A conversão de São Paulo

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segunda-feira, 25 de maio de 2009

Plantados no Chão: assassinatos políticos no Brasil hoje - Natalia Viana

Editora: Conrad
ISBN: 9788576162315
Opinião: ***
Páginas: 182


     “Um país que deixa matar seus líderes populares esta se ferin­do, se mutilando. Cada assassinato representa uma vitória para o atraso, a barbaridade, a raiva, a estupidez. Essa sangria perma­nente das mulheres e dos homens mais corajosos e dinâmicos, mais idealistas e generosos, tem um custo alto. A morte de um líder não é simplesmente a eliminação de uma pessoa inconve­niente, mas um golpe contra a esperança. Contra o futuro.”


      “O crime chocou o país e teve um efeito devastador sobre os xukuru. Mesmo assim, os indígenas decidiram prosseguir com sua reivindicação e adotaram, como símbolo de sua luta, a frase proferida pela esposa de Chicão, Zenilda Maria Araújo, durante os ritos funerários do marido. “Recebe teu filho, minha Mãe Na­tureza. Ele não vai ser sepultado, vai ser plantado na tua sombra, como ele queria. Para que dele nasçam novos guerreiros.” Basta perguntar a qualquer xukuru se seu cacique foi enterrado e ele responderá: “Não foi; foi plantado no chão”. Daí o nome deste li­vro, que é em primeiro lugar um tributo a todos aqueles que mor­reram simplesmente porque defendiam um ideal: que os direitos expressos na Constituição fossem cumpridos. Que cada um deles seja uma nova semente para que outros continuem sua luta.”


      “A grande maioria dos assassinados por defesa de direitos no Brasil é composta de pessoas ligadas a algum movimento social, cuja atuação é diferente da dos profissionais geralmente consi­derados “defensores” pela ONU. São vítimas de violações que se organizam para pleitear o que lhes cabe por lei. Quando os sem-terra ocupam uma fazenda improdutiva, estão exigindo o cum­primento do artigo 184 da Constituição, que estabelece a função social da propriedade. Quando um grupo de estudantes bloqueia um terminal de ônibus, esta realizando um ato político para rei­vindicar o que esta expresso nas leis municipais – que a tarifa deve ser condizente com o poder aquisitivo da população.”


      “Com todas as suas limitações, nossa proposta é levantar a discussão: como é possível, em plena democracia, a ocorrência de assassinatos políticos?
     A pergunta ganha força ao se analisar os dados publicados pela CPT. Segundo os cadernos “Conflitos no Campo”, nos três primeiros anos do governo de Luiz Inácio Lula da Silva (2003 a 2005), foram assassinadas 146 pessoas no campo, enquanto no mesmo período no governo anterior houve 76 mortes. Ou seja, um aumento de quase 100% – e isso se deu durante o governo do primeiro operário a chegar à presidência deste país, alguém que já foi um representante do movimento social, um sindicalista perseguido por sua militância.”


      “O assassinato de um militante não representa apenas a mor­te daquela pessoa. É um pouco o assassinato de sua causa, da luta que abraçou em vida. ‘Cada um desses assassinatos esta im­pedindo que a comunidade, através da palavra daquela pessoa, possa ter um maior acolhimento das suas pretensões pelo poder público’, comenta o jurista Hélio Bicudo (...) ‘O crime político não é apenas o fato de que a pessoa assassinada esteja fazendo parte do organismo do Estado ou se opondo a ele, é a política num sentido maior, num sentido de que o Estado deve contemplar todos os direitos. Na medida em que não contempla e as pessoas se rebelam contra esse Estado, a eliminação dessas pessoas tem um conteúdo político evidente’. Ou seja: na origem de cada crime político esta a responsabilidade do próprio Estado.”
  
      
     “De certa forma, existe um elemento ideológico que entre­meia todo esse processo. Para o advogado Darci Frigo (e para todos os outros entrevistados), o pano de fundo para o verda­deiro ciclo vicioso do crime político no Brasil é a criminalização dos movimentos sociais – ou seja, a associação entre militantes e criminosos perante a opinião pública.      
     “A criminalização tem vários estágios”, explica Frigo. Negar que os militantes lutam pelo que lhes é devido seria o primeiro passo para deslegitimar o movimento – algo que ocorreu inúme­ras vezes na história recente do país. No entanto, o processo evo­lui de maneiras variadas. É comum, por exemplo, que autoridades procurem deslegitimar as lideranças como representantes de um anseio coletivo. A socióloga Silvia Viana Rodrigues aponta para o fato de que é cada vez mais comum ouvir governantes afirmarem que tal ou tal movimento “tem fins políticos”. “Qualquer lideran­ça é acusada de ter aspirações político-partidárias. E o termo ‘po­lítico’ acaba ganhando uma conotação pejorativa”, explica.
     Outras estratégias, adotadas por diferentes atores em dife­rentes âmbitos do Estado, colaboram para a criminalização. Por exemplo, a negação da legitimidade dos meios de pressão utilizados pelos movimentos – como a ocupação de um terreno ou o bloqueio do trânsito – sob o argumento de que tal atitude é “ilegal”. “Pode-se desmoralizar as pessoas publicamente, acusar de crimes que não cometeram, transformar uma situação de ato político em um ato criminoso, prender sem provas formais”, re­lata Darci Frigo.
     Afinal de contas, se entrar sem permissão em uma proprie­dade privada é contra a lei, não seria correto chamar aqueles que o fazem de criminosos? Segundo Hélio Bicudo, não. “Esse embate é também político, mas é fundamentalmente jurídico. É uma questão interpretativa. Tomar posse de uma terra é uma ação formalmente ilegal, mas que defende o direito das pessoas sobre o direito da propriedade. Como o direito à terra é um di­reito social, nos usos e costumes a interpretação é absolutamen­te favorável a que o movimento tome terras que estão inaproveitadas para que elas sejam realmente utilizadas em benefício das pessoas. O que o MST esta fazendo é, através de ocupações de terras que aparentemente são inaproveitadas, forçar uma de­finição do Estado sobre essas terras porque, se não estão sendo aproveitadas, o Estado tem que usar o dispositivo constitucional e desapropriá-las.” Ou seja: em vez de violar a lei, o movimen­to esta forçando o cumprimento dela. A mesma regra pode ser aplicada aos demais casos: os estudantes que paralisam o trân­sito da cidade, os sindicalistas que realizam protestos diante das fábricas, os indígenas que expulsam invasores de suas terras.
     No entanto, esse debate geralmente não faz parte do coti­diano daqueles que lidam diretamente com os movimentos – os defensores da “lei e da ordem”. Artur Henrique da Silva Santos, presidente da CUT, é testemunha da violência com que as po­lícias militares e civis tratam trabalhadores durante as mani­festações sindicais, tradição que parece não perder terreno com o passar do tempo. Há ainda outras formas de coerção adota­das por policiais e investigadores, segundo Sandra Carvalho, da ONG Justiça Global: violação de domicílio ou instalações de organizações de direitos humanos, ingerências arbitrárias ou abusivas em correspondência ou comunicações telefônicas ou ele­trônicas, atividades de inteligência e espionagem dirigidas con­tra defensores, e restrições de acesso a informações em poder do Estado.”



(Trechos de declaração da ONU)

“Reconhecendo o importante papel da cooperação internacional e a importante contribuição do trabalho dos indivíduos, gru­pos e associações para a efetiva eliminação de todas as viola­ções de direitos humanos e liberdades fundamentais dos povos e dos indivíduos, nomeadamente no que diz respeito a violações em massa, flagrantes e sistemáticas como as que resultam do apartheid, de todas as formas de discriminação racial, do colo­nialismo, do domínio ou ocupação estrangeira, da agressão ou ameaças à soberania nacional, unidade nacional ou integridade territorial e da recusa em reconhecer o direito dos povos à au­todeterminação e o direito de todos os povos a exercerem plena soberania sobre suas riquezas e recursos naturais(...)”.


Artigo 1º
Todas as pessoas têm o direito, individualmente e em associação com outras, de promover e lutar pela proteção e realização dos direitos humanos e das liberdades fundamentais em nível nacio­nal e internacional.
Artigo 2º
1. Cada Estado tem a responsabilidade e o dever primordiais de proteger, promover e tornar efetivos todos os direitos humanos e liberdades fundamentais, nomeadamente através da adoção das medidas necessárias à criação das devidas condições nas áreas social, econômica, política e outras, bem como das garantias ju­rídicas que se impõem para assegurar que todas as pessoas sob a sua jurisdição, individualmente e em associação com outras, possam gozar na prática esses direitos e liberdades;

2. Cada Estado deverá adotar as medidas legislativas, adminis­trativas e outras que se revelem necessárias para assegurar que os direitos e liberdades referidos na presente Declaração sejam efetivamente garantidos.” (...)

Uma Estação no Inferno - Jean-Nicolas Arthur Rimbaud

Editora: Livro distribuído
Opinião: ****
Páginas: 103
     ““Sempre serás hiena, etc...” exclama o demônio que me coroou de tão amáveis papoulas. “Vence a morte com todos os teus apetites, com todo o teu egoísmo e todos os pecados capitais”.”


      “Não ignoro que fui sempre de raça inferior. Não posso compreender a revolta. Minha raça só se rebelará para saquear: como os lobos ao animal que não mataram.”


      “A quem me alugar? Que besta é preciso adorar? Que santa imagem atacar? Que corações destruirei? Que mentira devo sustentar? Sobre que sangue caminhar?”


      “O sono em meio às riquezas é impossível.”


