A conversão de São Paulo

A conversão de São Paulo
A conversão de São Paulo

sábado, 28 de março de 2009

Leviatã ou Matéria, Forma e Poder de um Estado Eclesiástico e Civil - Thomas Hobbes

Editora: Martin Claret
ISBN: 8572324615
Opinião: *
Páginas: 517

     “O que imaginarmos será finito. Portanto não existe qualquer ideia, ou concepção de algo que possamos denominar infinito. Nenhum homem pode ter em seu espírito uma imagem de magnitude infinita, nem conceber uma velocidade infinita, um tempo infinito, ou uma força infinita, ou um poder infinito. Quando dizemos que alguma coisa é infinita, queremos apenas dizer que não somos capazes de conceber os limites e fronteiras da coisa designada, não tendo concepção da coisa, mas de nossa própria incapacidade.”


      “Pois entre a verdadeira ciência e as doutrinas errôneas situa-se a ignorância. A sensação e a imaginação naturais não estão sujeitas a absurdos. A natureza em si não pode errar; e à medida que os homens vão adquirindo uma abundância de linguagem, vão-se tornando mais sábios ou mais loucos do que habitualmente. Nem é possível sem letras que algum homem se torne ou extraordinariamente sábio, ou extraordinariamente louco, a menos que sua memória seja atacada por doença, ou tenha deficiência na constituição dos órgãos.”


      “Contudo, aqueles que não possuem qualquer ciência encontram-se numa condição melhor e mais nobre, com sua natural prudência, do que os homens que, por raciocinarem mal ou por confiarem na incorreta razão, caem em regras gerais falsas e absurdas. Porque a ignorância das causas e das regras não afasta tanto os homens de seu caminho como a confiança em falsas regras e o fato de tomarem, como causas daquilo a que aspiram, causas que o não são, pois são causas do contrário.”


      “Do que os homens desejam se diz também que o amam, e que odeiam aquelas coisas pelas quais sentem aversão. De modo que o desejo e o amor são a mesma coisa, salvo que por desejo sempre se quer significar a ausência do objeto, e quando se fala em amor geralmente se quer indicar a presença do mesmo. Também por aversão se significa a ausência, e quando se fala de ódio pretende-se indicar a presença do objeto. (...)
     Das coisas que não desejamos nem odiamos se diz que as desprezamos. Não sendo o desprezo outra coisa senão uma imobilidade ou contumácia do coração, ao resistir à ação de certas coisas, a qual deriva do fato de o coração estar já estimulado de maneira diferente por objetos mais potentes, ou da falta de experiência com relação àquilo.”


      “O apetite, ligado à crença de conseguir, chama-se esperança.
     Sem essa crença, o apetite chama-se desespero.
     Chama-se medo a opinião ligada à crença de dano proveniente do objeto.
     Chama-se cólera a coragem súbita.
     Chama-se confiança em si mesmo a esperança constante.
     Chama-se desconfiança em si mesmo o desespero constante.
     Chama-se indignação a cólera perante um grande dano feito a outrem, quando pensamos que este foi feito por injúria.
     Chama-se benevolência, boa vontade, caridade, o desejo do bem dos outros. Se for do bem do homem em geral, chama-se bondade natural.
     Chama-se cobiça o desejo do bem dos outros, palavra que é sempre usada em tom de censura, porque os homens que lutam por elas veem com desagrado que outros as consigam; embora o desejo em si mesmo deva ser censurado ou permitido conforme a maneira como se procura conseguir essas riquezas.
     Chama-se ambição o desejo de cargos ou de preeminência, nome usado também no pior sentido, pela razão acima referida.
     Chama-se pusilanimidade o desejo de coisas que só contribuem um pouco para nossos fins e o medo das coisas que constituem apenas um pequeno impedimento.
     Chama-se magnanimidade o desprezo pelas pequenas ajudas e impedimentos.
     Chama-se coragem ou valentia a magnanimidade, em perigo de morte ou de ferimentos.
     Chama-se liberalidade a magnanimidade no uso das riquezas.
     Chama-se mesquinhez e tacanhez ou parcimônia a pusilanimidade quanto a esse mesmo uso, conforme dela se goste ou não.
     Chama-se amabilidade o amor pelas pessoas, sob o aspecto da convivência social.
     Chama-se concupiscência natural o amor pelas pessoas apenas sob o aspecto dos prazeres dos sentidos.
     Chama-se luxúria o amor pelas pessoas adquirido por reminiscência obsessiva, isto é, por imaginação do prazer passado.
     Chama-se paixão do amor o amor por uma só pessoa, junto ao desejo de ser amado com exclusividade. Chama-se ciúme o amor junto com o receio de que o amor não seja recíproco.
     Chama-se ânsia de vingança o desejo de causar dano a outrem, a fim de levá-lo a lamentar qualquer de seus atos. (...)
     Chama-se religião o medo dos poderes invisíveis, inventados pelo espírito ou imaginados a partir de relatos publicamente permitidos; quando esses não são permitidos, chama-se superstição. Quando o poder imaginado é realmente como o imaginamos, chama-se verdadeira religião.
     O medo sem se saber por que ou de que se chama terror, pânico, nome que lhe vem das fábulas que faziam de Pan seu autor. Na verdade, existe sempre em quem primeiro sente esse medo certa compreensão da causa, embora os restantes fujam devido ao exemplo, cada um supondo que seu companheiro sabe por quê. Portanto, esta paixão só ocorre numa turba ou multidão de pessoas. (...)
     Chama-se desalento a tristeza devida à convicção da falta de poder.
     Chama-se vanglória a invenção ou suposição de capacidades que se sabe não se possuir, é extremamente frequente nos jovens, e é alimentada pelas narrativas verdadeiras ou fictícias de feitos heroicos. Muitas vezes é corrigida pela idade ou pela ocupação.
     O entusiasmo súbito é a paixão que provoca aqueles trejeitos a que se chama riso. Este é provocado ou por um ato repentino de nós mesmos que nos diverte, ou pela visão de alguma coisa deformada em outra pessoa, devido à comparação com a qual subitamente nos aplaudimos a nós mesmos. Isto acontece mais com aqueles que têm consciência de menor capacidade em si mesmos, e são obrigados a reparar nas imperfeições dos outros para poderem continuar sendo a favor de si próprios. Portanto, um excesso de riso perante os defeitos dos outros é sinal de pusilanimidade. Porque o que é próprio dos grandes espíritos é ajudar os outros a evitar o escárnio, e comparar-se apenas com os mais capazes.
     O desalento súbito, pelo contrário, é a paixão que provoca o choro, o qual é provocado por aqueles acidentes que bruscamente vêm tirar uma esperança veemente, ou por um fracasso do próprio poder. Os que lhe estão mais sujeitos são os que contam sobretudo com ajudas externas, como as mulheres e as crianças. Assim, alguns choram porque perderam os amigos, outros por causa da falta de amabilidade destes últimos, e outros pela brusca paralisação de seus pensamentos de vingança, provocada pela reconciliação. Mas em todos os casos, tanto o riso como o choro são movimentos repentinos, e o hábito a ambos faz desaparecer. Pois ninguém ri de piadas velhas, nem chora por causa de uma velha calamidade.
     A vergonha é a tristeza devida à descoberta de alguma falta de capacidade, a paixão que se revela através do rubor. Consiste ela na compreensão de uma coisa desonrosa. Nos jovens é sinal de amor à boa reputação, e é louvável. Nos velhos é sinal do mesmo, mas, como já chega tarde demais, não é louvável.
     Chama-se imprudência o desprezo pela boa reputação.
     Chama-se piedade a tristeza perante a desgraça alheia, e surge do imaginar que a mesma desgraça poderia acontecer a nós mesmos. Por isso é também chamada compaixão, ou então, na expressão atualmente em voga, sentimento de companheirismo. Assim, por calamidades provocadas por uma grande maldade, os melhores homens são os que sentem menos piedade, e pela mesma calamidade, os que sentem menos piedade são os que se consideram menos sujeitos à mesma.
     Chamam crueldade o desprezo ou pouca preocupação com a desgraça alheia, que deriva da segurança da própria fortuna. Pois considero inconcebível que alguém possa tirar prazer dos grandes prejuízos alheios, sem que tenha um interesse pessoal no caso.
     Chama-se emulação a tristeza causada pelo sucesso de um competidor em riqueza, honra ou outros bens se se lhe juntar o esforço para aumentar nossas próprias capacidades, a fim de igualá-lo ou superá-lo. Chama-se inveja quando ligada ao esforço para suplantar ou levantar obstáculos ao competidor.
     Chama-se deliberação todo o conjunto de desejos, aversões, esperanças e medos, que vão se desenrolando até que a ação seja praticada, ou considerada impossível, quando surgem alternadamente no espírito humano apetites e aversões, esperanças e medos, relativamente a uma mesma coisa; quando passam sucessivamente pelo pensamento as diversas consequências boas ou más de uma ação, ou de evitar uma ação; de modo tal que às vezes se sente um apetite em relação a ela, e às vezes uma aversão; às vezes a esperança de ser capaz de praticá-la, e às vezes o desespero ou medo de empreendê-la. (...)
     Esta sucessão alternada de apetites, aversões, esperanças e medos não é maior no homem do que nas outras criaturas vivas, consequentemente os animais também deliberam.
     Diz-se então que toda deliberação chega ao fim quando aquilo sobre que se deliberava foi feito ou considerado impossível, pois até esse momento conserva-se a liberdade de fazê-lo ou evitá-lo, conformemente aos próprios apetites ou aversões.”


      “Sem firmeza e direção para um fim determinado, uma grande imaginação é uma espécie de loucura, como acontece com aqueles que, iniciando um novo discurso, se deixam desviar de seu objetivo, por qualquer coisa que lhes passe pelo pensamento, para longas digressões e parênteses, até que inteiramente se percam.”


      “As paixões que provocam de maneira mais decisiva as diferenças de talento são, principalmente, o maior ou menor desejo de poder, de riqueza, de saber e de honra. Todas as quais podem ser reduzidas à primeira, que é o desejo de poder. Porque a riqueza, o saber e a honra não são mais do que diferentes formas de poder.”


      “Universalmente considerado, o poder de um homem consiste nos meios de que presentemente dispõe para obter qualquer visível bem futuro.”


      “Os títulos de honra, como duque, conde, marquês, e barão, são honrosos, pois significam o valor que lhes é atribuído pelo poder soberano do Estado. Nos tempos antigos esses títulos correspondiam a cargos e funções de mando, sendo alguns derivados dos romanos, e outros dos germanos e franceses. Os duques, em latim duces, eram generais de guerra. Os condes, comites, eram os companheiros ou amigos do general, e era-lhes confiado o governo e a defesa dos lugares conquistados e pacificados. Os marqueses, marchiones, eram condes que governavam as marcas ou fronteiras do Império. Estes títulos de duque, conde e marquês foram introduzidos no Império, na época de Constantino, o Grande, numa adaptação dos costumes da milícia dos germanos. Mas barão parece ter sido um título dos gauleses, e significa um grande homem, como os guardas que os reis e príncipes usavam na guerra para rodear sua pessoa. (...) Com o passar do tempo estes cargos de honra, por ocasião de distúrbios ou por razões de bom e pacífico governo, foram transformados em meros títulos, servindo em sua maioria para distinguir a preeminência, lugar e ordem dos súditos no Estado, e foram nomeados duques, condes, marqueses e barões para lugares dos quais essas pessoas não tinham posse nem comando, e criaram-se também outros títulos, para o mesmo fim.”


      “E ao homem é impossível viver quando seus desejos chegam ao fim, tal como quando seus sentidos e imaginação ficam paralisados. (...)
     Assinalo assim, em primeiro lugar, como tendência geral de todos os homens, um perpétuo e irrequieto desejo de poder e mais poder, que cessa apenas com a morte. E a causa disto nem sempre é que se espere um prazer mais intenso do que aquele que já se alcançou, ou que cada um não possa contentar-se com um poder moderado, mas o fato de não se poder garantir o poder e os meios para viver bem que atualmente se possuem sem adquirir mais ainda. E daqui se segue que os reis, cujo poder é maior, se esforçam por garanti-lo no interior através de leis, e no exterior através de guerras. E depois disto feito surge um novo desejo, em alguns, de fama por uma nova conquista, em outros, de conforto e prazeres sensuais, e em outros de admiração, de serem elogiados pela excelência em alguma arte, ou outra qualidade do espírito.”


      “A competição pela riqueza, a honra, o mando e outros poderes leva à luta, à inimizade e à guerra, porque o caminho seguido pelo competidor para realizar seu desejo consiste em matar, subjugar, suplantar ou repelir o outro. (...)
     O desejo de conforto e deleite sensual predispõe os homens para a obediência ao poder comum, pois com tais desejos se abandona a proteção que poderia esperar-se do esforço e trabalho próprios. O medo da morte e dos ferimentos produz a mesma tendência, e pela mesma razão. Pelo contrário, os homens necessitados e esforçados, que não estão contentes com sua presente condição, assim como todos os homens que ambicionam a autoridade militar, têm tendência para provocar situações belicosas e para causar perturbações e revoltas, pois só na guerra há honra militar, e a única esperança de remediar um mau jogo é dar as cartas uma vez mais.”


      “Provocar em alguém um mal maior do que se pode ou se esta disposto a sofrer, faz tender para odiar quem sofreu o mal, pois só se pode esperar vingança ou perdão; e ambos são odiosos.”


      “A curiosidade, ou amor pelo conhecimento das causas, afasta o homem da contemplação do efeito para a busca da causa, e depois também da causa dessa causa, até que forçosamente deve chegar a esta ideia: que há uma causa da qual não há causa anterior, porque é eterna; que é aquilo a que os homens chamam Deus. De modo que é impossível proceder a qualquer investigação profunda das causas naturais, sem com isso nos inclinarmos para acreditar que existe um Deus eterno, embora não possamos ter em nosso espírito uma ideia dele que corresponda a sua natureza. Porque tal como um homem que tenha nascido cego, que ouça outros falarem de irem aquecer-se junto ao fogo, e seja levado a aquecer-se junto ao mesmo, pode facilmente conceber, e convencer-se, de que há ali alguma coisa a que os homens chamam fogo, e é a causa do calor que sente, mas é incapaz de imaginar como ele seja, ou de ter em seu espírito uma ideia igual à daqueles que veem o fogo; assim também, através das coisas visíveis deste mundo, e de sua ordem admirável, se pode conceber que há uma causa dessas coisas, a que os homens chamam Deus, mas sem ter uma ideia ou imagem dele no espírito.
     E aqueles que pouca ou nenhuma investigação fazem das causas naturais das coisas, todavia, devido ao medo que deriva da própria ignorância, daquilo que tem o poder de lhes ocasionar grande bem ou mal, tendem a supor, e a imaginar por si mesmos, várias espécies de poderes invisíveis, e a se encherem de admiração e respeito por suas próprias fantasias. Em épocas de desgraça tendem a invocá-las, e quando esperam um bom sucesso tendem a agradecer-lhes, transformando em seus deuses as criaturas de sua própria fantasia. E foi dessa maneira que aconteceu, devido à infinita variedade da fantasia, terem os homens criado no mundo inúmeras espécies de deuses. Este medo das coisas invisíveis é a semente natural daquilo a que cada um em si mesmo chama religião, e naqueles que veneram e temem esse poder de maneira diferente da sua, superstição.
     E tendo esta semente da religião sido observada por muitos, alguns dos que a observaram tenderam a alimentá-la, revesti-la e conformá-la às leis, e a acrescentar-lhe, de sua própria invenção, qualquer opinião sobre as causas dos eventos futuros que melhor parecesse capaz de lhes permitir governar os outros, fazendo o máximo uso possível de seus poderes.”


