segunda-feira, 10 de maio de 2010

A Estrada - Cormac McCarthy

Editora: Alfaguara
ISBN: 978-85-6028-126-8
Opinião★★★☆☆
Páginas: 240

     “Nesta estrada não há homens inspirados por Deus. Eles se foram e eu fiquei, eles levaram consigo o mundo.”


     “Costumávamos falar da morte, ela disse. Não falamos mais. Por que isso?
     Não sei.
     É porque ela está aqui. Não há mais nada para falar.
     Eu não te deixaria.
     Não me importo. Não quer dizer nada. Pode pensar que eu sou um puta infiel se você quiser. Tenho um novo amante. Ele me dá o que você não consegue dar.
     A morte não é um amante.
     Ah é sim.
     Por favor não faça isso.
     Sinto muito.
     Não consigo fazer isso sozinho.
     Então não faça. Não posso te ajudar. Dizem que as mulheres sonham com o perigo daqueles que estão sob seus cuidados e os homens com seu próprio perigo. Mas eu não sonho com nada. Você diz que não consegue fazer isso sozinho? Então não faça. É tudo. Porque eu estou exausta deste meu coração libertino e isso já faz muito tempo. Você fala sobre tomar uma posição firme mas não há posição a tomar. Meu coração foi arrancado de mim na noite em que ele nasceu então não peça por um lamento agora. Não há nenhum. Talvez você venha a ser bom nisso. Eu duvido, mas quem sabe. A única coisa que eu posso te dizer é que você não vai sobreviver por conta própria. Eu sei porque nunca teria chegado tão longe. A uma pessoa que não tivesse ninguém seria aconselhável que se juntasse a algum fantasma passável. Trazê-lo à vida com seu sopro e persuadi-lo a seguir em frente com palavras de amor. Oferecer-lhe cada migalha fantasma e protegê-lo do perigo com seu corpo. Quanto a mim minha única esperança é o nada eterno e espero por ele com todo meu coração.
     Ele não respondeu.
     Você não tem nenhum argumento porque não existe um.
     Você vai dizer adeus a ele?
     Não. Não vou.
     Só espere até amanhã. Por favor.
     Tenho que ir.
     Ela já tinha se levantado.
     Pelo amor de Deus, mulher. O que eu digo a ele?
     Não posso te ajudar.
     Para onde você vai? Você não consegue nem mesmo enxergar.
     Não preciso.
     Ele se levantou. Estou te implorando, ele disse.
     Não. Não vou. Não posso.

     Ela se foi e a frieza do gesto foi seu último presente. Usaria uma lasca de obsidiana. Ele mesmo lhe ensinara. Mais afiado do que o aço. A ponta com a espessura de um átomo. E ela estava certa. Não havia argumento. A centena de noites em que eles tinham ficado sentados debatendo os prós e os contras da autodestruição com a honestidade de filósofos acorrentados à parede de um hospício. Pela manha o menino não disse nada em absoluto, e quando eles tinham guardado suas coisas e estavam prontos para pôr o pé na estrada ele se virou para o local de seu acampamento lá atrás e disse: Ela foi embora, não foi? E ele disse: Sim, foi.”


     “Pela manhã eles saíram da ravina e seguiram pela estrada novamente. Ele tinha entalhado para o menino uma flauta com um pedaço de bambu de beira de estrada e tirou-a do casaco e deu-a a ele. O menino a apanhou sem dizer nenhuma palavra. Depois de algum tempo ficou para trás e o homem pôde ouvi-lo tocando. Uma música informe para a era que estava para vir. Ou talvez a última música na Terra fosse evocada das cinzas de sua ruína. O homem se virou e olhou para ele, lá atrás. Estava perdido em sua concentração. O homem pensou que ele parecia alguma criança trocada, um changeling, perdido e solitário, anunciando a chegada de um espetáculo itinerante em vilarejos e aldeias, sem saber que atrás dela os atores foram todos levados pelos lobos.”


     “No outro lado da cidade encontraram uma casa solitária num campo e atravessaram e entraram e caminharam pelos quartos. Depararam-se consigo num espelho e ele quase sacou o revólver. Somos nós, papai, o menino sussurrou. Somos nós.”


     “Quando acordou novamente achou que a chuva tinha parado. Mas não foi isso que o acordou. Ele tinha sido visitado num sonho por criaturas de um tipo que nunca tinha visto antes. Não falavam. Ele achou que tinham estado agachadas ao lado do seu catre enquanto dormia e que tinham escapulido quando ele acordou. Virou-se e olhou para o menino. Talvez compreendesse pela primeira vez que, para o menino, ele próprio era um alienígena. Um ser de um planeta que já não existia. Cujas histórias eram suspeitas. Ele não tinha como construir para o prazer da criança o mundo que tinha perdido sem construir também a perda e achava que talvez o menino soubesse disso melhor do que ele. Tentou se lembrar do sonho mas não conseguiu. Tudo o que restava era a sensação. Pensou que talvez eles tivessem vindo avisá-lo. De quê? De que ele não podia acender no coração da criança o que eram cinzas no seu próprio. Mesmo agora alguma parte dele desejava que nunca tivessem encontrado aquele refúgio. Alguma parte dele desejava que tudo tivesse terminado.”


     “Onde os homens não podem viver deuses também não se sentem bem.”


     “Você acha que seus pais estão observando? Que eles te inscrevem em seu livro-razão? Contra o quê? Não há livro algum e seus pais estão mortos no chão.”



     “Em dois dias quando chegaram a uma estrada ele colocou a bolsa no chão e se sentou curvado com os braços cruzados sobre o peito e tossiu até não conseguir mais. (...) Ali acamparam e quando ele se deitou soube que não poderia avançar mais e que aquele era o lugar onde morreria. O menino ficou sentado a observá-lo, lágrimas jorrando dos olhos. Oh Papai, ele disse.”

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