      “O tédio já não é o meu amor. As cóleras, a libertinagem, a loucura, – dos quais conheço todos os impulsos e todas as consequências – todo o meu fardo esta deposto. Apreciemos sem vertigem a extensão de minha inocência.”


      “Não sou prisioneiro de minha razão. Disse: Deus. Quero a liberdade na salvação: como alcançá-la? Os gostos fúteis abandonaram-me. Já não preciso de sacrifícios nem de amor divino. Não tenho saudades do século dos corações sensíveis. Cada um tem sua razão, desprezo e caridade: retenho meu lugar no alto desta angélica escala de bom senso.”


      “E é ainda a vida! - Se a condenação é eterna! Um homem que quer mutilar-se esta condenado, não é assim? Acredito-me no inferno, logo estou nele. É o cumprimento do catecismo. Sou escravo de meu batismo. Pais, fizestes a minha desgraça e a vossa! Pobre inocente! - O inferno nada pode contra os pagãos. - É a vida. Mais tarde, as delícias da condenação serão mais profundas. Um crime, depressa, que as leis humanas me precipitem no nada.”


      “Deveria ter o meu inferno pela cólera, meu inferno pelo orgulho, – e o inferno da preguiça; um concerto de infernos. Morro. De cansaço. É o túmulo, vou para os vermes, horror de horrores! Satã, farsante, queres dissolver-me com teus feitiços? Exijo. Exijo! Um golpe de tridente, uma gota de fogo.”


      “Ele diz: “Não amo as mulheres: sabemos que o amor esta por ser reinventado. Já não podem desejar senão uma posição segura. Alcançada, o coração e a beleza são postos à margem: não resta senão álgido desdém, o alimento do casamento, hoje (...)”.”


      “Declara-me que sente remorsos, que tem esperanças: isto não deve importar-me. Fala com Deus? Talvez devesse eu mesma dirigir-me a Deus. Estou no mais profundo abismo, e não sei mais rezar.”


      “A moral é uma fraqueza do cérebro.”


      “Tive que viajar, distrair os encantamentos concentrados em meu cérebro. Do mar, que eu amava como se ele me fosse lavar de uma mancha, via emergir a cruz consoladora. Eu havia sido condenado pelo arco-íris. A Felicidade era a minha fatalidade, o meu remorso, o meu verme: a minha vida sempre seria demasiado imensa para dedicá-la à força e à beleza.”


     “– Tive razão ao desprezar esses bons sujeitos que não perderiam ocasião de uma carícia, parasitas do asseio e da saúde de nossas mulheres, hoje que elas tão pouco se entendem conosco. Tive razão de todos os meus desprezos: por isso me evado! Evado-me? Eu me explico. Ainda ontem suspirava: “Céus! somos tantos os condenados cá em baixo! Quanto a mim faz tanto tempo que pertenço a essa legião! Conheço-os um por um. Aliás nos reconhecemos sempre; detestamo-nos. Ignoramos a caridade Somos, porém, corteses; nossas relações com o mundo corretíssimas”. É assombroso. O mundo! Os mercadores, os ingênuos! – Não estamos desonrados. – Mas os eleitos, como nos receberiam?”


     “– Mas compreendo que meu espírito dorme. Se estivesse sempre desperto, a partir deste instante, alcançaríamos logo a verdade que provavelmente nos rodeia com seus anjos em pranto!...”


     “Mas por que ter saudades de um eterno sol, se estamos empenhados na descoberta da claridade divina, – longe dos que morrem nas estações?”

As Palavras Andantes - Eduardo Galeano

Editora: L&PM
ISBN: 8525404500
Opinião: ****
Páginas: 316

 Janela sobre a palavra (I)

     Os contadores de história, só podem contar enquanto a neve cai. A tradição manda que seja assim. Os índios do norte da América têm muito cuidado com essa questão dos contos. Dizem que quando os contos soam, as plantas não se preocupam em crescer e os pássaros esquecem a comida de seus filhotes.


     “Mas um escritor profissional deveria saber que numa narração verossímil, o tudo esta no que parece nada.”


     “O bordel, que havia sido frio como um hospital e duro como um quartel, encheu-se de pássaros e violas e plantas e cores. As pernas só eram abertas a partir do crepúsculo, e, enquanto durasse a noite. Durante o dia, e até a primeira badalada do ângelus, abriam-se as orelhas. Essa ideia veio da experiência. As meninas haviam aprendido que todo macho pelado esconde um náufrago que suplica amparo. O confessionário teve tanto êxito que transbordou de multidões que acudiam da inimiga cidade de Tegucigalpa e de todos os lugares. Pelas ladeiras da colina viam-se longas filas de homens, esperando a vez para contar dúvidas e segredos, medos guardados, sonhos e pesadelos. A igreja não competia. Os padres, como o senhor sabe, só recebem a confissão dos pecados, que é o que as pessoas menos necessitam confessar.”


     “Com a barriga acariciada pela água do rio, Dulcídio dorme a sesta.
     Quando abre um olho, vê a mulher. Ela esta lendo. Ele nunca havia visto, na vida, uma mulher de óculos.
     Dulcídio aproxima o nariz:
     – O que você esta lendo?
     Ela afasta o livro e olha para ele, sem susto, e diz:
     – Lendas.
     – Lendas?
     – Velhas vozes.
     – E para que servem?
Ela sacode os ombros:
     – Fazem companhia.


Janela sobre os seres e os afazeres

A pele da passadeira de roupas é lisa.
Longo e pontiagudo é o consertador de guarda-chuvas.
A vendedora de frangos parece um frango depenado.
Brilham demônios nos olhos do inquisidor.
Há duas moedas entre as pálpebras do avarento.
Os bigodes do relojoeiro marcam as horas.
Têm teclas as mãos da secretária.
O carcereiro tem cara de preso e o psiquiatra, cara de louco.
O caçador se transforma no animal que persegue.
O tempo transforma os amantes em gêmeos.
O cão passeia o homem que o passeia.
O torturador tortura os sonhos do torturador.
Foge, o poeta, da metáfora que encontra no espelho.


Janela sobre as paredes

Escrito em um muro de Montevidéu: As virgens têm muitos Natais, mas nenhuma Noite Boa.
Em Buenos Aires: Estou com ome. Já comi o f.
Também em Buenos Aires: Ressuscitaremos, ainda que isso nos custe a vida!
Em Quito: Quando tínhamos todas as respostas, mudaram as perguntas.
No México: Salário mínimo para o presidente, para ver o que ele sente.
Em Lima: Não queremos sobreviver. Queremos viver.
Em Havana: Tudo é dançável.
No Rio de Janeiro: Quem tem medo de viver não nasce.


Janela sobre as ditaduras invisíveis

A mãe abnegada exerce a ditadura da servidão.
O amigo solícito exerce a ditadura do favor.
A caridade exerce a ditadura da dívida.
A liberdade de mercado permite que você aceite os preços que lhe são impostos.
A liberdade de opinião permite que você escute aqueles que opinam em seu nome.
A liberdade de eleição permite que você escolha o molho com o qual será devorado.


Janela sobre a memória (I)

     À beira-mar de outro mar, outro oleiro se aposenta, em seus anos finais.
     Seus olhos se cobrem de névoa, suas mãos tremem: chegou a hora do adeus. Então acontece a cerimônia de iniciação: o oleiro velho oferece ao oleiro jovem sua melhor peça. Assim manda a tradição, entre os índios do noroeste da América: o artista que se despede entrega sua obra-prima ao artista que se apresenta.
     E o oleiro jovem não guarda esta peça perfeita para completá-la e admirá-la: a espatifa contra o solo, a quebra em mil pedaços, recolhe os pedacinhos e os incorpora à sua própria argila.


      “Temos um esplêndido passado pela frente?
     Para os navegantes com desejo de vento, a memória é um porto de partida.”


Janela sobre o corpo

A igreja diz: O corpo é uma culpa.
A ciência diz: O corpo é uma máquina.
A publicidade diz: O corpo é um negócio.
O corpo diz: Eu sou uma festa.


      “As mulheres? Uma raça inferior, como os negros, os pobres e os loucos. Incapazes de liberdade, como as crianças. Destinadas a chorar e a gritar, a falar mal de suas próximas e a mudar todo dia de opinião e de penteado. Na cama e na cozinha, às vezes dão prazer. Fora dali, só desgostos.”


      “Muito longe dali, Ventura despertou. Despertou todo sujo de sangue seco e atormentado pelas dores, do chapéu aos pés.
     Até respirar doía. Caminhar foi muito difícil, enorme sombra trêmula, e recordar foi muito mais difícil. Quando? Onde? Quem? Lua alta, lua ruim. Havia caído a noite, dentro dele havia caído a noite, e a noite já não era mais a hora do amor nem da guerra. Seus olhos haviam perdido a fala, e só tinha ouvidos para as goteiras da morte. Puta vida, vida sem fogo. Sobrevivendo? Sobremorrendo. Queira Deus soprar esta cinza.”


      “Ao anoitecer, seu marido passa para buscá-la. E no caminho de casa vão os dois, calados, respirando o veneno do ar, quando você torna a vê-lo no turbilhão das ruas: esse corpo, essa cara que sem palavras pergunta e chama.
     E desde então você o vê com os olhos abertos, em tudo que olha, e o vê com os olhos fechados. Em tudo que pensa; e o toca com seus olhos.
     Este homem vem de algum lugar que não é este lugar e de algum tempo que não é este tempo. Você, mãe de, mulher de, é a única que o vê, a única que pode vê-lo. Você já não tem mais fome de ninguém, fome de nada, mas cada vez que ele aparecesse e se desvanece, você sente uma irremediável necessidade de rir e chorar os risos e os prantos que engoliu ao longo de tantos longos anos, risos perigosos, prantos proibidos, segredos escondidos em quem sabe que cantos de seus cantos.
     E quando chega a noite, enquanto seu marido dorme, você vira de costas e sonha que desperta.”