     “Quanto àquela parte da religião que consiste nas opiniões relativas à natureza dos poderes invisíveis, quase nada há com um nome que não tenha sido considerado entre os gentios, em um ou outro lugar, como um deus ou um demônio, ou imaginado pelos poetas como animado, habitado ou possuído por um ou outro espírito.
     A matéria informe do mundo era um deus com o nome de Caos.
     O céu, o oceano, os planetas, o fogo, a terra, os ventos, eram outros tantos deuses.
     Os homens, as mulheres, um pássaro, um crocodilo, uma vaca, um cão, uma cobra, uma cebola, um alho-porro, todos foram divinizados. Além disso, encheram quase todos os lugares com espíritos chamados daemons. As planícies, com Pan, e panises, ou sátiros; os bosques, com faunos e ninfas; o mar, com tritões e outras ninfas; cada rio e cada fonte, com um fantasma do mesmo nome, e com ninfas; cada casa com seus lares ou familiares; cada homem com seu gênio; o inferno, com fantasmas e acólitos espirituais como Caronte, Cérbero e as Fúrias; e de noite todos os lugares com larvas, lêmures, fantasmas de homens falecidos, e todo um reino de fadas e duendes. Também atribuíram divindade e dedicaram templos a meros acidentes e qualidades, como o tempo, a noite, o dia, a paz, a concórdia, o amor, o ódio, a virtude, a honra, a saúde, a corrupção, a febre, e outros semelhantes. E em suas preces, a favor ou contra, a eles oravam, como se houvesse fantasmas com esses nomes pairando sobre suas cabeças, os quais deixariam cair, ou impediriam de cair, aquele bem ou mal a favor do qual, ou contra o qual oravam. Invocavam também seu próprio engenho, sob o nome de Musas; sua própria ignorância, sob o nome de Fortuna; seu próprio desejo sob o nome de Cupido; sua própria raiva sob o nome de Fúrias; seu próprio membro viril sob o nome de Príapo; atribuíam suas ejaculações a Íncubos e Súcubos; de modo tal que nada que um poeta pudesse introduzir como pessoa em seu poema deixavam de fazer um deus, ou um demônio.
     Os mesmos autores da religião dos gentios, observando o segundo fundamento da religião, que é a ignorância que os homens têm das causas, e consequentemente sua tendência para atribuir sua sorte a causas das quais ela em nada aparenta depender, aproveitaram para impor à sua ignorância, em vez das causas secundárias, uma espécie de deuses secundários e ministeriais, atribuindo a causa da fecundidade a Vênus, a causa das artes a Apolo, a da sutileza e sagacidade a Mercúrio, a das tormentas e tempestades a Éolo, e as de outros efeitos a outros deuses. De modo tal que havia entre os pagãos quase tão grande variedade de deuses como de atividades.
     As formas de veneração que os homens naturalmente consideravam próprias para oferecer aos seus deuses, tais como sacrifícios, orações e ações de graças, além das acima referidas, os mesmos legisladores dos gentios acrescentaram suas imagens, tanto em pintura como em escultura. A fim de que os mais ignorantes (quer isto dizer, a maior parte, ou a generalidade do povo), pensando que os deuses em cuja representação tais imagens eram feitas nelas realmente estavam incluídos, como se nelas estivessem alojados, pudessem sentir perante elas ainda mais medo. E dotaram-nos com terras e casas, funcionários e rendas, separadas de todos os outros usos humanos, isto é, santificadas e consagradas a esses seus ídolos; tais como cavernas, grutas, bosques e montanhas, e também ilhas inteiras; e atribuíram-lhes, não apenas as formas, umas de homens, outras de animais, e outras de monstros, mas também as faculdades e paixões de homens e animais, como a sensação, a linguagem, o sexo, o desejo, a geração (e isto não apenas misturando-se uns com os outros, para propagar a raça dos deuses, mas misturando-se também com os homens e as mulheres, produzindo deuses híbridos, e simples moradores dos céus, como Baco, Hércules e outros); e além dessas também o ódio e a vingança, e outras paixões das criaturas vivas, assim como as ações delas derivadas, como a fraude, o roubo, o adultério, a sodomia, e todo e qualquer vício que possa ser tomado como efeito do poder, e causa do prazer; e todos aqueles vícios que entre os homens são considerados mais como contrários à lei do que contrários à honra.
     E por último, aos prognósticos dos tempos vindouros, que naturalmente não passam de conjeturas baseadas na experiência dos tempos passados, e sobrenaturalmente não são mais do que revelação divina, os mesmos autores da religião dos gentios, baseando-se em parte numa pretensa experiência, e em parte numa pretensa revelação, acrescentaram inúmeras outras supersticiosas maneiras de adivinhação. E fizeram os homens acreditar que descobririam sua sorte, às vezes nas respostas ambíguas ou destituídas de sentido dos sacerdotes de Delfos, Delos, e Amon, e outros famosos oráculos, respostas que eram propositadamente ambíguas, para dar conta do evento de ambas as maneiras, ou absurdas, pelas intoxicantes emanações do lugar, o que é muito frequente em cavernas sulfurosas. Às vezes nas folhas das sibilas, sobre cujas profecias (como talvez as de Nostradamus, pois os fragmentos atualmente existentes parecem ser invenção de uma época posterior) havia alguns livros que gozavam de grande reputação no tempo da República Romana. Às vezes nos insignificantes discursos de loucos, supostamente possuídos por um espírito divino, ao que chamavam entusiasmo, e a estas maneiras de predizer acontecimentos se chamava teomancia ou profecia. Às vezes no aspecto apresentado pelas estrelas ao nascer, o que se chamava horoscopia, e era considerado parte da astrologia judicial. Às vezes em suas próprias esperanças e temores, o que se chamava tumomancia ou presságio. Às vezes nas predições dos bruxos, que pretendiam comunicar-se com os mortos, o que se chama necromancia, esconjuro e feitiçaria, e não passa de um misto de impostura e fraude. Às vezes no vôo ou forma de se alimentar casual das aves, o que se chamava augúrio. Às vezes nas entranhas de um animal sacrificado, o que se chamava aruspicina. Às vezes nos sonhos. Às vezes no crocitar dos corvos ou no canto dos pássaros. Às vezes nas linhas do rosto, o que se chamava metoposcopia, ou pela palmistria nas linhas da mão, ou em palavras casuais, o que se chamava omina. Às vezes em monstros ou acidentes invulgares, como eclipses, cometas, meteoros raros, terremotos, inundações, nascimentos prematuros e coisas semelhantes, a que chamavam portento e ostenta, porque pensavam que eles prediziam ou pressagiavam alguma grande calamidade futura. Às vezes no simples acaso, como no jogo de cara ou coroa, ou na contagem do número de orifícios de um crivo, ou no jogo de escolher versos de Homero e Virgílio, e em inúmeras outras vãs invenções do gênero. Tão fácil é os homens serem levados a acreditar em a qualquer coisa por aqueles que gozam de crédito junto deles, que podem com cuidado e destreza tirar partido de seu medo e ignorância.
     Portanto os primeiros fundadores e legisladores de Estados entre os gentios, cujo objetivo era apenas manter o povo em obediência e paz, em todos os lugares tiveram os seguintes cuidados. Primeiro, o de incutir em suas mentes a crença de que os preceitos que ditavam a respeito da religião não deviam ser considerados como provenientes de sua própria invenção, mas como os ditames de algum deus, ou outro espírito, ou então de que eles próprios eram de natureza superior à dos simples mortais, a fim de que suas leis fossem mais facilmente aceites. Assim, Numa Pompílio pretendia ter recebido da ninfa Egéria as cerimônias que instituiu entre os romanos; o primeiro rei e fundador do reino do Peru pretendia que ele e sua esposa eram filhos do Sol; e Maomé, para estabelecer sua nova religião, pretendia falar com o Espírito Santo, sob a forma de uma pomba. Em segundo lugar, tiveram o cuidado de fazer acreditar que aos deuses desagradavam as mesmas coisas que eram proibidas pelas leis. Em terceiro lugar, o de prescrever cerimônias, suplicações, sacrifícios e festivais, os quais se devia acreditar capazes de aplacar a ira dos deuses. Assim, como que da ira dos deuses resultava o insucesso na guerra, grandes doenças contagiosas, terremotos, e a desgraça de cada indivíduo; e que essa ira provinha da falta de cuidado com sua veneração, e do esquecimento ou do equívoco em qualquer aspecto das cerimônias exigidas. E, embora entre os antigos romanos não fosse proibido negar aquilo que nos poetas esta escrito sobre os sofrimentos e os prazeres depois desta vida, que foram abertamente satirizados por vários indivíduos de grande autoridade e peso nesse Estado, apesar disso, essa crença sempre foi mais aceita do que rejeitada.
     E através destas e outras instituições semelhantes conseguiam, a serviço de seu objetivo (que era a paz do Estado), que o vulgo, em ocasiões de desgraça, atribuísse a culpa à falta de cuidado, ou ao cometimento de erros, em suas cerimônias, ou à sua própria desobediência às leis, tornando-se assim menos capaz de rebelar-se contra seus governantes.”


      “A natureza fez os homens tão iguais, quanto às faculdades do corpo e do espírito que, embora por vezes se encontre um homem manifestamente mais forte de corpo, ou de espírito mais vivo do que outro, mesmo assim, quando se considera tudo isto em conjunto, a diferença entre um e outro homem não é suficientemente considerável para que qualquer um possa com base nela reclamar qualquer benefício a que outro não possa também aspirar, tal como ele.”


      “Pois a natureza dos homens é tal que, embora sejam capazes de reconhecer em muitos outros maior inteligência, maior eloquência ou maior saber, dificilmente acreditam que haja muitos tão sábios como eles próprios; porque veem sua própria sabedoria bem de perto, e a dos outros homens à distância. Mas isto prova que os homens são iguais quanto a esse ponto, e não que sejam desiguais.
     Pois geralmente não há sinal mais claro de uma distribuição equitativa de alguma coisa do que o fato de todos estarem contentes com a parte que lhes coube. Desta igualdade quanto à capacidade deriva a igualdade quanto à esperança de atingirmos nossos fins.
     Portanto se dois homens desejam a mesma coisa, ao mesmo tempo que é impossível ela ser gozada por ambos, eles tornam-se inimigos. E no caminho para seu fim (que é principalmente sua própria conservação, e às rezes apenas seu deleite) esforçam-se por se destruir ou subjugar um ao outro e disto se segue que, quando um invasor nada mais tem a recear do que o poder de um único outro homem, se alguém planta, semeia, constrói ou possui um lugar conveniente, é provavelmente de esperar que outros venham preparados com forças conjugadas, para desapossá-lo e privá-lo, não apenas do fruto de seu trabalho; mas também de sua vida e de sua liberdade. Por sua vez, o invasor ficará no mesmo perigo em relação aos outros.
     Contra esta desconfiança de uns em relação aos outros, nenhuma maneira de se garantir é tão razoável como a antecipação; isto é, pela força ou pela astúcia, subjugar as pessoas de todos os homens que puder, durante o tempo necessário para chegar ao momento em que não veja qualquer outro poder suficientemente grande para ameaçá-lo. E isto não é mais do que sua própria conservação exige, conforme é geralmente admitido. Também por causa de alguns que, comprazendo-se em contemplar seu próprio poder nos atos de conquista, levam estes atos mais longe do que sua segurança exige, se outros que, do contrário, se contentariam em manter-se tranquilamente dentro de modestos limites, não aumentarem seu poder por meio de invasões, eles serão incapazes de subsistir durante muito tempo, se se limitarem apenas a uma atitude de defesa. Esse aumento do domínio sobre os homens, sendo necessário para a conservação de cada um, deve ser por todos admitido, obviamente.”


      “Na natureza do homem encontramos três causas principais de discórdia. Primeiro, a competição; segundo, a desconfiança; e terceiro, a glória. A primeira leva os homens a atacar os outros tendo em vista o lucro; a segunda, a segurança; e a terceira, a reputação. Os primeiros usam a violência para se tornarem senhores das pessoas, mulheres, filhos e rebanhos dos outros homens; os segundos, para defendê-los; e os terceiros por ninharias, como uma palavra, um sorriso, uma diferença de opinião, e qualquer outro sinal de desprezo, quer seja diretamente dirigido a suas pessoas, quer indiretamente a seus parentes, seus amigos, sua nação, sua profissão ou seu nome.
     Com isto se torna manifesto que, durante o tempo em que os homens vivem sem um poder comum capaz de os manter a todos em respeito, eles se encontram naquela condição a que se chama guerra; e uma guerra que é de todos os homens contra todos os homens. Pois a guerra não consiste apenas na batalha, ou no ato de lutar, mas naquele lapso de tempo durante o qual a vontade de travar batalha é suficientemente conhecida. Portanto a noção de tempo deve ser levada em conta quanto à natureza da guerra, do mesmo modo que quanto à natureza do clima. Porque tal como a natureza do mau tempo não consiste em dois ou três chuviscos, mas numa tendência para chover que dura vários dias seguidos, assim também a natureza da guerra não consiste na luta real, mas na conhecida disposição para tal, durante todo o tempo em que não há garantia do contrário. Todo o tempo restante é de paz.
     Portanto tudo aquilo que é válido para um tempo de guerra, em que todo homem é inimigo de todo homem, o mesmo é válido também para o tempo durante o qual os homens vivem sem outra segurança senão a que lhes pode ser oferecida por sua própria força e sua própria invenção. Numa tal situação não há lugar para a indústria, pois seu fruto é incerto; consequentemente não há cultivo da terra, nem navegação, nem uso das mercadorias que podem ser importadas pelo mar; não há construções confortáveis, nem instrumentos para mover e remover as coisas que precisam de grande força; não há conhecimento da face da Terra, nem cômputo do tempo, nem artes, nem letras; não há sociedade; e o que é pior do que tudo, um constante temor e perigo de morte violenta. E a vida do homem é solitária, pobre, sórdida, embrutecida e curta.”


      “O direito de natureza, a que os autores geralmente chamam jus naturale, é a liberdade que cada homem possui de usar seu próprio poder, da maneira que quiser, para a preservação de sua própria natureza, ou seja, de sua vida; e consequentemente de fazer tudo aquilo que seu próprio julgamento e razão lhe indiquem como meios adequados a esse fim.
     Por liberdade entende-se, conforme a significação própria da palavra, a ausência de impedimentos externos, impedimentos que muitas vezes tiram parte do poder que cada um tem de fazer o que quer, mas não podem obstar a que use o poder que lhe resta, conforme o que seu julgamento e razão lhe ditarem.”


      “Dado que a condição do homem (conforme foi declarado no capítulo anterior) é uma condição de guerra de todos contra todos, sendo neste caso cada um governado por sua própria razão, e não havendo nada, de que possa lançar mão, que não possa servir-lhe de ajuda para a preservação de sua vida contra seus inimigos, segue-se daqui que numa tal condição todo homem tem direito a todas as coisas, incluindo os corpos dos outros. Portanto, enquanto perdurar este direito de cada homem a todas as coisas, não poderá haver para nenhum homem (por mais forte e sábio que seja) a segurança de viver todo o tempo que geralmente a natureza permite aos homens viver. Consequentemente é um preceito ou regra geral da razão, que todo homem deve esforçar-se pela paz, na medida em que tenha esperança de consegui-la, e caso não a consiga pode procurar e usar todas as ajudas e vantagens da guerra. A primeira parte desta regra encerra a lei primeira e fundamental de natureza, isto é, procurar a paz, e segui-la. A segunda encerra a suma do direito de natureza, isto é, por todos os meios que pudermos, defendermo-nos a nós mesmos.
     Desta lei fundamental de natureza, mediante a qual se ordena a todos os homens que procurem a paz, deriva esta segunda lei: Que um homem concorde, quando outros também o façam, e na medida em que tal considere necessário para a paz e para a defesa de si mesmo, em renunciar a seu direito a todas as coisas, contentando-se, em relação aos outros homens, com a mesma liberdade que aos outros homens permite em relação a si mesmo. Porque enquanto cada homem detiver seu direito de fazer tudo quanto queira, todos os homens se encontrarão numa condição de guerra. Mas se os outros homens não renunciarem a seu direito, assim como ele próprio, nesse caso não há razão para que alguém se prive do seu, pois isso equivaleria a oferecer-se como presa (coisa a que ninguém é obrigado), e não a dispor-se para a paz. É esta a lei do Evangelho: Faz aos outros o que queres que te façam a ti. E esta é a lei de todos os homens: Quod tibi jïeri non vis, alteri ne feceris.”


      “Vivendo num Estado, se eu me vir forçado a livrar-me de um ladrão prometendo-lhe dinheiro, sou obrigado a pagá-lo, a não ser que a lei civil disso me dispense. Porque tudo o que posso fazer legitimamente sem obrigação posso também compactuar legitimamente por medo, e o que eu compactuar legitimamente não posso legitimamente romper.”


      “Porque o testemunho de um tal acusador, se não for prestado voluntariamente, deve considerar-se corrompido pela natureza, e portanto não deve ser aceito; e quando o testemunho de um homem não vai receber crédito, ele não é obrigado a prestá-lo. Também as acusações arrancadas pela tortura não devem ser aceitas como testemunhos. Porque a tortura é para ser usada como meio de conjetura, de esclarecimento num exame posterior e de busca da verdade; e o que nesse caso é confessado contribui para aliviar quem é torturado, não para informar os torturadores. Portanto não deve ser aceito como testemunho suficiente porque, quer o torturado se liberte graças a uma verdadeira ou a uma falsa acusação, o fará pelo direito de preservar sua vida.”


      “Nesta lei de natureza reside a fonte e a origem da justiça. Porque sem um pacto anterior não há transferência de direito, e todo homem tem direito a todas as coisas, consequentemente, nenhuma ação pode ser injusta. Mas, depois de celebrado um pacto, rompê-lo é injusto. E a definição da injustiça não é outra senão o não cumprimento de um pacto. E tudo o que não é injusto é justo.
     Ora, como os pactos de confiança mútua são inválidos sempre que de qualquer dos lados existe receio de não cumprimento, embora a origem da justiça seja a celebração dos pactos, não pode haver realmente injustiça antes de ser removida a causa desse medo; o que não pode ser feito enquanto os homens se encontram na condição natural de guerra. Portanto, para que as palavras justo e injusto possam ter lugar, é necessária alguma espécie de poder coercitivo, capaz de obrigar igualmente os homens ao cumprimento de seus pactos, mediante o terror de algum castigo que seja superior ao beneficio que esperam tirar do rompimento do pacto, e capaz de fortalecer aquela propriedade que os homens adquirem por contrato mútuo, como recompensa do direito universal a que renunciaram. E não pode haver tal poder antes de erigir-se um Estado. O mesmo pode deduzir-se também da definição comum da justiça nas Escolas, pois nelas se diz que a justiça é a vontade constante de dar a cada um o que é seu. Portanto, onde não há o seu, isto é, não há propriedade, não pode haver injustiça. E onde não foi estabelecido um poder coercitivo, isto é, onde não há Estado, não há propriedade, pois todos os homens têm direito a todas as coisas. Portanto, onde não há Estado nada pode ser injusto. De modo que a natureza da justiça consiste no cumprimento dos pactos válidos, mas a validade dos pactos só começa com a instituição de um poder civil suficiente para obrigar os homens a cumpri-los, e é também só aí que começa a haver propriedade.”


      “Portanto quem declarar que considera razoável enganar aos que o ajudam não pode razoavelmente esperar outros meios de salvação senão os que dependem de seu próprio poder. Portanto quem quebra seu pacto, e ao mesmo tempo declara que pode fazê-lo de acordo com a razão, não pode ser aceito por qualquer sociedade que se constitua em vista da paz e da defesa, a não ser devido a um erro dos que o aceitam. E se for aceito não se pode continuar a admiti-lo, quando se vê o perigo desse erro; e não seria razoável esse homem contar com esses erros como garantia de sua segurança. Portanto alguém que seja deixado fora ou expulso de uma sociedade esta condenado a perecer, e se viver nessa sociedade será graças aos erros dos outros homens, os quais ele não podia prever e com os quais não podia contar, portanto, contra a razão de sua preservação. Assim, todos os homens que não contribuem para sua destruição fazem-no apenas por ignorância do que a eles próprios beneficia.”


      “Ainda há outros que, embora reconhecendo o cumprimento da palavra dada como uma lei de natureza, não obstante abrem exceção para certas pessoas, tais como os hereges e todos aqueles que não têm como costume o cumprimento de seus pactos; e também isto é contra a razão. Pois se qualquer defeito de um homem for suficiente para dispensá-lo do cumprimento de um pacto, o mesmo deveria ter sido, perante a razão, suficiente para tê-lo impedido de celebrá-lo.”


     “A justiça das ações não faz com que aos homens se chamem justos, e sim inocentes; e a injustiça das mesmas (também chamada injúria) faz-lhes atribuir apenas o nome de culpados.”


      “O mesmo se passa no Estado: os homens podem perdoar uns aos outros suas dívidas, mas não os roubos ou outras violências que lhes causem dano. Porque não pagar uma dívida é uma injúria feita a eles mesmos, ao passo que o roubo e a violência são injúrias feitas à pessoa do Estado.”
(por questões de espaço não é possível inserir todo o trecho, mas atentar para todo o capítulo XV, a partir do parágrafo acima)


      “O fim último, causa final e desígnio dos homens (que amam naturalmente a liberdade e o domínio sobre os outros), introduzindo restrições a si mesmos, conforme os vemos viver nos Estados, é o cuidado com sua própria conservação e com uma vida mais satisfeita. Quer dizer, o desejo de sair daquela mísera condição de guerra que é a consequência necessária (conforme se mostrou) das paixões naturais dos homens, quando não há um poder visível capaz de os manter em respeito, forçando-os, por medo do castigo, ao cumprimento de seus pactos e ao respeito àquelas leis de natureza que foram expostas nos capítulos décimo quarto e décimo quinto.
     Porque as leis de natureza (como a justiça, a equidade, a modéstia, a piedade, ou, em resumo, fazer aos outros o que queremos que nos façam) por si mesmas, na ausência do temor de algum poder capaz de levá-las a ser respeitadas, são contrárias a nossas paixões naturais, as quais nos fazem tender para a parcialidade, o orgulho, a vingança e coisas semelhantes. E os pactos sem a espada não passam de palavras, sem força para dar qualquer segurança a ninguém. Portanto, apesar das leis de natureza (que cada um respeita quando tem vontade de respeitá-las e quando pode fazê-lo com segurança), se não for instituído um poder suficientemente grande para nossa segurança, cada um confiará, e poderá legitimamente confiar, apenas em sua própria força e capacidade, como proteção contra todos os outros.”


