A conversão de São Paulo

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sexta-feira, 26 de junho de 2009

O Livro da Lei - Aleister Crowley

Editora: livro distribuído
Opinião: *
“10. Que meus servidores sejam poucos & secretos: eles deverão reger os muitos & os conhecidos.”


“29. Pois eu estou dividida por causa do amor, pela chance de união.
30. Esta é a criação do mundo, que a dor de divisão é como nada, e a alegria da dissolução tudo.”


     “Todas as palavras são sagradas e todos os profetas verdadeiros; salvo apenas que eles compreendem um pouco; solucionam a primeira metade da equação, deixam a segunda inatacada. Mas tu tendes tudo em clara luz, e algo, embora nem tudo, na escuridão.”


“23. Eu estou só: não existe Deus onde eu sou.”


“27. Existe grande perigo em mim; pois aquele que não entender estas runas deverá cometer um grande engano. Ele deverá cair no poço chamado Porquê, e lá ele deverá perecer com os cães da Razão.
28. Agora uma maldição sobre Porquê e seus parentes.
29. Possa Porquê ser amaldiçoado para sempre!
30. Se a Vontade pára e grita Porquê, invocando Porquê, então a Vontade pára & nada faz.
31. Se o Poder pergunta porquê, então o Poder é fraqueza.
32. Também a razão é uma mentira; pois existe um fator infinito & desconhecido; & todas as palavras deles são artifícios.
33. Basta de Porquê! Seja ele danado para um cão!”


“45. Existe morte para os cães.
46. Tu falhas? Estas arrependido? Existe medo em teu coração?
47. Onde eu sou estes não são.
48. Não te apiedes dos caídos! Eu nunca os conheci.
Eu não sou para eles. Eu não consolo: eu odeio o consolado & o consolador.”


“33. Estejas pronto para fugir ou golpear!”


60. Não existe lei além de Faze o que tu queres.

terça-feira, 16 de junho de 2009

Memórias Póstumas de Brás Cubas – Machado de Assis

Editora: Martin Claret
ISBN: 8572322949
Opinião: ***
Páginas: 182
     “Acresce que a gente grave achará no livro umas aparências de puro romance, ao passo que a gente frívola não achará nele o seu romance usual; ei-lo aí fica privado da estima dos graves e do amor dos frívolos, que são as duas colunas máximas da opinião.”


      “Creiam-me, o menos mau é recordar; ninguém se fie da felicidade presente; há nela uma gota da baba de Caim.”


      “Desde os cinco anos merecera eu a alcunha de “menino diabo”; e verdadeiramente não era outra coisa; fui dos mais malignos do meu tempo, arguto, indiscreto, traquinas e voluntarioso. Por exemplo, um dia quebrei a cabeça de uma escrava, porque me negara uma colher do doce de coco que estava fazendo, e, não contente com o malefício, deitei um punhado de cinza ao tacho, e, não satisfeito da travessura, fui dizer à minha mãe que a escrava é que estragara o doce “por pirraça”; e eu tinha apenas seis anos.”


      “Era boa moça, lépida, sem escrúpulos, um pouco tolhida pela austeridade do tempo, que lhe não permitia arrastar pelas ruas os seus estouvamentos e berlindas; luxuosa, impaciente, amiga de dinheiro e de rapazes. Naquele ano, ela morria de amores por um certo Xavier, sujeito abastado e tísico, – uma pérola.”


     “(no navio) Fiquei só; mas a musa do capitão varrera-me do espírito os pensamentos maus; preferi dormir, que é modo interino de morrer. No dia seguinte, acordamos debaixo de um temporal, que meteu medo a toda a gente, menos ao doido; esse entrou a dar pulos, a dizer que a filha o mandava buscar, numa berlinda; a morte de uma filha fora a causa da loucura. Não, nunca me há de esquecer a figura hedionda do pobre homem, no meio do tumulto das gentes e dos uivos do furacão, a cantarolar e a bailar, com os olhos a saltarem-lhe da cara, pálido, cabelo arrepiado e longo. Às vezes parava, erguia ao ar as mãos ossudas, fazia umas cruzes com os dedos, depois um xadrez, depois umas argolas, e ria muito, desesperadamente. A mulher não podia já cuidar dele; entregue ao terror da morte, rezava por si mesma a todos os santos do céu. Enfim, a tempestade amainou. Confesso que foi uma diversão excelente à tempestade do meu coração. Eu, que meditava ir ter com a morte, não ousei fitá-la quando ela veio ter comigo.”


     “– Vamos, continuou, entreguemo-la à cova que nunca mais se abre.
      Efetivamente, poucas horas depois, era o cadáver lançado ao mar, com as cerimônias do costume.”