      “Nas noites de frio, os homens ficam de cócoras, cobertos pelos ponchos, ao redor do fogo. Em rodas de chimarrão e aguardente, fumam e contam mentiras que dizem a verdade. E assim se vingam do frio e da bobagem de viver, e assim passam o tempo que o dia juntou para que a noite o perdesse.” 

quinta-feira, 21 de maio de 2009

A Revolução dos Bichos - George Orwell

Editora: Companhia das Letras
ISBN: 9788535909555
Opinião: ****
Páginas: 152

     “Então, camaradas, qual é a natureza da nossa vida? Enfrentemos a realidade: nossa vida é miserável, trabalhosa e curta. Nascemos, recebemos o mínimo de alimento necessário para continuar respirando e os que podem trabalhar são forçados a fazê-lo até a última parcela de suas forças; no instante em que nossa utilidade acaba, trucidam-nos com hedionda crueldade. Nenhum animal, na Inglaterra, sabe o que é felicidade ou lazer, após completar um ano de vida. Nenhum animal, na Inglaterra, é livre. A vida de um animal é feita de miséria e escravidão: essa é a verdade nua e crua.”


      “Por que, então, permanecemos nesta miséria? Porque quase todo o produto do nosso esforço nos é roubado pelos seres humanos. Eis aí, camaradas, a resposta a todos os nossos problemas. Resume-se em uma só palavra – Homem. O homem é o nosso verdadeiro e único inimigo. Retire-se da cena o Homem, e a causa principal da fome e da sobrecarga de trabalho desaparecerá para sempre.”


      “Mas no fim, nenhum animal escapa ao cutelo.”


      “E, principalmente, jamais um animal deverá tiranizar outros animais. Todos os animais são iguais.”


      “Os porcos não trabalhavam, propriamente, mas dirigiam e supervisionavam o trabalho dos outros. Donos de conhecimentos maiores, era natural que assumissem a liderança.”


      “Benjamim sabia ler tão bem quanto os porcos, mas não exercia sua faculdade. Ao que sabia – costumava dizer – nada havia que valesse a pena ler.”


      “Além da disputa sobre o moinho de vento, havia o problema da defesa da granja. Eles bem sabiam que, embora os humanos tivessem sido derrotados na Batalha do Estábulo, poderiam fazer outra tentativa, mais reforçada, para retomar a granja e restaurar Jones. Tinham as melhores razões para tentar, pois a notícia, da derrota, se espalhara pela região e tornara os animais das granjas vizinhas mais rebeldes do que nunca. Como sempre, Bola-de-Neve e Napoleão não estavam de acordo. Segundo Napoleão o que os animais deveriam fazer era conseguir armas de fogo e instruir-se no seu emprego. Bola-de-Neve achava que deveriam enviar mais e mais pombos e provocar a rebelião entre os bichos das outras granjas. O primeiro argumentava que, se não fossem capazes de defender-se, estavam destinados à submissão; o outro alegava que, fomentando revoluções em toda parte, não teriam necessidade de defender-se.”


      “– Camaradas – disse –, tenho certeza de que cada animal compreende o sacrifício que o Camarada Napoleão faz ao tomar sobre seus ombros mais esse trabalho. Não penseis, camaradas, que a liderança seja um prazer. Pelo contrário, é uma enorme e pesada responsabilidade. Ninguém mais que o Camarada Napoleão crê firmemente que todos os bichos são iguais. Feliz seria ele se pudesse deixar-vos tomar decisões por vossa própria vontade; mas, às vezes, poderíeis tomar decisões erradas, camaradas; então, onde iríamos parar? Suponhamos que tivésseis decidido seguir Bola-de-Neve com suas miragens de moinho de vento – logo Bola-de-Neve que, como sabemos, não passava de um criminoso?”


      “Naquela tarde, Garganta explicou aos outros bichos, em particular, que Napoleão nunca fora contra a construção do moinho de vento. Pelo contrário, ele é que advogara a ideia desde o início, e o plano que Bola-de-Neve havia desenhado no assoalho do galpão das incubadoras fora, na realidade, roubado de entre os papéis de Napoleão. O moinho de vento, era, em verdade, criação do próprio Napoleão.
     –
 Por que, então - perguntou alguém , ele tanto falou contra o moinho?
     Garganta olhou, manhoso.
     – Aí é que estava a esperteza do Camarada Napoleão
disse. Ele fingira ser contra o moinho de vento, apenas como manobra para livrar-se de Bola-de-Neve, que era um péssimo caráter e uma influência perniciosa. Agora que Bola-de-Neve saíra do caminho, o plano podia prosseguir sem sua interferência. Isso, disse garganta, era uma coisa chamada tática. Repetiu inúmeras vezes: “Tática, camaradas, tática!”, saltando à roda e sacudindo o rabicho com um riso jovial. Os bichos não estavam muito certos do significado da palavra, mas Garganta falava tão persuasivamente e os três cachorros – que por coincidência estavam com ele – rosnavam tão ameaçadoramente, que aceitaram a explicação sem mais perguntas.”


      “De certa maneira, parecia como se a granja se houvesse tornado rica sem que nenhum animal tivesse enriquecido – exceto, é claro, os porcos e os cachorros. Talvez isso acontecesse por haver tantos porcos e tantos cachorros. Não que esses animais não trabalhassem, à sua moda. Garganta nunca se cansava de explicar que havia um trabalho insano na ação de supervisionar e organizar a granja. Grande parte desse trabalho era de natureza tal que estava além da ignorância dos bichos. Tentando explicar, Garganta dizia-lhes que os porcos despendiam diariamente enormes esforços com coisas misteriosas chamadas “arquivos”, “relatórios”, “minutas” e “memorandos”. Eram grandes folhas de papel que precisavam ser miudamente cobertas com escritas e, logo depois, queimadas no forno. Era tudo da mais alta importância para o bem-estar da granja, dizia Garganta.”



      “Todos os animais são iguais. Mas alguns animais são mais iguais que os outros.”

Travessuras da menina má - Mario Vargas Llosa

Editora: Alfaguara
ISBN: 8573028084
Opinião: ***
Páginas: 306
 
     “‘Bem, não vamos esquecer que é chilena’, insistia, ‘e o forte das mulheres desse país não é a virtude’.”


     “– É isso que os franceses chamam de fiasco – disse, rindo. – Sabe que é a primeira vez que me acontece com um homem?
     – Quantos você teve? Deixe adivinhar. Dez? Vinte?
     – Sou péssima em matemática – respondeu, irritada.”


      “Tentei imaginar sua infância, pobre no inferno que é o Peru para os pobres, e sua adolescência, talvez ainda pior, as mil indignidades, entregas, sacrifícios, concessões que deve ter feito, no Peru, em Cuba, para ir em frente e chegar onde havia chegado. E como se tornara dura e fria por ter de se defender com unhas e dentes contra a desgraça, todas as camas que deve ter conhecido para não ser esmagada neste campo de batalha que suas experiências a convenceram que é a vida. Eu sentia uma ternura imensa por ela. Estava certo de que sempre iria amá-la, para minha fortuna e também para meu infortúnio.”


      “Eu adorei Earl’s Court, fiquei apaixonado pela sua fauna. O bairro cheirava a juventude, música, vida sem antolhos nem cálculos, grandes doses de ingenuidade, vontade de aproveitar o dia, rejeição da moral e dos valores convencionais em busca de um prazer que excluía os velhos mitos burgueses da felicidade – o dinheiro, o poder, a família, a posição, o sucesso social – e se encontrava nas formas simples e passivas de existência: a música, os paraísos artificiais, a promiscuidade e um desinteresse absoluto por todos os outros problemas que atingiam a sociedade. Com seu hedonismo pacífico, tranquilo, os hippies não faziam mal a ninguém; tampouco se metiam a apóstolos, não queriam convencer nem recrutar a população com quem tinham rompido para levar sua vida alternativa: só queriam que os deixassem em paz, absortos em seu egoísmo frugal e seu sonho psicodélico. (...)
     Muitos hippies, talvez a maioria, vinha das classes média ou alta, e sua rebelião era familiar, dirigida contra a vida cheia de regras dos pais, contra tudo aquilo que consideravam a hipocrisia dos seus costumes puritanos e as fachadas sociais que disfarçavam seu egoísmo, espírito de isolamento e falta de imaginação. Eles eram extremamente simpáticos com seu pacifismo, seu naturismo, seu vegetarianismo, a esforçada busca de uma vida espiritual que desse transcendência à sua rejeição de um mundo materialista e corroído por preconceitos classistas, sociais e sexuais dos quais não queriam nem saber. Mas tudo aquilo era anárquico, espontâneo, sem centro nem direção, sequer ideias, porque os hippies – pelo menos os que eu conheci de perto –, embora se identificassem com a poesia dos beatniks – Allen Ginsberg recitou seus poemas, cantou e dançou música indiana em plena Trafalgar Square diante de milhares de jovens –, na verdade liam bem pouco ou não liam nada. Sua filosofia não se baseava no pensamento e na razão, mas sim nos sentimentos: no feeling.”