      “Mesmo que haja uma grande multidão, se as ações de cada um dos que a compõem forem determinadas segundo o juízo individual e os apetites individuais de cada um, não poderá esperar-se que ela seja capaz de dar defesa e proteção a ninguém, seja contra o inimigo comum, seja contra as injúrias feitas uns aos outros. Porque divergindo em opinião quanto ao melhor uso e aplicação de sua força, em vez de se ajudarem, só se atrapalham uns aos outros, e devido a essa oposição mútua reduzem a nada sua força. E devido a tal não apenas facilmente serão subjugados por um pequeno número que se haja posto de acordo, mas, além disso, mesmo sem haver inimigo comum, facilmente farão guerra uns aos outros, por causa de seus interesses particulares. Pois se fosse lícito supor uma grande multidão capaz de consentir na observância da justiça e das outras leis da natureza, sem um poder comum que mantivesse a todos em respeito, igualmente o seria supor a humanidade inteira capaz do mesmo. Nesse caso não haveria, nem seria necessário, qualquer governo civil, ou qualquer Estado, pois haveria paz sem sujeição.”


      “É certo que há algumas criaturas vivas, como as abelhas e as formigas, que vivem sociavelmente umas com as outras (e por isso são contadas por Aristóteles entre as criaturas políticas), sem outra direção senão seus juízos e apetites particulares, nem linguagem através da qual possam indicar umas às outras o que consideram adequado para o beneficio comum. Assim, talvez haja alguém interessado em saber por que a humanidade não pode fazer o mesmo. Ao que tenho a responder o seguinte.
     Primeiro, que os homens estão constantemente envolvidos numa competição pela honra e pela dignidade, o que não ocorre no caso dessas criaturas. E é devido a isso que surgem entre os homens a inveja e o ódio, e finalmente a guerra, ao passo que entre aquelas criaturas tal não acontece.
     Segundo, que entre essas criaturas não há diferença entre o bem comum e o bem individual e, dado que por natureza tendem para o bem individual, acabam por promover o bem comum. Mas o homem só encontra felicidade na comparação com os outros homens, e só pode tirar prazer do que é eminente.
     Terceiro, que, como essas criaturas não possuem (ao contrário do homem) o uso da razão, elas não veem nem julgam ver qualquer erro na administração de sua existência comum. Ao passo que entre os homens são em grande número os que se julgam mais sábios, e mais capacitados que os outros para o exercício do poder público. E esses se esforçam por empreender reformas e inovações, uns de uma maneira e outros de outra, acabando assim por levar o país à desordem e à guerra civil.
     Quarto, que essas criaturas, embora sejam capazes de certo uso da voz, para dar a conhecer umas às outras seus desejos e outras afecções, apesar disso, carecem daquela arte das palavras mediante a qual alguns homens são capazes de apresentar aos outros o que é bom sob a aparência do mal, e o que é mau sob a aparência do bem; ou então aumentando ou diminuindo a importância visível do bem ou do mal, semeando o descontentamento entre os homens e perturbando a seu bel-prazer a paz em que os outros vivem.
     Quinto, as criaturas irracionais são incapazes de distinguir entre injúria e dano, e consequentemente basta que estejam satisfeitas para nunca se ofenderem com seus semelhantes. Ao passo que o homem é tanto mais implicativo quanto mais satisfeito se sente, pois é neste caso que tende mais para exibir sua sabedoria e para controlar as ações dos que governam o Estado.
     Por último, o acordo vigente entre essas criaturas é natural, ao passo que o dos homens surge apenas através de um pacto, isto é, artificialmente. Portanto não é de admirar que seja necessária alguma coisa mais, além de um pacto, para tornar constante e duradouro seu acordo: ou seja, um poder comum que os mantenha em respeito, e que dirija suas ações no sentido do beneficio comum.
     A única maneira de constituir um poder comum, capaz de defender a comunidade das invasões dos estrangeiros e das injúrias uns dos outros, garantindo-lhes assim uma segurança suficiente para que, mediante seu próprio labor e graças aos frutos da terra, possam alimentar-se e viver satisfeitos, é conferir toda sua força e poder a um homem, ou a uma assembleia de homens, que possa reduzir suas diversas vontades, por pluralidade de votos, a uma só vontade. O que equivale a dizer: designar um homem ou uma assembleia de homens como representante de suas pessoas, considerando-se e reconhecendo-se cada um como autor de todos os atos que aquele que representa sua pessoa praticar ou vier a realizar, em tudo o que disser respeito à paz e segurança comuns. Todos submetendo assim suas vontades à vontade do representante, e suas decisões a sua decisão. Isto é mais do que consentimento, ou concórdia, é uma verdadeira unidade de todos eles, numa só e mesma pessoa, realizada por um pacto de cada homem com todos os homens, de um modo que é como se cada homem dissesse a cada homem: cedo e transfiro meu direito de governar-me a mim mesmo a este homem, ou a esta assembleia de homens, com a condição de transferires a ele teu direito, autorizando de maneira semelhante todas as suas ações. Feito isto, à multidão assim unida numa só pessoa se chama Estado, em latim civitas.
     Esta é a geração daquele enorme Leviatã, ou antes (para falar em termos mais reverentes) daquele Deus Mortal, ao qual devemos, abaixo do Deus Imortal, nossa paz e defesa. Pois graças a esta autoridade que lhe é dada por cada indivíduo no Estado, é-lhe conferido o uso de tamanho poder e força que o terror assim inspirado o torna capaz de conformar as vontades de todos eles, no sentido da paz em seu próprio país, e da ajuda mútua contra os inimigos estrangeiros.
     É nele que consiste a essência do estado, a qual pode ser assim definida: “Uma grande multidão institui a uma pessoa, mediante pactos recíprocos uns com os outros, para em nome de cada um como autora, poder usar a força e os recursos de todos, da maneira que considerar conveniente, para assegurara paz e a defesa comum.
     Soberano é aquele que representa essa pessoa. Dele se diz que possui poder soberano. Todos os restantes são súditos.
     O poder soberano pode ser adquirido de duas maneiras. Uma delas é a força natural, como quando um homem obriga seus filhos a submeterem-se, e a submeterem seus próprios filhos, a sua autoridade, na medida em que é capaz de destruí-los em caso de recusa. Ou como quando um homem sujeita através da guerra seus inimigos a sua vontade, concedendo-lhes a vida com essa condição. A outra é quando os homens concordam entre si em submeterem-se a um homem, ou a uma assembleia de homens, voluntariamente, com a esperança de serem protegidos por ele contra todos os outros. Este último pode ser chamado um Estado Político, ou um Estado por instituição. Ao primeiro pode chamar-se um Estado por aquisição.”


      “O detentor do poder soberano não pode justamente ser morto, nem de qualquer outra maneira pode ser punido por seus súditos.”


      “Isso sem levar em conta que a condição do homem nunca pode deixar de ter uma ou outra incomodidade, e que a maior que é possível cair sobre o povo em geral, em qualquer forma de governo, é de pouca monta quando comparada com as misérias e horríveis calamidades que acompanham a guerra civil, ou aquela condição dissoluta de homens sem senhor, sem sujeição às leis e a um poder coercitivo capaz de atar suas mãos, impedindo a rapina e a vingança. E também sem levar em conta que o que mais impulsiona os soberanos governantes não é qualquer prazer ou vantagem que esperem recolher do prejuízo ou debilitamento causado a seus súditos, em cujo vigor consiste sua própria força e glória, e sim a obstinação daqueles que, contribuindo de má vontade para sua própria defesa, tornam necessário que seus governantes deles arranquem tudo o que podem em tempo de paz, a fim de obterem os meios para resistir ou vencer a seus inimigos, em qualquer emergência ou súbita necessidade. Porque todos os homens são dotados por natureza de grandes lentes de aumento (ou seja, as paixões e o amor de si), através das quais todo pequeno pagamento aparece como um imenso fardo; mas são destituídos daquelas lentes prospectivas (a saber, a ciência moral e civil) que permitem ver de longe as misérias que os ameaçam, e que sem tais pagamentos não podem ser evitadas.”


      “Quem quer que considere demasiado grande o poder soberano, procurará fazer que ele se torne menor, e para tal precisará submeter-se a um poder capaz de limitá-lo. Isto é, a um poder ainda maior.”


      “Assim, nunca um grande Estado popular se conservou, a não ser graças a um inimigo exterior que uniu seu povo, ou graças à reputação de algum homem eminente em seu seio, ou ao conselho secreto de uns poucos, ou ao medo recíproco de duas facções equivalentes, mas nunca graças à consulta aberta da assembleia. Quanto aos Estados muito pequenos, sejam eles populares ou monárquicos, não há sabedoria humana capaz de conservá-los para além do que durar a rivalidade entre seus poderosos vizinhos.”


      “Os milagres são feitos maravilhosos, mas o que é maravilhoso para um pode não sê-lo para outro. A santidade pode ser fingida, e os sucessos visíveis deste mundo são as mais das vezes obra de Deus através de causas naturais e vulgares. Portanto ninguém pode infalivelmente saber pela razão natural que alguém recebeu uma revelação sobrenatural da vontade de Deus. Pode, quando muito, ter uma crença e, conforme seus sinais pareçam maiores ou menores, ser uma crença mais firme ou uma crença mais frágil.”


      “Algum defeito de entendimento, algum erro de raciocínio ou alguma brusca força das paixões é a fonte de todo crime. O defeito de entendimento é ignorância, e o de raciocínio é opinião errônea.”


      “Aqueles que enganam com a esperança de não serem descobertos, geralmente se enganam a si mesmos (as trevas em que pensam estar escondidos não são mais do que sua própria cegueira), e não são mais sábios do que as crianças que pensam esconder-se quando tapam seus próprios olhos.”


      “Poucos são os crimes que não podem ser resultado da ira.”


      “Expus até aqui a natureza do homem (cujo orgulho e outras paixões o obrigaram a submeter-se ao governo), juntamente com o grande poder de seu governante, ao qual comparei com o Leviatã, tirando essa comparação dos dois últimos versículos do capítulo 41 de Jó, onde Deus, após ter estabelecido o grande poder do Leviatã, lhe chamou Rei dos Soberbos. “Não há nada na Terra”, disse ele, “que se lhe possa comparar. Ele é feito de maneira a nunca ter medo. Ele vê todas as coisas abaixo dele, e é o Rei de todos os Filhos da Soberba.”


      “Não existe nesta vida nenhuma ação do homem que não seja o começo de uma cadeia de consequências tão longa que nenhuma providência humana é suficientemente alta para dar ao homem uma ideia do final. E nesta cadeia estão ligados acontecimentos agradáveis e desagradáveis, de tal maneira que quem quiser fazer alguma coisa para seu prazer tem de aceitar sofrer todas as dores a ele ligadas. Dores estas que são as punições naturais daquelas ações que são o início de um mal maior que o bem. E daqui resulta que a intemperança é naturalmente castigada com doenças, a precipitação com desastres, a injustiça com a violência dos inimigos, o orgulho com a ruína, a covardia com a opressão, o governo negligente dos príncipes com a rebelião, e a rebelião com a carnificina.”


      “Quanto a quem foram os autores originais dos vários livros das Sagradas Escrituras, é coisa que não foi tornada evidente por qualquer suficiente testemunho ou outra história (que é a única prova em matéria de fato), nem pode sê-lo por quaisquer argumentos da razão natural, pois a razão não serve para convencer da verdade dos fatos, mas apenas da verdade das consequências.”


      “E consequentemente que é agora legítimo o soberano punir alguém que oponha o espírito particular às leis, pois o rei ocupa o mesmo lugar no Estado que Abraão ocupava em sua própria família.
     Do mesmo deriva também um terceiro ponto: que assim como ninguém, exceto Abraão em sua família, também ninguém exceto o soberano num Estado cristão pode conhecer o que é, ou o que não é a palavra de Deus. Pois Deus falou apenas a Abraão e só ele podia saber o que Deus disse e interpretar isso para a família. E, portanto, também aqueles que ocupam o lugar de Abraão num Estado são os únicos intérpretes daquilo que Deus falou.”


      “Mas aqui alguém poderá perguntar se nesse tempo os pastores eram obrigados a viver de contribuições voluntárias, como de esmolas. Pois quem (disse São Paulo, 1 Cor 9,7) vai para a guerra à sua própria custa? Quem alimenta o rebanho, e não bebe o leite do rebanho? E também, “Não sabeis que os que ministram sobre coisas sagradas vivem das coisas do templo, e que os que ajudam no altar partilham do altar?”. Quer dizer, recebem parte do que é oferecido no altar, para seu sustento. E conclui então: “E assim o Senhor determinou que os que pregam o Evangelho vivam do Evangelho”. Desta passagem pode sem dúvida inferir-se que os pastores da Igreja deviam ser sustentados por seus rebanhos, mas não competia aos pastores determinar a quantidade ou a espécie de seus emolumentos, como quem numa partilha decide seu próprio quinhão. Portanto, seus emolumentos deviam necessariamente ser determinados pela gratidão e liberalidade de cada um dos membros de seu rebanho, ou então pela congregação inteira. Mas não podia ser pela congregação inteira, pois nessa época as decisões desta não eram leis. Portanto, o sustento dos pastores, antes de os imperadores e soberanos civis o determinarem por lei, não era mais do que a benevolência. Os que serviam no altar viviam do que lhes era oferecido. E também os pastores podem aceitar o que lhes é oferecido por seu rebanho, mas não podem exigir o que não lhes é oferecido. A que juízes podiam recorrer, se não tinham tribunais? Ou, se entre eles tinham árbitros, quem podia executar suas sentenças, visto que não tinham poder para armar seus funcionários? Resta portanto apenas a congregação inteira como podendo atribuir a quaisquer pastores da Igreja um sustento certo, e mesmo isto somente no caso de seus decretos terem a força de leis (e não apenas de cânones), leis essas que só poderiam ser feitas pelos imperadores, reis e outros soberanos civis. O direito dos dízimos da lei de Moisés não podia ser aplicado aos ministros do Evangelho desse tempo, porque Moisés e os Sumos Sacerdotes eram os soberanos civis do povo, abaixo de Deus, cujo Reino entre os judeus era presente, ao passo que o Reino de Deus pelo Cristo ainda está para vir.”


      “Portanto, todo aquele que desejar sinceramente cumprir as ordens de Deus, ou que se arrepender verdadeiramente de suas transgressões, ou que amar a Deus com todo o seu coração, e ao próximo como a si mesmo, tem toda a obediência necessária à sua entrada no reino de Deus, pois se Deus exigisse uma inocência perfeita não haveria carne que se salvasse.”


      “As leis de Deus, portanto, nada mais são do que as leis de natureza, a principal das quais é que não devemos violar a nossa fé, isto é, uma ordem para obedecer aos nossos soberanos civis, que constituímos acima de nós por um pacto mútuo. E esta lei de Deus que ordena a obediência à lei civil ordena por consequência a obediência a todos os preceitos da Bíblia, a qual (como mostrei no capítulo precedente) é a única lei naqueles lugares onde o soberano civil assim o estabeleceu, e nos outros lugares é apenas conselho, que cada um, por sua conta e risco, pode sem injustiça recusar obedecer.”


      “A parte mais escura do reino de Satanás é aquela que se encontra fora da Igreja de Deus, isto é, entre aqueles que não acreditam em Jesus Cristo, mas não podemos dizer que a Igreja goza portanto (como a terra de Goshen) de toda a luz necessária para a realização da obra que Deus nos destinou. Como explicar que na cristandade tenha sempre havido, quase desde os tempos dos apóstolos, tantas lutas para se expulsarem uns aos outros de seus lugares, quer por meio de guerra externa, quer por meio de guerra civil? Tanto estrebuchar a cada pequena aspereza da própria fortuna, e a cada pequena eminência na dos outros homens? E tanta diversidade na maneira de correr para o mesmo alvo, a felicidade, como se não fosse noite entre nós, ou pelo menos neblina? Estamos portanto ainda nas trevas.”


      “Constitui também vã e falsa filosofia dizer que o casamento repugna à castidade, ou continência, e portanto, transformá-lo em vício moral, como o fazem aqueles que alegam castidade e continência para negarem o casamento do clero. Pois confessam que se trata apenas de uma constituição da Igreja que exige daquelas ordens sagradas que continuamente servem o altar e administram a eucaristia uma contínua abstinência de mulheres sob a alegação de contínua castidade, continência e pureza. Portanto, chamam ao legítimo uso da esposa falta de castidade e de continência, e assim fazem do casamento um pecado, ou pelo menos uma coisa tão impura e suja que torna um homem impróprio para o altar. Se a lei fosse feita porque o uso de mulheres é incontinência e contrário à castidade, então todo o casamento seria vício. Se é porque se trata de uma coisa demasiado impura e suja para um homem consagrado a Deus, muito mais outras ocupações naturais, necessárias e diárias que todos os homens têm, tornariam os homens impróprios para serem padres, porque são muito mais sujas.”


      “As fadas, seja qual for a nação onde habitem, só têm um rei universal, que alguns de nossos poetas denominam rei Oberon, mas as Escrituras denominam Belzebu, príncipe dos demônios. Do mesmo modo os eclesiásticos, seja qual for o domínio em que se encontrem, só reconhecem um rei universal, o Papa.
     Os eclesiásticos são homens espirituais e padres fantasmagóricos. As fadas são espíritos e fantasmas. As fadas e os fantasmas habitam as trevas, as solidões e os túmulos. Os eclesiásticos caminham na obscuridade da doutrina, em mosteiros, igrejas e claustros.
     Os eclesiásticos têm suas igrejas catedrais, as quais, seja qual for a vila onde são erguidas, por virtude da água benta e de certos encantos denominados exorcismos, possuem o poder de transformar essas vilas em cidades, isto é, em sedes do império. Também as fadas têm seus castelos encantados e alguns fantasmas gigantescos que dominam as regiões circunvizinhas.
     As fadas não podem ser presas nem levadas a responder pelo mal que fazem. Do mesmo modo os eclesiásticos desaparecem dos tribunais da justiça civil.
     Os eclesiásticos tiram dos jovens o uso da razão por meio de certos encantos compostos de metafísica e milagres e tradições e Escrituras deturpadas, pelo que estes ficam incapazes seja para o que for, exceto para executarem aquilo que lhes for ordenado. Do mesmo modo as fadas, segundo se diz, tiram as crianças de seus berços e transformam-nas em loucos naturais, a que o vulgo chama duendes e que têm tendência para praticar o mal.
     As velhas contadeiras de histórias não especificaram em que oficina ou laboratório as fadas fabricam seus encantamentos, mas os laboratórios do clero são bem conhecidos como sendo as Universidades que receberam sua disciplina da autoridade pontifícia.
     Quando alguém desagrada às fadas, diz-se que estas enviam seus duendes para beliscá-lo. Os eclesiásticos, quando algum Estado civil lhes desagrada, também mandam seus duendes, isto é, súditos supersticiosos e encantados para beliscar em seus príncipes, pregando a sedição, ou um príncipe encantado com promessas para beliscar outro.
     As fadas não se casam, mas entre elas há incubi, que copulam com gente de carne e osso. Os padres também não se casam.
     Os eclesiásticos tiram a nata da terra por meio de donativos de homens ignorantes que têm medo deles e por meio de dízimos; o mesmo acontece na fábula das fadas, segundo a qual elas entram nas leiterias e se banqueteiam com a nata que retiram do leite.
     A história também não conta que tipo de dinheiro corre no reino das fadas. Mas os eclesiásticos, naquilo que recebem, aceitam a mesma moeda que nós, muito embora, quando têm de fazer algum pagamento, o façam com canonizações, indulgências e missas.
     A estas e outras semelhanças entre o Papado e o reino das fadas se pode acrescentar mais uma, que assim como as fadas só têm existência na fantasia de gente ignorante, que se alimenta das tradições contadas pelas velhas ou pelos antigos poetas, também o poder espiritual do Papa (fora dos limites de seu próprio domínio civil) consiste apenas no medo, em que se encontra o povo seduzido, de ser excomungado, por ouvir os falsos milagres, as falsas tradições e as falsas interpretações das Escrituras.”


