluta, compartilhada com os demais que estivessem engajados. É uma experiência nunca vista, mas que você experimenta, então, e acaba dando tanta importância a ela, e as suas razões, que a sua própria morte não importa mais – torna-se apenas algo a ser evitado, para garantir o cumprimento do dever. Mas o melhor de tudo é que você pode fazer algo de concreto com esse sentimento e essa necessidade. Você pode lutar.”
      “Então você lutou. E com a luta, bem cedo, acabou a pureza de sentimento para aqueles que lutaram bem e sobreviveram. Antes dos primeiros seis meses”.”


     “– Gosto mais do front – dissera Robert Jordan. – Quanto mais perto do front, melhores as pessoas.”


      “Numa guerra não se pode dizer o que a gente sente.”