      “E lembrava sempre de um apocalíptico desplante de Salomón Toledano que um dia, na sala de intérpretes da Unesco, resolveu nos interpelar assim: “E se, de repente, sentirmos que vamos morrer e nos perguntarmos ‘Que rastro deixaremos da nossa passagem por este canil?’, a resposta seria: nenhum, não fizemos nada, além de falar pelos outros. O que significa, então, ter traduzido milhões de palavras se não nos lembramos de nenhuma, porque nenhuma merecia ser lembrada?” Não admirava que o Trujimán fosse impopular entre a turma da profissão.
     Um dia disse a ele que o odiava, porque aquela frase, que vez por outra me vinha à memória, me convenceu da total inutilidade da minha existência. (...)
     Por isso, em 1979, quando Salomón Toledano anunciou, muito excitado, que tinha aceitado uma proposta para trabalhar em Tóquio durante um ano, como intérprete exclusivo da Mitsubishi, eu me senti um pouco aliviado. Era uma boa pessoa, um espécime interessante, mas havia qualquer coisa nele que me entristecia e me assustava, porque me revelava certos meandros secretos do meu destino.”


      “Mesmo o cinema, os concertos, a leitura, os discos eram apenas meios de ocupar o tempo e não atividades que me entusiasmassem, como antes. Também por esse motivo eu sentia rancor de Kuriko. Por sua culpa, eu perdera as ilusões que fazem da existência algo mais do que uma soma de rotinas.”


      “Para qualquer pessoa, é mais difícil viver na verdade que na mentira”.


      “Ele tinha orgulho de dizer que poucas vezes errou em toda sua longa vida profissional.
     – Algumas, sim, porque só quem nunca erra é Deus, e talvez o Diabo, moço.”

terça-feira, 12 de maio de 2009

Batismo de Sangue: dominicanos e a morte de Carlos Marighella - Frei Betto

Editora: Civilização Brasileira
Páginas: 284
Opinião: ***
     “O gosto amargo da injustiça queima as entranhas, sangra o coração, exige o conduto político para não perder-se na revolta individual ou na abnegada fatalidade do destino.”


      “Primeiro de maio de 1936. Nas manifestações dos trabalhadores paulistas, a Polícia Especial de Filinto Müller detecta a presença do PCB sob o comando astuto de Carlos Marighella. Preso, o jovem comunista é torturado durante vinte e três dias. Querem os nomes de seus companheiros de Partido. A dor faz-se companheira em seu silêncio. A vida e a liberdade de seus camaradas no PCB valem mais do que a dele. Esse o preço da fidelidade a uma causa, salário de morte e de amor que não se paga com o simples querer. A resistência humana tem limites nem sempre conhecidos. Ao encarnar em sua vida os ideais pelos quais lutava, Marighella conseguiu que o limite de sua resistência chegasse à fronteira em que a morte recebe o sacrifício como dom.”


     ““Os brasileiros estão diante de uma alternativa” – escreve Marighella em Porque Resisti à Prisão. “Ou resistem à situação criada com o golpe de 1.° de abril ou se conformam com ela. (...) Antes tínhamos a chamada democracia representativa. Nela, a inflação prosseguia em sua marcha acelerada. Os trustes norte-americanos mandavam. O latifúndio predominava. Milhões de homens do povo não podiam votar. Analfabetos e praças não tinham o direito de voto. Os comunistas não podiam ser eleitos, ainda que pudessem votar. Era uma democracia racionada. E racionada por isto. Porque os direitos individuais pelo menos eram respeitados, mas as restrições à participação do povo nessa democracia eram flagrantes. E injustas. Tal democracia, pela sua própria estrutura, constituía por si mesma um empecilho à realização das reformas sociais – as chamadas reformas de base. E por mais que oferecessem oportunidades – amparando os direitos individuais – sentia-se emperrada. E não podia avançar pacificamente. Como de fato não avançou; e acabou golpeada. As forças de direita do fascismo militar brasileiro deram-lhe o tiro da misericórdia.”


      ““O que havia de errado nesse tipo de democracia vinha de longe. Era um vício de origem. Um pecado original. Não se tratava de uma democracia feita pelo povo. Quem a instituiu foram as classes dirigentes. Nesse arcabouço erigido pelas elites, as massas conquistaram alguns direitos, ali introduzidos graças às suas lutas. Historicamente o mal dessa democracia era, acima de tudo, o seu conteúdo de elite, com a ostensiva marginalização das grandes massas exploradas – o proletariado crescendo sem nunca chegar à integração de direitos exigida pelo seu papel na produção. E os camponeses inteiramente por fora – párias da democracia – sob a ultrajante justificativa de sua condição de atraso e suprema escravização aos interesses dos senhores da terra”.
     Se por um lado Marighella ainda refletia a opinião vigente na cúpula do PCB de que “a atual ditadura” é “precária”, por outro apontava quem eram os violentos e os subversivos: “As classes dirigentes não vacilaram em empregar a violência e subverter a ordem constitucional para liquidar com as liberdades, evitando que delas se favorecessem as massas e opondo uma barreira à participação do povo no poder”. Nomeia ele o “denominador comum” entre a tradição democrática brasileira e a “atual ditadura” – “o predomínio inalterado do poder das classes dirigentes, a defesa suprema de seus interesses contra os interesses das grandes massas, quer sobrevivam ou não as liberdades”.
     A liberdade não é um valor reconhecido pela oligarquia brasileira, adverte Marighella. Ela pode existir, sempre “racionada”, desde que não ameace os interesses dominantes. Esses interesses estão acima dos valores humanos e políticos. Para assegurá-los, “a cadeia, a polícia, os tribunais sem falar nas leis de defesa do Estado, como é o caso da Lei de Segurança Nacional são e sempre foram (até que sejam derrogadas dessa investidura) os principais meios jurídicos da afirmação do poderio e da supremacia das classes que dominam no Brasil”.”


      “Marighella faz o inventário dos golpes mais recentes: “O golpe de 10 de novembro de 1937 implantou o Estado Novo, espécie de fascismo peculiar ao Brasil na época da ascensão do nazismo. O de 29 de outubro de 1945 levou a deposição de Getúlio Vargas e destinava-se a impedir a livre eleição de uma Assembléia Constituinte. O de 24 de agosto de 1954 induziu ao suicídio de Vargas e objetivava anular a Constituição de 1946. O de 11 de novembro de 1955 tinha em vista impedir a posse do presidente eleito, o que motivou, na mesma data, o contragolpe vitorioso chefiado pelo então general Lott. Isto fez fracassar os intuitos dos golpistas. O de 25 de agosto de 1961 conduziu à renúncia de Jânio e à insubordinação dos ministros militares fascistas, sublevados com a posse de Jango substituto legal do presidente renunciante. O de 1.° de abril o mais recente e calamitoso deu origem à deposição de Jango e levou à ditadura dos ‘gorilas’.”


      “Na conclusão de que “a ditadura deve ser derrotada”, Marighella admite que “o único meio, para a reconquista da democracia, ou melhor, para a conquista de uma democracia em consonância com a realidade econômica e social brasileira, é a luta de massas com as forças populares e nacionalistas à frente”.”


      ““Quando a liderança do proletariado se subordina à liderança da burguesia ou com ela se identifica” escreve ele (Marighella) –, “a aplicação da linha revolucionária sofre inevitavelmente desvios para a esquerda e a direita”. Após identificar os erros do Partido (PCB), como “o reboquismo” ao Governo, “a perda do sentido de classe”, “a falta de condições ideológicas na liderança marxista” e “a falsa tese da nova tática do imperialismo, segundo a qual “o imperialismo norte-americano não estaria interessado em golpes e ditadura”, Marighella reconhece que agora “entramos numa fase de recuo”. Trata-se, pois, de organizar o movimento de massas, a “frente única antiditadura”, não para “visar, nas condições atuais, a pressão sobre o governo... O objetivo do movimento de massas é levar a ditadura à derrota, substituí-la por outro governo.” Novamente admite que o “o caminho pacífico esta superado. (...) Sem uma estratégia revolucionária, sem a ação revolucionária apoiada no trabalho pela base e não exclusivamente de cúpula, é impossível construir a frente única, movimentar as massas e dar-lhes a liderança exigida para a vitória sobre a ditadura”.”