     “Contudo penso que nada é devido à antiguidade em si, pois se reverenciamos a época, a presente é a mais antiga. Se se tratar da antiguidade do autor, não tenho certeza de que aqueles a quem dão tal honra fossem mais antigos quando escreveram do que eu que estou escrevendo. Mas se atentarmos bem, o louvor dos autores antigos resulta, não do respeito dos mortos, mas sim da competição e da inveja mútua dos vivos.”

sexta-feira, 13 de março de 2009

Angus: as cruzadas - Orlando Paes Filho

Editora: Planeta do Brasil
ISBN: 8576650770
Opinião: *
Páginas: 448

     “As trancas da porta da morte se abriam, estendendo seus braços famintos; suas plumas negras espigadas beiravam os leitos de morte. A ilusória luz dos murmúrios decadentes entristecia as perdidas almas que urravam sob a dor da desolação. Eram acordados de seu pesadelo com o grosso gole de suas lágrimas nas âmbulas malditas. Aquele pavilhão de homens orgulhosos deitados, imersos no pesadelo eterno dos mortos-vivos. Naquelas trevas andróginas repletas de fel, em meio às nuvens contrárias ao amor, o homem bebia seu próprio sangue inebriado, sob o aplauso insano das estrelas caídas...”.


     “Dizia adeus aos cornos de fumaça. Cumprimentei o nevoeiro enfurecido. Saudei o fogo do céu. Honrei a luz mortal da lua cheia. Supliquei aos corvos todo mau agouro. Que o nosso navio rodopiasse na esteira de sangue. Entrei em núpcias com a morte. Desejava as crias vigorosas da loucura. Justificava o turbilhão dos pesadelos vindouros. Estava presente na lapidação das injustiças. Dela éramos parceiros e cúmplices. E que nossa culpa fosse punida com severidade. Pois pesava sobre meus ombros o futuro da cristandade”.


     “Pareceu-lhe que suas mãos acostumadas a golpear os inimigos sem misericórdia encontravam a redenção naquele corpo que ele acariciava na avidez de conhecer cada parte secreta e íntima. Sentiu os lábios dela beijando suas cicatrizes, o mapa de suas dores, transformando as lembranças que o atormentavam em doces recordações. Enterrou-se no seu corpo com o ímpeto de quem batalha, cavalgando os seus gemidos, ele próprio vencedor e vencido”.

Ernesto Guevara, também conhecido como Che - Paco Ignacio Taibo II

Editora: Expressão Popular
ISBN: 9788577430741
Opinião: ****
Páginas: 728

     “Os textos em itálico pertencem a Che. São fragmentos de cartas pessoais, públicas, diários, notas manuscritas, artigos, poemas, livros, discursos, conferências, declarações públicas ou semipúblicas que constaram em atas, respostas a entrevistas, e até frases suas registradas por testemunhas confiáveis. Ele é o segundo narrador desta história – é ele que importa.


     “Tita Infante recorda que Ernesto lhe contou que “lembrava os vinte dias passados em Miami como os mais duros e amargos da sua vida. E não foi apenas pelas dificuldades econômicas que teve de suportar!”
     Finalmente, o avião é consertado e Ernesto retorna. A família estará esperando por ele no aeroporto de Ezeiza e o verá desembarcar em meio aos cavalos. De novo em casa o filho aventureiro. Esta mais magro e, sem dúvida, com um rosto mais maduro, embora jamais venha a perder o eterno ar de adolescente. Só isso? Pouco tempo depois, ao reiniciar o seu diário, escreverá: O personagem que escreveu estas notas morreu ao pisar novamente em solo argentino (...) este vagar por nossa “Maiúscula América” me fez mudar muito mais do que eu imaginava. José Aguillar o confirma, e indica um dos sentidos da mudança: “O que observei, depois de sua primeira viagem, foi que ele se interessava muito mais pela questão política”.
     Quanto mais? Que política, que projeto? O diário truncado que escreveu nestes oito meses termina com uma tomada de partido muito veemente e exagerada: Lutarei pelo povo e sei disso porque vejo impresso na noite que eu, o eclético dissecador de doutrinas e da psicanálise dos dogmas, uivando como um possesso, assaltarei as barricadas e as trincheiras, tingirei de sangue as minhas armas e, louco de fúria, degolarei quantos vencidos caírem em minhas mãos.
     Por enquanto, parecem apenas palavras.


     “Sua primeira mensagem de San José será destinada à tia Beatriz, em Buenos Aires, e com o tom de cortador de cabeças que usa às vezes para assustar seus parentes mais conservadores, conta-lhe que teve a oportunidade de passar pelos domínios da United Fruit, convencendo-me mais uma vez de como são terríveis estes polvos capitalistas. Jurei diante de uma foto do velho e pranteado camarada Stalin não descansar até ver estes polvos aniquilados...”.


     “No início de janeiro, um primeiro balanço em uma carta dirigida a sua tia Beatriz: Este é um país onde se pode dilatar os pulmões e enchê-los de democracia. A United Fruits mantém cada jornal que eu, se fosse Arbenz, fecharia em cinco minutos, porque são uma vergonha. Entretanto, dizem o que querem e contribuem para criar o ambiente que interessa aos Estados Unidos, mostrando este lugar como um covil de comunistas, ladrões, traidores etc. Não lhe direi que é um país que respira abundância ou coisa parecida, mas há possibilidade de se trabalhar honradamente e se eu conseguir vencer uma burocracia um tanto incômoda, fico um tempo por aqui.
     E para poder ficar, prossegue à procura de emprego. Um médico exilado venezuelano consegue-lhe uma entrevista com o ministro da Saúde Pública (Pedi-lhe um posto, mas exigi dele uma resposta categórica – sim ou não. O homem me recebeu com muita amabilidade, tomou nota de todos os dados e me disse que voltasse daí a dois ou três dias. Ontem terminou o prazo e o ministro não me decepcionou, porque me deu uma resposta categórica: NÃO). O ministro lhe diz que se quiser conseguir emprego como médico na Guatemala será obrigado a cursar durante um ano uma revalidação de seus estudos na universidade local.”


     “Em uma carta a sua mãe, fala com paixão das ruínas maias que visitou, mas no entanto renega a sua vocação de arqueólogo: Parece-me um pouco paradoxal ter como o norte da minha vida investigar algo que esta irremediavelmente morto. Reconhece que seu sonho prático é se dedicar a algo assim como a genética, e a única coisa que para ele esta claro é que a América será o grande palco das minhas aventuras, com um caráter muito mais importante do que havia imaginado; realmente, creio haver chegado a compreendê-la e me sinto americano com um caráter que me distingue de qualquer outro povo da terra”.


     “Em 4 de julho, Ernesto escreve a sua mãe: Velha, tudo se passou como um sonho lindo (...) a traição continua sendo patrimônio do exército (...) Arbenz não soube estar à altura das circunstâncias, e os militares se cagaram de medo. Informa-lhe, com uma certa vergonha, que não pagou suas dívidas na pensão e que, por razões de força maior, decide dá-las por canceladas e termina com uma confissão íntima, que se torna sem querer um retrato do aventureiro-observador que era: Com um pouco de vergonha, comunico-lhe que me diverti incrivelmente durante esses dias. Essa sensação mágica de invulnerabilidade (...) fazia-me vibrar de satisfação quando via as pessoas correndo como loucas quando mal chegavam os aviões, ou, à noite, durante os cortes de luz elétrica e a cidade se enchia de disparos. Diga-se de passagem que os bombardeios leves têm sua imponência.
     Em uma dessas cartas, deixa um breve retrato do novo regime: Se quiser ter uma ideia da orientação deste governo, vou lhe dar alguns dados: um dos primeiros povoados que os invasores tomaram foi uma propriedade da companhia de frutas, em que os empregados estavam de greve. Ao chegar, declararam imediatamente terminada a greve, levaram os líderes para o cemitério e os mataram lançando-lhes granadas no peito.


     Os meios-termos não podem significar outra coisa senão a antessala da traição.


     “Estes cubanos os novos personagens da vida do doutor Guevara, e serão qualquer coisa, menos culpados de inocência. Fazem parte de uma geração, e em particular de um grupo, que tem dívidas de sangue com a ditadura, um sentido trágico da vida, uma relação muito peculiar com a história.


     “Ao seu lado, escutam-se pedidos de rendição (dos guerrilheiros cubanos). Na memória do Che ficará gravada a fogo a resposta de um dos combatentes: “Aqui ninguém se rende, caralho!”, que mais tarde será atribuída a Camilo Cienfuegos.


     “Em toda minha vida eu nunca havia visto um argentino, nem no cinema, e de repente toda aquela coisa de che pra cá, che pra lá...”, lembrará anos depois Sérgio Pérez, um dos filhos de Crescencio, explicando porque Ernesto Guevara estava condenado a ser Che para os Guajiros* de Sierra Maestra.
     E Che andava por ali que dava pena vê-lo. Até que alguém lhe consegue roupa e sapatos, e até um atomizador que havia em uma lojinha serrana e, ao que parece, não consegue minorar os terríveis ataques de asma que sofre. Para o grupo mítico dos 12 começa a recuperação após as amargas jornadas que se seguiram aos incidentes em Alegría de Pío. Embora os 12 nunca tenham sido 12. Éramos aproximadamente 17 homens, contando os primeiros camponeses que se incorporaram. Dezessete no total, contando os agregados. Foi tudo o que sobrou dos expedicionários do Granma. A contagem das vítimas era dolorosa e extensa: o próprio Juan Manuel Márquez, Ñico López, Juan Smith – capitão da vanguarda, Cándido González – ajudante de Fidel e revolucionário ferrenho. A maior parte deles capturados e assassinados pelas costas, torturados e jogados em uma caverna, atirados já mortos nos arredores de um cemitério...
     E era surpreendente que o otimismo de Fidel já começasse a influenciá-los, que sua antiga magia já mostrada no México começasse a se infiltrar entre os sobreviventes daquele pequeno grupo que ainda não se conhecia bem, mas que já falava em triunfo, em atacar.
     Fidel era um personagem único. No dia 18, quando se encontrou com o primeiro grupo de sobreviventes, além dos dois que o acompanhavam, perguntou ao seu irmão, Raúl:
     – Quantos fuzis vocês têm?
     – Cinco.
     – Com dois que eu tenho, sete. Agora, sim, vamos ganhar a guerra.
     E seu otimismo era contagiante, porque já naquelas noites, naquelas longas noites (porque a nossa inatividade começava ao pôr-do-sol) sob as copas das árvores de qualquer bosque, começávamos a fazer planos e mais planos: para agora, para um pouco mais tarde, para quando triunfássemos. Eram horas felizes, quando saboreei os primeiros charutos (que aprendi a fumar para espantar alguns mosquitos demasiado agressivos) até me invadir a fragrância do tabaco cubano, enquanto as projeções para o futuro iam se sucedendo vertiginosamente.


     “Com o passar do tempo, um combate gera tantas versões quanto o número de homens que dele participa, e, apesar da precisão de suas narrações, em todas elas Ernesto Guevara tenderá minimizar seus atos de bravura. Homem que esta sempre testando seus limites, segundo Crespo parece que foi Che que, em meio à troca de tiros, arriscou sua vida lançando-se sobre o soldado ferido, fazendo-o girar e arrancando-lhe o rifle. O soldado pede-lhe que não o mate, e Che responde alguma coisa assim como agora o médico fala mais alto.
     Há lutas em outros locais. Almeida enfrenta com seu pelotão os marinheiros que estão em outra cabana. Fidel dá a ordem de avançar; tem de repeti-la duas vezes, e na segunda os rebeldes avançam sobre os soldados. Camilo Cienfuegos, protegendo-se atrás de uma árvore, disparou contra o sargento que fugia e esgotou os poucos cartuchos que ainda tinha. Os soldados, quase sem defesa, caíam sem misericórdia sob nossas balas. Camilo Cienfuegos foi quem entrou primeiro na casa onde se ouviam gritos de rendição. Os rebeldes, antes de verificarem se há feridos, antes de verificarem se ainda estão vivos ou se é só a inércia que os mantém de pé, têm uma obsessão: balas e armas. Conseguimos oito Springfield, uma metralhadora Thompson e aproximadamente mil balas; tínhamos gasto mais ou menos quinhentas (...). Além disso, conseguimos cartucheiras, combustível, facas, roupas e um pouco de comida (...). Do lado deles havia dois mortos e cinco feridos, além de três prisioneiros. Alguns tinham fugido. Do nosso lado, nem um arranhão. O golpe de Alegría de Pío fora revidado. Os homens do Granma estão começando a revolução.”


     “No dia 19 de janeiro, Ameijeiras conta que Che saiu do acampamento em uma exploração e regressou por uma clareira do bosque na frente do posto onde estava Camilo, e que usava um capacete de soldado, troféu da luta em La Plata, um capacete completo de cabo do exército batistiano, que eu usava todo orgulhoso, e Camilo atira sem mais delongas, com um rifle emprestado porque estava limpando o seu, pensando se tratar do exército. Che tem que tirar um lenço branco e gritar que não disparem. Camilo, rindo, diz:
     – Cornudo, você me fez prisioneiro, mas obriguei você a se render. Este fato demonstra o estado de tensão em que todos estávamos, esperando o combate como se fosse uma libertação. São esses momentos em que até as pessoas de maior sangue frio sentem um leve tremor nos joelhos e todo mundo deseja que chegue de uma vez esse momento culminante da guerra, que é o combate.


     Mais tarde, os que ficaram e resistiram às primeiras provas, acabariam se acostumando com a sujeira, a falta d’água, de comida, de teto, de segurança, e a viver continuamente confiando apenas no fuzil e amparados na coesão e na resistência do pequeno núcleo guerrilheiro.


     “Ao terminar a reunião e a entrevista, a guerrilha volta à sua necessária mobilidade. Quando se dispõe a partir, a notícia de que Eutimio Guerra esta na região faz com que se mobilize. Capturado por Ciro Frias, é conduzido ao acampamento e ao ser revistado encontram sua pistola, as granadas e um salvo-conduto do exército, assinado por Casillas. Ele grita: “Podem me dar um tiro, mas pelo amor de Deus não leiam isso!”. Caiu de joelhos diante de Fidel, e simplesmente pediu que o matassem. Disse que sabia que merecia a morte. Naquele momento, parecia ter envelhecido. Em suas têmporas, via-se um grande número de cabelos brancos, coisa que nunca havia notado antes. O momento foi de uma tensão extraordinária. Fidel recriminou-lhe duramente a traição, e Eutimio só queria que o matassem, admitindo a sua culpa. Para todos nós que estávamos lá, foi inesquecível o momento em que Ciro Frias, seu compadre, começou a falar com ele: quando lhe lembrou tudo que havia feito por ele; os pequenos favores que ele e seu irmão haviam feito à família de Eutimio, e como este os havia traído, primeiro denunciando e fazendo com que os guardas capturassem e assassinassem o irmão de Frias, e depois tentando exterminar todo o grupo. Foi um discurso longo e patético, que Eutimio escutou em silêncio, com a cabeça baixa. Perguntamos se ele queria alguma coisa, e ele respondeu que sim – que queria que a revolução, ou melhor, nós, cuidássemos de seus filhos.
     Fidel ordenou que Universo o fuzilasse. Este contaria mais tarde: “Eu o teria matado dez vezes. Che aproximou-se e nós dois o carregamos e o tiramos dali, para não matá-lo diante de todo mundo. Eu o levei para longe, ofereci-lhe uma garrafa de rum, que ele foi tomando pelo caminho, enquanto dizia: ‘Matem-me’.”. Nesse momento, teve início uma forte tempestade e o céu escureceu totalmente. Caiu um aguaceiro descomunal, o céu se iluminou com os relâmpagos e o barulho do trovão era ensurdecedor. Universo conta: “Eu carregava um rifle e, de repente, Che saca uma pistola 22 e dá um tiro nele aqui. Porra, Che, você o matou! Ele caiu de costas, agonizando. E os relâmpagos iluminavam tudo. Aquilo era diabólico. Foi uma coisa horrível.”


     O reforço era composto de uns 50 homens, dos quais apenas 30 estavam armados; traziam dois fuzis metralhadoras, um Madzen e um Johnson. Nos poucos meses vividos na Sierra, tínhamos nos transformado em veteranos, e víamos na nova tropa todos os defeitos que havia naquela coluna original do Granma (...). Notava-se uma diferença imensa entre os dois grupos: o nosso, disciplinado, compacto e curtido; o dos garotos, padecendo ainda da doença dos primeiros tempos; não estavam acostumados a fazer apenas uma refeição por dia e se não gostassem da ração, não comiam. Traziam mochilas carregadas de coisas inúteis, e quando lhes pesava muito, preferiam, por exemplo, entregar uma lata de leite condensado a se desfazer de uma toalha (crime de lesa guerrilha), e então aproveitávamos para pegar as latas e todos os alimentos que eles iam deixando pelo caminho.


     “Nessa época, Che anda de bom humor, porque finalmente consegue uma rede de lona. A rede é um bem precioso que não tinha conseguido antes porque a rigorosa lei da guerrilha estabelecia que só se daria rede de lona àqueles que já tivessem feito sua rede de tecido, para combater a ociosidade. Todo mundo podia fazer para si uma rede de pano, e o fato de tê-la dava o direito de receber a próxima rede de lona que chegasse. Entretanto, eu não podia usar a rede de pano devido a minha alergia; as fibras me afetavam muito e por isso era obrigado a dormir no chão. Estes pequenos atos cotidianos compõem a parte da tragédia individual de cada guerrilha. Mas Fidel percebeu e fez uma exceção à regra para me conseguir uma rede de lona.


