A conversão de São Paulo

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sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Os Pastores da Noite - Jorge Amado

Editora: Record
ISBN: 978-85-0105-236-0
Opinião: ★★★☆☆
Páginas: 305

      “E, se não fôssemos nós, pontais ao crepúsculo, vagarosos caminhantes dos prados do luar, como iria a noite – suas estrelas acendidas, suas esgarçadas nuvens, seu manto de negrume –, como iria ela, perdida e solitária, acertar os caminhos tortuosos dessa cidade de becos e ladeiras? Em cada ladeira um ebó, em cada esquina um mistério, em cada coração noturno um grito de súplica, uma pena de amor, gosto de fome nas bocas de silêncio, e Exu solto na perigosa hora das encruzilhadas. Em nosso apascentar sem limites, íamos recolhendo a sede e a fome, as súplicas e os soluços, o estrume das dores e os brotos da esperança, os ais de amor e as desgarradas palavras doloridas, e preparávamos um ramalhete cor de sangue para com ele enfeitar o manto da noite.
     Varávamos os distantes caminhos, os mais estreitos e tentadores, chegávamos às fronteiras da resistência do homem, ao fundo de seu segredo, iluminando-o com as trevas da noite, enxergávamos seu chão e suas raízes. O manto da noite cobria toda a miséria e toda a grandeza e as confundia numa só humanidade, numa única esperança.”


      “E de repente, quando todos o pensavam por inteiro devotado àquele amor profundo e recente – nem um mês ainda se passara, a contar do primeiro encontro na Gafieira –, eis o escândalo a envolver Martim: agredido por um sapateiro, nas proximidades do Terreiro de Jesus, ferido a faca no ombro. O sapateiro, avisado por uma vizinha assanhada, solteirona, é claro, fora encontrar sua esposa na cama com Martim, e esquecida das obrigações familiares, em plena tarde de dia útil. Estava o sapateiro trabalhando quando a intrigante cochichou-lhe a desventura: levantou-se levando a faquinha de cortar couro, precipitou-se para casa, atirou-se sobre Martim, atingindo-o no ombro. Os vizinhos impediram desgraça maior: o sapateiro querendo matar a mulher, suicidar-se, necessitando de sangue para lavar os chifres. Com tanta balbúrdia, acabaram todos na polícia e saiu notícia nos jornais, na qual o cabo Martim era tratado como sedutor. Ficou Martim muito vaidoso com esse qualificativo, guardou o recorte no bolso para exibi-lo.”


      “Só tem uma coisa que eu quero te dizer: quando a gente discute com a mãe da gente quem tem razão é ela e mais ninguém.”


      “Não era possível, a um homem só, dormir com todas as mulheres do mundo mas devia-se fazer esforço para consegui-lo, assim ensinavam no cais os velhos marinheiros.”


      “Nunca teve ela marido, nem quis ligar homem à sua sina. Homem, em sua opinião, só servia na hora de fazer o menino. Depois, só dava trabalho e confusão.”


      “Em negócio de gente grande, pequeno não deve se meter. Senão quem paga os pratos quebrados é a gente...”
  

     “Os brancos lá embaixo, brancos de rico e não de cor, eram capazes de terminar por se entenderem (...). Eram graúdos, os graúdos sempre se entendem, briga entre eles não prospera.”

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