     “É através das dissidências que a História acerta os seus passos. Há um momento em que as possibilidades de uma proposta religiosa ou política parecem esgotar-se sob o peso dos anos, da rigidez de seus princípios, da inflexibilidade de sua disciplina, da intransigência de seus dogmas, da prepotência de seus líderes. Como a fonte seca à beira da estrada, incapaz de saciar a sede dos peregrinos que atraiu, a proposta vê-se rejeitada por seus discípulos dispostos a caminhar sem a tutela que lhes atrasa o passo. Foi o que ocorreu na Palestina do século I, onde o judaísmo, atravancado pela prodigiosa e revolucionária “seita”, cujos membros anunciavam a ressurreição de um jovem judeu crucificado pelos romanos, Jesus de Nazaré. Toda a história da Igreja é como uma teia entrelaçada por experiências místicas e disputas ideológicas, influências culturais e manobras políticas, heresias doutrinárias e inovações pastorais. O centro dessa teia, a fé no Senhor, permanece intangível. Mas sua extensão em intrincados labirintos é, de um lado, sinal da diversidade dos dons do Espírito e, de outro, obra dessa incessante busca que faz do ser humano, em seus anelos de perfeição, o aprendiz de Deus. A dissidência de Paulo, o Apóstolo, quebra o caráter judaizante da primitiva Igreja de Pedro, estendendo-a, como boa nova, aos pagãos, até os limites do Império Romano. Entretanto, opera-se entre os cristãos uma experiência que, embora carregada de exceções, se constitui na chave de sua unidade básica através dos séculos: a dissidência não significa, necessariamente, ruptura. E é justamente essa capacidade de uma instituição suportar a emergência do novo e assumir a gravidez que prenuncia, ao mesmo tempo, a sua transformação e o seu futuro, queda a ela perenidade. Se a Igreja dos papas revestidos de todo poder não suportasse o desafio evangélico da presença incômoda de um Francisco de Assis, ela teria sido tragada pelos séculos como as águas do mar acobertam a embarcação que afunda sob o peso de sua excessiva carga. Lutero sabia disso e fez o que pôde para prosseguir na luta interna. Mas a formação dos Estados europeus, o interesse dos príncipes em uma fonte alternativa de sacralização do poder para escaparem ao monolitismo romano , o jogo econômico de um Renascimento que via agonizar a Idade Média e expandir-se o mercantilismo que, em breve, daria ao trabalho meios industriais de produção, inaugurando o capitalismo, fizeram com que a dissidência de Lutero adquirisse foro de ruptura e inovação. Desde então, a luta interna se enfraqueceu nas Igrejas protestantes, multiplicando as denominações segundo o número de dissidências.
     Essa tensão entre a ortodoxia e a crítica que a desnuda, tornando-a vulnerável, existe da mesma forma na história dos partidos políticos, mormente entre as tendências de esquerda. Embora feita de dissidências e de discordâncias, a política, como a religião, não as suporta e, se não pode abatê-las pela mão de ferro do poder, recorre à difamação, à discriminação e às explicações pretensamente psicológicas que reduzem o adversário a um doente mental. Mesmo nas sociedades burguesas que ostentam o título de democráticas, a discordância não passa de um acordo de cavalheiros para encobrir os reais antagonismos. A lei que protege o patrão oprime o empregado; o direito reconhecido no médico é desprezado no paciente; o aparelho jurídico que não confunde o réu de colarinho e gravata com seu gesto criminoso é o mesmo que reduz a existência do pobre ao momento infeliz de transgressão da lei. Sobretudo, a discordância é admitida enquanto não ameaça passar o capital às mãos de quem trabalha.
     A árvore genealógica dos partidos e movimentos de esquerda é rica em ramificações. De Lênin a Marighella, todos apostataram aos olhos de seus antigos camaradas. Quando chega ao poder, o “herege” é redimido pela vitória e absolvido pelos que o julgavam equivocado. Quando se é abatido em plena luta, como a ave em seu vôo, a morte é o atestado de que necessitavam os “ortodoxos” à sua razão indelével, aferrada aos conceitos e às normas que sacralizam um partido, fazendo-o transcender o real.
     Entretanto, as novas gerações vêem-na dissidência a conquista da liberdade, ainda que, de fato, ela signifique recuo ou desvio. Daí a facilidade com que os mais jovens aderem às propostas do momento, que parecem brotar, como por encanto, da própria conjuntura que lhes é contemporânea. Contudo, além da torrente de palavras que escorre dos estuários de cada posição, na disputa inútil de uma certeza que o raciocínio não comporta, resta a prática como critério da verdade. Ela e o tempo dirão quem esta certo e quem esta errado. Indiferentes ao nosso maniqueísmo, é possível que a prática e o tempo sejam menos intolerantes e apontem os erros e os acertos de ambos os pratos da balança. Artífice real da História, as classes populares seguirão sempre como o fiel da balança, pendendo para um dos lados e confirmando as teorias que o inclinam na direção do futuro. Nesse movimento dialético, da árvore genealógica que muitas vezes se abre na infinidade de galhos e, por outras, se une em torno do tronco, é que a história das tendências políticas de esquerda tece as suas razões que, contudo, só se fazem realidade quando deitam raízes na alma, esperança e anseio irreprimível de liberdade das camadas oprimidas”.


      “Por ocasião do encerramento da OLAS, Marighella dirige carta a Fidel Castro, denunciando o PCB: “OS que se levantam contra o absurdo de uma direção ineficaz, imobilizada, imbecilizada pelo medo da revolução, são atacados virulentamente, acusados de fracionismo, aventureirismo e outros feios crimes (...). Ninguém vai deixar de ser comunista por ser este o panorama desalentador da direção do PCB. Ao contrário, o Partido é da classe operária e do povo e não monopólio dos que se intitularam seus dirigentes (...) o importante é prosseguir na luta ideológica para mostrar que a ideologia da burguesia penetrou fundo na direção do PCB”.”


      “O segredo da vitória é o povo”.


     “Nessa “Organização” termo pelo qual ficaria conhecido o grupo de Marighella , “o que vale é a ação” inspirada por três princípios básicos: “o primeiro é que o dever de todo revolucionário é fazer a revolução; o segundo é que não pedimos licença para praticar atos revolucionários, e o terceiro é que só temos compromissos com a revolução”.”


      “A partir de 1968, o Agrupamento passa a constituir-se numa organização revolucionária, a Ação Libertadora Nacional (ALN). O programa básico do movimento dirigido por Carlos Marighella propunha “derrubar a ditadura militar” e “formar um governo revolucionário do povo”; “expulsar do país os norte-americanos”; “expropriar os latifundiários" e “melhorar as condições de vida dos operários, dos camponeses e das classes médias”; “acabar com a censura, instituir a liberdade de imprensa, de crítica e de organização”; “retirar o Brasil da posição de satélite da política externa dos Estados Unidos e colocá-lo, no plano mundial, como uma nação independente”.”


      “O policial perguntou-me como era possível conciliar a fé cristã com a opção política. Expliquei-lhe que o cristianismo é essencialmente transformador e essa revolução não se limita à história, culmina na transcendência. Jesus anunciou o Reino, a transformação radical deste mundo segundo o projeto libertador do Pai. Onde há justiça, liberdade e amor, aí estão as sementes do Reino de Deus. O cristão, como discípulo do Cristo, não tem outro compromisso senão com o Espírito que nos anima na direção dessa esperança. A fé desmascara, frente à palavra de Deus, o discurso ideológico dos dominadores, Jesus assume a identidade dos oprimidos e neles quer ser amado e servido: “tive fome e me destes de comer. Tive sede e me destes de beber. Era forasteiro e me recolhestes. Estive nu e me vestistes, doente e me visitastes, preso e viestes ver-me” (Mateus 25, 35-36) . Servir à causa de libertação dos pobres é servir a Cristo. Uma parte da Igreja afastou-se historicamente da proposta evangélica. Trocou a aliança com o povo pela aliança com o poder. E o capital simbólico de nossa fé foi apropriado pelos opressores. O cristianismo passou a ser o espírito religioso do liberalismo. Deus, porém, não abandonou o Seu povo. O Concilio Vaticano II e a Conferência Episcopal de Medellín eram prenúncios de uma Igreja convertida às suas origens. Na América Latina, a religião cristã não seria mais o ópio do povo e o ócio da burguesia. Seria, sim, sinal de contradição, pedra de escândalo, fogo que queima e alumia, espada que divide. Já não se poderia servir a Deus e ao dinheiro.”


      ““Lola” prosseguiu apaixonada na luta que vocês iniciaram. Um ano depois, em novembro de 1972, Aurora Maria Nascimento Furtado foi presa pelo Esquadrão da Morte do Rio. Entre infindáveis torturas na Inventada de Olaria, puseram-lhe esta “obra-prima” da tecnologia da segurança nacional: a “coroa de Cristo” seu crânio foi esmagado pelo capacete de aço feito para apertar aos poucos.”


      “Frei Ivo dirigira toda a noite valendo-se da escuridão para resguardar melhor o mais procurado militante político que ajudamos a deixar o país. Olhos ariscos, cabelos lisos soltando uma mecha por cima dos óculos, o que o tornava mais jovial, Ivo não demonstrava cansaço. É possível que certas missões, como transportar um dirigente revolucionário através do país cuja polícia o procura como agulha no palheiro, despertem em nós estímulos que desconhecemos em circunstâncias normais. Líderes sindicais em greve são capazes de passar dois ou três dias acordados, sem tempo para sequer sentir sono; políticos em véspera de eleições experimentam um ânimo redobrado, a cabeça girando como piorra, acesa como uma tela de TV que não se apaga; guerrilheiros em combate sabem que a fadiga, o sono, é a cilada que carregam em si, e recebem o coice tio fuzil disparando contra as posições do inimigo como a energia que os mantém alertas.”


      “No sábado, dia 8, os jesuítas foram libertados, exceto Camilo. Por mais que o delegado Firmino Perez Rodrigues, diretor do DOPS gaúcho, os apertasse, nada souberam dizer sobre a minha fuga. Para não ficar de mãos vazias, o DOPS segurou Camilo. Sabê-lo detido me fez sofrer, embora eu tivesse consciência de que não podemos nos culpar das arbitrariedades cometidas por um regime ditatorial. Na tentativa de separar companheiros e de desmoralizar um perante o outro, a repressão sempre transfere a responsabilidade de seus atos para as suas vítimas. Se estudantes são espancados na rua, é porque exorbitaram em suas manifestações; se sindicalistas são presos numa greve, é porque deram caráter político ao movimento reivindicatório; se um militante morre na tortura, é porque se matou em decorrência de desequilíbrio psíquico. Isso faz parte do modo de agir da polícia. Lamentável é quando ela consegue interiorizar num companheiro a sua visão das coisas e a sua versão dos fatos.”