     “No início de maio, os rebeldes fazem marchas e contramarchas em direção ao leste de Sierra Maestra para recuperar um carregamento de armas que deveria chegar de Santiago. Também continuava o contato com os camponeses. Naquela época, eu tinha que cumprir os meus deveres de médico e, em cada pequeno povoado ou lugar onde chegávamos, dava minhas consultas. Era uma coisa monótona, pois não tinha muitos medicamentos para oferecer e os casos não eram muito diferentes dos casos clínicos da serra: mulheres prematuramente envelhecidas, sem dentes, crianças com barrigas enormes, parasitismo, raquitismo, avitaminoses em geral, eram os símbolos de Sierra Maestra. Lembro-me de uma menina que estava assistindo às consultas que eu dava às mulheres da região, que iam com mentalidade quase religiosa conhecer o motivo de seus padecimentos; a menininha, quando chegou a vez da sua mãe, depois de ter presenciado atentamente várias consultas anteriores no único quarto da cabana que me servia de consultório, mexericou: “Mamãe, este médico diz a mesma coisa pra todo mundo”.
     A guerrilha e os camponeses iam se fundindo em uma coisa só, sem que ninguém pudesse dizer em que momento do longo caminho isso aconteceu, e em que momento passou a ser realmente verdade o que nós proclamávamos e que passamos a fazer parte da massa camponesa. No que me diz respeito, só sei que aquelas consultas aos guajiros da serra transformaram a decisão espontânea e um pouco poética em uma força de um valor diferente e mais sereno. Aqueles sofridos e leais habitantes de Sierra Maestra nunca imaginariam o papel que desempenharam como forjadores da nossa ideologia revolucionária.


     “Durante a ausência de Che, Fidel esteve trabalhando na Sierra, com a colaboração de duas figuras da oposição liberal: Felipe Pazos e Raúl Chibás, na formulação de um programa político que propõe uma frente cívica revolucionária, a marginalização do exército da vida pública, a negativa de que os Estados Unidos participem de qualquer forma de mediação, e, sem dúvida, a imediata libertação dos presos políticos, a liberdade de informação, a restituição dos direitos constitucionais suprimidos, eleições municipais, luta contra a corrupção administrativa, democratização sindical, luta contra o analfabetismo e uma tímida proposta de reforma agrária, utilizando como base as terras improdutivas e oferecendo indenização aos latifundiários. O documento insiste na nomeação de um presidente provisório. Fidel oferece a Chibás o cargo, mas este o recusa. O documento, com data de 12 de julho, torna-se público e abre as portas para negociações mais amplas no exterior.
     Che seria muito crítico em relação à limitação do programa, e inclusive, de uma forma paranoica, atribuiria em documentos posteriores a intenção de Pazos e de Chibás de estabelecer este compromisso anterior como antessala de uma traição política ao movimento armado. Na verdade, o documento significava um retrocesso diante das teses mais radicais enunciadas pelo 26 de julho (Não estávamos satisfeitos com o compromisso, mas ele era necessário; naquele momento era progressista), mas também sabíamos que de Sierra Maestra não era possível estabelecer a nossa vontade, e que durante um longo período de tempo precisaríamos contar com toda uma série de “amigos”.
     Qual é a vontade política, o projeto de país que se define na Sierra nesse momento? Qual é o de Fidel? Qual é o de Che? Provavelmente, nenhum. Ideias vagas sobre a necessidade de uma reforma agrária radical, desejo de mudanças sociais profundas, elementos socialistas meio formulados na cabeça de Che. Talvez a única coisa que os homens da Sierra tenham claro em sua mente seja a necessidade de se acabar com a ditadura de Batista da única forma possível – militarmente.”


     “No dia 5 de julho, Fidel escreve a Celia Sánchez: “Nossa tropa esta cada dia mais selecionada e eficiente. Depois de muito escolher, disciplinar e pôr pra fora o que não serve, estamos construindo um verdadeiro exército”. Esta valorização é, sem dúvida, o que esta por trás da decisão de formar uma nova coluna. Quem irá dirigi-la? Fidel deve ter considerado as qualidades militares de Almeida e a sobriedade de Raúl, e terminará decidindo-se em favor de Che. Por quê? Che não se destacou militarmente nestes primeiros meses da guerrilha, a não ser como um combatente que se arriscava muito; não é cubano, e até pouco tempo era o médico da guerrilha e sua patente, nessa altura, é de simples soldado. O que Fidel enxerga em Che? Seu rigor, sua obstinação, sua dedicação às causas impossíveis, sua atitude igualitária que faz dele um exemplo, ou a capacidade de comando em situações difíceis que demonstrou ao ficar isolado com os feridos? Seja o que for, Fidel, cujas intuições costumam ser muito certas em matéria de guerra, acertará novamente.”


     “Os dias seguintes passam-se em treinamentos e marchas, interrompidos pela captura de um desertor chamado Cuervo, que tinha estado extorquindo camponeses da região e participado de um estupro. Ao chegar ao acampamento, o homem tentou cumprimentar Che, estendendo-lhe a mão, mas ele lhe respondeu secamente que havia mandado chamá-lo para fuzilá-lo, não para cumprimentá-lo.”


     “O jornalista argentino Jorge Ricardo Masetti registraria alguns meses mais tarde: “Os guajiros nunca tinham ido a uma igreja, porque não havia igreja nas montanhas. Nunca haviam comido pão. Nem carne de vaca (...) Eram analfabetos, mas dotados de uma inteligência notável. As primeiras escolas só foram instaladas na serra depois da chegada do exército rebelde. De vez em quando comiam algum biscoito, mas não tinham ideia do que era pão, até que as tropas de Guevara instalaram as primeiras padarias camponesas. Viam as reses e sabiam que sua carne era deliciosa, mas só quando os membros do movimento começaram a distribuição de gado e a matança organizada das reses, vieram a experimentar os bifes. E isso por que eles – 90% deles – haviam nascido na zona mais rica da riquíssima Cuba.”


     “Em 29 de novembro, enquanto os rebeldes limitam-se a cercar e provocar a coluna de Sánchez Mosquera, Ciro Redondo morre ao tentar penetrar nas posições inimigas, e os reforços conseguem romper o cerco dos rebeldes, obrigando-os a se retirarem. A pena pela perda do nosso querido companheiro Ciro Redondo foi muito grande, e a ela uniu-se o sentimento por não havermos podido aproveitar a vitória contra Sánchez Mosquera. Dias depois, Che escreve a Fidel: Era um bom companheiro, e, principalmente, um dos seus maiores suportes no que se refere à obsessão pela luta. Acho que seria justo que recebesse o título de comandante, embora isso agora só sirva para fins históricos, que é a única coisa à qual muitos de nós podemos aspirar.


     “Passaram-se quatro meses e meio desde que foi nomeado comandante, e Che sente-se fracassado. Dirigiu algumas escaramuças de sucesso, cujos resultados iniciais não conseguiu explorar, teve que se retirar diversas vezes, teve que abrir mão de sua querida base de El Hombrito, entra em choque continuamente com a direção do movimento na planície e desconsiderou os conselhos de Fidel, arriscando-se muito, e agora esta ferido. Esta sensação explica porque fica a cargo de um destacamento e devolve a Fidel o comando direto da parte mais importante da sua coluna, dirigida por Ramiro Valdés. E talvez ainda seja muito cedo para ele poder avaliar os dois grandes sucessos que obteve nesses meses: criou uma rede camponesa muito ampla, que tem por ele verdadeira adoração e respeito, e conseguiu criar a sua volta uma aura mágica – o Che é justo, igualitário, aquele tipo de homem que não pede para ninguém fazer o que ele próprio não faça.
     Estes dois elementos valem muito mais do que parece. E Fidel, em vez de tirá-lo do comando da Coluna 4, perceberá o valor disso.”


     A intervenção de Fidel no segundo combate de Pino del Agua fez com que, dias depois, um grupo de oficiais, inclusive eu, lhe enviasse um documento (...) pedindo-lhe, em nome da Revolução, que não arriscasse sua vida inutilmente. Este documento, um tanto infantil, que fizemos impelidos pelos desejos mais altruístas, acreditamos não ter merecido nem uma leitura de sua parte. E nem é preciso dizer que não lhe deu a mínima importância. Era um pouco chocante que comandantes, capitães e chefes de pelotão, que dirigiam o combate na base do exemplo, da lei dos mau-mau, pedissem a Fidel que fizesse o contrário. Ameijeiras conta: “Dava gosto ver alguns daqueles combatentes novatos, às vezes quase adolescentes, levantar-se no meio do combate, quando todo mundo estava grudado no chão com as balas silvando nos ouvidos: Fulano, olhe pra mim. A lei dos Mau! Então, levantava-se galhardamente no meio das balas e disparava sua arma contra o inimigo. Em seguida, o aludido também o imitava (...) Para resumir, esta era a lei dos mau. Lutar de pé e avançar no meio das balas ou atirar de frente contra os aviões. Coisas de homens que hoje parecem coisas de loucos.”


     “A melhor defesa contra as bombas era um palito apertado entre os dentes. Outra defesa eram as cavernas. Mas a melhor defesa era perder o medo delas”, costumavam dizer os camponeses dessa região de Sierra Maestra, seguindo ao pé da letra os ensinamentos de Che, que, sob bombardeio tinha um comportamento insólito – às vezes ficava olhando para os aviões sem se proteger em um refúgio, como se quisesse provar algo, demonstrar algo para si mesmo.


     “Em Minas del Frío, Che admite em seu grupo outro adolescente, Jesús Parra, de 16 anos, que havia conhecido com impaludismo no posto de comando de Fidel. Parra, além de ter sido engraxate e ajudante de cozinha, também havia feito um curso de datilografia durante três meses, e escrevia 25 palavras por minuto; isso foi mais que suficiente para Che levá-lo em consideração e na coluna dizerem que ele era um “intelectual”. Para Parra, Che dará uma explicação da razão de ele se cercar de jovens: “dizia que os jovens eram mais loucos, arriscavam-se mais e não pensavam muito”. Era seu próprio retrato?
     E esses jovens loucos estudam história de Cuba, treinam com paus à guisa de fuzis e passam fome, e até chegam a organizar uma greve de fome, que Che termina com sete palavras e dez insultos, além da ameaça de fuzilá-los a todos, e como castigo deixa-os cinco dias sem comer, em “greve de fome”. Castellanos, que desta vez tinha sido apenas observador, diz: “Che percebeu que a situação era grave, mas não se podia fazer nada, porque não havia comida”.”


     “Chega o dia 9 de abril. Anos mais tarde, Ameijeiras recapitulava o caminho percorrido: “O Moncada, o 30 de novembro, o Granma, Alegría del Pío, La Plata, a entrevista de Herbert Matthews, o Corinthia, o Uvero, a morte de Frank País e a greve que ela provocou em quase todo o país, os dois combates de Pino del Agua, San Lorenzo, Mota y El Hombrito, a II Frente e a III Frente Frank Muñoz, a guerrilha do Diretório Revolucionário em Escambray, a noite das cem bombas, o sequestro de Fangio, Camilo na planície; além dos levantes no leste, Camaguey e Lãs Villas, deixaram claro a seriedade do movimento revolucionário.


     “Nos dias seguintes à greve de abril, Che, em uma de suas visitas ao posto de comando de Fidel, chega acompanhado por um guia a uma cabana onde o exército acaba de destruir um comboio de abastecimento para os rebeldes. O abandono da região, os cadáveres de homens e animais, assustam o guia, que se negou a me acompanhar, alegou desconhecimento do terreno e simplesmente subiu em seu cavalo e nos separamos de forma amigável. Eu tinha uma Beretta e, com ela engatilhada e levando o cavalo pelas rédeas, entrei nos primeiros cafezais. Ao chegar a uma casa abandonada, um barulho enorme me assustou a tal ponto que quase me fez disparar, mas era apenas um porco, também assustado pela minha presença. Lentamente, e com muito cuidado, percorri as poucas centenas de metros que me separavam da nossa posição, que encontrei totalmente abandonada (...) Toda aquela cena não tem para mim outro significado senão o da satisfação que experimentei por ter vencido o medo durante um trajeto que me pareceu eterno até chegar, finalmente – e sozinho – ao posto de comando. Esta noite, me senti valente.
     Dias mais tarde, em um choque com as tropas de Sánchez Mosquera, Che fica isolado. O inimigo lançou, de início, alguns tiros de morteiro, sem maior pontaria. Por um momento, aumentou o tiroteio a minha direita, e fui inspecionar as posições, mas no meio do caminho começou também pela esquerda. Mandei meu ajudante a algum lugar e fiquei só entre os dois extremos dos disparos. A minha esquerda, as forças de Sánchez Mosquera, depois de disparar alguns obuses de morteiro, subiram a colina em meio a uma gritaria descomunal. Nosso pessoal, com pouca experiência, não conseguiu disparar, a não ser um ou outro tiro isolado, e saiu correndo colina abaixo. Sozinho, em um curral desguarnecido, vi aparecerem diversos capacetes de soldados. Um deles começou a correr colina abaixo, perseguindo nossos combatentes, que entravam nos cafezais. Disparei contra ele com a Beretta, sem atingi-lo, e imediatamente diversos fuzis me localizaram e começaram a atirar. Empreendi uma corrida em ziguezague, levando sobre os ombros mil balas em uma enorme cartucheira de couro, e seguido pelos gritos de desprezo de alguns soldados inimigos. Ao chegar perto do abrigo das árvores, minha pistola caiu. Meu único gesto altivo dessa manhã triste foi me deter, voltar sobre os meus passos, recolher a pistola e sair correndo, cumprimentado, desta vez, pela pequena nuvem de pó que as balas dos fuzis levantavam à minha volta. Quando me considerei a salvo, sem saber dos meus companheiros nem do resultado da ofensiva, fiquei descansando, entrincheirado atrás de uma grande pedra no meio da montanha. A asma, que piedosamente me havia deixado correr alguns metros, agora se vingava de mim e meu coração pulava dentro do peito. Ouvi o ruído de galhos se quebrando pelos passos de pessoas que se aproximavam. Já não podia mais continuar fugindo (que era na verdade o que eu tinha vontade de fazer), mas desta vez era outro companheiro nosso extraviado, um recruta recém-incorporado à tropa. Sua frase de consolo foi mais ou menos a seguinte: “Não se preocupe, comandante, eu morro aqui com o senhor”. Eu não tinha vontade de morrer, e tive a tentação de xingar a mãe dele, mas acho que não o fiz. Nesse dia, me senti covarde.


     “Em 10 de agosto, no último episódio da ofensiva, discute-se em Las Mercedes a última entrega de prisioneiros. Fidel novamente mostra seu talento, fazendo com que um prisioneiro libertado seja mais útil, por ferir profundamente o moral do inimigo, do que um prisioneiro que deve ser alimentado e vigiado.


     “Um informe emitido pelo SIM em 27 de dezembro sobre o estado das tropas de batista em Santa Clara mostra, de forma bastante objetiva, as dificuldades que o coronel Casillas iria encontrar: “Em geral, as tropas daquela província estão invadidas pelo pessimismo e se queixam de nunca terem sido ouvidas em nenhuma das oportunidades em que tiveram que enfrentar os rebeldes – sempre em maior número – e solicitam reforços de homens e munição”. O informe não diz a verdade; em todos os combates, as tropas de Batista tinham enfrentado forças inimigas iguais ou inferiores em número, e não superiores; os rebeldes também eram inferiores em armamento, mas se colocavam sempre na ofensiva e as suas carências eram compensadas por seu elevado moral e uma excelente direção, tanto no plano geral quanto em relação aos destacamentos e pelotões.
     Em dez dias, as tropas de Che e do diretório arrebataram à ditadura um território de mais de 8 mil quilômetros quadrados, com uma população de quase 250 mil habitantes; tomam 12 quartéis do exército, assim como da guarda rural, da polícia e da marinha em oito povoados e pequenas cidades; forçam a retirada das guarnições de outra meia dúzia de povoados e pequenas cidades; capturam quase 800 prisioneiros e obtêm aproximadamente 600 armas longas e muita munição. Operando com grande flexibilidade e acelerando o ritmo da ofensiva – conforme vão descobrindo os pontos fracos do inimigo – os rebeldes têm um custo muito baixo em mortos e feridos (apenas 11 mortos em toda a campanha). Mas, certamente, a grande diferença é o extraordinário comando da guerra de guerrilhas desenvolvida por Che: a velocidade da ofensiva e seu ritmo desconcertante. Entre o combate de Fomento e o de Guayos e Cabaiguán transcorrem 61 horas, mas entre a conquista destas cidades e o ataque a Placetas transcorrem apenas duas horas, e entre a ocupação de Placetas e o início do ataque a Remedios e Caibarien, somente 12 horas. Ele aproveita todas as fraquezas do inimigo e a tremenda força dos invasores – aqueles jovens camponeses aparentemente incansáveis, valentes até as raias da loucura, irônicos, risonhos, fortemente motivados, solidários entre si, orgulhosos, mimados pela admiração popular e dirigidos por capitães e tenentes que também não ficavam nada a dever, e que tinham pago com seu sangue a ofensiva. Nenhum dos capitães rebeldes sai ileso, e vários tenentes rebeldes são feridos antes de serem promovidos a capitães...”


     “A organização clandestina e até a UPI – por meio de um telegrama que informa que Batista enviaria outros 2 mil homens para Santa Clara – tinha lhes proporcionado abundante informação sobre as tropas que tinham à sua frente: o trem blindado com seus 380 soldados, morteiros, um canhão, bazucas e metralhadoras; a guarnição de Leoncio Vidal, o principal quartel da província, com 1.300 homens, tanques e carros de combate; a delegacia de polícia, com 400 homens entre policiais, informantes e soldados, além de dois tanques-cometa, dois tanques de menor tamanho e uma série de pequenos destacamentos reunindo mais de 200 soldados. No total, são quase 3.200 homens de Batista, aos quais é necessário acrescentar o apoio ativo da aviação. Che esta especialmente preocupado porque tínhamos uma bazuca sem munição e teríamos de enfrentar uma dúzia de tanques, mas também sabíamos que, para fazer isso de forma efetiva, precisaríamos chegar aos bairros mais povoados da cidade, onde a eficiência dos tanques diminui muito.
     Para o ataque, Che conta com sete pelotões reunindo 214 homens, a centena de homens que forma a coluna do diretório e outros 50 recrutas de Caballete de Casa, comandados por Pablo Ribalta e que tinham acabado de receber suas armas, entre os quais há alguns ex-combatentes da II Frente que passaram para suas fileiras. São quase nove soldados para cada rebelde e as forças de Che partem para o ataque. Todos os manuais militares concordariam que a ação que o comandante Guevara esta planejando realizar é uma loucura. Pretende tomar a iniciativa e enfrentar uma guarnição superior em uma proporção de nove para um em números, e que conta com um poder de fogo infinitamente superior ao seu; renuncia a concentrar uma parte importante de seus guerrilheiros para realizar a operação, avança com tropas que quase não tinham descansado ou dormido nos últimos dez dias (alguns homens do pelotão-suicida estão há três noites sem dormir, da mesma forma que os combatentes do pelotão Alfonso Zayas) e a munição é escassa. Mas a guerra do povo não segue manuais. Che sabe que a velocidade da sua ofensiva impede que a ditadura possa enviar reforços a Santa Clara; luta contra forças desmoralizadas e conta com apoio popular. Mas, principalmente, conta com o surpreendente poder de combate de seus homens, curtidos nos combates dos últimos 11 dias, convencidos da justiça da sua causa e também da proximidade da vitória. Sabe que o exército ficaria preso na cidade que pensava defender e que pode ir isolando os redutos das forças militares para lutar contra eles separadamente. Também acredita que a batalha será longa.
     Che só erra no último ponto.


