sábado, 29 de maio de 2010

Campanha no Afeganistão - Steven Pressfield

Editora: Suma de letras
ISBN: 978-85-6028-026-1
Opinião★★★☆☆
Páginas: 317
“Ordens foram dadas para não passar na espada os prisioneiros diante de suas esposas. É melhor levá-los para o deserto, deixar seu destino desconhecido; isso provoca um terror ainda mais permanente por causa da crença dos nativos em djins e demônios. O cheiro de sangue atrai lobos, que devoram os cadáveres. As alcateias aprendem a nos seguir. Seus olhos amarelos brilham à luz das tochas. Não conseguimos afugentá-los, mesmo quando lhes arremessamos pedras.”


“– Está imaginando o que é ser um soldado, não é mesmo?
Digo-lhe que estou.
Ele aponta para um animal carregado, escalando a trilha adiante de nós.
– Nós somos mulas, rapaz. Mulas que matam.”


“O clarão é terrível nesta altitude. Instruídos por nossos shikaris, preparamos “viseiras” de couro e de madeira e as amarramos sobre os olhos. Caso contrário, teremos cegueira de neve. A luz, de qualquer modo, queima completamente. Abrasa através das paredes de pele de bode das tendas ou de um cobertor duplo de lã; furtamos crina de cavalo das catapultas por torção para fazer quebra-luzes que enrolamos no alto de nossas viseiras. Mantendo os olhos meio fechados, podia-se enxergar. A vista é espetacular.
– A que altura você acha que estamos? – perguntei a Pendão no topo de um espinhaço.
Ele apontou para um pico 60 metros abaixo.
– Na nossa terra, aquele seria o olimpo.”


“Certa noite, escrevo uma carta para minha noiva. Ash observa.
– Você lhe conta tudo, meque?
– Tudo o que ela precisa saber.
E ele cacareja alegremente.”


 “Se atacamos de um telhado e um homem se ferir, é um inferno tirá-lo de lá. Se invadimos pelo solo, você luta pelo morro acima numa escuridão total. Os aposentos internos não têm janelas. Irromper dentro deles é mergulhar num armário. Poeira sufoca tudo; o inimigo espreita de trás de biombos e se acocora dentro de buracos-armadilhas. Em uma casa, Dados levou uma lança bem nos ovos. Tirá-lo de lá custou a Ruivo sua orelha e uma seta machate – uma flecha de junco com uma ponta particularmente perversa – debaixo do queixo. Tivemos de cortar fora a parte superior com alicate de ferro e puxar a coisa ao contrário pela ponta, a um triz de sua carótida. O inimigo é mestre em bancar o morto. A gente passa por um cadáver num corredor escuro e, de repente, ele ganha vida, pulando sobre você com adagas em ambas as mãos. O inimigo dispara nafta dentro de cântaros com pavio de trapos; quando estes quebram contra uma parede, pintam com chamas qualquer arrasta-pé (soldado) azarado no qual o líquido espirra.
Há apenas uma resposta para tal resistência, que é a de não deixar nada com vida.”


“– A linguagem importa, Costas. As palavras significam algo. Como você ousas pintar com belas frases os atos de horror que nos transformam, os que precisam executá-las, de soldados em açougueiros e de homens em animais? Olhe meus pés. Essa cor preta não é de terra. Posso esfregar minha pele com lixívia e soda cáustica: o sangue humano nunca sai.”


“‘Levar à morte?’ Por que não diz isso claramente? O modo como encapuzamos esses sacanas azarados, com suas próprias mantas, amarramos seus membros e colocamos curvados e enfileirados, cu-com-umbigo, com seus companheiros. Deixar o pescoço nu, ordens do sargento. Um golpe, amigo. Cuidado com a mão, ou você se corta. Cadê essa imagem em todas as suas crônicas? Cadê a fila de homens vivos, ajoelhados na terra com as mãos amarradas para trás? Cadê os aventais que usamos, como os açougueiros do ossuário, e como, quando tudo chega ao fim, lançamos no fogo cada peça de roupa, de tão intenso que é o fedor? Você não conta isso, conta? Nem como os homens que massacramos se debatem no chão, se contorcendo para longe do fio da lâmina, como precisamos prender seus pés entre nossas pernas, ou que isso requer dois de nós. Que chance é dada a essas vítimas? Quanto menos, melhor; nenhuma, se possível. Quando nos aproximamos delas, estão tão embrulhadas que é como se estivéssemos massacrando pacotes. Os soldados os chamam de “sacos”. Sacos de sangue. Sacos de entranhas. Meu Deus, que fedor quando os intestinos abertos de um homem são expostos ao ar. Isso não aparece nos seus despachos, não é mesmo? Não lemos nada sobre o som que faz o “resultado”, ao se percorrer com um porrete a fileira de homens com as gargantas cortadas, esmagando crânios como nozes, enquanto as vítimas ainda vivas rezam sem voz ou nos maldizem em meio ao sangue gorgolejado ou imploram por suas vidas. Os silenciosos são os mais pavorosos. Homens corajosos, melhores do que nós.” (...)
(Pendão) Volta-se para Lucas.
– Eu o admiro, Lucas. Você é um bom soldado e mostrou coragem ao dizer o que pensa. Mas, com todo o respeito, meu amigo, sua posição é a de uma mulher. Suas palavras são as palavras de mulheres. Você devia ter vergonha de si mesmo, só de pensar isso, como eu sei que seu pai e seus irmãos sentiriam vergonha, se soubessem. O papel de um homem é lutar, realizar, conquistar. Em que era foi diferente? A vocação de um homem, se ele é homem, é exercer sua supremacia ou morrer tentando. Como Sarpédon dirigiu-se ao seu amigo Glauco, conduzindo-o à batalha no campo de Tróia,
Vamos alcançar a glória para nós, ou concedê-la a outros.
     – Glória – rebate Lucas – anda em falta por aqui.”


“– Ser soldado – diz meu irmão Filipe – não é uma profissão digna. Quem age como um animal é um animal.”


“– Que esposa eu poderia aceitar, cara menina? A que mulher eu poderia dar felicidade? Já uso prostitutas do exército tempo demais. Gosto delas. Não preciso me justificar para elas. Entende? Posso embalar de fato um bebê em meu joelho? – Ele ri sombriamente. – Já estou na guerra, desde garoto até a idade adulta, dois terços de minha vida. Que outro ofício conheço? Meu lar, no máximo, fica no inferno, onde os que amo esperam por mim. – Sorri. – Creio que não os manterei esperando por muito tempo.”

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