     “ Como um estudante de Teologia pode tratá-lo assim, de camarada para camarada? – perguntou o delegado.
     Padre Marcelo explicou que considera seus irmãos todos que estão comprometidos com o Evangelho.
      Pode ser que a religião defenda Frei Betto, mas a lei o condena – assegurou o delegado.
      Nesse caso, eu fico com a religião – retrucou padre Marcelo. O interrogatório era conduzido de forma a jogar o depoente contra mim. A repressão brasileira aprendera, nos cursos ministrados pelos norte-americanos, a não alimentar escrúpulos em investigações. Todo réu é culpado até prova em contrário. Explorar as fraquezas humanas surgia como um recurso mais rápido, econômico e cruel. O fio da meada poderia ser encontrado sem exames periciais, sem provas dactiloscópicas, sem análises grafológicas – bastava pôr de lado o respeito aos direitos humanos e adotar a tortura, a chantagem e a pressão psicológica como métodos de interrogatórios.”


      Consta no seu depoimento que você conheceu pessoalmente o Marighella. Certo?
     – Certo.
     – Que impressões lhe ficaram?
     – Um homem sedento de justiça que entregou a vida pela causa do povo.
     – Um homem que sequestrou, matou, assaltou bancos e atirou bombas, não é?
     – É o que diz a polícia. Não respondo pelas acusações que os senhores fazem a ele. Respondo pelos contatos que tive – repliquei.
     – Mas você sabia que ele era comunista, não é mesmo?
     – Sabia.
     – E como um cristão pode colaborar com um comunista?
     – Para mim, os homens não se dividem entre crentes e ateus, mas sim entre opressores e oprimidos, entre quem quer conservar a sociedade injusta e quem quer lutar pela justiça.
     – Você reza pela bíblia de Marx?
     – Embora reconheça a importância da contribuição de Marx, rezo pela Bíblia de Jesus. No capítulo 25 do evangelho de São Mateus, quando perguntam a Jesus quem se salvará, ele não diz que serão os crentes, os padres, os ricos que ajudam a construir igrejas ou os democratas-cristãos. Diz: “eu tive fome e me destes de comer, tive sede e me destes de beber... Os justos perguntarão: Senhor, quando foi que te vimos com fome e te alimentamos, com sede e te demos de beber? Ao que Ele lhes responderá: a cada vez que o fizestes a um desses meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes”. Portanto, são as atitudes bem concretas em prol da justiça que nos salvam.
      Só falta dizer que Marighella era um homem da Igreja!
     Procurei falar mais devagar para controlar melhor o raciocínio, como se as ideias fossem pesadas cordas a serem cuidadosamente erguidas da exaustão que me disseminava calafrios pelo corpo.
      Ele não estava na Igreja, mas estava no Reino, nessa esfera da justiça e da igualdade que é o objeto principal da pregação de Jesus. O papel da Igreja é anunciar o Reino.
      Reino de paz e de amor?
     Dir-se-ia que sua pose altiva era mais de um cientista examinando a cobaia humana.
      Reino de paz e de amor – assenti.
     Seus olhos acenderam por baixo das lentes brancas. Acreditou-me em xeque-mate:
      Quer dizer que você condena a violência, a luta armada?
      Não quero outra coisa senão a paz, muita paz. Por isso luto contra a violência da burguesia sobre os trabalhadores, das estruturas da sociedade capitalista.
      Inclusive com armas, contra a orientação da Igreja?
      Pelo que conheço da doutrina da Igreja, ela não descarta, em última instância, o direito de os oprimidos se defenderem, com armas, da opressão estrutural que os esmaga. Leia O Regime dos Príncipes, de São Tomás de Aquino, e a encíclica Populorum Progressio, do Papa Paulo VI.
      O que você quer é o comunismo?
      Quero uma sociedade justa, onde a vida do ser humano socialmente mais insignificante esteja assegurada. O Deus no qual eu creio é o Senhor da vida. Não me interessa se essa sociedade tenha o nome de socialismo, de comunismo, de utopismo ou qualquer outro. Os rótulos não revelam o conteúdo.
      Você já leu Marx?
      Li, Engels, Lênin, Stálin, Mao, Guevara e Pascal, Kant, Hume e Hegel. Nós dominicanos, aprendemos que quando se quer conhecer uma teoria o mais indicado é ir diretamente à fonte.
      Leu que Marx considera a religião ópio do povo?
      É a burguesia que faz da religião um ópio do povo, pregando um deus apenas senhor dos céus enquanto ela se apodera da terra. O Deus da minha fé é aquele que se encarna em Jesus Cristo e assume a libertação dos oprimidos. Cabe a nós cristãos provar que a afirmação de Marx, válida para a Alemanha dos séculos XVIII e XIX, não pode ser generalizada a todas as épocas e sociedades.”


     “Luiz Eurico Tejera Lisboa veio a ter um destino trágico, semelhante ao de inúmeros brasileiros perseguidos pelo terror policial. Mais tarde eu soube que ele se mudara para o centro do país, deitado em Porto Alegre sua companheira Suzana, e continuara a participar corajosamente da resistência à ditadura. Em agosto de 1972, aos 24 anos, correu a notícia de sua prisão em São Paulo. Sua família repetiu a mesma via crucis percorrida por tantas outras ainda hoje: procurou órgãos de segurança, visitou autoridades, falou com políticos, foi a presídios e quartéis, fez apelos e denúncias. O Governo, como um assassino de costas largas, manteve-se calado; nada vira, nada soubera, nada a informar. Em alguma esquina do Brasil, Luiz Enrico “evaporara”. O terror do Estado agia sob a complacência da Justiça. Em nome da segurança nacional, um jovem brasileiro fora sequestrado e morto. Nenhuma notícia a seu respeito. Os jornais, com a boca tapada pela censura e intimidados, nada diziam a respeito. Contudo, uma pessoa não pode deixar de existir nas entranhas de sua mãe, no coração de sua esposa, no afeto de seus parentes e amigos, na admiração de seus companheiros, na memória dos que sobrevivem e alimentam-se de seu sacrifício e exemplo. Um revolucionário é um ser social, como uma árvore cujas raízes se espalham à sua volta, cravadas no chão da história, e cujos frutos vão muito além de seus galhos e nutrem o esforço de libertação.”


     “Padre Marcelo abriga em sua fé uma vocação mística inquieta. No cárcere, o atual Bispo de Guarabira contemplou o mistério da vida de um militante comunista, Jeová de Assis Gomes. Gravou-se em minha memória este diálogo entre os dois, através das grades das solitárias:
      Jeová, você foi torturado horas seguidas. Desmaiou várias vezes. Fizeram com você o que não fizeram com o Cristo. Quebraram seus braços e pernas. Você podia ter morrido. Não passou por sua cabeça que a morte seria o encontro com o Absoluto, com Alguém? Você se sente realizado? E se tivesse morrido?
      Padre, agora me sinto feliz porque conheço o gosto da morte. Sei, por experiência, que sou capaz de dar a minha vida pela causa revolucionária. Minha vida foi entregue aos oprimidos.
      Quem ama passa da morte para a vida. Numa leitura cristã, de fé, quem faz a experiência do dom total, do amor, esta salvo e se encontra com Deus. A Bíblia não diz que serão salvos os que têm fé e celebram o culto, mas sim os que são capazes de amar. Para estar aqui neste calabouço, eu arrisquei muito pouca coisa. Mas você arriscou sua juventude, a carreira universitária, a formação de uma família e a própria vida, por amor. Você faz a experiência do dom total. Isso, numa leitura cristã, vale mais que proclamar a fé.
     Jeová retrucou enfático:
      Como o senhor arriscou pouco!? O senhor é monsenhor!
      Sou merda e você é Cristo. O capítulo 25 do evangelho de São Mateus mostra claramente quais são os critérios de salvação: são as respostas eficazes que damos às necessidades econômicas, sociais e espirituais do próximo. Jesus se identifica com quem tem fome, sede, vive no abandono ou aprisionado. O que fazemos ao oprimido para libertá-lo é ao próprio Cristo que o fazemos. Portanto, Jeová, o que você faz pela humanidade, pelo amor dos homens, é por Ele que você o faz.
     Criou-se uma afetuosa cumplicidade entre padre Marcelo e Jeová. Seis anos mais tarde, Dom Marcelo me reafirmaria que o testemunho desse jovem combatente fora a mais forte interpelação que recebera em sua vida. Libertado, meses depois, por ocasião do sequestro do Embaixador da Alemanha, no Rio, Jeová regressou clandestinamente ao país, vinculado ao Molipo e disposto a realizar o antigo projeto de organizar politicamente os camponeses. Delatado e cercado num campo de futebol, foi fuzilado a sangue-frio no Norte de Goiás, em 1971.”


     “A celebração da missa nos subterrâneos do DOPS quebraria o espesso clima de atrocidades e permitiria, mais uma vez, a tentativa de recuperação de nosso espaço vital. Para a maioria dos companheiros, a missa interessava enquanto rito capaz de simbolizar e de exprimir a nossa unidade mais radical nos limites do sofrimento humano e na esperança libertadora que consumia nossas vidas ali dentro. Nesse sentido, a eucaristia – memória atualizadora da paixão e da ressurreição do Senhor – teria lugar privilegiado naquele calabouço, sem o risco de objetiva profanação que ela corre em igrejas frequentadas pelos ricos senhores da terra que, aos domingos, comungam o corpo de Jesus e, durante a semana, esmagam aqueles com quem o Senhor mais se identifica (Mateus 5, 23 e 24).”