     “À frente da coluna, rumo a Santa Clara, cavalgava a fama dos rebeldes conhecidos como mau-mau. Os boatos asseguram que eram cavaleiros magnânimos que libertavam seus prisioneiros depois de lhes explicar as razões da revolução, assistiam seus próprios feridos e também os do inimigo, nunca abandonavam um companheiro em combate, advertiam previamente dos seus ataques, recusavam-se a derramar sangue inutilmente, vingavam as ofensas ao povo e nunca eram derrotados.


     “Vaquerito (comandante do pelotão-suicida) arrisca-se muito. Seus companheiros recriminam-no, mas ele responde como sempre: “Nunca ouvimos a bala que vai nos matar”. Instala-se em um terraço da rua Garófalo, a 50 metros da delegacia, com Orlando Beltrán e Leonardo Tamayo – que se recuperou de seus ferimentos no hospital de Cabaiguán e voltou à linha de combate. Orlando conta: “Tínhamos acabado de chegar quando vimos um grupo de seis guardas correndo pelo meio do parque. Atacamos, mas dois tanques que estavam por perto, na rua, começaram a disparar com as ‘30’. Tamayo continua: “Eu gritei: Vaquerito, jogue-se no chão que vão te matar! Não obedeceu. Pouco depois, da minha posição gritei: O que esta acontecendo? Por que não esta atirando? Ele não respondeu. Olhei e vi que estava coberto de sangue. Imediatamente, o levamos até o médico. O disparo foi mortal. Um tiro de M-1 na cabeça”.
     Che, que esta indo ao encontro dos atacantes pelo túnel que tinha sido feito derrubando as paredes, cruza com os homens que levam o corpo do Vaquerito. As crônicas recolhem a frase desolada do comandante diante do mais agressivo de seus capitães, o mais pitoresco e o mais temerário: Perdi cem homens. (...) Alguns soldados lutavam chorando. (...) Pouco depois, Orestes Colina encontra-se com Che, que esta acompanhando por um tenente do exército que tinha sido feito prisioneiro, e em um ataque de raiva diz: “O que devíamos fazer era matar este aqui”. Che responde suavemente: Você acha que somos iguais a eles?


     Era sempre um contraste nossa atitude para com os feridos e aquela do exército, que não apenas assassinava nossos feridos, como abandonava os seus. Esta diferença foi surtindo efeito no decorrer do tempo e constitui um dos fatores do triunfo. Lá, com muita dor da minha parte, que sentia como médico a necessidade de manter reservas para nossas tropas, Fidel ordenou que se entregassem aos prisioneiros todos os remédios disponíveis para o cuidado dos soldados feridos. E foi isso que fizemos.


     “Enquanto em Santa Clara os combatentes de Che e o diretório mantêm um controle férreo sobre as armas e a situação nas ruas, em Havana a multidão esta fazendo a justiça há tanto tempo esperada; uma espécie de vandalismo racional e seletivo que dirige as multidões que atacam as estações da Shell, que apoiava Batista e lhe proporcionava os tanques; destroem os cassinos, propriedade da máfia estadunidense e do submundo de Batista; arrebentam os parquímetros, um dos negócios escusos do sistema; assaltam as casas das personalidades do regime (na de Mujal jogam o aparelho de ar condicionado pela janela). O descontrole do aparelho repressor, que se desagrega cada vez mais a cada minuto que passa, devido à fuga em massa dos dirigentes de Batista, gera um vazio de poder que nem Cantillo nem Barquín são capazes de preencher. As forças revolucionárias recusam-se a negociar. Os estúdios de televisão são tomados por populares que denunciam os horrores da repressão levada a cabo por Batista.”


     “O combatente Mustelier pede a Che que lhe permita ir a Oriente para visitar sua família, mas o comandante da coluna responde rispidamente que não.
     – Che, mas a revolução já ganhou.
     – Não, ganhamos a guerra. A revolução começa agora.


     “Diante da campanha estadunidense, Fidel contra-ataca em um discurso proferido em 21 de janeiro na frente do palácio, comparando os crimes da ditadura com os de Nuremberg e ratificando o direito da justiça popular e dos fuzilamentos. Submete a referendo – pelo método de levantar as mãos – a justiça que esta sendo aplicada aos torturadores para saber se é considerada correta. Segundo Carlos Franqui – diretor do jornal Revolución nessa época: Um sim unânime e descomunal respondeu à pergunta de Fidel. Uma pesquisa nacional privada determina que 93% da população esta de acordo com os julgamentos e fuzilamentos” (...).
     O tema é explosivo. A pressão popular entre os setores sociais favoráveis à revolução é enorme e Fidel sente que ceder nesta primeira fase às pressões estadunidenses é renunciar à soberania. O diário dirigido por Franqui conta que os fuzilamentos eram a resposta aos “bárbaros que arrancaram olhos, castraram, queimaram a carne ou arrancaram testículos, destroçaram unhas, introduziram ferro nas vaginas das mulheres, queimaram pés, cortaram dedos, enfim, criaram em Cuba uma paisagem espantosa” e declara: “Ontem ouvimos o Che responder a um grupo de milicianos que queria dar uma lição a uns delatores que ainda estavam soltos”.
- Nem vocês nem ninguém pode atuar por conta própria. Existem tribunais revolucionários. Se algum de vocês atuar por contra própria, ordenarei que seja preso e julgado por um tribunal revolucionário.
     Sem dúvida, Che é favorável aos julgamentos sumários, mas são totalmente irreais as versões geradas entre os exilados cubanos que o transformaram em “O açougueiro de La Cabaña”, responsável pela maior parte dos fuzilamentos que tiveram lugar em Havana. Em La Cabaña funcionam os Tribunais Revolucionários 1 e 2; o primeiro julga policiais e militares e o segundo (que não aplicou a pena de morte), civis. O TRI, dirigido por Miguel Ángel Duque de Estrada, aplica a pena de morte em diversos casos; pelo menos durante o mês de janeiro há duas dúzias de sentenças de morte. Che não participa em nenhum dos tribunais, mas na sua condição de comandante da guarnição, revisa as apelações. Não deve ter tido dúvidas ao ratificar as condenações, acreditava na justiça e nos últimos anos tinha ficado muito duro e capaz de enfrentar situações deste tipo.”


     “Em 7 de fevereiro (de 1960), o Diário Oficial publica um curioso decreto mediante o qual adquirem a nacionalidade cubana “por nascimento” os comandantes rebeldes de origem estrangeira que tenham ocupado este cargo durante, pelo menos, um ano de processo revolucionário. Trata-se claramente de uma lei de exceção e que tem apenas um beneficiário – o comandante Ernesto Guevara. Homenagem e reconhecimento.
     No dia seguinte, Che estreia sua nova nacionalidade fazendo um discurso muito radical em favor da reforma agrária, no qual expressa, mais uma vez, sua identidade com os camponeses. Já sou bastante guajiro, o ar da cidade não foi feito para mim. Em El Pedrero, onde passou algum tempo em um dos acampamentos durante a campanha de Las Villas, lançará um chamado à revolta agrária radical: Hoje, estamos decididos a chegar até o latifúndio, a atacá-lo e a destruí-lo (...) O exército rebelde esta disposto a levar a reforma agrária às últimas consequências (...) A reforma agrária deve ser feita em ordem, para que não se cometam abusos (...) mas na terra que pertence ao povo, que a ocupou ou tomou pela revolução, não haverá um só comandante das nossas forças, nem um só soldado deste exército, que seja capaz de atirar contra os camponeses, que sempre foram nossos amigos... Se alguém pretende tirá-los dela, têm todo o direito de pegar uma arma e impedir que o façam. Incita à formação de associações de camponeses, constituídas de baixo para cima pelo voto popular.”


     “Uma mulher pergunta-lhe se, por acaso, as casas dos camponeses queimadas pela ditadura aparecerão nos livros de história.
     – Não, não aparecerão nos livros de história... serão reconstruídas imediatamente.


     Agora estamos em uma posição em que somos muito mais do que simples fatores de uma nação; constituímos neste momento a esperança da América ainda não redimida. Os olhos de todos os grandes opressores e também daqueles que não perderam a esperança estão voltados para nós. Da nossa atitude futura, da nossa capacidade para resolver os múltiplos problemas, depende em grande parte o desenvolvimento dos movimentos populares na América e cada passo que damos é vigiado pelos olhos onipresentes do grande credor e pelos olhos otimistas dos nossos irmãos da América.


     “O panorama industrial no começo da revolução, analisado por Che em um artigo escrito um ano e meio depois, é terrível: Um exército de desempregados composto por 600 mil pessoas (...), uma série de indústrias que fabricavam seus produtos com matérias-primas importadas, em máquinas importadas e utilizando peças de reposição importadas; uma agricultura sem nenhum desenvolvimento, estrangulada pela concorrência do mercado imperialista e pelo latifúndio, que utilizava as terras para reservas de cana-de-açúcar ou para criação de gado, preferindo importar alimentos dos Estados Unidos.


     (em 23 de outubro de 1959) “em uma concentração nacional contra as agressões aéreas diante do Palácio Nacional, o Che pergunta à multidão: este governo revolucionário e este povo cederão diante das pressões estrangeiras? Cederão? A multidão responde com os gritos de Não! Não! No discurso, há uma frase reveladora: Aqui não é a Guatemala!


     “Em 29 de outubro, é publicada em um jornal argentino uma entrevista concedida por Che, na qual ele propõe uma revisão radical das relações com os Estados unidos... Sem dúvida, a América esta precisando de alguns barbudos.
     Nessa mesma tarde, quando voava em um Cessna 310 de Camagüey em direção a Santa Clara em uma viagem de inspeção, Camilo Cienfuegos desaparece no ar. No amanhecer do dia 30, começa uma enorme operação de busca. Che sobe em um Cessna e começa a procurar Camilo; a marinha é mobilizada e os camponeses realizam uma operação pente-fino em Camagüey. O país inteiro esta tenso. Camilo é, sem dúvida, uma das figuras mais populares e queridas da revolução. Seu avião desaparece sem ter dado nenhum tipo de sinal. Na reconstrução dos fatos, descobre-se que, provavelmente, mudou de rumo para se afastar de alguma tempestade e que talvez tenha se dirigido ao mar. A procura continua, durante uma semana, animada, às vezes, por informações falsas. Depois, nada. Há alguma raiva nas palavras de Che, que acaba de perder um de seus poucos amigos: Foi morto pelo inimigo, foi morto porque o inimigo queria a sua morte. Foi morto porque não há aviões seguros, porque os pilotos não podem adquirir a experiência necessária, porque Camilo, sobrecarregado de trabalho, queria chegar em poucas horas a Havana... e também foi morto por seu próprio temperamento. Camilo não media o perigo; para ele, brincar com o perigo era um divertimento, atraía-o e utilizava-o; na sua mentalidade de guerrilheiro, uma nuvem não podia detê-lo ou desviar uma linha já traçada.
     A revolução perde assim um de seus escassos dirigentes, como antes já havia perdido Juan Manuel Márquez, José Antonio Echevarria, Frank País e Ramos Latour.”


     “Em 26 de novembro de 1959, Ernesto Che Guevara recebe sua certidão de nacionalidade cubana, direito que lhe foi outorgado pela lei de fevereiro. Nesse mesmo dia, a nação é informada de que o governo acaba de nomeá-lo presidente do Banco Nacional de Cuba. Muitos anos depois, ainda se contaria a piada (o próprio Fidel a confirma) de que em uma reunião da direção revolucionária cubana, o primeiro-ministro havia perguntado se havia algum economista presente e Che, que estava meio dormindo, entendeu “algum comunista” e levantou a mão.”


     “Aproveitando uma visita de Mikoyan ao México, a direção da revolução cubana envia Héctor Rodríguez Llompart com um convite. Foi assim que os primeiros soviéticos desembarcaram em Cuba. Em fevereiro de 1960, tem lugar a visita de Anastas Mikoyan, uma das principais figuras da burocracia soviética e membro do Politburo do Partido Comunista da URSS.
     Che esta presente quando Fidel e os outros ministros do governo o recebem e ouvem a primeira declaração de Mikoyan: “Estamos prontos para ajudar Cuba” e estará presente durante toda a visita, tanto em conversas privadas quanto em atos públicos. É, certamente, o primeiro a aplaudir quando Mikoyan entra em uma sala de concertos. E será, sem dúvida, um dos mais fortes partidários, dentro do governo cubano, da aproximação dos soviéticos. O que significa a URSS para Che? Quantos romances sobre a guerra antifascista e a revolução de outubro, a herdeira da mitologia socialista, a pátria de Lênin, o berço do humanismo marxista, a pátria do igualitarismo, a alternativa em um mundo bipolar para o tão conhecido imperialismo estadunidense. Nem os processos de Moscou, nem o autoritarismo policial, nem os “gulags”, nem a perseguição dos dissidentes, nem o antiigualitarismo burocrático, nem a economia mal-planejada, nem o marxismo de papelão e o faz-de-conta dos russos fazem parte da cultura política de Che em 1960.”


     “Em 4 de março, quando Guevara esta se dirigindo para o banco, acontece a explosão de La Coubre, um navio francês de 70 toneladas carregado de armas belgas. Che, avisado da terrível explosão, dirige-se às docas do arsenal. O desastre é terrível: 75 mortos e quase 200 feridos. Colabora nas tarefas do resgate. Todos estão em dúvida: acidente ou sabotagem?
     O fotógrafo Gilberto Ante, do Verde Olivo, encontra Che tratando dos feridos, mas esta furioso e lhe proíbe que tire fotos. Acha imoral ser objeto de curiosidade em um acidente. No dia seguinte, tem lugar o funeral das vítimas. A um quarteirão do cemitério de Colón, na rua 23, há um palanque coberto com a bandeira cubana e uma faixa de luto. É nesse palco que Fidel pronunciará pela primeira vez o grito de guerra de “Pátria ou morte”. O fotógrafo Alberto Díaz, o Korda do Revolución, esta focalizando em sua Leika dotada de uma lente de 90 mm todos os personagens do palanque e, na segunda passagem, encontra-se com Che, que avança por um dos lados, fica surpreso com o gesto do argentino e dispara a câmara duas vezes. “Quando o enquadrei, ele tinha uma expressão tão impactante que quase me causou um sobressalto. Intuitivamente, apertei o disparador”. Alberto Granado diria a Korda, pouco tempo depois, que nesse dia Che estava com cara de comer vivo qualquer ianque que encontrasse pela frente; mas não é isso que aparece na foto.
     No negativo aparece um homem não-identificado do lado direito e umas folhas de palmeira à esquerda; habilmente, Korda suprime os elementos que distraem e se concentra no rosto: uma imagem peculiar, a cara fechada, a sobrancelha esquerda levemente arqueada, a boina com a estrela, uma jaqueta fechada no pescoço, o vento despenteando o seu cabelo. Anos mais tarde, o editor italiano Feltrinelli encontrará a foto na casa de Korda e fará um pôster. Dezenas de milhares de cópias, depois milhões de exemplares, percorrem o mundo. É a imagem mais conhecida do Che, a simbólica, que inundará muros, capas de livros, revistas, mantas, cartazes e camisetas. É com ela que se confrontará a foto distribuída pelos militares bolivianos do Che morto na mesa do hospital de Malta, em um duelo simbólico, mas nem por isso menos impactante. Curiosamente, o editor fotográfico do Revolución não selecionará a foto naquela oportunidade.

     Em 20 de março, Che participa do programa de televisão Universidade Popular. Está usando um tom grave, com uma segurança muito maior e com uma atitude diferente daquela que tinha em 1959 e também com uma proposta de direção: Temos o privilégio de ser o país e o governo mais atacado, não só nestes momentos mas talvez em todos os momentos da história da América. Muito mais do que foi a Guatemala e talvez muito mais que o México (...) quando Cárdenas ordenou a expropriação. E deixa claro que uma sociedade mais justa deve redistribuir a riqueza: para conquistar algo, temos que tirá-lo de alguém e acho bom deixar as coisas claras e não se esconder por trás de conceitos que possam ser mal-interpretados.


     “E um mês depois, em um afã de produtividade, começará outra série que o obriga a escrever semanalmente artigos de reflexão militar que se intitulam “Consejos al combatiente” e que durará sete meses, com temas como “o aproveitamento das metralhadoras no combate defensivo”, a disciplina de fogo no combate”, “a defesa contra os tanques”, ou “a artilharia de bolso”.
     Parece que nestes meses de longas horas noturnas que passa sem dormir no escritório do banco, quer recuperar todo o jornalismo que quis fazer na vida e não conseguiu.
     (...) E se o jornalismo é íntimo, escrever é fundamental, e a coisa mais sagrada do mundo é o título de escritor, dirá em uma carta a Sábato.
     Por esses dias é publicado Guerra de guerrilhas, o livro em que Che trabalha desde meados de 1959 e que obviamente é dedicado a Camilo: Este trabalho pretende se colocar sob a tutela de Camilo Cienfuegos, que deveria tê-lo lido e corrigido, mas cujo destino o impediu de fazê-lo. Todas estas linhas e as que se seguem podem ser consideradas uma homenagem (...) ao revolucionário sem mácula e ao amigo do peito. O livro é um manual, um compêndio da sua aprendizagem guerrilheira durante a revolução cubana. As três ideias principais estão na primeira página do primeiro capítulo e parece que há pressa em expressá-las: As forças populares podem ganhar uma guerra contra o exército; não é necessário esperar que existam condições para a revolução, o foco insurrecional pode criá-las, e na América Latina o território da luta armada deve ser fundamentalmente o campo.