      “Talvez espante ao leitor a franqueza com que lhe exponho e realço a minha mediocridade; advirta que a franqueza é a primeira virtude de um defunto. Na vida, o olhar da opinião, o contraste dos interesses, a luta das cobiças obrigam a gente a calar os trapos velhos, a disfarçar os rasgões e os remendos, a não estender ao mundo as revelações que faz à consciência; e o melhor da obrigação é quando, à força de embaçar os outros, embaça-se um homem a si mesmo, porque em tal caso poupa-se o vexame, que é uma sensação penosa, e a hipocrisia, que é um vício hediondo. Mas, na morte, que diferença! que desabafo! que liberdade! Como a gente pode sacudir fora a capa, deitar ao fosso as lentejoulas, despregar-se, despintar-se, desafeitar-se, confessar lisamente o que foi e o que deixou de ser! Porque, em suma, já não há vizinhos, nem amigos, nem inimigos, nem conhecidos, nem estranhos; não há plateia. O olhar da opinião, esse olhar agudo e judicial, perde a virtude, logo que pisamos o território da morte; não digo que ele se não estenda para cá, e nos não examine e julgue; mas a nós é que não se nos dá do exame nem do julgamento. Senhores vivos, não há nada tão incomensurável como o desdém dos finados.”


      “Desde então fiquei perdido. Virgília comparou a águia e o pavão, e elegeu a águia, deixando o pavão com o seu espanto, o seu despeito, e três ou quatro beijos que lhe dera. Talvez cinco beijos; mas dez que fossem não queria dizer coisa nenhuma. O lábio do homem não é como a pata do cavalo de Átila, que esterilizava o solo em que batia; é justamente o contrário.”


      “Mas eu era moço (na época em que ficara doente), tinha o remédio em mim mesmo.”


      “Voltemos à casinha. Não serias capaz de lá entrar hoje, curioso leitor; envelheceu, enegreceu, apodreceu, e o proprietário deitou-a abaixo para substituí-la por outra, três vezes maior, mas juro-te que muito menor que a primeira. O mundo era estreito para Alexandre; um desvão de telhado é o infinito para as andorinhas.”


      “Matamos o tempo; o tempo nos enterra.”


      “Crê em ti; mas nem sempre duvides dos outros.”


      “Não se compreende que um botocudo fure o beiço para enfeitá-lo com um pedaço de pau. Esta reflexão é de um joalheiro.”


      “Cinquenta anos! Não é ainda a invalidez, mas já não é a frescura. Venham mais dez, e eu entenderei o que um inglês dizia, entenderei que “coisa é não achar já quem se lembre de meus pais, e de que modo me há de encarar o próprio ESQUECIMENTO”.”


     “– Não me podes negar um fato, disse ele; é que o prazer do beneficiador é sempre maior que o do beneficiado. (....)
     A persistência do benefício na memória de quem o exerce explica-se pela natureza mesma do benefício e seus efeitos. Primeiramente, há o sentimento de uma boa ação, e dedutivamente a consciência de que somos capazes de boas ações; em segundo lugar, recebe-se uma convicção de superioridade sobre outra criatura, superioridade no estado e nos meios; e esta é uma das coisas mais legitimamente agradáveis, segundo as melhores opiniões, ao organismo humano.”


      “Ri-me a princípio; mas a nobre convicção do filósofo incutiu-me certo medo. A única objeção contra a palavra do Quincas Borba é que não me sentia doido, mas não tendo geralmente os doidos outro conceito de si mesmos, tal objeção ficava sem valor.”


     “– O cristianismo é bom para as mulheres e os mendigos, e as outras religiões não valem mais do que essa: orçam todas pela mesma vulgaridade ou fraqueza. O paraíso cristão é um digno êmulo do paraíso muçulmano; e quanto ao nirvana de Buda não passa de uma concepção de paralíticos. Verás o que é a religião humanística.”


      “E imaginará mal; porque ao chegar a este outro lado do mistério, achei-me com um pequeno saldo, que é a derradeira negativa deste capítulo de negativas: – Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria.”

Cinzas do Norte – Milton Hatoum

Editora: Companhia das Letras
ISBN: 8535906851
Opinião: ***
Páginas: 312

     “Ou a obediência estúpida, ou a revolta.”


     “Toda mãe conhece pelo menos um homem na vida: o filho.”


     “Ranulfo ia ajudá-lo? Conhecia os moradores... podia convencer o pessoal a participar, seria um protesto de todos, um trabalho coletivo. E então?
     “Tua mãe acha melhor adiar para depois da tua formatura”. Ranulfo passou a mão na boca e fechou os olhos: “Medo de mãe é sempre pertinente”.
     “Medo...”, repetiu Mundo, com impaciência. “Só se fala nisso... Toda frase começa com essa palavra. Tanto medo assim, melhor morrer”.”