     “Era a primeira vez que participávamos de uma celebração na qual predominavam comunistas. Fiz o comentário da leitura:
      Isaías não diz que, no futuro, os pobres da terra viverão em harmonia com os homens impetuosos. Pelo contrário, a boca do profeta anuncia a justiça de Deus que sacia a fome dos pobres e faz morrer o ímpio. Não há conciliação possível entre opressores e oprimidos. O amor, porém, une os que colocam suas vidas na mesma direção. Do lado de dentro dessas grades, encontram-se comunistas e cristãos. O que há de comum entre nós? O mesmo amor à libertação do nosso povo. Não foi em torno de bancas universitárias, dispostos a discutir questões teóricas, que nos encontramos. Foi a luta que nos aproximou, traçando a linha divisória entre os que defendem os interesses da burguesia e os que assumem as aspirações do proletariado. Deste lado, ficaram vocês e ficamos nós. No entanto, cristãos e marxistas sempre foram considerados pólos antagônicos. Não haveria entre nós mais coisas em comum do que a luta pela justiça? Temos as mesmas raízes judaicas – Cristo e Marx eram judeus, tributários da historicidade de seu povo. Para o marxismo houve, no início dos tempos, uma sociedade comunista primitiva, na qual reinava a harmonia entre os homens. Para o cristianismo houve, no início dos tempos, um paraíso, no qual reinava plena harmonia entre os homens, a natureza e o Criador. Ao escolher-se em detrimento de seu próximo, o homem quebrou, pelo pecado original, a unidade genuína. Ao apropriar-se do que era comum, um grupo cindiu, pela acumulação primitiva, a sociedade em classes antagônicas. Segundo o marxismo, essa igualdade primordial só será recuperada na futura sociedade comunista, enquanto o cristianismo vislumbra a restauração da unidade paradisíaca no Reino de Deus, onde “Deus mesmo estará com seu povo” (Apoc. 21, 3). É através da história, configurada em sucessivos modos de produção, que se criam as condições de passagem do reino da necessidade para o reino da liberdade. Na história e pela história, Deus revela-se a seu povo e o convoca a construir o futuro de justiça e de liberdade. O sujeito da história, na ótica de Marx, é o oprimido, a classe mais espoliada ou – para usar uma analogia – a mais crucificada pelo sistema capitalista. Na revelação cristã, é o Crucificado quem liberta e salva. Aquele que foi mais esmagado é o mais exaltado. Todo joelho se dobra a seu nome. No entanto, o pecado impede o ser humano de realizar plenamente os desígnios de Deus. Presente nas estruturas e nas instituições, o pecado desvia o processo histórico de seu rumo libertador, e deita raízes no coração do homem, alienando-o. Do mesmo modo, para Marx, a alienação cria o descompasso entre a nossa existência e a nossa essência. Não vivemos o que somos e nem podemos ser o que gostaríamos de viver. Para nós cristãos, essa adequação entre a essência e a existência é a santidade. Sabemos pela fé certas coisas que vocês buscam pela análise dialética. A fé não nos dá a radiografia do momento histórico, mas sim o sentido último e absoluto da história: o antagonismo de classe será suprimido e todos viverão como irmãos em torno do mesmo Pai. Haverá igual partilha da comida e da bebida, como aqui na mesa eucarística. Essa dimensão transcendente a teoria marxista não alcança. Todavia, o mais importante, hoje, entre nós é amarmos os oprimidos. No dia da ressurreição Ele dirá aos que não tiveram fé: “tive fome e me destes de comer... tive sede e me destes de beber...”. Vocês indagarão: “quando foi Senhor que o vimos com fome?... com sede?...” E o Rei lhes responderá: “O que fizestes a um desses pequeninos, foi a mim mesmo que o fizestes”.”