     “A espiral de confronto entre os Estados Unidos e a revolução cubana remonta aos primeiros meses da revolução e estabelece uma série de medidas e contramedidas cada vez mais agressivas de ambas as partes. Quando o governo desapropria as plantações de açúcar, os estadunidenses exigem que se cumpra uma condição impossível: que o pagamento seja feito à vista. Além disso, negam-se a aceitar como pagamento pela desapropriação o valor que os proprietários das terras lhes haviam atribuído para o Ministério da Fazenda. Sob ameaças de corte da cota açucareira e permissões do congresso estadunidense para que Eisenhower pudesse tomar tal medida, o choque foi transferido para o petróleo. Os russos haviam oferecido 300 mil toneladas de petróleo a preço referencial e créditos para equipamento industrial. As empresas estadunidenses Standard, Texaco e Shell negam-se a refiná-lo e, de passagem, também se recusam a fornecer petróleo a Cuba. Em 29 de maio, os cubanos levam navios de petróleo cru russo para a Shell e os estadunidenses abandonam as refinarias que são nacionalizadas em 10 de junho. Veio rapidamente a lei de minas, a lei do petróleo, e depois veio o bloqueio petrolífero, a desapropriação das companhias de petróleo. Uma vez nacionalizadas as refinarias de petróleo, a empresa de eletricidade nega-se a aceitar os descontos de 30% e a funcionar com petróleo soviético; o cerco continua aumentando, cortaram a cota açucareira, nacionalizamos as centrais açucareiras e nacionalizamos a companhia de eletricidade. Com a cota açucareira reduzida, em 9 de julho as empresas estadunidenses recebem ordens de fazer inventários dos seus bens e registrá-los em cartório. Foram umas mudanças com golpes muito rápidos e espetaculares. Um mês mais tarde, no dia 6 de agosto, Fidel nacionaliza 36 centrais açucareiras estadunidenses e suas plantações, e acrescenta tudo isso à lista de nacionalização das refinarias, das empresas de petróleo e das companhias de eletricidade.”


     “– Não estão trocando o domínio americano pelo soviético?
     – É ingênuo pensar que homens que fizeram uma revolução libertadora como a nossa, agora vão se ajoelhar diante de algum dominador. Se a União Soviética tivesse exigido dependência política como condição para a sua ajuda, não a teríamos aceito.
     A entrevista continua com alguns elogios e Che ri quando o chamam de cérebro da revolução e responde, sorrindo, que a tática de colocá-lo contra Fidel não funcionará; entretanto, fica indignado ao lembrar que na imprensa estadunidense foi publicado um artigo no qual difamavam sua esposa e sua ex-esposa, e aceita com gosto a denominação que você me dá de revolucionário pragmático (...) especulo pouco e não me caracterizo por ser um teórico.
     Termina a entrevista de forma cautelosa:
     E o que acontecerá agora? – pergunta Bergquist.
     – Isso depende dos Estados Unidos. Com exceção da reforma agrária, todas as outras medidas que tomamos foram reações, respostas diretas às agressões recebidas.


     “Em 13 de outubro, o governo estadunidense declara o embargo de todas as mercadorias destinadas a Cuba, um bloqueio econômico. A resposta é imediata: nos dias 13 e 14 são nacionalizados 400 bancos, engenhos de açúcar e fábricas e, imediatamente depois, é promulgada uma lei de reforma urbana que entrega as moradias aos seus habitantes ou congela os aluguéis. Como resultado dessas medidas, o Departamento de Industrialização recebe 277 novas empresas, que se somam às 390 que já vinham administrando, além de quase todas as minas da ilha.”


     A burocracia não nasce com a sociedade socialista nem é componente obrigatório dela, e atribui três causas ao fenômeno: falta de consciência, falta de organização e falta de conhecimentos técnicos.
     Não tem papas na língua para criticar a direção econômica da revolução, na qual ele esta envolvido pessoalmente, em particular com a Junta Central de Planejamento (Juceplan), por centralizar sem dirigir, e propõe uma série de soluções que nunca atingem a raiz do problema: motivação, educação, consciência, maior conhecimento técnico, organização, liberação de energias.
     Che acredita que o grande remédio para a irracionalidade burocrática, produto da centralização e da hierarquização, é a reação social e a consciência. E confirmava sua tese com o registro de um fenômeno: quando o país colocava em tensão suas forças para resistir ao ataque inimigo, a produção industrial não diminuía, o absenteísmo desaparecia, os problemas resolviam-se com uma velocidade nunca vista antes, e resumia: O impulso ideológico era conseguido com o estímulo da agressão estrangeira.


     “Às seis da manhã, do dia 15 de abril, aviões B-26 estadunidenses, pilotados por cubanos treinados pela CIA, bombardeiam as bases aéreas de Santiago, San Antonio de los Baños e Ciudad Libertad. Era o prólogo da já esperada invasão.
     (...) É reconfortante saber com total certeza que pelo menos um dos aviões inimigos foi derrubado e caiu envolto em chamas... ainda pela manhã vimos o comandante Universo Sánchez – que se encontrava ferido por um resíduo de metralha, tomando as medidas necessárias caso se repetisse o ataque... estes novos nazistas, covardes, traidores, assassinos e mentirosos...
     E termina: Não sabemos se este novo ataque será o prelúdio da tão anunciada invasão dos 5 mil vermes... Mas lutaremos sobre os cadáveres dos nossos companheiros, sobre os escombros das nossas fábricas, cada vez com maior determinação. Pátria ou morte!
     No dia seguinte, Che esta em Havana para participar do enterro dos mortos causados pelo ataque aéreo. O cortejo fúnebre avança pela rua 23, cercado de milhares de milicianos armados, enquanto as baterias antiaéreas, colocadas nos prédios mais altos, protegem a manifestação.
     Na sua intervenção, Fidel nega que o ataque tenha sido realizado por aviões cubanos, como afirma a propaganda da CIA e declara que o objetivo da operação era destruir em terra a aviação cubana, para facilitar o ataque anfíbio. E é dentro desta lógica de confronto final, de tudo ou nada, de pátria ou morte, que Fidel determina o caráter socialista da revolução cubana.”


     (Em 8 de agosto, no Uruguai) “Che participa da sessão plenária do Conselho Inter-americano Econômico e Social.
     Começa fazendo uma citação de Martí: “O povo que quer ser livre, deve ser livre nos seus negócios” e estabelece o seu direito de falar de política deixando de lado os disfarces técnicos da reunião e destacando que um dos objetivos da conferência é julgar Cuba. Existe uma longa corrente que nos traz até aqui: aviões-piratas saindo de aeroportos estadunidenses, bombardeios nos canaviais, a explosão de La Coubre, as empresas de petróleo que em 1960 se negaram a refinar o petróleo soviético, a suspensão definitiva da cota açucareira em dezembro de 1960, a tentativa de atentado contra Raúl Castro que partiu de Guantánamo. Por tudo isso que acabo de dizer, considero que a revolução cubana não pode vir a esta assembleia de ilustres técnicos para falar de assuntos técnicos.
     Define a revolução cubana como agrária, antifeudal e antiimperialista, que foi se transformando em uma revolução socialista devido a sua evolução. Fala das realizações: reforma agrária, igualdade para mulheres, não-discriminação da população negra, sucesso da campanha de alfabetização... E ataca a Aliança para o Progresso, o grande projeto de desenvolvimento criado por Kennedy para a América Latina e que, na sua opinião, trata-se de uma armação contra Cuba e o aumento da onda revolucionária. Não têm um pouco a impressão de que estão zombando da sua cara? Oferecem dólares para fazer estradas, oferecem dólares para abrir caminhos, oferecem dólares para fazer esgotos (...) Por que não dão dólares para equipamentos, dólares para maquinaria, dólares para que nossos países subdesenvolvidos possam se transformar, de uma vez por todas, em países agroindustriais? Realmente é triste. Em tom de brincadeira, estabelece a explicação para a Aliança para o Progresso: Cuba é a galinha dos ovos de ouro; enquanto existir Cuba, eles darão dinheiro.
     (...) E resume: Não temos problema nenhum em ser excluídos da divisão de créditos, mas somos contrários a ser deixados de lado na intervenção na vida cultural e espiritual dos povos americanos (...) O que nunca admitiremos é que seja coagida a nossa liberdade de comercializar e de nos relacionar com todos os povos do mundo.
     A força da mensagem é enorme. Talvez não consiga comover os representantes profissionais das ditaduras, das democracias de faz-de-conta, das oligarquias nativas, mas Che não fala para o público presente; Che quer ser ouvido pelos ausentes, por aqueles que formam a nova esquerda latino-americana que acha que a revolução cubana inaugurou uma era de profundas mudanças em um continente castigado pela desigualdade.
     Em 9 de agosto, dá em Montevidéu uma entrevista coletiva, e entre brincadeiras, sorrisos e até aplausos, depois de ter falado aos jornalistas Perguntem o que quiserem, mas depois escrevam o que eu responder, Guevara passa duas horas respondendo a um bombardeio de perguntas, respondendo – com sorte alternada – a um variado questionário que inclui temas muito diversos.
     Os presos de Girón e seu destino: Oferecemos trocá-los por Albizu Campos ou por tratores.
     A pirataria aérea: Os estadunidenses estão ficando com os aviões desviados de Cuba.
     Seus trabalhos voluntários como cortador de cana e carregador de bananas nas docas: O que estou lhe dizendo é verdade, não me olhe com esta cara de dúvida.
     As eleições: Assim que o povo pedi-las em uma assembleia popular.
     (pergunta feita por um jornalista peruano): – Nos últimos tempos, comenta-se que o racionamento de setecentos gramas por semana é um dos golpes mais baixos recebidos pelo povo cubano.
     – Eu não conheço esse racionamento. Tivemos que tomar algumas medidas em relação ao consumo de carne, que é muito maior do que o consumo per capita no Peru, para poder distribuir equitativamente a quantidade de que dispomos. Nos países como o Peru, o racionamento é feito de uma forma diferente: os que têm dinheiro compram carne e o pobre índio morre de fome. Você não acha que é assim?
     – Acho que sim, mas há uma coisa que...
     – Que ninguém escute você dizer isso!
     A nacionalização das escolas católicas. Agora são simplesmente escolas.
     Os trotskistas: Resolvemos que não era prudente que o trotskismo continuasse incitando à subversão.
     A igreja: um governo que não é religioso e que permite a liberdade de culto.
     Listen Yankee, de Wright Mills: Em nossa opinião, é um livro que contém alguns erros, mas foi feito com toda sinceridade.
     A possibilidade de novas revoluções socialistas na América Latina: Aumentarão, simplesmente porque são o produto das contradições entre um regime social que chegou ao fim da sua existência e do povo que chegou ao fim da sua paciência.
     O que ele come, bebe, se fuma e se gosta de mulheres: Se não gostasse de mulheres não seria um homem. No entanto, deixaria de ser revolucionário se deixasse de cumprir nem que fosse uma só das minhas obrigações e dos meus deveres conjugais só porque gosto das mulheres (...) Eu trabalho entre 16 e 18 horas diárias, durmo seis horas quando consigo (...) Não bebo, mas fumo. Não tenho tempo para diversões e estou convencido de que tenho uma missão no mundo, e que devido a essa missão devo sacrificar a vida doméstica (...) e todos os prazeres da vida diária.
     A sua argentinidade: Tenho o substrato cultural argentino, mas me sinto tão cubano como qualquer um nascido em Cuba.
     Somente uma vez perde as estribeiras, quando um jornalista argentino (Luis Pedro Bonavista) fala sobre sua “ex-pátria” e Che, indignado, responde: Meu senhor, eu tenho uma pátria muito maior e muito mais digna que a sua, porque a minha pátria é toda a América, mas o senhor não conhece esse tipo de pátria.


     “Em 3 de janeiro volta à sua rotina de ministro e inaugura uma fábrica de bolachas construída com restos de equipamentos descartados e materiais conseguidos em diversos lugares. Por partes e com muito esforço. E fica contente por ser uma fábrica de bens de consumo, porque não pode haver socialismo sem se dar mais produtos às pessoas.”


     “É nesta época que Che recebe uma má notícia. Seu amigo, o Patojo, foi morto em combate na Guatemala. Pouco depois chega às suas mãos, procedente do México, uma mala que contém roupa e um caderno de poemas. Che escreve: Alguns dias atrás, ao se referir aos acontecimentos da Guatemala, o telegrama dava notícia da morte de alguns patriotas e entre eles estava Julio Roberto Cáceres Valle.
     Neste trabalhoso ofício de revolucionário, em meio às lutas de classe que agitam todo o continente, a morte é um acidente frequente. Mas a morte de um amigo, companheiro de horas difíceis e dos sonhos das melhores horas, é sempre muito sofrida para quem recebe a notícia, e Julio Roberto era um grande amigo.
     Depois de chegar a Cuba moramos quase sempre na mesma casa, como correspondia a uma antiga amizade. Mas a antiga confiança mútua não podia ser mantida nesta nova vida e só suspeitei do que Patojo queria quando às vezes o via estudando com interesse alguma língua indígena da sua pátria. Um dia ele me disse que ia embora, que tinha chegado a hora e que precisava cumprir o seu dever. Patojo não tinha instrução militar; simplesmente, sentia que o dever o chamava e ia tentar lutar na sua terra com armas na mão para repetir de algum modo a nossa luta guerrilheira. Tivemos umas poucas conversas longas desta época cubana; eu me limitei a lhe recomendar encarecidamente três coisas: mobilidade constante, desconfiança constante, vigilância constante (...) Era uma síntese da nossa experiência guerrilheira: a única coisa, além de um aperto de mãos, que eu podia dar ao meu amigo. Devia ter-lhe aconselhado a não fazer isso? Com que direito, quando tínhamos tentado algo que todos consideravam impossível, e ele, naquele momento, sabia que tínhamos conseguido?
     Mais uma vez fica o gosto amargo do fracasso.
     E esse gosto permaneceria com Che – essa sensação de que a América Latina era uma tarefa que deveria ser cumprida.”


     “(em 26 de outubro de 1960) Fidel envia uma nota urgente a Kruschev: “A agressão é iminente e deve acontecer nas próximas 24-72 horas. O mais provável é que seja um ataque aéreo limitado aos alvos que se quer destruir; em segundo lugar vem a invasão. Resistiremos ao ataque, seja ele qual for”. Sugere que, no segundo caso, se houver um ataque nuclear, a resposta também seja nuclear. Nesse mesmo dia, Kennedy manda aumentar a frequência dos voos de observação.
     No dia seguinte, Fidel ordena que se dispare contra os voos piratas. Ao meio dia, um avião U-2 estadunidense que sobrevoa território cubano é derrubado por um projétil SAM, disparado por iniciativa dos comandantes russos de uma das bases.
     A tensão chega ao ponto máximo. E, então, sem advertir nem levar em consideração os cubanos, Kruschev propõe a Kennedy o desmantelamento em troca de uma proposta de não-invasão a Cuba e de uma negociação sobre a retirada dos mísseis estadunidenses da Turquia, que estão dirigidos contra a Rússia. Em princípio, Kennedy aceita a proposta e novamente os cubanos ficam no meio do jogo político da guerra fria.
     Em 28 de outubro, na redação do jornal Revolución, o diretor Carlos Franqui recebe um telegrama da AP dizendo que Nikita vai retirar os mísseis. O diretor do diário entra em contato com Fidel. Para o dirigente cubano, é a primeira notícia sobre o assunto. Fidel solta uma ladainha de insultos: “Moleque, como, filho-da-puta”. No dia seguinte, o jornal Revolución anuncia: “Os soviéticos retiram os mísseis”. O povo nas ruas canta: “Nikita, mariquita, lo que se da no se quita*”
     No dia seguinte, Fidel recebe um boletim informativo de Kruschev. O dirigente soviético esclarece que negociou com base em uma promessa de Kennedy de não intervenção em Cuba. Fidel declara publicamente que se opõe a uma inspeção de Cuba, justifica a derrubada do avião e responde a Kruschev: “O perigo não nos assusta, porque já ficou tanto tempo pairando sobre nós, que acabamos nos acostumando a ele”.
     (...) Em um artigo escrito nesses dias e que só seria publicado depois da sua morte, talvez pela denúncia da atitude dos soviéticos, “Tática e estratégia da revolução latino-americana”, Che faz um balanço muito duro da crise. É o exemplo arrepiante de um povo disposto a se imolar atomicamente para que suas cinzas sirvam de base para as novas sociedades. E quando – sem o povo ser consultado – é firmado um pacto que determina a retirada dos mísseis atômicos, não suspira de alívio nem agradece a trégua; declara com voz própria e única a sua posição de combatente, própria e única, e, mais ainda, sua decisão de lutar nem que seja sozinho.

*Nikita, seu viado, o que é dado não pode ser tirado.


     “Novamente Che se retira para cumprir suas tarefas de industrialização, constatando que a produtividade tinha aumentado durante a crise... apesar das mobilizações das milícias, dos alertas, das prioridades militares nos transportes... Só há uma forma de entender isso: a consciência dos trabalhadores nos momentos de crise eleva-se acima dos problemas; é a tensão política, o fator de consciência que faz a diferença que nenhuma norma, compulsão ou grande prêmio podem conseguir. Era a própria lição da sua vida: o grande dínamo era a consciência social, a vontade”.


     “Che continua sendo o personagem difícil e querido, que pressionava brutalmente seus colaboradores e mantinha uma eterna reserva, muito difícil de se romper. Otulski conta: “Fomos ficando mais próximos em diversos encontros, mas sem intimidade nem amizade, e nos primeiros meses tivemos alguns confrontos. Um dia, coloquei a mão sobre seu ombro em sinal de afeto e ele me disse:
- Por que essa confiança?
     Eu tirei a mão. Os dias foram passando e uma vez ele me disse:
- Sabe que você não é tão filho-da-puta como tinham me contado?
     Rimos muito e ficamos amigos”.”


     “As anedotas sobre o peculiar estilo de Che continuam se multiplicando: em 21 de janeiro, o conselho diretor do Ministério da Indústria estuda as empresas farmacêuticas. Che tinha a seu lado uma garrafa térmica cheia de café e Gravalosa lhe pede para abri-la e servir o café. Mas a garrafa permanece fechada durante toda a reunião. Ao terminar, Gravalosa reclama: “Reuniões sem café...” e Che responde: Não havia café suficiente para todos, por isso não há café para ninguém.


     “Em 23 de fevereiro, o comandante Guevara esta cortando cana na Central Orlando Nodarse, juntamente com uma brigada do ministério; o motorista fica na sombra, no caminhão, e Che, contendo a raiva, chega perto dele e diz:
     – Companheiro, onde esta o seu facão?
     – Eu não vim cortar cana, eu sou motorista.
    – Escute, motorista qualquer um pode ser. Pode procurar um facão e começar a trabalhar como todos nós ou pode ir embora neste instante. E não se preocupe com o caminhão, que eu mesmo posso dirigir na volta. Como acontece sempre com as vidas dos santos, a versão já chegou até nós suavizada; o leitor pode colocar alguns “porra” e “puta que o pariu” e terá uma versão mais próxima da realidade, segundo o depoimento de um dos colaboradores de Che ao autor.”


     “Em 20 de fevereiro, Che responde a uma carta de María Rosário Guevara de Casablanca, dizendo que não tem ideia de que lugar da Espanha procede a sua família. Mas já faz muito tempo que os meus antepassados saíram de lá, com uma mão na frente e outra atrás, e se não conservo as minhas assim é devido ao incômodo da posição. Não acredito que sejamos parentes próximos, mas se você é capaz de tremer de indignação cada vez que se comete uma injustiça no mundo, então, somos companheiros e isso é muito mais importante.