     “Ouvi o sino da igreja bater onze vezes. Estava enfastiado de estudar leis, de ler processos maçantes sobre crimes variados. Recordei as estocadas de tio Ran: “Tanta lei para nada! Os militares jogaram todas as leis no inferno”.
     “O governo militar é mais efêmero que as leis”, eu replicava, com um fiapo de esperança que faltava ao meu tio.”


     “No dia sete de dezembro, seu aniversário, Naiá lhe entregou um buquê de flores do marido com umas palavras ternas de Jano. Ramira caiu em êxtase. O único buquê enviado por um homem em quase meio século de vida. Ela passou a remoer a ilusão de algo parecido com o amor. E então costurou para ele uma calça azul-marinho, caprichando no corte e no acabamento. Perguntei se não era preciso tirar a medida da altura e da cintura. “Claro que não”, respondeu minha tia. “Uma boa costureira não tira a medida de quem admira”.”


     “‘E as chicanas judiciais? Já começaste a aplicar as leis?’.
    Como eu não respondia, continuava: ‘Não tem lei porra nenhuma, rapaz. Tudo depende das circunstâncias: o réu tem ou não tem grana. Amigo togado também serve. Essa é a lei, o princípio e o fim de todas as sentenças’.
    Essas palavras davam uma certa dignidade a tio Ran: a grandeza de um ser revoltado.”


     “Por Deus, Lavo, o mau gosto assaltou o universo, e a uniformidade vai matar a alma do ser humano”.


     “Mas, neste mundo, quem vive é que vê o pior.” 


     “Eu implorei pra ele tirar aquele ódio da alma. Ele disse que não ia tirar o que sobrara da vida...”

segunda-feira, 15 de junho de 2009

O Mundo de Sofia - Jostein Gaarder

Editora: Companhia das Letras
ISBN: 8571644756
Opinião: ***
Páginas: 560


     “Não se pode experimentar a sensação de existir sem se experimentar a certeza que se tem de morrer.”


      “Por diferentes motivos, a maioria das pessoas é tão absorvida pelo cotidiano que a admiração pela vida acaba sendo completamente reprimida.”


      “Os adultos achavam o mundo uma coisa evidente. Dormiam para sempre o sono encantado do cotidiano.”


      ‘Tudo flui’, dizia Heráclito. Tudo esta em movimento, e nada dura para sempre. Por esta razão, “não podemos "entrar duas vezes no mesmo rio”. Isto porque quando entro pela segunda vez no rio, tanto eu como o rio estamos mudados.”


      “O homem é a medida de todas as coisas”, disse o sofista Protágoras (c. 487-420 a.C.). Com isto ele queria dizer que o certo e o errado, o bem e o mal sempre tinham de ser avaliados em relação às necessidades do homem. Quando perguntado se acreditava nos deuses gregos, Protágoras dizia: “Dos deuses nada posso dizer de concreto [...] pois neste particular são muitas as coisas que ocultam o saber: a obscuridade do assunto e a brevidade da vida humana”.”


      “Os que questionam são sempre os mais perigosos. Responder não é perigoso. Uma única pergunta pode ser mais explosiva do que mil respostas.”


      “Por que ter medo da morte?”, perguntava Epicuro. “Enquanto somos, a morte não existe, e quando ela passa a existir, nós deixamos de ser”.”


      “Tudo é possível. Mas também é preciso duvidar de tudo.”


      “Dizem que Buda teria dito a seus seguidores pouco antes da morte: - ‘Todas as coisas complexas estão condenadas à decadência’.”


      “Literalmente, Kant diz: “Age apenas segundo aquelas máximas através das quais possas, ao mesmo tempo, querer que elas se transformem numa lei geral”. (...).
     Kant formulou o imperativo categórico de modo a que nós tratemos as outras pessoas sempre como um fim em si mesmo, e não como um simples meio para se chegar a outra coisa.”


     “– Somente quando seguimos nossa “razão prática”, que nos habilita a fazer uma escolha moral, é que possuímos livre-arbítrio. Isto porque ao nos curvarmos à lei moral somos nós mesmos que estamos determinando a lei que vai nos governar.
     – Sim, de certa forma isto esta certo. Afinal, sou eu, ou alguma coisa em mim, quem diz que não devo maltratar os outros.
     – Quando você mesma decide não maltratar mais os outros, ainda que isto venha a ferir os seus próprios interesses, nesse momento você esta agindo em liberdade.”


     “– Para Schelling, a natureza era o espírito visível, e o espírito a natureza invisível, pois por toda a parte podemos perceber e sentir a ação de um espírito ordenador, estruturador. Para ele, a matéria era uma espécie de inteligência adormecida.”


      “Só um anjo pode se rebelar contra Deus.”


     “Nem tudo o que é novo é necessariamente bom, e nem tudo o que é velho deve ser descartado.”