“Há cinco dias Frei Tito escrevera a um confrade:
(...) Na cadeia, tenho descoberto o Evangelho de S. Mateus. O troço tem que ser ou pão ou pedra. Noutras palavras, acho que ele nos convida a sermos simplesmente homens. É impressionante como tantos não-cristãos aqui vivem isso até as últimas consequências. Outro dia dizia-me um jovem: “Não falei nada porque fiz uma opção e diante dela morrer ou não é secundário”. (...)
      Fui levado do Presídio Tiradentes para a Operação Bandeirantes Oban (Polícia do Exército)no dia 17 de fevereiro de 1970, terça-feira, às 14 horas. O capitão Maurício veio buscar-me em companhia de dois policiais e disse: “Você agora vai conhecer a sucursal do inferno”. Algemaram minhas mãos, jogaram-me no porta-malas da perua. No caminho as torturas tiveram inicio: cutiladas na cabeça e no pescoço, apontavam-me seus revólveres. (...)
      Preso desde novembro de 1969, eu já havia sido torturado no DOPS. Em dezembro, tive minha prisão preventiva decretada pela 2ª Auditoria de Guerra da 2ª Região Militar. Fiquei sob responsabilidade do juiz-auditor, Dr. Nelson Guimarães. Soube posteriormente que esse juiz autorizara minha ida para a Oban sob “garantias de integridade física”.
     Denunciado incontáveis vezes nos tribunais militares brasileiros, o crime de torturar jamais foi apurado ou punido. À luz da justiça sobrepõe-se, no juiz, a força do interesse. Sua estabilidade depende da confiança dos militares; qualquer suspeita significa o fim de sua carreira. Por isso, ao espanto inicial provocado pelos relatos de atrocidades, prevalece no magistrado a adequação de sua sensibilidade e consciência à tortura como método de interrogatório, ao assassinato como recurso de profilaxia política, à crueldade do poder como exigência de segurança e firmeza de autoridade. Para os torturadores, porém, o juiz não passa de um pobre coitado obrigado a dar cobertura legal aos crimes cometidos pelo Estado.
      Ao chegar à Oban, fui conduzido à sala de interrogatórios. A equipe do capitão Maurício passou a acarear-me com duas pessoas. O assunto era o congresso da UNE em Ibiúna, em outubro de 1968. Queriam que eu esclarecesse fatos ocorridos naquela época. Apesar de declarar nada saber, insistiam para que eu “confessasse”. Pouco depois me levaram para o pau-de-arara. Dependurado, nu, com mãos e pés amarrados, recebi choques elétricos, de pilha seca, nos tendões dos pés e na cabeça. Eram seis os torturadores, comandados pelo capitão Maurício. Davam-me “telefones”[tapas nos ouvidos] e berravam impropérios. Isso durou cerca de uma hora. Descansei quinze minutos ao ser retirado do pau-de-arara. O interrogatório se reiniciou. As mesmas perguntas, sob cutiladas e ameaças. Quanto mais eu negava, mais fortes as pancadas. A tortura, alternada de perguntas, prosseguiu até as vinte e duas horas. Ao sair da sala, tinha o corpo marcado por hematomas, o rosto inchado, a cabeça pesada e dolorida. Um soldado carregou-me até a cela 3, onde fiquei sozinho. Era uma cela de 3 x 2,5 mts, cheia de pulgas e de baratas. Terrível mau cheiro, sem colchão e cobertor. Dormi de barriga vazia sobre o cimento frio e sujo.
     Para certos militares, todo réu é culpado, até prova em contrário – princípio emanado da Doutrina de Segurança Nacional e infundido na cabeça de todos que, durante anos, comandaram a repressão no Brasil. Parte-se da ideia de que ninguém confessa os seus “crimes”, a menos que seja forçado a falar. E para isso só há um recurso: a tortura. A dor física, o pânico psíquico e o medo desencadeiam, no prisioneiro, o instinto de sobrevivência, sob ameaça de levá-lo a dizer ou assinar o que querem seus carrascos. Troca-se a dignidade pela preservação da vida. Nesse momento, a escolha é crucial, entre ceder à ânsia de sobreviver ou aceitar a dor e a morte por fidelidade aos princípios assumidos. (...)
      Na quarta-feira, fui acordado às oito horas. Subi para a sala de interrogatórios, onde a equipe do capitão Homero me esperava. Repetiram as mesmas perguntas do dia anterior. A cada resposta negativa eu recebia cutiladas na cabeça, nos braços e no peito. Nesse ritmo prosseguiram até o inicio da noite, quando me serviram a primeira refeição naquelas 48 horas: arroz, feijão e um pedaço de carne. Um preso, na cela ao lado da minha, ofereceu-me copo, água e cobertor. Fui dormir com a advertência do capitão Homero de que, no dia seguinte, enfrentaria a “equipe da pesada”. (...)
      Na quinta-feira, três policiais acordaram-me à mesma hora do dia anterior. De estômago vazio, fui para a sala de interrogatórios. Um capitão, cercado por sua equipe, voltou às mesmas perguntas: “Vai ter que falar senão só sai morto daqui!”, gritou. Logo vi que isso não era apenas uma ameaça, era quase uma certeza. Sentaram-me na cadeira-do-dragão, com chapas metálicas e fios, descarregaram choques nas mãos, nos pés, nos ouvidos e na cabeça. Dois fios foram amarrados em minhas mãos e um na orelha esquerda. A cada descarga, eu estremecia todo, como se o organismo fosse se decompor. Da sessão de choques passaram-me ao pau-de-arara. Mais choques, pauladas no peito e nas pernas que cada vez mais se curvavam para aliviar a dor. Uma hora depois, com o corpo todo ferido e sangrando, desmaiei. Fui desamarrado e animado. Conduziram-me a outra sala dizendo que passariam a descarga elétrica para 220 volts a fim de que eu falasse “antes de morrer”. Não chegaram a fazê-lo. Voltaram às perguntas, batiam em minhas mãos com palmatória. As mãos ficaram roxas e inchadas, a ponto de não ser possível fechá-las. Novas pauladas. Era impossível saber qual parte do corpo doía mais; tudo parecia massacrado. Mesmo que quisesse, não poderia responder às perguntas: o raciocínio não se ordenava mais, restava apenas o desejo de perder novamente os sentidos. Isso durou até as dez horas, quando chegou o capitão Albernaz. (...)
      “Nosso assunto agora é especial”, disse o capitão Albernaz ligando os fios em meus membros. “Quando venho para a Oban, deixo o coração em casa. Tenho verdadeiro pavor a padre e para matar terrorista nada me impede... Guerra é guerra, ou se mata ou se morre. Você deve conhecer fulano e sicrano (citou os nomes de dois presos políticos que foram torturados por ele). Darei a você o mesmo tratamento que dei a eles: choques o dia todo. Todo não que você disser, maior a descarga elétrica que vai receber”. Estavam três militares na sala. Um deles gritou: “quero nomes e aparelhos”. Quando respondi: “não sei”, recebi uma descarga elétrica tão forte, diretamente ligada à tomada, que houve um descontrole em minhas funções fisiológicas. O capitão Albernaz queria que eu dissesse onde estava o Frei Ratton. Como não soubesse, levei choques durante quarenta minutos. Queria os nomes de outros padres de São Paulo, Rio e Belo Horizonte “metidos na subversão”. Partiu para a ofensa moral: “quais os padres que têm amantes?”, “porque a Igreja não expulsou vocês?”, “quem são os outros padres terroristas?” Declarou que o interrogatório dos dominicanos feito pelo DOPS tinha sido “a toque de caixa” e que todos os religiosos presos iriam à Oban prestar novos depoimentos. Receberiam também o mesmo “tratamento”. Disse que “a Igreja é corrupta, pratica agiotagem, o Vaticano é dono das maiores empresas do mundo”. Diante de minhas negativas, aplicavam-me choques, davam-me socos, pontapés e pauladas nas costas. Revestidos de paramentos litúrgicos, os policiais me fizeram abrir a boca “para receber a hóstia sagrada”. Introduziram um fio elétrico. Fiquei com a boca toda inchada, sem poder falar direito. Gritavam difamações contra a Igreja, berravam que os padres são homossexuais porque não se casam. Às 14 horas, encerraram a sessão. Carregado, voltei à cela, onde fiquei estirado no chão. (...)
      Às dezoito horas serviram o jantar, mas não consegui comer. Minha boca era uma ferida só. Pouco depois levaram-me para uma “explicação”. Encontrei a mesma equipe do capitão Albernaz. Voltaram às mesmas perguntas. Repetiram as difamações. Disseram que, em vista de minha resistência à tortura, concluíram que eu era um guerrilheiro e devia estar escondendo minha participação em assaltos a bancos. O “interrogatório” se reiniciou para que eu “confessasse” os assaltos: choques, pontapés nos órgãos genitais e no estômago, palmatória, ponta de cigarro aceso em meu corpo. Durante cinco horas apanhei como um cachorro. No fim, fizeram-me passar pelo “corredor polonês”. Avisaram que aquilo era a estréia do que iria ocorrer com os outros dominicanos. Quiseram deixar-me dependurado toda a noite no pau-de-arara. Mas o capitão Albernaz objetou: “Não é preciso, vamos ficar com ele aqui mais dias. Se não falar, será quebrado por dentro, pois sabemos fazer as coisas sem deixar marcas visíveis. Se sobreviver, jamais esquecerá o preço de sua valentia”. (...)
      Na cela, eu não conseguia dormir. A dor crescia a cada momento. Sentia a cabeça dez vezes maior que o corpo. Angustiava-me a possibilidade de os outros religiosos sofrerem o mesmo. Era preciso pôr um fim àquilo. Sentia que não iria aguentar mais o sofrimento prolongado. Só havia uma solução: matar-me. (...)
     – Na cela cheia de lixo encontrei uma lata vazia. Comecei a amolar sua ponta no cimento. O preso ao lado pressentiu minha decisão e pediu que eu me acalmasse. Havia sofrido mais do que eu (teve os testículos esmagados) e não chegara ao desespero. Mas, no meu caso, tratava-se de impedir que outros viessem a ser torturados e de denunciar à opinião pública e à Igreja o que se passa nos cárceres brasileiros. Só com o sacrifício de minha vida isso seria possível, pensei. Como havia um Novo Testamento na cela, li a Paixão segundo São Mateus. O Pai havia exigido o sacrifício do Filho como prova de amor aos homens. Desmaiei envolto em dor e febre. (...)
     – Na sexta-feira, fui acordado por um policial. Havia a meu lado um novo preso: um rapaz português que chorava pelas torturas sofridas durante a madrugada. O policial advertiu-me: “O senhor tem hoje e amanhã para se decidir a falar. Senão a turma da pesada repete o mesmo pau. Já perderam a paciência e estão dispostos a matá-lo aos pouquinhos.” Voltei aos meus pensamentos da noite anterior. Nos pulsos, eu havia marcado o lugar dos cortes. Continuei amolando a lata. Ao meio-dia tiraram-me para fazer a barba. Disseram que eu iria para a penitenciária. Raspei mal a barba, voltei à cela. Passou um soldado. Pedi que me emprestasse a gilete para terminar a barba. O português dormia. Tomei a gilete, enfiei-a com força na dobra interna do cotovelo, no braço esquerdo. O corte fundo atingiu a artéria. O jato de sangue manchou o chão da cela. Aproximei-me da privada, apertei o braço para que o sangue jorrasse mais depressa. Mais tarde, recobrei os sentidos num leito do Pronto-Socorro do Hospital das Clínicas. No mesmo dia, transferiram-me para um leito do Hospital Militar. O Exército temia a repercussão, não avisaram a ninguém do que ocorrera comigo. No corredor do Hospital Militar, o capitão Maurício dizia desesperado aos médicos: “Doutor, este padre não pode morrer de jeito nenhum. Temos que fazer tudo, senão estamos perdidos.” No meu quarto, a Oban deixou seis soldados de guarda. (...)
      No sábado, teve início a tortura psicológica. “A situação agora vai piorar para você que é um padre suicida e terrorista”, diziam eles. “A Igreja vai expulsá-lo”. Não deixavam que eu repousasse. Falavam o tempo todo, jogavam, contavam-me estranhas histórias. Percebi logo que, a fim de fugirem à responsabilidade de meu ato e o justificarem, queriam que eu enlouquecesse. (...)
      Na segunda noite, recebi a visita do juiz-auditor, acompanhado de um padre do convento e de um bispo-auxiliar de São Paulo. Haviam sido avisados pelos presos políticos do Presídio Tiradentes. Um médico do hospital examinou-me à frente deles, mostrando os hematomas e as cicatrizes, os pontos recebidos no Hospital das Clinicas, as marcas de tortura. O juiz declarou que aquilo era “uma estupidez” e que iria apurar responsabilidades. Pedi a ele garantias de vida e que eu não voltasse à Oban, o que prometeu fazer. (...)
      De fato, fui bem-tratado pelos militares do Hospital Militar, exceto os da Oban que montavam guarda em meu quarto. As irmãs Vicentinas deram-me toda a assistência necessária. Mas não se cumpriu a promessa do juiz. Na sexta-feira, 27 de fevereiro de 1970, fui levado de manhã para a Oban. Fiquei numa cela até o fim da tarde, sem comer. Sentia-me tonto e fraco, pois havia perdido muito sangue e os ferimentos começavam a cicatrizar. À noite, entregaram-me de volta ao Presídio Tiradentes.


     “Seu relato de torturas, redigido na prisão, foi divulgado pela primeira vez no jornal Publik, da Alemanha, e, posteriormente, mereceu prêmio especial de reportagem da revista norte-americana Look, em 1970. Correu mundo em diversos idiomas. Em seu parágrafo final, alerta Frei Tito:
      É preciso dizer que o que ocorreu comigo não é exceção, é regra. Raros os presos políticos brasileiros que não sofreram torturas. Muitos, como Schael Schreiber e Virgílio Gomes da Silva, morreram na sala de torturas. Outros ficaram surdos, estéreis ou com outros defeitos físicos. A esperança desses presos coloca-se na Igreja, única instituição brasileira fora do controle estatal-militar. Sua missão é defender e promover a dignidade humana. Onde houver um homem sofrendo, é o Mestre que sofre. É hora de nossos bispos dizerem um BASTA às torturas e injustiças promovidas pelo regime, antes que seja tarde. A Igreja não pode omitir-se. As provas das torturas trazemos no corpo. Se a Igreja não se manifestar contra esta situação, quem o fará? Ou seria necessário que eu morresse para que alguma atitude fosse tomada? Num momento como este, o silêncio é omissão. Se falar é um risco, é muito mais um testemunho. A Igreja existe como sinal e sacramento da justiça de Deus no mundo. “Não queremos, irmãos, que ignoreis a tributação que nos sobreveio. Fomos maltratados desmedidamente, além das nossas forças, a ponto de termos perdido a esperança de sairmos com vida. Sentíamos dentro de nós mesmos a sentença de morte: deu-se isso para que saibamos pôr a nossa confiança, não em nós, mas em Deus, que ressuscita os mortos” (2 Co. 1, 8 e 9). Faço esta denúncia e este apelo a fim de que se evite amanhã a triste noticia de mais um morto pelas torturas.”



     “A violência revolucionária é necessariamente a violência de uma classe e não de uma vanguarda. A vanguarda destina-se a orientar politicamente essa violência. No Brasil, foi a vanguarda que decretou a violência revolucionária, sem orientar politicamente a classe operária. E o que aconteceu? A guerra tornou-se uma guerra de vanguardas confusas e desorientadas. Não foi a guerra do povo, mas a guerra pelo povo. Nesse sentido teve um papel eminentemente ético (a guerra é justa). Mas não teve um papel político (a guerra é correta).”