     “Nesse momento (setembro de 1963), a guerrilha de Masetti esta em uma fase prévia ao início dos combates, realizando trabalho político com os camponeses da região e em processo de treinamento. Masetti escreve à sua esposa: já percorremos mais de uma centena de quilômetros no mapa, mas na realidade são muitos mais. Nosso contato com o povo é positivo, sob todos os pontos de vista. Dos coyas* aprendemos muitas coisas e ajudamos em tudo que é possível. Mas, o mais importante, é que querem lutar... Esta é uma região em que a miséria e as doenças chegam ao seu nível máximo e até o superam. Há uma economia feudal... A pessoa que vier aqui e não se indignar, quem chegar aqui e não pensar em pegar em armas, quem puder ajudar de qualquer forma e não o fizer, é um canalha...”


     “Leonardo Tamayo: Che sempre tinha a Argentina na cabeça, embora falasse um monte de barbaridades sobre sua terra natal e seus patrícios. Che dizia: O último país a se libertar na América Latina será a Argentina. Na Argentina, apesar de haver pobres, o camponês come bons bifes e a luta só começa quando a pobreza é extrema. E para tirar de casa os argentinos, é preciso um guindaste.


     “Em 11 de dezembro (de 1964), fala na ONU. O discurso significa um verdadeiro ajuste de contas da revolução cubana com os Estados Unidos e com as ditaduras latino-americanas. Talvez seja seu melhor discurso e uma das melhores expressões da política internacional da esquerda revolucionária da década de 1960.
     Depois de declarar que os ventos da mudança avançam por toda parte, queixa-se de que o imperialismo estadunidense, principalmente, pretende fazer acreditar que a coexistência pacífica pertence exclusivamente às grandes potências da Terra. E registra: agressões contra o reino do Camboja, bombardeios no Vietnã, pressões turcas sobre o Chipre, agressões no Panamá, prisão de Albizu em Puerto Rico, manobras para adiar a independência da Guiana, apartheid na África do Sul e a intervenção neocolonial no Congo, à qual dedica boa parte do discurso e uma frase significativa (todos os homens livres do mundo devem estar dispostos a vingar os crimes cometidos no Congo), e depois de subscrever a petição de desarmamento nuclear, um dos motivos principais da conferência, passa a fazer um ajuste de contas, informando sobre as agressões recentes contra Cuba e a recente proibição estadunidense de lhe vender remédios. Propõe um plano de paz no Caribe, incluindo a desativação da base de Guantánamo, o término dos voos, dos ataques e das infiltrações de sabotadores e de lanchas piratas procedentes dos Estados Unidos, assim como o fim do bloqueio econômico. Para ilustrar a magnitude do problema, registra 1.323 provocações de todo tipo durante o ano em curso, todas originadas da base de Guantánamo.
     Resume o apoio dos Estados Unidos às ditaduras latino-americanas e sua intervenção direta na Venezuela, na Colômbia e na Guatemala na luta contra as guerrilhas. Muito longe da linguagem habitual da coexistência pacífica, esta o desafio de Che e a sua ameaça: O nosso exemplo dará frutos no continente.
     Sua intervenção, além da resposta professoral de Adlai Stevenson, provoca a fúria dos delegados de Costa Rica, Nicarágua, Panamá, Venezuela e Colômbia.
     Algumas horas depois, volta ao palco, solicitando o direito de resposta.
     Agora, Che esta no seu elemento – como polemizador – e enfrenta os delegados: o de Costa Rica, por ignorar a existência de uma base de contrarrevolucionários cubanos dirigidos por Artime, onde se faz contrabando de whisky; o da Nicarágua: não entendi bem a sua argumentação em relação ao sotaque (acho que não se referiu a Cuba, Argentina, talvez à União Soviética), mas espero que em todo caso o representante da Nicarágua não tenha encontrado sotaque estadunidense no meu discurso, porque isto sim, seria perigoso. Realmente pode ser que durante o meu discurso tenha escapado algum sotaque da Argentina. Eu nasci na Argentina; isso não é segredo para ninguém. Sou cubano e também sou argentino e, sem querer ofender às ilustríssimas senhorias da América Latina, sinto-me tão patriota da América Latina, de qualquer país latino-americano, quanto qualquer um de vocês, e no momento em que seja necessário, estou disposto a dar a vida pela libertação de qualquer um desses países, sem pedir nada a ninguém, sem exigir nada e sem explorar quem quer que seja. E este é o ânimo, não só deste representante transitório diante desta Assembleia, mas de todo o povo de Cuba.
     A seguir, chega a vez de criticar Stevenson, que já havia se retirado da Assembleia, e lhe demonstra que esta mentindo ao negar o embargo de remédios; que faz demagogia com a questão de oferecer asilo aos invasores da Baía dos Porcos (dariam asilo ao pessoal que eles mesmos tinham armados). Lembra da sua afirmação que os aviões que tinham atacado Cuba durante a batalha de Girón tinham saído de Cuba, quando na verdade tratava-se de uma operação da CIA e lhe joga na cara este argumento: aconteça o que acontecer, continuaremos sendo uma pequena dor de cabeça sempre que cheguemos até esta Assembleia ou a qualquer outra, porque estamos dispostos a chamar as coisas pelos seus devidos nomes e a dizer que os representantes dos Estados Unidos são os agentes da repressão no mundo inteiro.


     Deve ser dito com toda sinceridade que em uma verdadeira revolução, na qual se entrega tudo, sem esperar nenhuma retribuição material, a tarefa do revolucionário de vanguarda é ao mesmo tempo magnífica e angustiante (...) Nestas condições é necessário ter uma grande dose de humanidade, uma grande dose de senso de justiça e de verdade, para não cair em extremos dogmáticos, em escolasticismos frios, no isolamento das massas. É necessário lutar todos os dias para que este amor pela humanidade se transforme em fatos concretos, que sirvam de exemplo, de mobilização...


     “Dessa longa conversa, só conhecemos os breves comentários feitos por Fidel ao longo dos anos. Em um deles, afirma que “eu mesmo sugeri a Che que era necessário ganhar tempo, esperar” (para se lançar numa tarefa dessas na América Latina); mas Che queria ir embora.
     Sentia Che o peso dos anos? Teria medo de não estar em condições físicas para uma nova experiência guerrilheira? O próprio Fidel sugere isso durante sua conversa com Gianni Mina: “Acredito que influiu o fato do tempo estar passando. Ele sabia que para tudo isso era necessário ter condições físicas”; também devemos levar em consideração as palavras de Che, lembradas por Manresa, seu secretário particular: “Em 1961, quando chegamos ao escritório do Departamento de Indústria, Che encostou-se em um arquivo e disse:
     – Vamos passar cinco anos aqui e depois vamos embora. Com cincos anos mais, ainda podemos fazer uma guerrilha...
     Tinham passado apenas quatro anos.
     E Fidel não podia, nunca pôde, detê-lo, segurá-lo. Sem dúvida, Che nesse momento apela a uma antiga dívida que Fidel tinha contraído com ele, assumida nos já longínquos dias do exílio: “Quando ele se juntou a nós, no México, pediu somente uma coisa:
     – A única coisa que eu quero é que, depois de a revolução ter triunfado, se eu quiser ir lutar na Argentina, que isso não seja impedido, que não exista nenhuma razão de Estado que não me permita fazer isso.
     E eu prometi. Em primeiro lugar, ninguém sabia se iríamos ganhar a guerra nem se iríamos ficar vivos para contar a história”.”


     “Fidel e Che saem para conversar. Che entrega à Fidel os papéis que vinha escrevendo – é a sua carta de despedida.
     Fidel, nesse momento, lembro-me de muitas coisas. Lembro-me de quando conheci você na casa de María Antonia, de quando você me propôs ir junto, de toda a tensão dos preparativos. Um dia, passaram perguntando a quem deveriam avisar em caso de morte e a possibilidade real do fato foi um golpe para todos. Depois soubemos que isso era verdade, que em uma revolução ou se vence ou se morre (se ela for verdadeira). Muitos companheiros caíram no caminho para a vitória.
     Hoje tudo tem um tom menos dramático, porque estamos mais amadurecidos, mas o fato se repete. Sinto que cumpri a parte do meu dever que me ligava à Revolução Cubana neste território e quero me despedir de você, dos companheiros e do seu povo, que já é meu também.
     E continua, declarando que tem uma dívida com Fidel – o fato de ter pensado em algum momento que não poderia chegar até o fim. Vivi dias magníficos ao seu lado e senti orgulho de pertencer ao nosso povo, naqueles dias luminosos e tristes da crise do Caribe. Poucas vezes brilhou tão alto um estadista como nesses dias, e me orgulho de ter seguido você sem vacilar, de ter me identificado com a sua maneira de ver e de sentir os perigos e os princípios. Outras terras do mundo reclamam a contribuição dos meus modestos esforços. Posso fazer o que é negado a você, devido à sua responsabilidade com Cuba, e chegou a hora de nos separarmos.
     A carta não esta isenta de certo dramatismo e nela não aparece o habitual tom irônico de Che. Parece sentir que a despedida é para sempre. Deixo aqui o que há de mais puro em minhas esperanças de construtor e os mais queridos dos meus seres queridos (...) e deixo um povo que me acolheu como a um filho: isso dilacera uma parte do meu espírito.
     E o tom se repete: Declaro mais uma vez que libero Cuba de qualquer responsabilidade, salvo a que brota do seu exemplo. E que se a minha hora chegar sob outros céus, meu derradeiro pensamento será para este povo e especialmente para você.
     Há na carta um tom de testamento: Não deixo a meus filhos nem a minha mulher nada material e não o lamento; fico contente que seja assim. Não peço nada para eles, porque o Estado lhes proporcionará o suficiente para viverem e se educarem.
     São muitas as coisas que gostaria de dizer a você e ao nosso povo, mas sinto que são desnecessárias. As palavras não podem expressar o que eu quero e não vale a pena gastar papel. Até a vitória, sempre. Pátria ou morte!
     Recebe o meu abraço com todo fervor revolucionário. Che.


     (Luta no Congo) “Não, tudo havia ido muito mal. Às cinco horas da madrugada, os cubanos tinham aberto fogo com um pequeno canhão e com metralhadora, surpreendendo os defensores do quartel; entretanto, logo depois, começam as deserções dos ruandeses, assustados com os morteiros e metralhadoras dos mercenários. Desesperado, Dreke resume: “Naquele momento só os cubanos continuaram atirando. Não tínhamos muitos projéteis. Os ruandeses, que não sabiam atirar rajadas curtas, metiam o dedo e gastavam os 30 tiros de uma vez só. Estávamos combatendo contra um batalhão de 500, 600 homens. Não se tratava de tomar o quartel, mas de provocá-los para que caíssem nas emboscadas. Com o tempo, percebemos que havia muitos covardes. Diziam que a Dawa* era muito fraca. Todo mundo sente medo na guerra, mas temos de superá-lo para viver. O barulho de um calibre 50 ou 30 em uma selva escura, com neblina, animais apavorados em fuga, é impressionante. Não era muito fácil para ninguém, nem para os nossos, que se comportaram muito dignamente, que aguentaram. Dois ou três ruandeses aguentaram conosco. Depois de um ato de covardia, pode nascer um herói. Sabemos disso. Mas nossa gente não entendeu; esperávamos muito mais deles”. Essa foi a tônica da operação: começamos com brio, mas antes do início do combate, já tínhamos perdido homens em muitas posições e depois houve uma debandada completa.

 * Suposta magia que protegeria os combatentes de tiros.


     “A presença do inimigo, que até então tinha estado muito passivo, começa a se fazer sentir. Aumentam os bombardeios, as aldeias camponesas são metralhadas. Lançam-se panfletos nos quais o governo de Mobutu oferece recompensas aos camponeses pelos assessores cubanos e tratamento justo para aqueles que abandonarem as armas. Jogavam os panfletos depois de bombardear e semear o terror. Parece que este é um método-padrão dos exércitos repressivos. Esta presença aérea corresponde à chegada de 200 milhões de dólares de financiamento estadunidense ao governo e à chegada de assessores da CIA; entre eles havia estadunidenses, cubanos veteranos da Baía dos Porcos, soldados da Rodésia e da África do Sul, uma operação descrita por um dos membros da CIA como “levamos nossos próprios animais”.


     “De onde Che tira energia para este retorno depois da terrível experiência congolesa? Após sua morte, o jornalista americano I.F. Stone reflete: “Com a assunção do poder temporal, tanto a revolução quanto a igreja entram em um estado de pecado. Podemos imaginar facilmente como esta lenta erosão da virtude original deve ter incomodado Che. Não era cubano e não podia se sentir satisfeito se libertasse apenas um país latino-americano. Pensava em termos continentais. Em certo sentido, estava como os santos primitivos, procurando refúgio no deserto. Só lá a pureza da fé poderia ser salvaguarda do irregenerável revisionismo da natureza humana”. Mas há algo mais que Stone não percebeu. A América Latina não era apenas um território salgariano*, onde podia ser praticada a estocada secreta que despacharia os miseráveis de maneira honrosa, ou a zona de sonhos juvenis associada à vingança vemiana** do capitão Nemo, utilizando imagens literárias da infância guevarista. A América Latina também era um continente absolutamente real. E suas imagens, as misérias profundas dos bairros de Caracas, o horror da desigualdade social peruana, a demagogia boliviana, a prepotência dos militares colombianos, o abuso imperial mafioso na América Central, os ditadores de faz-de-conta que ordenavam torturas, a desnutrição, a fome, a ignorância, o medo, eram imagens reais que Che havia gravado em sua retina durante as viagens da juventude. Daí a tenacidade de Che, a clara consciência de que a necessidade da revolução latino-americana – não só sua necessidade moral –, era inadiável. E se isto fosse pouco, em 1966 esta revolução parecia possível, não só no sentido de algo realizável, atingível, mas no mais terrível e urgente sentido de próxima.

* Relativo à Emólio Salgari (1863-1911).
** Relativo à Jules Verne (1828-1905), escritor francês.


     (Durante a guerrilha na Bolívia) Estava esquecendo de ressaltar um fato: hoje, depois de um pouco mais de seis meses, tomei um banho. Constitui um recorde que vários já estão alcançando.


     “Simón Cuba (do qual uma semana antes Che dissera que talvez aproveite alguma confusão para tentar escapulir sozinho), estava chegando ao ponto mais alto da subida de uns 60 metros de uma escarpa muito íngreme, suportando praticamente todo o peso do comandante Guevara que, ferido na perna direita e com um terrível ataque de asma, mal podia se mexer. Che ainda segurava sua carabina M-2 inutilizada no último confronto (um tiro que ia em sua direção acertou a arma).
     O cabo Balboa e os soldados Encinas e Choque deixam-nos avançar e depois Balboa grita-lhes que se rendam. Simón não tem tempo de levantar seu fuzil porque os três soldados estavam mirando para ele. Então, dizem que gritou: “Este é o comandante Guevara e vocês vão respeitá-lo, caralho!”
     Os soldados, desconcertados, se encolhem; conta-se inclusive que um deles disse: “Sente-se, senhor”. Depois, recuperados do espanto, tiram as armas dos prisioneiros: o fuzil de Simón, o M-2 quebrado de Che, sua pistola e um punhal Solingen.


     “Mais ou menos nesse mesmo momento, um dos três grupos de guerrilheiros que estavam combatendo na parte alta da quebrada (Inti Peredo, Harry Villegas, Alarcón, Ñato Méndez, Leonardo Tamayo, Adriazola) consegue chegar ao ponto de encontro previamente combinado com Che, depois de evitar astutamente mais soldados bolivianos. No caminho, encontram farinha jogada no chão; os combatentes se preocupam, Che nunca teria permitido isto. Mais tarde, aparece o prato de Che pisoteado. Inti Peredo narra: “Eu o reconheci, porque era uma vasilha funda, de alumínio. Não encontramos ninguém no lugar da reunião, embora tenhamos reconhecido rastros e as abarcas do Che, que deixavam uma marca diferente dos outros calçados e por isso mesmo, eram facilmente identificáveis. Mas este rastro perdia-se mais para a frente”. Alarcón completa: “Vimos o Che sair e escapar do cerco e por isso acreditamos que ele já estivesse fora de perigo. Deviam ser três da tarde quando vimos o Che iniciar a retirada; então dissemos: já esta fora de perigo. Mas é que não vimos que ele tinha voltado para socorrer Simón e o Chino (...). O combate terminaria por volta das cinco da tarde.


     “Depois da uma da tarde, Terán, de baixa estatura – não devia medir mais de 1,60m, atarracado, 65 quilos –, entrou no quartinho da escola onde o Che estava. Trazia nas mãos um M-2 que pedira emprestado ao suboficial Pérez. No quarto ao lado, Huanca acabava com Chino e Simón.
     Che estava sentado em um banco, com os pulsos amarrados, encostado na parede. Terán vacila, diz alguma coisa, Che responde:
     – Nem se incomode. Você veio me matar.
     Terán faz um movimento como se fosse ir embora e dispara a primeira rajada, respondendo à frase, que quase 30 anos depois, dizem que Che proferiu: - Atire, covarde, que vai matar um homem!
     “Quando entrei na sala, o Che estava sentado num banco. Quando me viu, disse: Você veio me matar. Eu não tinha coragem de disparar, e então o homem me disse: Fique calmo, você vai matar um homem. Então, dei um passo para trás, rumo à soleira da porta, fechei os olhos e disparei a primeira rajada. Che caiu no chão com as pernas destroçadas, contorceu-se e começou a perder muito sangue. Recuperei o ânimo e disparei a segunda rajada, que o atingiu no braço, em um ombro e no coração”.
     Pouco depois, o suboficial Carlos Pérez entra no quarto e dispara contra o corpo. Não será o único: o soldado Cabero, para vingar a morte de seu amigo Manuel Morales, também dispara contra Che.
     As diferentes testemunhas parecem concordar sobre a hora da morte de Ernesto Che Guevara: uma e dez da tarde do domingo, 9 de outubro de 1967.


     “A morte de Ernesto Guevara provocou estupor, desconcerto, assombro, perturbação, raiva, impotência, em milhares de homens e mulheres. Em apenas 11 anos de vida política e sem querer, Che tornou-se material simbólico da tantas vezes adiada e traída revolução latino-americana. Nossa única certeza, naqueles anos, era que o material dos sonhos não morre nunca.


     “Há uma lembrança. Desde milhares de fotos, pôsteres, camisetas, fitas, discos, vídeos, postais, retratos, livros, frases, testemunhos, todos os fantasmas da sociedade industrial que não sabe depositar seus mitos na sobriedade da memória, Che nos vigia. Para além de toda parafernália, ele retorna. Em era de naufrágios, é nosso santo leigo. Décadas depois de sua morte, sua imagem cruza as gerações, seu mito passa deslizando em meio aos delírios de grandeza do neoliberalismo. Irreverente, irônico, obstinado, moralmente obstinado. Inesquecível.